Domingo à tarde é uma nova rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

 

«Fogo, era um puto ainda de ranho no nariz…»

Sempre que retira a foto do baú vem-lhe tudo à cabeça.

Dessa imagem é possivelmente aquele que ninguém reconhece, ou pelo menos não tão facilmente.

O preto e branco da mesma pode ser acaso, mas de facto retrata um passado feliz e não tão longínquo como possa parecer.

Hélio Vaz atingiu o estrelato muito depressa.

Aquando da passagem na Luz chegaram a rotulá-lo de menino-prodígio, tal era o potencial que apresentava aos 18 anos.

Quase uma década depois, e com seis clubes pelo meio, Hélio voltou a brilhar, agora no Campeonato de Portugal.

Com 25 anos reencontrou no Torreense um rumo que julgava ter perdido para sempre. Um caminho que começou a ser traçado em Inglaterra, imagine-se.

«Aos 16 anos fui o segundo melhor marcador dos seniores, com 32 golos em 52 jogos. Tinha Bolton e Newcastle interessados. Estive no Bolton três meses, muitas vezes na casa do Ricardo Vaz Tê. Jogava nas reservas mas treinava com a equipa principal, com Anelka ou Okocha. Dos distritais a jogar com aqueles monstros…»

Foi com um riso nervoso que Hélio, o menino de raízes humildes do Montijo, recordou o início de tudo ao Maisfutebol.

A aventura por terras de Sua Majestade foi, porém, muito curta. Um telefonema fê-lo regressar a casa em 2008. Do outro lado da linha tinha o clube do coração.

Surgiu o convite do Benfica. Tinha Sporting e FC Porto interessados também, mas segui o coração. No Seixal partilhava quarto com o Danilo Pereira. Grande gajo pá!»

«Era um menino de ouro no Benfica», prosseguiu, «fazia muito golo com o Nélson Oliveira na frente, ele mais fixo, eu mais móvel. Jogava a extremo porque era pequeno, foi lixado. Mesmo assim em dezembro já era dos melhores marcadores e deram-me um contrato profissional.»

O que poderia correr mal? Tudo parecia um mar de rosas aos olhos do jovem avançado.

Parecia.

No primeiro ano de sénior, o de afirmação, uma lesão grave no joelho levou-o a perder a pré-épocas nos encarnados, na altura sob as ordens de Quique Flores.

Nessa época foi emprestado a Mafra e Tondela, regressando no final sem grande glória.

Dos ensinamentos de Jesus às comparações com um portista…e David Luiz

Na época seguinte estava determinado a agarrar o lugar. Deu uma nega a Fátima e ficou para conhecer Jesus.

Não se arrependeu.

«Foi um ano muito produtivo para mim. É certo que joguei pouco (nos juniores) mas treinei com Cardozo, Aimar, Saviola, Gaitán, David Luiz. Era o Carlos Martins que me dava botas...», lembrou.

Recordações são várias, sobretudo as brincadeiras entre colegas.

Uns diziam que era o filho do Saviola (risos). O Aimar chamava-me André Villas-Boas (então treinador do FC Porto) porque era ruivo. Nas palestras mandavam-me sair na palhaçada porque diziam que ia informar o FC Porto (risos). ‘Como está a Carbonero ó Casillas?’ diziam outros. Era só gozo»

Que o diga David Luiz, o «palhaço» de serviço no balneário, dado às artes marciais.

«Era muito palhaço mesmo. Metia-se no balneário a fazer ‘chaves’ no pescoço, para tentar fazer desmaiar o pessoal. Acho que o conseguiu uma vez ou duas (risos)», referiu.

Hélio Vaz era um dos mais novos nos treinos da equipa principal do Benfica

Brincadeiras dessas só dentro de portas, até porque cá fora havia alguém que não permitia tais coisas.

«O Jesus colocou-me na linha. Eu era muito brincalhão, gostava de fintas e tal. Num treino aberto parti o Maxi Pereira todo, dei-lhe uma ‘vírgula’ e ficou de cabeça perdida, pisava-me mesmo. Como castigo fui correr à volta do campo, pronto», afirmou.

Era assim, não havia nada a fazer.

Cada ordem de Jesus era sagrada para o jovem, mesmo que às vezes custasse ouvir.

Uma vez estávamos a treinar lançamentos e eu fiz asneira para aí umas três vezes. “O gajo não aparece aí pá, estás a f… o treino menino, disse-me ele. "Vai menino, boa menino”. Era sempre menino para ele, só me chamava Hélio quando falava à parte»

Apesar disso, hoje diz com orgulho: «aprendi muito com o Jesus, sobretudo no capítulo defensivo. Com ele joguei a trinco e até a defesa-esquerdo. Num amigável rendi o Coentrão e fiz uma assistência de trivela para golo, à Quaresma. Ainda tenho essa mania (risos)»

Uma história de superação com um final feliz

Sem grandes oportunidades para jogar, o adeus estava perto.

O fim da relação com o Benfica não terminou sem antes ter sido emprestado a mais dois emblemas, desta feita Casa Pia e Atlético, onde aí sim continuou a demonstrar faro de golo.

Ciente das qualidades que detinha e também por «conversa de empresários», Hélio decidiu sair dos encarnados, mas por pouco não ficou sem clube.

