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A história do Campeonato do Mundo (1930-1970)

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1930: a confirmação da «Celeste Olímpica»

NO DIA 13 DE JULHO de 1930, a França vence o México (4-1) e os Estados Unidos batem a Bélgica, nos dois primeiros encontros, jogados em simultâneo em Montevideu, de um Campeonato do Mundo.

Apesar de o futebol ter ficado excluído do programa olímpico para 1932, em Los Angeles, o presidente da FIFA Jules Rimet não poupa esforços para organizar um primeiro torneio internacional em 1930. Contrariando as expetativas dos jogadores e dirigentes europeus, o palco escolhido para O evento histórico é a terra natal dos vencedores das medalhas de ouro olímpicas em Paris (1924) e Amesterdão (1928): o Uruguai.

Atravessando ainda uma fase de perfeito amadorismo e numa altura de crise económica global - do colapso de Wall Street e da Grande Depressão -, muitos jogadores recusam a participação na prova, temendo que no regresso os respetivos empregos fossem entregues a outros. Nesse sentido, são várias as seleções a ficar de fora, incluindo a Inglaterra, três vezes medalha de ouro olímpica, e Itália, Espanha, Alemanha e Holanda, países onde o fenómeno futebolístico já recolhia grande entusiasmo.

Quando o Uruguai se propõe pagar as despesas da viagem, Rimet ainda consegue convencer Bélgica, França, Roménia e Jugoslávia a marcar presença. Na Roménia, é o próprio Rei Carol quem escolhe a equipa, oferecendo aos jogadores três meses de férias e a garantia de que teriam emprego na volta do torneio.

Ter pressa em acabar

Uruguai e Argentina são vistos como os favoritos, com França e Estados Unidos num segundo plano, depois de reunirem equipas competentes. O gaulês Lucien Laurent é mesmo o autor do primeiro golo em Campeonatos do Mundo.

No segundo jogo, a França é derrotada pela Argentina (1-0), num encontro que apresenta uma das maiores controvérsias da história das fases finais. O árbitro brasileiro Almeida Rêgo apita para o final da partida seis minutos antes do tempo, quando precisamente o francês Marcel Langiller segue isolado para a baliza. Depois dos protestos da formação europeia, Rêgo apercebe-se do erro e convence os jogadores a regressar dos balneários, mas o resultado não se altera.

Os Estados Unidos vencem a Bélgica e o Paraguai para serem depois derrotados na meia-final com a Argentina (6-1). Ainda é hoje a melhor participação de sempre dos norte-americanos em Mundiais.

93 mil pessoas estão nas bancadas do Estádio Centenário, em Montevideu, para a assistir ao jogo decisivo entre os favoritos Uruguai e Argentina, uma reedição da final dos Jogos de dois anos antes. A Celeste Olímpica, como já era conhecida devido às medalhas de ouro conquistadas, venceu por 4-2.

RESULTADOS:

Uruguai, de 13 a 30 de julho de 1930
Vencedor: Uruguai (1º título)
Finalista vencido: Argentina
3º lugar: Estados Unidos e Jugoslávia

GRUPO A

13-07 Estádio Pocitos (Montevideu) França-México, 4-1
15-07 Parque Central (Montevideu) Argentina-França, 1-0
16-07 Parque Central (Montevideu) Chile-México, 3-0
19-07 Estádio Centenário (Montevideu) Chile-França, 1-0
19-07 Estádio Centenário (Montevideu) Argentina-México, 6-3
22-07 Estádio Centenário (Montevideu) Argentina-Chile, 3-1

J V E D GM-GS P
Argentina 3 3 0 0 10-4 6
Chile 3 2 0 1 5-3 4
França 3 1 0 2 4-3 2
México 3 0 0 3 4-13 0

GRUPO B

14-07 Parque Central (Montevideu) Jugoslávia-Brasil, 2-1
17-07 Parque Central (Montevideu) Jugoslávia-Bolívia, 4-0
20-07 Estádio Centenário (Montevideu) Brasil-Bolívia, 4-0

J V E D GM-GS P
Jugoslávia 2 2 0 0 6-1 4
Brasil 2 1 0 1 5-2 2
Bolívia 2 0 0 2 0-8 0

GRUPO C

14-07 Estádio Pocitos (Montevideu) Roménia-Peru, 3-1
18-07 Estádio Centenário (Montevideu) Uruguai-Peru, 1-0
21-07 Estádio Centenário (Montevideu) Uruguai-Roménia, 4-0

J V E D GM-GS P
Uruguai 2 2 0 0 5-0 4
Roménia 2 1 0 1 3-5 2
Peru 2 0 0 2 1-4 0

GRUPO D

13-07 Parque Central (Montevideu) Estados Unidos-Bélgica, 3-0
17-07 Parque Central (Montevideu) Estados Unidos-Paraguai, 3-0
20-07 Estádio Centenário (Montevideu) Paraguai-Bélgica, 1-0

J V E D GM-GS P
Estados Unidos 2 2 0 0 6-0 4
Paraguai 2 1 0 1 1-3 2
Bélgica 2 0 0 2 0-4 0

