Domingo à tarde é uma nova rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

 

«Olá Lucas…»

«…oi, mas não é Lucas não, é Klysman. Não sei por que insistem em pensar que me chamo Lucas. É Klysman Lucas!»

Do outro lado da linha uma importante correção prévia, num português que veio do Brasil mas já não com o mesmo samba.

Klysman Lucas, avançado do Lusitano de Vildemoinhos, foi figura na jornada passada do Campeonato de Portugal, depois de marcar o golo que deu o triunfo à sua equipa no último lance da partida, aos 90+3'.

O conjunto de Viseu é 5.º classificado na zona de subida norte e o tento do brasileiro permitiu manter os quatro pontos de distância para a líder UD Oliveirense.

O feito merecia ser destacado pela importância que teve mas também pela alegria que trouxe às gentes daquela terra. Mas não era suficiente.

Aquele nome…

Felizmente o próprio fez questão de quebrar o gelo logo no início da conversa, não fosse a dúvida permanecer no ar.

Eu nasci em 1990 e a Alemanha foi campeã do mundo nesse ano. O meu pai gostava dessa equipa e do Klinsmann e colocou-me esse nome, mas depois escreveu como gostava»

A conversa com o Maisfutebol decorreu por volta da hora de almoço, a pedido do próprio, por motivos profissionais. Para trás ficara já uma manhã de trabalho como repositor em part-time numa superfície comercial.

Klysman, agora com 26 anos, nem é propriamente desconhecido do futebol nacional, mas depois de tantos anos vive numa realidade bem distinta.

Em 2008 lutava por agarrar um lugar na equipa principal do Vitória de Guimarães, isto depois de ter cumprido quase toda a formação no emblema vimaranense, onde chegou em 2001.

Nas ruas de Niterói (Rio de Janeiro) apanhou o gosto pela bola e a vinda dos pais para Portugal abriu-lhe as portas para um futebol mais a sério, por assim dizer.

«Cheguei com oito anos mas a adaptação até foi fácil. O mais difícil foi mesmo o frio. Quando cheguei não havia muitos brasileiros lá então era a novidade entre o pessoal: “ah fala lá brasileiro”, como se brasileiro fosse uma língua (risos). Também jogava bem futebol e fui-me incluindo», recordou.

Aos 14 anos deixou a companhia dos pais em Moreira de Cónegos e mudou-se para a Pousada da Juventude de Guimarães, local onde o clube albergava os atletas mais jovens: «Ainda no outro dia estive a falar com o Targino, que agora está aqui perto, na Sampedrense. Quando se está num local sem a família agarramo-nos muito aos colegas e várias relações mantêm-se ainda hoje.»

Depois de sete anos sensivelmente conseguiu uma primeira oportunidade. A lesão de Douglas levou o então treinador Manuel Cajuda a apostar no menino da formação.

Klysman Lucas com a camisola do V. Guimarães frente ao extinto E. Amadora (Foto: arquivo pessoal)

Mas foi sol de pouca dura.

Alguns minutos somados em três jogos pela equipa principal antecederam um volte-face inesperado. Klysman foi cedido ao Serzedelo, da terceira divisão, numa altura em que o contrato estava prestes a terminar.

Seguiu-se a Naval, experiência que durou apenas meio ano devido a «questões salariais». O menino que uma década antes tinha desembarcado em solo luso encontrou na Foz o passaporte para um lado menos bom do futebol.

Daqui para ali: a vida de um «cigano» do futebol

Desde que deixou a cidade-berço, Klysman não voltaria a encontrar tão cedo quem o carregasse nos braços.

Onze clubes no mesmo número de anos praticamente: Serzedelo, Naval, Juventude de Évora, Mondinense, Oliveira do Hospital, Vilaverdense, Vianense, Oliveira de Frades, Lusitano VRSA, Dardania (Suíça) e finalmente Lusitano FCV.

Uma viagem sem poiso fixo mas que, segundo o avançado, tem uma explicação.