As promessas vãs dos agentes quase resultavam numa tragédia para a carreira do jovem.

Quase, como quem diz.

Encerrado o capítulo Benfica, o avançado ingressou no União de Leiria, onde «renasceu» para o futebol, voltando a figurar na lista dos melhores marcadores dos distritais na época de estreia, com 10 golos em 28 jogos.

Ainda assim, no Liz voltou a ver o lado negro do futebol, desta vez dentro de casa. Um «atraso salarial» levou-o a mudar de ares por uns tempos, partindo para o Chipre.

No DOXA adaptou-se rápido mas, já com um contrato longo pronto a assinar, um problema de saúde na família forçou-o a regressar a Portugal e à U. Leiria.

Outro contratempo.

«Foi uma situação muito grave aquela que passei na U. Leiria. Entrei na história do clube como um dos melhores marcadores de sempre. As quatro épocas foram muito boas, mas no fim…»

Uma lesão nos ligamentos da perna esquerda, contraída num dos últimos jogos da época, retirou-lhe a hipótese de dar o salto, logo numa altura em que sabia do interesse de emblemas dos principais escalões nacionais.

O azar bateu-lhe à porta novamente. A tão ambicionada afirmação ficava de novo adiada.

Mas o cenário piorou.

Por ser um dos mais bem pagos do plantel, a SAD leiriense, com novos patrões russos, encontrou na grave lesão «um pretexto para o empurrar aos poucos» rumo à porta de saída.

Tratando-se de uma lesão delicada, o jogador quis ser tratado pelos especialistas na matéria e foi obrigado a suportar ele próprio o custo dos tratamentos. A recuperação foi morosa, cerca de 9 meses, e num outro clube, o Peniche, «quem lhe estendeu a mão».

Nunca virou a cara a luta, contou, embora não tivesse sido fácil estar afastado do futebol.

Passou-me tudo pela cabeça, senti-me muito azarado. Sempre trabalhei tanto para chegar onde cheguei, sem favores. Nem via jogos só para poder esquecer, mas era difícil»

Nove meses depois do último toque na bola, Hélio regressou aos relvados pelo Peniche. No jogo de estreia derrubou barreiras e cumpriu os noventa minutos, marcando um golaço precisamente com o pé esquerdo.

O azar chegara ao fim.

«Adorava defrontar o Benfica na Taça de Portugal»

Os três golos nos três primeiros jogos pelo Peniche tinham servido de aliciante, mas foi no Torneio do Oeste que ficaria selado o próximo destino de Hélio. Torres Vedras.

É no Torreense que o avançado tem vindo a mostrar de novo os dotes que o levaram muito alto outrora, conciliando o futebol com a distribuição de produtos químicos no Montijo.

Uma viagem de ida e volta diária que não lhe retira alento para sonhar.

O avançado é um dos jogadores em maior evidência no Torreense esta época

Ao todo são já 3 golos, 5 assistências e 3 penaltis sofridos nos 12 jogos realizados pelo emblema de Torres Vedras, vice-líder da Série F do Campeonato de Portugal, a três pontos apenas do Praiense, próximo adversário do Sporting na Taça de Portugal.

E é precisamente na ‘prova-rainha’ que Hélio gostaria de reencontrar velhos conhecidos.

No domingo defronta o Nacional, para a 4ª eliminatória, e quer ajudar a equipa a fazer taça, ainda que secretamente tenha um desejo particular.

Gostava de defrontar o Benfica. Se marcasse contra eles não festejava, ia até sofrer um pouco porque me deram tudo, mas gostava os apanhar (risos). Temos um grande grupo, muito unido, dentro e fora de campo. Uma gracinha com o Nacional e depois quem sabe»

Para o avançado, o jogo com o Nacional pode ser também uma «oportunidade para dar o salto», o tal que ambiciona há demasiado tempo e que ainda considera ser possível.

«Há quem ainda se lembre de mim como a promessa do Benfica. Dizem-me "estás perdido, o que andas a fazer aqui?'. É normal acho eu. Gostava muito de chegar a uma grande competição, à primeira divisão e à Liga Europa, assim mais competitiva. Estava a precisar de uma coisa mais ambiciosa», confessou.

Conjunto de recortes da carreira de Hélio, presente do irmão do jogador

Ao «puto maravilha», alcunha dos tempos de menino, ambição nunca faltou. Ainda assim, agora diz que procura pensar menos nas coisas.

«Às vezes digo que gostava de ter tido uma lesão grave como esta mais cedo. Fez-me pensar o futebol e a vida de outra maneira. Agora desfruto de cada minuto em campo, sempre com um sorriso. Afinal de contas, esse é o segredo para viver bem no futebol...»

Ser feliz com ele.

 

OUTROS TEXTOS DA RUBRICA «DOMINGO À TARDE»

Jogou com Gelson, agora é Iniesta por culpa das miúdas

Rui Rêgo: a palestra de Jardim, uma alegria em Oblak e o sonho concretizado

Tombou o Benfica, agora funde metal e brilha nos distritais

A melhor defesa da Europa, culpa de um «chato»

Um Mitroglou que quer bater Casillas com ideias de Jesus

Cresceu na sombra de Eto’o e fez um milagre em Fátima

Amigo de Óliver revê-se em Renato: «Uma chance e vou explodir»

Mortágua dos amores e golaços, inspirado pelos grandes