MEIAS-FINAIS

26-07 Estádio Centenário (Montevideu) Argentina-Estados Unidos, 6-1
27-07 Estádio Centenário (Montevideu) Uruguai-Jugoslávia, 6-1

FINAL

30-07 Estádio Centenário (Montevideu) Uruguai-Argentina, 4-2
2
Conte Verde

O princípio, ou melhor «Le Début»

JULES RIMET, um dirigente francês visionário e persistente, lutou 16 anos pelo sonho de um Campeonato do Mundo. Em 1930 viu-o tornar-se real

Três anos antes de escrever sobre Garrincha, Gabriel Hanot, editor do «L’Équipe», já tinha revolucionado o futebol europeu, criando a Taça dos Campeões. Nem a iniciativa nem a citação do capítulo anterior surgiram por acaso. A busca do maior-qualquer-coisa-da-História já se tinha tornado uma obsessão gaulesa, ainda antes de haver propriamente uma História por contar.

Ninguém como os franceses teve, desde os primeiros tempos, tanta preocupação em organizar e sistematizar o desporto em geral, e o futebol em particular. Pierre de Coubertin deu o exemplo, no final do século XIX, relançando o olimpismo. E foi outro francês, Robert Guérin, o grande impulsionador de uma organização internacional que juntasse as várias federações nacionais de futebol. A FIFA nasceu a 21 de Maio de 1904, em Paris, tendo sete membros fundadores: França, Holanda, Espanha, Bélgica, Dinamarca, Suécia e Suíça. Nesse mesmo dia a Alemanha solicitou por telegrama a sua filiação. A Grã-Bretanha, do alto do seu estatuto de inventora do jogo, demorou um ano a descer à terra e a juntar-se aos países menores. Nunca inteiramente convencida: voltaria a desfiliar-se em 1920, regressando em 1924 e saindo de novo em 1928 para só voltar, de vez, em 1946.

Entretanto, conquistando todos os principais países sul-americanos entre 1912 (Chile) e 1923 (Brasil e Uruguai), a FIFA abria portas fora da Europa. Como consequência da sua criação, o futebol tornou-se modalidade efectiva dos Jogos Olímpicos a partir de 1908 e o torneio passou a ser considerado uma espécie de Campeonato do Mundo oficioso.

Era de menos para a ambição crescente de Jules Rimet, presidente da federação francesa, que em 1914 viu rejeitado, no congresso da FIFA, um primeiro projecto de torneio mundial. A I Guerra e a crise económica que se lhe seguiu obrigaram-no a ser paciente. Mas o alastrar do profissionalismo na década de 20 cavou um fosso irremediável entre a elite do futebol e o movimento olímpico. Era uma questão de tempo até o conceito visionário de Jules Rimet (entretanto eleito presidente da FIFA, em 1921) conquistar os seus pares.

O sucesso do torneio de futebol em 1924, nos Jogos de Paris, foi decisivo: o campeão Uruguai encantou o mundo e espicaçou o orgulho dos europeus, que em Maio de 1928, no congresso que antecedeu os Jogos de Amesterdão, formalizaram a criação de um torneio quadrienal. No ano seguinte teve estreia fixada para 1930 e a nova vitória ainda mais brilhante do Uruguai acabou com as dúvidas sobre o país organizador: as candidaturas de Hungria, Itália, Holanda, Espanha e Suécia foram derrotadas sem apelo. Os sul-americanos, que em 1930 comemoravam o centenário da independência, comprometeram-se a construir em tempo recorde um estádio à altura da importância do evento e, não menos importante, a compensar financeiramente as federações participantes, pela prolongada deslocação.

Mesmo assim, os horizontes largos de Jules Rimet foram sabotados pela relutância dos países europeus em viajar para tão longe para discutir uma taça de asas de ouro. Só um gigantesco esforço diplomático permitiu ao dirigente francês impedir um fiasco: Alemanha, Áustria, Checoslováquia, Espanha, Holanda, Hungria, Itália e Suécia declinaram participar, e só com muita persistência foi possível garantir as presenças de França, Bélgica, Jugoslávia e Roménia, esta última com uma selecção formada por decreto pelo recém coroado rei Carol.

A 5 de Julho de 1930, o paquete Conte Verde, transportando quatro selecções (França, Bélgica e Roménia, mais o Brasil, recolhido no Rio de Janeiro) atracou em Montevideu, após uma viagem de duas semanas, seguido, dois dias depois, pelo Florida, onde viajou a Jugoslávia. A estas selecções juntavam-se as do Uruguai, Argentina, Peru, México, Chile, Estados Unidos, Bolívia e Paraguai. A 13 de Julho começava a festa, com o França-México. Graças ao espírito empreendedor de um francês, o futebol tornava-se independente do olimpismo. O desporto mundial nunca mais seria o mesmo.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

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A final de Montevideu

FICHA DE JOGO

Árbitro: John Lagenus (Bélgica)

URUGUAI – Ballestero; Mascheroni e Nasazzi (c); Andrade, Fernández e Gestido;Dorado, Scarone, Castro, Cea e Iriarte

ARGENTINA – Botasso; Della Torre e Paternoster; J.Evaristo, Monti, Arico e Suárez; Peucelle, Varallo, Stábile, Ferreira (c) e M.Evaristo