Estive para deixar de jogar futebol, sinceramente. Fiquei com salários em atraso em vários dos clubes por onde passei. Tentei a Suíça, mas os vistos nunca chegaram e tive de voltar. Já tenho cara de cigano embora seja brasileiro (risos), mas de facto percorri o país inteiro. Nunca tive medo de arriscar, quando não me sentia realizado saia, daí estes clubes todos»

No Lusitano Futebol Clube de Vildemoinhos tenta reavivar a carreira (Foto: Facebook do clube)

Aos 26 anos decidiu colocar um ponto final em tanta mudança e assentou em Viseu.

«Agora estou aqui e quero ficar se não houver algo melhor. Se tivesse ficado em Guimarães estava lá ainda hoje, mas Viseu é uma cidade parecida. Estou a tentar uma última vez jogar no Campeonato de Portugal, porque não é fácil, não há condições para ser profissional», referiu.

No Lusitano os treinos são diários mas só ao final do dia, o que permite a Klysman organizar a vida em termos financeiros e continuar a fazer o que gosta.

Depois veio o tal golo, frente ao Marítimo B, o primeiro ao cabo de oito jogos e que levou o Estádio dos Trambelos à loucura.

O jogo estava disputado e é desses que eu gosto. Nesse lance pressenti que a bola ia cair mais atrás, então fiquei lá. Foi um lance muito confuso mas a bola veio parar-me aos pés. Marquei golo e fui ter com a “galera”, quase saltei para o outro lado da rede. Foi um show off do caraças (risos) mas sei que ajudei muito a equipa»

Apesar de não ser titular na equipa de Rogério Sousa, o avançado promete «trabalhar para merecer a aposta do mister e ajudar na luta pela subida», garantindo também que ainda sonha alto.

«Se o Desmarets era camionista e virou profissional…»

A vida levou-o a muitos lados, mas Klysman confessa que um dia gostava de poder voltar a casa.

«Gostava de um dia voltar ao Vitória. Soube-me a pouco. Na altura estavam mais intranquilos do que agora, em que talvez tivesse mais oportunidades, porque havia mais hipóteses para apostar num jovem. Se não der queria ser pelo menos profissional outra vez. Se sentisse que não conseguia já tinha desistido. E se o Desmarets era camionista em França e tornou-se profissional no Vitória já com 29 anos, porque não haveria eu de acreditar?»

Na memória ainda estão bem presentes os momentos que passou com a camisola dos vimaranenses.

«Só consegui ver uns minutos do Reportv sobre o Vitória. Aquela parte em que o adepto fala da mulher fugir com um brasileiro marcou-me muito (risos). Ouvimos aquilo e parece que está a brincar, mas não, eles vivem mesmo aquilo. Estive lá até quando o Vitória andou pela II Liga (como júnior) e digo, aquilo entrava no sangue», garantiu.

Hoje confessa-se também ele um vitoriano. No Brasil o Botafogo, em Portugal o Vitória. Tudo preto no branco, portanto.

«Nunca gostei muito do vermelho. Aliás, se um dia o Sp. Braga me quisesse não convinha dizer que era de Guimarães, porque aí deixavam de me querer na hora e ainda “tomava” na cara (risos)», brincou, em alusão à grande rivalidade entre os dois emblemas minhotos.

Uma derradeira oportunidade, é por isso que aguarda este Klysman de nome, mas que da glória germânica só herdou de facto a génese do nome e, curiosamente, a posição que ocupa em campo.

«Nunca tive curiosidade de ver vídeos do Klinsmann por acaso. Quanto ao nome, quem entende de futebol mete-se comigo, sim, mas a culpa foi do meu pai e até nem acho feio», reforçou.

Um nome made in Alemanha, como tantos que já passaram pelo futebol português, até mesmo inspirados noutros craques.

O verdadeiro pode até ser eterno, mas este Klysman também quer ter marca registada.

 

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