Domingo à tarde é uma nova rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

 

«Quando fui lá acima era para marcar, ou pelo menos atrapalhar. Nunca pensei nisto…»

Aos 33 anos e com uma carreira vasta, Filipe Leão nunca imaginara que tal coisa acontecesse.

Na jornada passada do Campeonato de Portugal, o Sintrense perdia em casa com o Casa Pia em tempo de descontos quando aconteceu aquele lance de bola parada.

Perante o desespero da ocasião, o guarda-redes soube manter a racionalidade que porventura muitos dos seus colegas não conseguiram ter.

E depois caiu.

Penalti, golo, e um novo herói.

Quando a bola veio para mim já tinha o defesa em cima e só tive tempo de me virar e puxar a bola para o outro pé. Ele pisou-me o pé e caí. Agora até tenho a bota rasgada, nem tenho para o próximo jogo (risos)»

A conversa com o Maisfutebol começou com um lamento entre risos. A bota foi à vida mas desbravou caminho para um empate que parecia impossível de alcançar.

O Sintrense tinha sido tema recente da nossa rubrica e pode parecer até insistência, mas este acaso do destino entrou de rompante sem bater à porta.

Só faltou o momento Ricardo, mas isso «já era muita fruta», conforme contou o jogador.

«Ainda pensei pegar na bola mas desisti logo. Já tinha sido uma coisa única na minha carreira, deixei-me estar (risos)», referiu.

Uma lesão obrigara-o a «ir à faca» pela primeira vez e o jogo com o Casa Pia marcou o regresso à competição três meses depois. Ele que sempre teve uma apetência especial para defender grandes penalidades, desta vez foi decisivo de outra forma.

«Tenho defendido vários penaltis na minha carreira. Na época passada (pelo Mafra) defendi cinco em oito, inclusive dois na mesma parte, do mesmo jogador. Sofrer penalti nunca me passou pela cabeça», confessou.

Mais uma para o baú das memórias. E são tantas.

De avançado relâmpago no Benfica a discípulo do «mestre» Jesus na Reboleira

Por incrível que pareça, a aventura de Filipe no futebol começou numa posição totalmente oposta aquela que desempenha agora.

Aos nove anos, o menino com apelido Leão tentou a sorte como avançado no Benfica.

Durou pouco.

Benfica foi o primeiro clube do jogador, entre 1994 e 1998 (foto: arquivo pessoal)

Numa das partidas da formação alinhou uma das partes como dianteiro, outra como guarda-redes.

Nem o próprio sabe o motivo de tal decisão, certo é que a coisa pegou. Logo no primeiro ano de redes foi campeão nacional da categoria e por lá permaneceu mais uns anos.

Como sénior deu os primeiros passos num outro outro clube, o Estrela da Amadora, onde foi treinado por Jorge Jesus, o «mestre da tática» como se recorda.

Trabalhava muito físico mas a tática estava sempre presente. Lembro-me de haver uma hora só de bolas paradas no final dos treinos, dois dias seguidos, e aí dizia-me o que queria do guarda-redes. Não é de dar confiança aos jogadores, mas gosta de dizer uma piadinha às vezes, e vivia aquilo muito intensamente porque era o clube da terra dele»

No balneário estrelas de outros tempos, como Paulo Madeira ou Sabry, o egípcio ex-Benfica que chegava ao Estádio José Gomes acompanhado por «seguranças», um par de moços, provavelmente amigos, que faziam questão de andar com o jogador para todo o lado.

«Epá e o Jorge Cadete!», interrompeu, «chamava-me sempre no final dos treinos contra a minha vontade. Punha-se a treinar cantos e ele em dez marcava oito se for preciso, de cabeça. “Não queres o quê…és novo, tens de aprender”, dizia-me ele. Mas eu não defendia nada (risos)», recordou.

Foi discípulo de Jesus no extinto Estrela da Amadora, onde esteve entre 1999 e 2003 (foto: arquivo pessoal)

«Se ele me quiser, acabo a minha carreira já hoje»

O adeus ao agora extinto clube da Reboleira aconteceu em 2003, seguindo-se experiências em vários clubes de escalões inferiores até desembarcar no Estoril, cinco anos depois.

A equipa da Linha militava na segunda divisão quando um forte investimento trouxe vários jovens para o plantel. Um dos quais de qualidades inegáveis.

«Vieram muitos e o Jardel era um deles. Via-se que ia chegar longe, tinha muitas qualidades. Destacava-se pelo físico mas também pela humildade. Transmitia muita confiança ao guarda-redes já naquela altura, porque era bom no jogo aéreo. Agora ainda está melhor claro», disse.

Filipe assistiu aos primeiros passos do agora central do Benfica no futebol português. Um plantel com muitas caras novas e capitaneado por um veterano que liderava dentro e fora de campo.

O Marco Silva gostava de dar discursos e tinha muito jeito para isso. Como jogador tinha muita capacidade de liderança e era correto em termos táticos. Sempre lhe disse várias vezes, e isto é mesmo verdade, “epá tu um dia vais ser treinador de top mundial”. Ele ria-se mas pronto, afinal eu tinha razão»

Depois do episódio «estranho» no Sporting e da passagem gloriosa pelo futebol grego, o «amigo» Marcou partiu para uma aventura «difícil» em Inglaterra, mas poderá ter um ajudante de pronto se assim o pretender.

«O futuro nunca se sabe, mas gostava de ser treinador de guarda-redes. Se o Marco Silva me quiser agora no Hull City termino a carreira já hoje e vou. Fica a dica (risos)», atirou.

Filipe ao lado de Marco Silva e Jardel (4º da esquerda) na equipa do Estoril em 2009/10 (foto: arquivo pessoal)

Um penalti que manteve o sonho da subida

A passagem no Estoril foi curta e voltou a saltitar entre clubes na capital ou arredores. No Mafra viveu «o momento mais feliz da carreira», a subida à II Liga em 2015, com Jorge Simão e depois com o «Mourinho dos pobres» António Pereira.

«O Jorge Simão é o rei da tática também, um grande treinador que olha muito para o grupo. Todos têm de fazer a mesma coisa. Acho que é assim que deve ser um líder e acredito que vai chegar ainda mais longe, só precisa de tempo para trabalhar», explicou.

Depois de vários anos na estrada, Filipe regressou a casa. O presente passa pelo Sintrense, atual 3º classificado da Série G, a sete pontos do líder Real, mas a dois apenas do Sacavenense.

O objetivo próximo passa pelo apuramento para a fase de subida e o guarda-redes pode muito bem ter agarrado o lugar, visto que o habitual titular está prestes a deixar o clube.

O Sintrense é um clube do qual gosto muito e tem um projeto interessante. Temos um grupo fantástico e o ‘mister’ Luís Loureiro faz tudo por nós. Este lance do penalti colocou-nos na luta pela subida e acredito que temos tudo para o conseguir».

Michel Preud’homme é a referência de sempre, até porque lhe invejava o facto de ser o dono das redes do Benfica quando passou pela Luz. Nesta altura, em que os anos já vão pesando um pouco, gaba a capacidade de Buffon conseguir envelhecer com qualidade no futebol.

Com apenas dois jogos realizados esta época pelo Sintrense, Filipe Leão espera ser capaz de contribuir para o sucesso do clube, nem que seja à base deste tipo de situações.

Botas para o próximo jogo é que está difícil, mas pronto, valeu a pena certamente.

 

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