Marcadores: 1-0, Dorado (12); 1-1, Peucelle (20); 1-2, Stábile (38); 2-2, Cea (58); 3:2, Iriarte (68); 4-2, Castro (89)

4
Estádio Centenário (1930)

O nº1 em números

MARCADORES

8 GOLOS - Guillermo Stábile (Argentina)
5 golos - Cea (Uruguai)
4 golos - Patenaude (Estados Unidos)
3 - Peucelle (Argentina), Prequinho (Brasil), Beck (Jugoslávia) e Anselmo (Uruguai)
2 - Monti e Zumelzú (Argentina), Moderato (Brasil), Vidal (Chile), Maschinot (França), Vujadinović (Jugoslávia), M.Rosas (México), Stanciu (Roménia), Castro, Dorado e Irarte (Uruguai) e McGhee (Estados Unidos)
1 - M. Evaristo, Scopello e Varallo (Argentina), Arellano e Subiabre (Chile), Langiller e L.Laurent (França), Marjanović e Tirnanić (Jugoslávia), Carreño e Gayón (México), Benito Cacéres (Paraguai), Sousa (Peru), Barbu (Roménia), Scarone (Uruguai) e Brown (Estados Unidos)
Autogolos (1) - M.Rosas (México)

Total: 70 golos (3,89 média)
Melhor ataque: Argentina, 18 golos
Bélgica e Bolívia não marcaram qualquer golo.
35 jogadores marcaram

O norte-americano Bert Patenaude tornou-se o primeiro autor de um hat-trick num Campeonato do Mundo, depois de a FIFA ter reconhecido o seu segundo golo frente ao Paraguai, inicialmente atribuído a Florie ou a González na própria baliza.

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1934: a menina dos olhos do fascismo

A SITUAÇÃO POLÍTICA na Europa torna-se cada vez mais tensa, com o partido nazi de Adolf Hitler e o fascista de Benito Mussolini a ganhar força respetivamente na Alemanha e em Itália. Il Duce vê o futebol como veículo de glorificação do próprio regime, um símbolo patriótico da sua superioridade, e não pode ter melhor resposta da sua squadra: volta a vencer a equipa da casa, tal como quatro anos antes.

Dezasseis equipas (12 europeias, três sul-americanas e a primeira africana, o Egito) viajam para a fase final, disputada em Itália apenas no sistema de eliminatórias, depois de uma qualificação em que participam 32 equipas nacionais. O campeão em título Uruguai fica em casa, em protesto pela recusa da maior parte dos países europeus em participar no seu torneio. Para complicar ainda mais a situação, Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales deram preferência ao ancestral British Home Championship sobre o recém-criado Mundial, com o Reino Unido na linha da frente da batalha entre o amadorismo e o profissionalismo.

Britânicos preocupados com o seu próprio torneio

O Mundial italiano é o primeiro a ser acompanhado pela rádio, mas não tem praticamente cobertura no Reino Unido, concentrado no seu torneio, a que os britânicos, inventores do jogo, consideram o verdadeiro Mundial. Mesmo em França, face à presença excessiva da propaganda fascista, é reduzida.

Depois de, em 1930, todos os jogos terem sido disputados em Montevideu, o torneio italiano distribui-se por Roma, Nápoles, Milão, Turim, Florença, Bolonha, Génova e Trieste. É decidido ainda que os jogos passam a ter prolongamento, quando terminam empatados ao fim de 90 minutos, e com direito a repetição caso se registe nova igualdade. O primeiro encontro a precisar dessa meia-hora de desempate é o Áustria-França (1-1), com a Wunderteam de Hugo Meisl a levar a melhor no final por 3-2.

Angelo Schiavo torna-se o primeiro europeu a marcar um hat-trick num Mundial, precisamente no triunfo da Itália no jogo de abertura frente aos Estados Unidos (7-1).

A vitória do Método

Benito Mussolini assiste depois à glória italiana frente à Checoslováquia (2-1), que declara nesse mesmo dia a sua aliança com a comunista União Soviética. É também uma batalha política, aquela que tende no prolongamento para o conjunto da casa. Os checos marcam primeiro, calam os cerca de 50 mil nas bancadas, em Roma, aos 20 minutos. Antonin Puc é o autor do remate certeiro. No entanto, é um argentino naturalizado italano, Raimundo Orsi, quem empata a partida, para Angelo Schiavio consumar a reviravolta já no sétimo minuto do tempo extra.

É a vitória do Metodo de Vittorio Pozzo - o técnico transforma o 2x3x5 da moda no 2x3x2x3, tornando a equipa mais versátil e elástica, e também mais rigorosa defensivamente, com o recuo dos dois extremos, agora mais médios interiores do que outra coisa -, que voltaria a ter eco quatro anos mais tarde, em França, com bicampeonato. Depois da final, toca o hino fascista Giovinezza, e os jogadores transalpinos recebem não só o troféu Jules Rimet, mas um outro, seis vezes maior, mandado fazer por Mussolini.

