Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

António José Afonso Durão Branco tem 55 anos: 43 deles dedicados ao mundo da bola. Do futebol ao futsal. Em campo, chamam-lhe Tozé Durão. Ponto prévio: ainda joga. E marca. Um caso raro de longevidade.

É sábado à tarde e, de saco às costas, apressado, chega ao Pavilhão Multiusos de Fafe para novo jogo. É o penúltimo da época, pelo Cimo de Vila Castanheira, equipa do concelho de Chaves da qual é jogador e treinador na 2.ª Divisão Nacional. Entra e pergunta pelo balneário. Quer equipar-se. Jogar e ler o jogo. Da mesma forma como quando começou no futebol aos 12 anos, no clube da sua terra, o Desportivo de Chaves.

Tozé Durão passou do futebol para o futsal aos 44 anos. Abraçou, então, o pioneiro projeto do Desp. Chaves e já lá vão cerca de dez épocas na modalidade. Jogador-treinador, é-o desde os seus 27 anos. Assumiu, com essa idade, o Pedras Salgadas, no início da década de 1990.

«Foi o hábito. Com 27 anos, no Pedras Salgadas, a meio do campeonato, foi-me lançado o desafio de ficar como jogador-treinador. A partir daí, fui sempre. À exceção de uma época no futsal do Chaves, em que era só jogador. De resto, no futebol e no futsal, sempre como-jogador-treinador desde o Pedras», explica.

Tozé cumpre a terceira época no Vila e para trás há um vasto currículo. É respirar, porque é longo. 40 e tal anos disto «não é para todos», atira.

No futsal, Vila Castanheira, Valpaços, Ervededo e Chaves. No futebol, Boticas, Vila Pouca, Valpaços, Flaviense, Arouca e Montalegre. Tudo como sénior. Para trás, formação no FC Porto. E os estudos a sobreporem-se ao futebol na transição.

Nos juvenis e juniores dos dragões, foi campeão nos quatro anos de azul e branco. Equipou com campeões europeus: Jaime Magalhães, Bandeirinha ou João Pinto. E assinou contrato na subida a sénior. Mas a entrada na Faculdade de Engenharia do Porto (FEUP) tornou os estudos prioridade.

Durão conta 24 internacionalizações pelas seleções jovens de Portugal. Outra marca num extenso currículo que requer «cuidado no dia a dia».

«Acima de tudo, treinar quase todos os dias. Mesmo nas férias, nunca parar. E a alimentação, muito cuidado. Se as pessoas tiverem um pouco de vontade e espírito de sacrifício, podem chegar lá. O segredo é não parar. Só assim é possível, com a minha idade, ainda estar no ativo», explica. Isso e a «sorte de não ter lesões».

A poucos minutos do seu gabinete de projetos, em Chaves, está o Pavilhão Municipal. Palco de treinos e jogos de uma equipa unida pelo gosto. Trabalhar, de dia. Treinar, à noite.

«É o único plantel da segunda divisão que não tem qualquer remuneração. Todos jogam por carolice. Daí que hoje [sábado] há muitos compromissos em Chaves e estão aqui seis jogadores», atira, enquanto todos se equipam para ir a jogo.

O melhor marcador que ainda admite jogar futebol

Num plantel curto em Cimo de Vila, Tozé Durão é o melhor marcador da equipa que treina. Dez golos na conta. Confirma?

«Eh, isso não interessa (risos). É, é, é… mas também pouquinhos somos. É olhar para a carinha dos meninos (risos)», atira. Aponta aos restantes colegas no balneário. A diferença de idades é bem notória.

O Cimo de Vila já está despromovido aos distritais e foi vergado a uma histórica goleada em Fafe no último sábado: 26-0. Dos seis jogadores, um foi expulso, outro lesionou-se. E dois eram guarda-redes. Um azar nunca vem só.

«Temo-nos mantido unidos. Tem havido jogos, principalmente a partir de janeiro, que temos, cinco, seis. Mas nunca faltámos. Também em face desta boa camaradagem», expõe.

Pelo meio, Durão já foi convidado por duas equipas do distrito de Vila Real para regressar ao futebol. Não cedeu, porque se começa um projeto, vai até ao fim. Uma pessoa de «ideias convictas», atira. A próxima época, logo se vê.

«Ainda não decidi. Já sou avô, tenho uma neta com 15 meses. Também tenho de desfrutar da vida, porque isto foi sempre domingos e sábados preenchidos», conta.

Mas «o vício está cá», garante. É por isso que ainda admite jogar futebol se regressar à modalidade de partida. «Enquanto as pernas deixarem… neste momento deixam». No meio de tudo, uma certeza. Que não é bem certa. «Não é 100 por cento tácito: no dia em que deixar de jogar, vou deixar de ser treinador».

A chapelada de livre que «andou aí nas redes»

Dos golos desta época, Durão ficou famoso pela chapelada num livre direto ante o Valpaços. 12 de dezembro de 2017:

«Sim, é um golo famoso e andou aí nas redes. Eu fui treinador daquele guarda-redes, conheço-o bem e naquele momento estávamos a perder 3-2. Faltavam oito minutos para acabar e já tinha tentado em Viana, no jogo da Taça em que fomos eliminados. Naquele dia, estavam reunidos os condicionalismos para bater o Marco Horácio. Foi completamente intencional. Correu aí mundo e deu para reviver jogadores que jogaram comigo, que através do golo puderam reviver o Tozé Durão, apesar de muitos deles retirados». Descrição saudosa. Nostálgica.

Do futebol ao futsal. Em comum, a bola. Entre jogador e treinador, junta a «experiência» e a ajuda dos vários plantéis a tornar possível a dupla tarefa. Lá fora, no dia a dia, o dever a chamar.

«Tchuuu… Há engenharia, há muita obra. Aliás, ontem fui ao Porto e fiquei lá por causa de uma obra. É uma roda viva». Dia a dia.

 

Artigo original: 24/4, 23h50