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Um ano depois, o que a pandemia mudou

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Sporting-FC Porto

Estádios vazios, futebol a solo e à distância

A 8 de fevereiro de 2020 estiveram 49.227 espectadores no Estádio do Dragão para o FC Porto-Benfica. Uma semana mais tarde, o Estádio da Luz teve 59.371 adeptos a assistir ao Benfica-Sp. Braga. Por esses dias já era notícia o novo coronavírus que surgia na China, mas a dimensão do que estava para vir ainda era difícil de apreender. Em poucas semanas tudo mudou. E agora, pouco mais de um ano depois, essa memória de estádios cheios já parece pertencer a um passado distante. A romaria para o estádio, o convívio nas bancadas, os cânticos e, sim, também as vaias e os apupos, tudo a pandemia levou. Como os petiscos antes ou depois dos jogos. Ou os encontros entre amigos e as idas ao café para ver a bola. Ou multidões em festa nas ruas a celebrar títulos: o FC Porto viveu essa experiência no verão passado e ainda é uma incógnita como poderá festejar o futuro campeão nacional, com o Sporting cada vez mais perto de conquistar um título que lhe foge há muito.

A proximidade foi o primeiro dano colateral da covid-19. Manter distância é um dos mantras da prevenção da doença e esse foi o grande impacto para todos os que seguem futebol: o desaparecimento do público dos estádios, condição para o retomar das competições. O futebol de topo voltou ao fim de uns meses, mas ver futebol tornou-se um ritual solitário, ou limitado à companhia do núcleo familiar. O jogo circunscrito ao ecrã da televisão, acompanhado pelo som de um vazio que amplifica as vozes dentro de campo, os gritos, os toques na bola. Uma espécie de indiscrição de quem vê, que aumenta a sensação de estranheza. Por muito que em cada estádio se procurem soluções mais ou menos imaginativas para decorar cadeiras e atenuar o impacto das bancadas vazias, não há como substituir a vibração da vida. Em Portugal, depois de alguns testes-piloto com público em outubro, o Santa Clara-Paços Ferreira de 27 de fevereiro foi o primeiro jogo de 2021 com adeptos, 924 espectadores e um sinal de esperança. Mas ainda não dá para saber quando, ou se algum dia, voltará a ser exatamente como era.

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Portimonense-Gil Vicente (Lusa)

Cancelamentos, adiamentos e vazio de campeões

A Liga de clubes começou por suspender os treinos e jogos das provas profissionais a 12 de março, no mesmo dia em que a FPF suspendia todas as competições nacionais de futebol e futsal sob a sua alçada. Era só o início. Em Portugal, as únicas competições da época 2019/20 ainda em curso que chegaram ao fim foram a Liga e a Taça de Portugal. Tudo o resto foi cancelado, sem títulos atribuídos: II Liga, Campeonato de Portugal, todas as competições seniores de futebol e futsal, masculinas e femininas, todas as competições dos escalões de formação. Foi assim pelo mundo fora, uma revolução no calendário sem precedentes, com grandes competições adiadas, a começar pelo Euro 2020, ou canceladas, dos Mundiais sub-20 e sub-17 à Youth League da corrente temporada.

O futebol de elite conseguiu ainda assim luz verde para voltar, com a janela temporal aberta pelo adiamento do Euro 2020 a permitir terminar a época pelo verão dentro. Em Portugal a Liga voltou no início de junho, depois de uma paragem de 87 dias. Para 2020/21, as competições de topo puderam avançar: a Liga e a II Liga, a Taça de Portugal e a Taça da Liga, mais os campeonatos masculino e feminino de futsal, a Liga feminina, o Campeonato de Portugal e a Liga Revelação. Os campeonatos Distritais ainda arrancaram, mas foram suspensos quando o país voltou a entrar em confinamento em janeiro. A formação nem começou. Para muitos, serão não apenas uma mas duas temporadas feitas de espaços vazios nos lugares reservados aos campeões, às vitórias, às derrotas, à evolução de tantos jogadores.