Quatro dias depois do fim do Campeonato, encontram-se em Veneza, pela primeira vez, Benito Mussolini e Adolf Hitler, desencadeando-se, a partir daí, a série de eventos que deu origem à II Grande Guerra.

RESULTADOS:

Itália, de 27 de maio a 10 de junho de 1934
Vencedor: Itália (1º título)
Finalista vencido: Checoslováquia
3º lugar: Alemanha
4º lugar: Áustria

OITAVOS DE FINAL

27-05 Stadio Nazionale PNF (Roma) Itália-Estados Unidos, 7-1
27-05 Stadio Littorio (Trieste) Checoslováquia-Roménia, 2-1
27-05 Stadio Giovanni Berta (Florença) Alemanha-Bélgica, 5-2
27-05 Stadio Mussolini (Turim) Áustria-França, 3-2
27-05 Stadio Marassi (Génova) Espanha-Brasil, 3-1
27-05 Stadio San Siro (Milão) Suíça-Holanda, 3-2
27-05 Stadio Littoriale (Bolonha) Suécia-Argentina, 3-2
27-05 Stadio Ascarelli (Nápoles) Hungria-Egito, 4-2

QUARTOS DE FINAL

31-05 Stadio San Siro (Milão) Alemanha-Suécia, 2-1
31-05 Stadio Littoriale (Bolonha) Áustria-Hungria, 2-1
31-05 Stadio Giovanni Berta (Florença) Itália-Espanha, 1-1*
01-06 Stadio Giovanni Berta (Florença) Itália-Espanha, 1-0
31-05 Stadio Mussolini (Turim) Checoslováquia-Suíça, 3-2

MEIAS-FINAIS

03-06 Stadio San Siro (Milão) Itália-Áustria, 1-0
03-06 Stadio Nazionale PNF (Roma) Checoslováquia-Alemanha, 3-1

JOGO DE ATRIBUIÇÃO DO 3º E 4º LUGARES

07-06 Stadio Ascarelli (Nápoles) Alemanha-Áustria, 3-2

FINAL

10-06 Stadio Nazionale PNF (Roma) Itália-Checoslováquia, 2-1

6

Roma consagra a Azzurra

FICHA DE JOGO

Árbitro: Ivan Eklind (Suécia)

ITÁLIA - Combi (c); Monzeglio e Allemandi; Ferraris, Monti e Bertolini; Guaita, Meazza, Schiavio, Ferrari e Orsi

CHECOSLOVÁQUIA - Plánička (c); Ženišek e Čtyroký; Koštálek, Čambal e Krcil; Junek, Svoboda, Sobotka, Nejedlý e Puč

Marcadores: 0-1, Puč (71); 1-1, Orsi (81); 2-1, Schiavio (95)

7
Itália 1934

Marcadores e outros números do segundo Mundial

MARCADORES

5 golos - Nejedlý (Checoslováquia)
4 - Conen (Alemanha) e Schiavio (Itália)
3 - Orsi (Itália) e Kielholz (Suíça)
2 - Horvath (Áustria), Voorhoof (Bélgica), Puč (Checoslováquia), Fawzi (Egito), Lángara (Espanha), Hohmann e Lehner (Alemanha), Toldi (Hungria), Ferrari e Meazza (Itália) e Jonasson (Suécia)
1 - Belis e Galateo (Argentina), Bican, Schall, Sindelar e Zischek (Áustria); Leónidas (Brasil), Sobotka e Svoboda (Checoslováquia), Irragorri e Regueiro (Espanha), Nicolas e Verriest (França), Kobierski, Noack e Siffling (Alemanha), Smit e Vente (Holanda), Sárosi, Teleki e Vincze (Hungria), Guaita (Itália), Dobay (Roménia), Abegglen e Jâggi (Suíça), Dunker e Kroon (Suécia) e Donelli (Itália)

Total: 70 golos (4,12 média)
Melhor ataque: Itália, 12 golos
46 jogadores e todas as equipas marcaram.

8

1938: Itália bicampeã, antes da Grande Guerra

A II GRANDE GUERRA está ao dobrar da esquina. Dois anos depois de Hitler usar os Jogos Olímpicos de Munique para a propaganda nazi, a exemplo do que Benito Mussolini tinha feito com o Mundial de 1934, é a França, meses antes de ser invadida pelos alemães, o palco escolhido para o Campeonato do Mundo de 1938.

Um dos ausentes mais notáveis é a Wunderteam austríaca, vítima do Anschluss, a anexação da Áustria por parte dos germânicos. A Alemanha absorve os melhores jogadores, todos menos Sindelar, o homem de papel e maior craque dessa década, que se recusa a alinhar pelos nazis. É encontrado morto em Viena, em circunstâncias misteriosas, no ano seguinte.

A Espanha, em Guerra Civil, abdica da presença, tal como a Inglaterra, em conflito com a FIFA. A América do Sul, zangada por não ter ficado com a organização da fase final num regime de alternância com a Europa depois do Itália-1934, tem apenas um país presente: o Brasil. Na Argentina, adeptos irados descarregam, em Buenos Aires, a sua frustração na sede da federação, que retirara a equipa das Pampas da prova quando fica claro que não irá organizar o torneio. A Indonésia, enquanto Índias Orientais Holandesas, é o primeiro representante asiático.

