Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

 

«Tinha eu quatro anos e a minha mãe já dizia que ia ser jogador de futebol. Bem, se calhar era porque lhe partia os pratos todos em casa com a bola, gritava golo e começava a correr»

Parecia que já estava destinado.

Fábian Cuero era ainda um chico nas ruas de Pradera, Valle del Cauca, quando descobriu o gosto para o futebol, para mal dos pecados da mãe, que via o serviço de cozinha ter constantemente um destino trágico.

Aquela zona da Colômbia é conhecida até como «Capital do Doce», face às plantações de cana-de-açúcar, mas também pela «amabilidade» dos habitantes. Porém, o pequeno Fabián gostava de fazer umas traquinices de vez em quando.

Essas lembranças ainda lhe arrancam gargalhadas hoje em dia, mas garante que está bem mais calmo e amável, como as gentes da sua terra-natal.

Aos 23 anos, Fábian Cuero anda à procura também do seu lugar na Europa. Depois de uma passagem pouco conseguida na equipa B do Sp. Braga, o avançado aceitou o convite da UD Oliveirense e, até ver, as coisas vão correndo de feição.

Na última jornada da fase de subida do Campeonato de Portugal (Zona Norte) o colombiano foi decisivo ao marcar o golo da vitória, após uma «remontada» em casa frente ao Merelinense, equipa com a qual partilhava a liderança da prova.

Escusado será dizer, portanto, que o tento do avançado valeu o primeiro lugar isolado a três jornadas do final da fase.

Foi um momento em que só pensei uma vez: “tiro o adversário da frente e chuto. Se sair como eu quero é bom, se não paciência”. A verdade é que foi um golo muito importante para todos nós, mas mantemos a cabeça fria»

Em conversa com o Maisfutebol, Fabián Cuero falou desse golo que reacendeu o sonho da II Liga nas gentes de Oliveira de Azeméis, mas recusou entrar em euforias.

É pensar passo a passo, como sempre fez desde pequeno.

O rei das «cuecas» que quer vingar na Europa

Fabián foi crescendo juntamente com o futebol colombiano e acompanhou a ascensão de alguns dos maiores craques que o país já viu.

No Independiente de Santa Fé o talento para golo não passou despercebido e valeu-lhe a chamada às seleções jovens dos cafeteros, onde se apresentou a grande nível, sagrando-se melhor marcador em dois Sudamericanos.

Aos 16 anos partiu para a Argentina. Já ao serviço do Banfield passou por diversos empréstimos e viveu um período atribulado.

Foi complicado. Senti falta dos meus amigos e das futeboladas na rua. Tinha um campo muito pequeno ao lado da minha casa, mas chegava para fazermos as nossas brincadeiras. Quem fizesse mais “cuecas” era o melhor e sempre fui muito competitivo. Se algum amigo me ganhasse ficava lá até às tantas, mas tinha de ganhar. Até ia a casa deles pedir às mães que os deixassem jogar mais tempo (risos)»

Essas ganas dos tempos de criança ainda pautam muito da sua personalidade hoje em dia.

«Estou no futebol para dar o máximo e não me dou por vencido», vincou, lembrando que as dificuldades sentidas no Sp. Braga não o demoveram de continuar a tentar.

«O Sp. Braga abriu-me as portas mas estive muito tempo sem jogar por causa de uns papéis. Comecei apenas numa altura em que outros já se tinham afirmado com golos. Mas aprendi muito e conheci pessoas boas que me ajudaram na adaptação ao futebol português, motivo pelo qual depois optei por regressar a Portugal, mesmo tendo convites da Colômbia», explicou.

Foi quando estava de férias no país de origem que surgiu o convite da UD Oliveirense.

Ao início pensei que fosse um passo atrás, vir para a terceira divisão, mas hoje sinto que foi a decisão mais acertada que tomei. Às vezes tens de dar dois passos atrás para dar um à frente. O clube é humilde, tem pessoas muito boas e sinto-me agradecido por poder mostrar a minha qualidade aqui. Desde o início que todos me receberam muito bem e os golos vão surgindo também por causa disso»

Para já diz estar «feliz» e «focado» na subida de divisão, objetivo traçado pelo clube, mas gosta de sonhar com outros voos nas horas vagas.

«Nós colombianos somos muito ambiciosos, mas trabalhadores. Estes jogadores que têm vingado provam isso. Eu não fujo à regra», vincou.

«Gostava que me acontecesse o mesmo que ao Soares»

O tento anotado ao Merelinense soma-se aos outros nove já apontados com a camisola da UD Oliveirense nos 23 jogos realizados na época de estreia.

Alto mas delgado, o avançado disse que encontra semelhanças no seu estilo de jogo com o de Tiquinho Soares, agora no FC Porto.

Admiro muito o Soares, é um avançado que marca muito e tem mobilidade, sinto que sou parecido com ele, tenho “malícia”, que no fundo é saber estar no sítio certo quando a bola cai. Um instinto qualquer, um sangue frio. Gostaria que me acontecesse o mesmo que a ele, uma ascensão rápida, mas tenho de continuar a trabalhar todos os dias»

Apesar de encontrar semelhanças com o jogador do FC Porto, Cuero admitiu que é Cristiano Ronaldo a grande inspiração.

«É um jogador que por mais que ganhe, corre sempre atrás de algo como se fosse a primeira vez. As coisas podem correr bem ou mal, mas tem sempre a consciência tranquila porque sabe que deu tudo. Não tento ser como ele, mas procuro sempre superar-me tal como ele faz», indicou.

É assim que vai encarando o dia-a-dia em Oliveira de Azeméis, sem pensar muito no amanhã.

«Não posso falar do futuro, porque é sempre imprevisível. Procuro apenas trabalhar para ser melhor. Sempre pensei para mim: “se alguém tem um sonho, pois que lute até o atingir”. É isso que quero fazer.»

 

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