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Estádio Capital do Móvel adaptado à covid-19 (fotos do Paços de Ferreira)

Rotinas contra a lógica do balneário

Testes, distância, máscaras, desinfeção, mais testes. O futebol teve autorização para entrar em campo sujeito aos protocolos determinados pelas autoridades de saúde, que implicam mudança de muitas das rotinas. Rui Almeida, que começou a época como treinador do Gil Vicente, ajuda o Maisfutebol a perceber como a pandemia obrigou o futebol, no dia a dia, a contrariar a sua natureza. Uma mudança profunda, agravada, no caso da equipa de Barcelos, por um surto na equipa logo em setembro, antes do arranque do campeonato. «Tem muita influência no dia a dia. Há quebra de hábitos, quebra do convívio», conta, juntando alguns exemplos: «O plantel estava partido em dois grupos. O pequeno-almoço era feito por vagas, para não haver demasiada gente junta. De forma global, alteraram-se todas as rotinas habituais, como estarmos algum tempo em convívio antes e depois do treino. Começou-se a fazer exatamente o contrário. O inverso do que é natural.»

O protocolo na Liga passa por testes regulares aos jogadores, e esses entraram rapidamente na rotina. «Fazer testes antes e depois dos jogos já ninguém estranhava. Não sei se havia alguém com mais testes do que nós», sorri Rui Almeida. Antes do final de janeiro, os responsáveis da Liga de clubes estimavam que nos clubes profissionais já se tinham realizado 40 mil testes, um número que dá a medida do controlo em torno do futebol.

A sensação de uma lógica contranatura estende-se ao dia de jogo, diz o ex-técnico do Gil Vicente: «Nas rotinas do pré-jogo, como estamos todos com teste feito, não muda muito, embora exista sempre a presença da máscara. Mas gerou-se um ambiente de desconfiança. Deixou de haver contacto, um abraço a um jogador, tudo isso deixou de haver. No campo ainda se vê esse contacto, num festejo, é inevitável. Mas a espontaneidade do dia a dia perdeu-se.»

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Testes à covid-19 no Gil Vicente esta semana. Lourency foi um dos atletas testados (Foto: Gil Vicente)

Jogar entre a doença e a incerteza

O futebol de elite avançou, mas a incerteza passou a ser a regra. No início o medo, com muito desconhecimento ainda. Com o regresso aos treinos, em maio de 2020, chegaram os primeiros casos positivos entre equipas da Liga. Mas depois do verão, com a nova época, a covid-19 entrou em força nos balneários. O futebol tenta viver com o vírus, mas passou a haver uma insegurança latente. «No início sentimos todos um desconhecimento geral, muito receio. Na segunda vaga, os resultados do verão tinham trazido alguma positividade, mas depois começaram a aumentar os casos. Agora há muito mais conhecimento, mas sempre que surge alguma coisa nova vem baralhar muito a confiança», nota Rui Almeida.

A Liga 2020/21 começou desde logo condicionada, com o adiamento do Sporting-Gil Vicente da 1ª jornada, quando os «leões» tinham 10 casos, numa altura em que também o treinador Rúben Amorim estava infetado, e os gilistas 19, incluindo igualmente o treinador. «Tem a ver muitas vezes com contactos familiares, é incontrolável, por muitos cuidados que se tenham», diz Rui Almeida. O efeito numa equipa, a essa escala, é devastador: «Nós e o Sporting fomos os primeiros a ser vítimas em grande escala. Só agora, quando nomeadamente o Benfica foi também mais afetado, é que as pessoas se aperceberam verdadeiramente da dimensão de um clube ser atingido com números tão altos. São dinâmicas que se quebram, deixa de haver quase relação entre o plantel. Prejudicou-nos muito aquela fase inicial. Ao jogo com o FC Porto fomos só com dois ou três dias de treino.» O jogo com o FC Porto foi à 4ª jornada.

A covid entrou no balneário e entrou em campo, com muitos jogos em dúvida até ao limite e vários adiamentos. Alguns na Liga, mas se olharmos para as várias competições percebe-se toda a dimensão do impacto da covid no calendário do futebol que ainda se joga: a última semana de fevereiro foi a primeira da temporada sem qualquer jogo adiado, segundo dados da Federação relativos às competições sob a sua alçada. Na Liga, o período mais crítico até agora foi a segunda quinzena de janeiro, a acompanhar a tendência do país. Por essa altura, já mais de centena e meia de jogadores do principal campeonato estavam ou tinham estado infetados só na presente temporada. O Benfica chegou a ter dez jogadores infetados em simultâneo. Apenas quatro jogadores das águias ainda não tiveram o vírus, que afetou também o treinador Jorge Jesus. Mas a covid-19 é democrática e afetou praticamente todos os clubes.