É a primeira vez que a França, como organizadora, e a Itália, enquanto campeã, ficam isentas da fase de qualificação. 15 equipas em 25 chegaram à fase-final, e a Suécia apura-se diretamente para os quartos, face à desistência (ou então inexistência) da Áustria. Nessa fase do torneio, Brasil e Checoslováquia defrontam-se em Bordéus num jogo marcado pela violência: dois brasileiros e um checo são expulsos. A França torna-se o primeiro anfitrião a perder um jogo, perante a Itália (1-3), também nos quartos de final.

Antes da final, Vittorio Pozzo tem à sua espera um telegrama. O remetente? Mussolini. Reza a lenda que lêVincere o morrire! («Ganhem ou morram!»), algo que seria desmentido pouco depois por alguns dos presentes. Lenda ou não, a verdade é que a Itália volta mesmo a vencer, conseguindo o bicampeonato. Giuseppe Meazza e Giovanni Ferrari tornam-se os primeiros jogadores a conquistar uma segunda medalha de ouro.

Depois de ultrapassarem o Brasil nas meias-finais, os militarizados azzurri - os jogadores viviam num ambiente verdadeiramente militar, e Pozzo era ele mesmo um disciplinador e um duro - derrotam a Hungria, carrasco da Suécia por 5-1, na final (4-2) de Colombes.

Leónidas da Silva, o diamante negro brasileiro, termina com oito golos na competição, incluindo um poker no triunfo por 6-5 sobre a Polónia.

Não haverá outro Campeonato do Mundo durante 12 anos, e a Taça Jules Rimet resistirá, escondida debaixo da cama de um dirigente da federação transalpina.

RESULTADOS:

França, de 4 a 19 de junho de 1938
Vencedor: Itália (2º título)
Finalista vencido: Hungria
3º lugar: Brasil
4º lugar: Suécia

OITAVOS DE FINAL

04-06 Parc des Princes (Paris) Suíça-Alemanha, 1-1*
09-06 Parc des Princes (Paris) Suíça-Alemanha, 4-2
05-06 Stade Chapou (Toulouse) Cuba-Roménia, 3-3*
09-06 Stade Chapou (Toulouse) Cuba-Roménia, 2-1
05-06 Stade Cavée Verte (Le Havre) Checoslováquia-Holanda, 3-0
05-06 Cancelado c/ anexação Áustria Suécia-Áustria
05-06 Olympique Colombes (Paris) França-Bélgica, 3-1
05-06 Stade Vélodrome (Reims) Hungria-Índias Hol. Orientais, 6-0
05-06 Stade Vélodrome (Marselha) Itália-Noruega, 2-1
05-06 Stade la Meinau (Estrasburgo) Brasil-Polónia, 6-5

QUARTOS DE FINAL

12-06 Stade Victor Boucquey (Lille) Hungria-Suíça, 2-0
12-06 Stade du Forte Carré (Antibes) Suécia-Cuba, 8-0
12-06 Olympique Colombes (Paris) Itália-França, 3-1
12-06 Parc de Lescure (Bordéus) Brasil-Checoslováquia, 1-1*
14-06 Parc de Lescure (Bordéus) Brasil-Checoslováquia, 2-1

MEIAS-FINAIS

16-06 Parc des Princes (Paris) Hungria-Suécia, 5-1
16-06 Stade Vélodrome (Marselha) Itália-Brasil, 2-1

JOGO DE ATRIBUIÇÃO DO 3º E 4º LUGARES

19-06 Parc de Lescure (Bordéus) Brasil-Suécia, 4-2

FINAL

19-06 Olympique Colombes (Paris) Itália-Hungria, 4-2
9
Hitler e Mussolini

O futebol e o fascismo

FOI NO ESTÁDIO DO PARTIDO Nacional Fascista que a Itália venceu a Checoslováquia e ganhou o Mundial de 1934. A Wunderteam da Áustria estreou-se no Estádio Benito Mussolini, nesse campeonato que foi o maior exemplo de instrumentalização organizada por um regime.

O futebol já se tinha tornado por essa altura um fenómeno de popularidade, capaz de mobilizar e reunir milhares de pessoas no mesmo local em volta de um campo. Mussolini viu aí o terreno ideal para veicular a propaganda do regime.

O fascismo cedo se apropriou de toda a estrutura desportiva da Itália, do campeonato nacional de futebol às organizações da juventude desportiva. De caminho promoveu a proliferação de jornais devidamente sintonizados com a doutrina e fez crescer a rádio para amplificar a mensagem.

O Mundial de 1934 foi encarado pelo ditador como a grande oportunidade de mostrar ao planeta a força da Itália fascista. Não se pouparam esforços, construíram-se estádios de raiz em Roma, Turim, Florença, San Siro também era novo. Não se olhou a meios para fortalecer a selecção, orientada por Vittorio Pozzo, que transpôs para a squadra de futebol princípios como a disciplina ou a autoridade.

