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O meu pai é o meu treinador

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Zinedine Zidane

Zinedine e Enzo + Luca Zidane

No Real Madrid, o nome Zidane é sinónimo de Zinedine. Infelizmente, os dois filhos que chegaram à equipa principal dos Los Blancos não revelaram a qualidade do progenitor. Enzo fez um jogo na época 2016/17 e o irmão, Luca, esteve em dois entre 2016 e 2018. Sempre com o pai como treinador.

Enzo, médio-ofensivo, até passou pelo Desportivo das Aves na época 2019/20 - sem sucesso - e está agora sem clube. Luca, guarda-redes, está a jogar no Rayo Vallecano, na II Divisão espanhola.

«Luca é o terceiro guarda-redes. O Courtois não estava disponível e o Keylor veio da seleção, precisava de um pouco de descanso. Dei minutos a outro guarda-redes. O Luca não jogou por ser meu filho. Lancei um jogador do Real Madrid», disse Zizou depois de um 3-2 sofrido sobre o Huesca, a 31 de março de 2019.

«Em casa vamos falar, mas achei que era uma boa oportunidade. Penso que esteve bem, tem caráter e personalidade.
Está na formação do Real há 16 anos e isso quer dizer muito. Não vou falar como pai, interessa-me falar como treinador. Não tem medo e isso agrada-me. Quando é assim, merecem jogar.»

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Johan e Jordi Cruyff

Em 1994, aos 20 anos, Jordi teve a oportunidade com que sempre sonhou. Johan, pai e treinador, deu-lhe a titularidade na equipa principal do Barcelona. Durante duas temporadas, até ser vendido em 1996 ao Manchester United, Jordi Cruyff carregou em campo o pesadíssimo apelido 54 jogos. Marcou 11 golos.

«Quando me estreei no Barcelona, o meu pai era o treinador. Só me deu um conselho: 'Vê, ouve e não fales'. Por outras palavras, ele não queria que eu lhe dissesse o que ouvia no balneário. E nunca lhe disse», contou Jordi à ESPN, pouco depois da morte de Johan.

«Só tive uma vez problemas. Cheguei ao balneário e o Stoichkov estava a falar com o Begiristain. Reparei que pararam de falar quando me viram. 'Olhem, se têm algum problema falem com o treinador, eu não tenho nada a ver com isso'. Tive de ser muito cuidadoso. Se alguém me visse com um colega de equipa na rua, então escreviam que esse colega estava a tentar conquistar-me para cair nas boas graças do meu pai.»

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Cesare e Paolo Maldini (Reuters)

Cesare e Paolo Maldini

Quando Cesare assumiu o comando técnico do AC Milan na época 2000/01, o filho Paolo já era o atleta mais consagrado da equipa. O defesa tinha 33 anos e toda uma vida dedicada aos rossoneri. Aqui, portanto, a lógica invertia-se: não era o pai a dar uma oportunidade ao filho, mas o filho a abrir a porta ao pai.

Cesare tinha também treinado Paolo na squadra azzurra, de 1996 e 1998, e o central/lateral manteve sempre o estatuto de indiscutível. A pose, o talento, a personalidade falaram muito mais alto do que a ligação pai-filho no balneário da seleção e do AC Milan.

«O meu pai sempre foi reservado, até seco, mas tinha um coração bom. Uma vez, numa entrevista, disse algo assim: 'já não são o treinador Cesare, agora sou o pai do Paolo'. Falávamos pouco de futebol. Na seleção uma vez ameacei um colega, porque estava a falar mal dele. Foi a única vez. Eu respeitava-o muito. A minha mãe sabia há seis meses que eu ia sair de casa para morar sozinho, o meu pai só soube na véspera», relatou Paolo Maldini ao La Repubblica, cinco meses após a morte do pai.

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Harry Redknapp

Harry e Jamie Redknapp

Jamie estreou-se aos 16 anos pelo Bournemouth. Era um wonderkid e o pai não quis atrasar o seu desenvolvimento. Tinha razão. Um ano e meio depois, o Liverpool contratou o filho do treinador e Jamie ficou 12 temporadas em Anfield Road. Antes de deixar de jogar, na época 2004/05, fez questão de voltar a ser treinado pelo pai. Em Southampton.

«Treinei o meu filho duas vezes. Fui eu que o vendi ao Liverpool, sim. Fiz algum lucro às custas do meu filho», brincou Harry Redknapp numa recente aparição televisiva, lado a lado com Jamie. «Nunca o perdoei por isso», respondeu o filho.

Jamie Redknapp fez uma boa carreira, chegou 17 vezes à seleção de Inglaterra e esteve no Euro96. Mas nada lhe deu mais prazer do que fazer com que o pai, Harry, falasse sobre o acidente de viação que quase o matou em 1990.

«Ele é mesmo old school, não desabafa. Um amigo dele morreu, ele esteve dois dias em coma e sempre se sentiu um pouco responsável. Na minha biografia obriguei-o a sentar-se comigo e a dizer tudo o que tinha deixado por dizer.»

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Cristiano Ronaldo, O Filme (Lusa)

Alex e Darren Ferguson

Sir Alex nunca foi um treinador fácil. David Beckham e Peter Schmeichel que o digam. Quando era para gritar aos ouvidos dos jogadores, o escocês gritava. E com o filho Darren nunca foi diferente. Darren Ferguson foi treinado pelo pai no Manchester United de 1990 a 1994, mas só conseguiu ter 27 aparições na equipa principal.

Passou depois seis épocas no Wolverhampton e oito no Wrexham. «No meu caso não houve nenhum nepotismo», recordou recentemente Darren Ferguson no podcast Beyond the Pitch. «Foi muito, muito duro para mim no United. Lembro-me do dia em que recusei o Nottingham Forest para jogar no United. O meu pai estava hesitante, mas os adjuntos insistira: 'olha, aqui querem mesmo que assines, vais jogar para nós'.»

«Também não foi fácil para o meu pai», admitiu Darren. «Nessa altura ele não tinha o poder que viria a ter e estava debaixo de grande pressão. Vivíamos em casa e via como ele chegava do clube. Admitiu-me duas vezes que eu devia ter jogado e não joguei por ser filho dele.»