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Controlo apertado ao Benfica à entrada no Estádio Toumba

As sequelas da doença e de um calendário alucinante

Jorge Jesus considera a pandemia a grande responsável pelos maus resultados da equipa, defendendo que, para lá das ausências, todo o contexto retira foco aos jogadores. Há vários pontos de vista sobre o assunto. Sérgio Conceição, o treinador do FC Porto, defende por seu lado que não há motivos para se falar em cansaço mental. Mas há sim, claro, cansaço físico e um período inevitável de recuperação para jogadores que passaram pela doença, ainda que esta afete cada um de forma diferente. Houve jogadores que enfrentaram longas ausências, como o jovem benfiquista David Tavares, que esteve quase 50 dias afastado por causa da doença. Noutro caso no clube encarnado, o brasileiro Daniel dos Anjos suspendeu mesmo a carreira, devido a um problema cardíaco detetado na sequência da infeção por covid. Mas mesmo em casos aparentemente mais ligeiros os jogadores relatam dificuldades no regresso. O sportinguista Nuno Santos, infetado em setembro, falou das dificuldades de estar «14 dias fechado, isolado» e do regresso: «Os primeiros minutos não foram fáceis para um jogador que não está a treinar com a equipa.» O benfiquista Pizzi acentua o cansaço: «Não me sentia o mesmo, tinha dificuldades em recuperar, sentia-me mais cansado.»

A doença e a recuperação condicionam os jogadores e a gestão da equipa. Rui Almeida dá um exemplo: «Nós tivemos jogadores que chegaram a estar 20 dias em isolamento. Isso obviamente tem influência direta. O Fujimoto ficou quase 20 dias parado. Só agora, há 3 ou 4 jogos, é que apareceu recuperado.» E não se conhecem ainda todas as implicações da doença, como nota Rui Almeida: «Ainda é preciso tempo para ver como ficam os atletas pós-covid, como é que o seu corpo reage, a influência direta e indireta no seu rendimento.»

Ao facto de as equipas estarem em vários períodos privadas de vários jogadores, junta-se outra das consequências da pandemia: um calendário ainda mais sobrecarregado. O início atrasado da temporada condensou todas as competições num período mais curto, o que em Portugal redundou nomeadamente num arranque de 2021 alucinante. FC Porto e Benfica, envolvidos em quatro competições, fizeram 15 jogos em janeiro e fevereiro, enquanto o Sp. Braga, finalista da Taça da Liga, chegou aos 16.

Globalmente as seleções viram também o seu espaço reduzido, com jogos cancelados e o apuramento europeu para o Mundial 2022 condensado em apenas oito meses. E ainda mais condicionadas pelas dificuldades que os grandes clubes colocam para libertar jogadores, perante a pressão do calendário e as medidas sanitárias e de quarentena impostas nos diversos países.

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Santa Clara já trabalha na Cidade do Futebol (fotos: FPF)

Casa, mas pouco

O futebol de topo joga-se, mas não é a mesma coisa. Sem gente nas bancadas, há algo que falta também para quem está em campo. «É muito estranho» jogar em estádios vazios, diz Rui Almeida: «O futebol sem adeptos não tem nada a ver. Nada substitui a presença dos adeptos.» No final da época passada, Marcelo, jogador do P. Ferreira, resumia assim essa sensação em entrevista ao Maisfutebol: «Às vezes parece um treino mais sério e que vale três pontos. Não há ninguém a apoiar-te, nem a insultar-te. Marcámos um golo, olhamos para a bancada e não há ninguém.»

Não será óbvio analisar em que medida isto influencia o jogo. Como nota Rui Almeida, «não há o efeito da pressão do público, tanto positiva como negativa». Em alguns momentos pode fazer falta o incentivo do público, mas noutros essa falta de pressão pode ajudar a tirar peso dos ombros dos jogadores. Olhando para os números, o factor-casa tem hoje menos peso, mas não muito significativo.

O que mudou literalmente com a pandemia, em muitos casos, foi o próprio conceito de jogar em casa. No reatar da Liga, em maio de 2020, o Santa Clara mudou-se de malas e bagagens para a Cidade do Futebol, onde jogou a reta final do campeonato. Já nesta temporada, as restrições associadas ao avançar da pandemia levaram o Marítimo B a montar quartel-general em Lousada para poder compensar os jogos em atraso no Campeonato de Portugal, ou o Benfica a «receber» o Arsenal em Roma, para a Liga Europa. Na temporada passada, a fase final da Liga dos Campeões transformou-se numa final a oito que teve Portugal como palco. Agora, no final de março, a Seleção Nacional terá Turim como «casa» para o pontapé de saída da qualificação do Mundial 2022. A final da Taça de Portugal deixará o Jamor pelo segundo ano seguido para se jogar em Coimbra. Adaptação é a nova palavra de ordem, como resume Rui Almeida: «Todos nós, em janeiro de 2020, não víamos como fazer isto ou aquilo. Isto fez-nos perceber que todos temos que estar abertos a adaptação.»