O regime nacionalizou vários jogadores estrangeiros a quem descobriu origens italianas e chamou oriundi. Como os argentinos Luís Monti, Raimundo Orsi e Enrique Guaita, mas também o brasileiro Amphiloquio Marques Filó, rebaptizado para a squadra como Anfilogino Guarisi.

O Duce assistia da tribuna à exaltação da estética fascista que tinha promovido, do campo jogadores e árbitros saudavam-no com o braço direito estendido. Com a bola a rolar, a Itália entrou a golear os Estados Unidos, mas viu as coisas complicarem-se frente à Espanha, que só eliminou ao fim de dois jogos.

Nas meias-finais os azzurri tinham pela frente a selecção da Áustria a que chamavam Wunderteam, a equipa-maravilha que brilhou na Europa no início dos anos 30. A Itália venceu graças a um golo de Guaita depois de um canto e uma falta, contam as crónicas, num jogo em que Monti se encarregou de anular Sindelar, a grande estrela da selecção austríaca. A Wunderteam seria impedida de participar no Mundial seguinte.

O modelo italiano de controlo e instrumentalização do desporto serviria de exemplo aos outros regimes autoritários da Europa, da Alemanha de Hitler à Espanha de Franco, passando pelo Portugal de Salazar. O grande palco desportivo de Hitler foram os Jogos Olímpicos de 1936, mas o III Reich estendeu os tentáculos ao futebol e ao Campeonato do Mundo.

Hitler anexou a Áustria e anexou a Wunderteam, absorvendo jogadores dessa equipa na selecção alemã que jogou o Mundial de 1938. A Áustria tinha garantido a qualificação em campo, mas «deixou de existir», como escrevia a carta que chegou à FIFA em vésperas desse Mundial. Sindelar recusou fazer parte da selecção alemã e ainda marcou um golo no jogo que o regime nazi organizou para celebrar o Anschluss e que a Áustria venceu por 2-0. O Homem de Papel, que muitos anos mais tarde viria a ser eleito o atleta do século na Áustria, apareceu morto um ano mais tarde em sua casa, ao lado da namorada judia.

Num planeta à beira da guerra, o Mundial de Paris foi testemunha de mais sinais do extremar de posições. A Espanha, no meio da Guerra Civil, nem participou na qualificação, nas bancadas dos estádios franceses era visível a contestação aos regimes fascistas.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

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Bis de Piola na festa de Paris

FICHA DE JOGO

Árbitro: Georges Capdeville (França)

ITÁLIA – Olivieri; Foni e Rava; Serantoni, Andreolo e Locatelli; Biavati e Meazza (c), Piola, Ferrari e Colaussi

HUNGRIA – Szabó; Polgár e Biró; Szalay, Szücs e Lázár; Sas, Vincze, Sárosi (c), Zsengellér e Titkos

Marcadores: 1-0, Colaussi (6); 1-1, Titkos (8); 2-1, Piola (16); 3-1 Colaussi (35); 3:2, Sárosi (70); 4-2, Piola (85)

11
Bola Mundial 1938

Média de golos a aumentar

MARCADORES

7 golos - Leónidas (Brasil)
5 - Sárosi e Zsengellér (Hungria), e Piola (Itália)
4 - Colaussi (Itália) e Wilimowski (Polónia)
3 - Perácio e Romeu (Brasil), Abegglen (Suíça), H.Andersson, Nyberg e Wetterström (Suécia)
2 - Magriñá e Socorro (Cuba); Nejedlý (Checoslováquia); Nicolas (França), Titkos (Hungria) e Dobay (Roménia)
1 - Isemborghs (Bélgica), Roberto (Brasil), Fernández (Cuba), Kopecký, Koštálek e Zeman (Checoslováquia), Heisserer e Veinante (França), Gauchel e Hahnemann (Alemanha), Kohut e Toldi (Hungria), Ferraris e Meazza (Itália), Brustad (Noruega), Scherfke (Polónia), Barátky e Covaci (Roménia), Bickel e Walaschek (Suíça), Jonasson e Keller (Suécia)
Autogolos (2) - Lörtscher (Suíça) e Jaconbsson (Suécia)

Total: 84 golos (4,67 média)
Melhor ataque: Itália, 14
Holanda e Índias Holandesas Orientais não marcaram
40 jogadores marcaram (9 repetiram depois de 1934)

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1950: o Maracanazo, assinado por Ghiggia

A EUROPA ainda lambe as feridas da II Guerra Mundial, e a própria Ásia está envolvida em conflitos na Indochina. Depois de uma paragem forçada de 12 anos, a América do Sul, menos fustigada pelo conflito, mais concretamente o Brasil são escolhidos para organizar o Campeonato do Mundo de 1950. O Maracanã, com capacidade para 200 mil pessoas, começa de imediato a ser construído no Rio de Janeiro.

As assistências somadas dos 22 jogos ultrapassam o 1,3 milhões de espectadores, é pela primeira vez passada a barreira do milhão..

A humilhação inglesa

O auto-intitulado inventor do football, a Inglaterra, participa pela primeira vez no Campeonato do Mundo - depois de as quatro federações britânicas se terem finalmente tornado membros da FIFA, mas sai humilhada ainda na primeira fase, com uma derrota inesperada frente aos Estados Unidos.

A Inglaterra ganha o primeiro encontro, frente ao Chile, por 2-0, com golos de Stan Mortensen e Wilf Mannion. Em Belo Horizonte, tem pela frente os outsiders norte-americanos. Stanley Matthews, a grande figura do jogo nesses anos, fica de fora a descansar. É um avançado nascido no Haiti, chamado Larry Gaetjens, quem marca o golo que choca o mundo (1-0).

A crucificação de Barbosa

É a primeira vez desde 1930 que, na fase final, que os grupos substituem as eliminatórias. Os quatro vencedores jogam depois numa segunda fase com mais três encontros, e o campeão do mundo é aquele que consegue mais pontos. Curiosamente, é precisamente a última partida agendada, o Brasil-Uruguai, que decide o vencedor do torneio. Aos brasileiros basta o empate, depois das goleadas à Suécia (7-1) e Espanha (6-1), e o golo de Friaça, dois minutos depois do intervalo, parece encaminhar o Brasil para o primeiro título.

A calma do capitão uruguaio Obdulio Varela, ao ir buscar a bola às redes, é imagem que atravessa a história. Primeiro, Schiaffino, depois Alcides Ghiggia, com a bola a entrar entre o poste mais próximo e o para o todo o sempre crucificado Barbosa, calaram os 193850 espectadores do Maracanã. Um silêncio sepulcral. Tinha acontecido Maracanazo!

RESULTADOS:

Brasil, de 24 de junho a 16 de julho de 1950
Vencedor: Uruguai (2º título)
Finalista vencido: Brasil
3º lugar e 4ª lugares: não se disputou jogo de atribuição

GRUPO A

24-06 Estádio Maracanã (Rio de Janeiro) Brasil-México, 4-0
25-06 Estádio 7 de Setembro (Belo Horizonte) Jugoslávia-Suíça, 3-0
28-06 Estádio Pacaembu (São Paulo) Brasil-Suíça, 2-2
29-06 Estádios dos Eucaliptos (Porto Alegre) Jugoslávia-México, 4-1
01-07 Estádio Maracanã (Rio de Janeiro) Brasil-Jugoslávia, 2-0
02-07 Estádio dos Eucaliptos (Porto Alegre) Suíça-México, 2-1

J V E D GM-GS P
Brasil 3 2 1 0 8-2 5
Jugoslávia 3 2 0 1 7-3 4
Suíça 3 1 1 1 4-6 3
México 3 0 0 3 2-10 0

GRUPO B

25-06 Estádio Maracanã (Rio de Janeiro) Inglaterra-Chile, 2-0
25-06 Estádio Brito (Curitiba) Espanha-Estados Unidos, 3-1
29-06 Estádio Maracanã (Rio de Janeiro) Espanha-Chile, 2-0
29-06 Estádio Mineiro (Belo Horizonte) Estados Unidos-Inglaterra, 1-0
02-07 Estádio Maracanã (Rio de Janeiro) Espanha-Inglaterra, 1-0
02-07 Estádio Ilha do Retiro (Recife) Chile-Estados Unidos, 5-2

J V E D GM-GS P
Espanha 3 3 0 0 6-1 6
Inglaterra 3 1 0 2 2-2 2
Chile 3 1 0 2 5-6 2
Estados Unidos 3 1 0 2 4-8 2

GRUPO C

25-06 Estádio Pacaembu (São Paulo) Suécia-Itália, 3-2
29-06 Estádio Brito (Curitiba) Suécia-Paraguai, 2-2
02-07 Estádio Pacaembu (São Paulo) Itália-Paraguai, 2-0

J V E D GM-GS P
Suécia 2 1 1 0 5-4 3
Itália 2 1 0 1 4-3 2
Paraguai 2 0 1 1 2-4 1

Nota: a Índia retirou-se da competição

GRUPO D

02-07 Estádio Mineiro (Belo Horizonte) Uruguai-Bolívia, 8-0

J V E D GM-GS P
Uruguai 1 1 0 0 8-0 2
Bolívia 1 0 0 1 0-8 0

Nota: Escócia e Turquia retiraram-se da competição.

SEGUNDA FASE

03-07 Estádio Maracanã (Rio de Janeiro) Brasil-Suécia, 7-1
09-07 Estádio Pacaembu (São Paulo) Espanha-Uruguai, 2-2
13-07 Estádio Maracanã (Rio de Janeiro) Brasil-Espanha, 6-1
13-07 Estádio Pacaembu (São Paulo) Uruguai-Suécia, 3-2
16-07 Estádio Pacaembu (São Paulo) Suécia-Espanha, 3-1
16-07 Estádio Maracanã (Rio de Janeiro) Uruguai-Brasil, 2-1

J V E D GM-GS P
Uruguai 3 2 1 0 7-5 5
Brasil 3 2 0 1 14-4 4
Suécia 3 1 0 2 6-11 2
Espanha 3 0 1 2 4-11 1

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Quem está fora não conta!