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Taça da Liga: Sporting-FC Porto, festejos de Marega (Paulo Cunha/LUSA)

Covid feito caso

Há coisas que não mudam. Não seria o futebol português se a covid-19 não fosse também pretexto para polémicas. O caso mais notório foi o dos «falsos positivos», que motivou uma guerra de palavras entre Sporting, FC Porto e Sp. Braga. Em causa os testes a Sporar e Nuno Mendes, primeiro positivos e depois negativos. Ambos os jogadores não defrontaram o Rio Ave, para a 14ª jornada, mas antes da meia-final da Taça da Liga com o FC Porto o Sporting defendeu que se tinha tratado de «falsos positivos». Seguiu-se uma troca de comunicados, com o FC Porto a acusar os leões de «atentado à saúde pública» e estes a questionarem o laboratório envolvido. Sem luz verde da DGS, os leões não utilizaram os dois jogadores frente ao FC Porto, mas contaram com eles para a final com o Sp. Braga, que venceram. O caso motivou ainda a abertura de um processo no Conselho de Disciplina da Federação, por queixa dos dragões.

Os surtos de covid em várias equipas motivaram de resto diversos momentos de tensão quanto a eventuais adiamentos, questão que ganhou maior expressão mediática quando, em meados de janeiro, o Benfica pôs a hipótese de parar de competir por 14 dias, face ao número de casos na equipa e no staff. A DGS remeteu a decisão para a esfera do futebol e as águias foram a jogo na meia-final da Taça da Liga com o Sp. Braga, mas procuraram adiar o jogo seguinte, com o Nacional, para a 15ª jornada. Não houve acordo e o clube da Luz emitiu um comunicado a defender que daí para a frente só devia ser considerado o adiamento de um jogo se uma equipa tivesse menos de sete jogadores disponíveis. Mais tarde, Luís Filipe Vieira voltou ao assunto, para acusar o presidente do Nacional de ter admitido adiar o jogo na condição de os «encarnados» cederem Diogo Gonçalves por empréstimo, ao que os madeirenses responderam lembrando uma outra recusa do Benfica em adiar um jogo, há cinco anos.

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Baliza

A formação paralisada

«Foi muito muito mau, mas se o foi para nós foi ainda mais para os miúdos. Ainda agora saiu daqui uma mãe que só perguntava: ‘Quando é que começa? Os miúdos estão que não podem.’» É a partir de Vila Viçosa que fala com o Maisfutebol Pedro Pinto, dirigente do Calipolense, clube que tem a equipa sénior na Divisão de Honra da AF Évora e tinha quase duas centenas de atletas na formação, dos petizes aos juniores. Um exemplo, entre tantos. Se no topo da pirâmide do futebol a pandemia condicionou muita coisa, daí para baixo é o vazio. Os campeonatos distritais de futebol pararam antes do meio da época. E a formação está paralisada há um ano, desde março de 2020, sem qualquer competição. São centenas e centenas de clubes, milhares e milhares de jovens, com a vida desportiva, também ela, em suspenso.

As consequências na base do futebol são já devastadoras. Há esta época menos 72 por cento de jogadores federados na formação masculina, valor ainda mais acentuado no futsal, onde a quebra é de 78 por cento, de acordo com os dados divulgados já em fevereiro na audição pública na Assembleia da República aos representantes dos principais desportos coletivos nacionais.

No início desta temporada a maioria dos clubes tentou relançar a atividade, mas os treinos acabaram por parar. Muitos clubes tentaram manter o contacto com os jogadores, com atividades online, mas essa é só uma medida de recurso. Nada substitui a atividade física, o convívio e a competição, ninguém tem dúvidas sobre isso. Os receios sobre as consequências que tudo isto terá no desenvolvimento dos jovens, o sedentarismo, a falta se socialização, são unânimes. «Não sabemos o custo que isto irá ter a muitos níveis, a começar pela saúde», sintetiza Pedro Pinto. A expectativa de todos os que vivem o futebol amador é que possa haver algum tipo de retoma ainda esta época, um sinal de esperança. «Na formação, assim que haja abertura, esperamos tentar pelo menos assinalar a época, quanto mais não seja com um ou dois meses de treinos e uma pequena competição.»

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Iniciativa «Do futebol para a vida»

A crise, a solidariedade e a procura de respostas

No futebol, muitos clubes nem entraram em competição na atual temporada – de 1930 em 19/20, passaram esta época a 1530, menos 22 por cento, segundo números divulgados recentemente pelo Canal 11, que davam ainda conta de uma quebra de 58 por cento nas equipas inscritas. Entre os seniores, houve dezenas de equipas que abdicaram de participar no Campeonato de Portugal e nos Distritais. Sem formação, sem competição, as receitas desapareceram. De novo o exemplo do Calipolense, descrito por Pedro Pinto: «As nossas receitas são da escola de formação, sócios, patrocinadores, e um torneio de verão, a Minicopa, que propiciava embalo financeiro para o arranque da época. Vai ser a segunda época sem essa competição. A época anterior coartou 25 a 40 por cento das receitas, esta não vou dizer que é 100, mas fica na ordem dos 70 a 90 por cento.»

Muitos clubes deixaram de pagar a jogadores e há casos dramáticos, todos os dias. Houve respostas solidárias – a covid também alimentou desde os primeiros dias uma onda de solidariedade que envolveu instituições, clubes e jogadores. Houve quem disponibilizasse espaços, quem oferecesse equipamentos, quem contribuísse com dinheiro. E vimos a Casa do Atleta, o espaço que recebe as seleções nacionais, transformada neste início de 2021 em enfermaria de retaguarda para ajudar no esforço do Serviço Nacional de Saúde.

Também houve apoios institucionais, fundos disponibilizados pela UEFA, pela Federação e pela Liga, pelo Sindicato de jogadores. Mas a crise veio para ficar. E não é evidentemente exclusiva do futebol, os problemas são do desporto como um todo e são profundos. O Governo tem falado de um futuro projeto de apoios, ainda sem contornos definidos. Os responsáveis desportivos apelaram a que o desporto seja considerado no Plano de Recuperação e Resiliência que nos próximos anos trará fundos extraordinários para o país. Procuram-se caminhos para tentar minimizar o impacto de uma crise que não tem fim à vista.

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Bola e baliza (Thomas Kienzle/AP)

Crise global a acelerar mudanças

Ainda que em escalas abissalmente diferentes, os impactos económicos da pandemia são transversais, da base até ao topo. Uma análise divulgada em janeiro pelo Parlamento Europeu estimava que a pandemia já teria levado ao desaparecimento de um milhão de empregos associados ao desporto, direta e indiretamente. Layoff, cortes salariais ou despedimentos entraram no léxico do futebol logo a partir de março de 2020, quando os clubes procuraram atacar o problema imediato do lado dos custos.

Em Portugal, a Liga de clubes estima que as perdas no futebol profissional resultantes da pandemia atinjam entre 276 a 362 milhões de euros, com as receitas de bilheteira e de vendas em dias de jogo próximas do zero e perdas também nas quotas de associados ou no merchandising. E com enorme imprevisibilidade em relação ao futuro, nomeadamente a eventuais cortes nos contratos televisivos. Nos ditos grandes do futebol português, as contas semestrais dão a medida daquilo que representaram para Sporting, FC Porto e Benfica as perdas associadas à ausência de público nos estádios.

O impacto é global: o relatório anual da Deloitte dedicado aos clubes mais ricos do mundo concluiu que os 20 clubes de topo perderam 1,1 mil milhões de euros de receitas com a pandemia, podendo superar os dois mil milhões de euros no final da atual temporada. Com menos dinheiro, o calendário esticado para lá do limite e em risco de perder capacidade de atração, com a pandemia a dominar atenções e os adeptos a perderem a ligação física aos seus clubes, as campainhas de alarme soam. O presidente do Real Madrid resumiu a questão numa ideia: «Estamos mais vulneráveis.» Florentino Pérez usava este argumento para acentuar a pressão sobre o avanço de uma Superliga europeia, que a FIFA e a UEFA procuram travar, e a que o organismo europeu procura responder com o projeto de uma Liga dos Campeões ainda mais elitista.

Por cá, a pandemia deverá contribuir para acelerar o debate sobre o calendário: já está de novo sobre a mesa a redução da Liga para 16 equipas. Ainda neste domingo Jorge Jesus analisava esse tema, admitindo que a crise leve a mudanças que passam por menor investimento em transferências ou reduções nos contratos de jogadores e treinadores.

O futuro dirá em que medida, mas uma das poucas certezas que podemos ter é que a pandemia mudará, também, o futebol.

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