LOS DE AFUERA SON DE PALO. Quem está fora não conta, uma tradução livre para a palavra de ordem gritada aos companheiros por Obdulio Varela, El Negro Jefe, o grande símbolo da proeza da Celeste Olímpica e protagonista de uma sucessão de histórias que, misturando realidade e lenda, construíram um mito. Como esta frase, que deixa a pressão fora das quatro linhas e reduz a decisão do Maracanã ao essencial: um jogo de futebol, onze para onze.

A equipa contrariou em campo todas as previsões, incluindo a dos dirigentes uruguaios, um dos quais tinha pedido ao avançado Omar Miguez que a equipa poupasse o país à vergonha e não levasse mais de quatro golos. Varela não ouviu, quando lhe deram o recado explodiu: «E não o expulsaste do hotel?»

«A vitória do Uruguai diante da maior multidão jamais reunida num jogo de futebol tinha sido sem dúvida um milagre, mas o milagre foi acima de tudo obra de um mortal de carne e osso chamado Obdulio Varela», escreveu Eduardo Galeano muitos anos depois daquele dia em que foi mais um menino uruguaio de ouvido colado ao rádio a prometer a Deus «uma série de sacrifícios» se a sua equipa desse a volta ao resultado, que não cumpriu porque nunca conseguiu recordar todas as promessas que fez.

Naquela noite de 16 de Julho, enquanto o Uruguai festejava, no Rio de Janeiro um homem deixa o hotel da selecção e sai para a rua. Os dirigentes prosseguiram a festa num cabaret, mas tinham dado instruções para que os jogadores não saíssem. Era só a ordem de que Obdulio Varela precisava. Rumou à cervejaria de uns amigos, junto com o preparador da selecção. Acabou por ser reconhecido por adeptos brasileiros que afogavam as mágoas e, para sua própria surpresa, saudado entre elogios. Acabou a noite a beber com eles.

Obdulio era um admirador do futebol brasileiro. «Quando o Brasil jogava nas outras partidas do Mundial ia vê-los para a bancada do Maracanã. Era lindo! Pareciam peças de xadrez, miúdos, movidos sabe-se lá por quem, perfeitos, não pareciam homens», contou Negro Jefe anos mais tarde numa entrevista a Franklin Morales, das poucas que deu. Varela dizia que, em 100 jogos com o Brasil, o Uruguai só ganharia aquele, e evitava explicações transcendentais para a vitória do Maracanã: «Ganhámos porque ganhámos, nada mais.»

Obdulio fugiu sempre das homenagens públicas. Outra história: no regresso a Montevideu, para evitar o assédio aos vencedores, vestiu uma gabardina e um chapéu e passou incógnito pela multidão. Na consagração, os dirigentes receberam medalhas de ouro e os jogadores de prata. Ele prosseguiu a vida no anonimato, deixou a bola e tornou-se funcionário de um casino. O homem que conseguiu unir vencedores e vencidos numa vénia unânime não quis para si a glória do Maracanazo. E chegou mesmo a dizer que a sua maior alegria no futebol foi ter ganho ao Peñarol, o clube por que torcia em menino, com a camisola do Wanderers de Montevideo.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

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A cruz que Barbosa carrega para a vida

FICHA DE JOGO DO URUGUAI-BRASIL

Árbitro: George Reader (Inglaterra)

URUGUAI – Máspoli; M. Gonzáles, Tejera e Gambetta; Varela (c) e Andrade; Ghiggia, Peréz, Miguez, Schiaffino e Morán

BRASIL – Barbosa; Augusto (c), Juvenal e Bauer; Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico

Marcadores: 0-1, Friaça (46); 1-1, Schiaffino (58); 2-1, Ghiggia (61)

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Uruguai-Brasil, 1950

O melhor ataque nem um empate segura

MARCADORES

9 - Ademir (Brasil)
5 - Miguez (Uruguai)
4 - Chico (Brasil), Basora e Zarra (Espanha), Ghiggia (Uruguai)
3 - Palmer e Sundqvist (Suécia), Schiaffino (Uruguai)
2 - Baltazar, Jair e Zizinho (Brasil), Cremaschi (Chile), Igoa (Espanha), Carapallese (Itália), Ž.Čajkovski (Jugoslávia), Fatton (Suíça), Andersson e Jepsson (Suécia), J. Souza (Estados Unidos)
1 - Alfredo, Friaça e Maneca (Brasil), Prieto, Riera e Robledo (Chile), Mannion e Mortensen (Inglaterra), Muccinelli e Pandolifini (Itália), Bobek, Mitić e Ognjanov (Jugoslávia), Casarin e Ortiz (México), López e López Fretes (Paraguai), Antenen e Bader (Suíça), Mellberg (Suécia), Pérez, Varela e Vidal (Uruguai), Gaetjens e Pariani (Estados Unidos).

Total: 88 golos (4 média)
Melhor ataque: Brasil, 22
46 jogadores marcaram, Bolívia não marcou

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1954: o underdog Alemanha e a toda-poderosa Hungria

A SUÍÇA, neutral durante a II Grande Guerra, é o país escolhido pela FIFA, que tem sede em Zurique e festeja 50 anos de existência, para organizar do Campeonato do Mundo de 1954. É o primeiro Mundial transmitido pela televisão, ainda para um público muito restrito.

O torneio que serviria para coroar a melhor seleção do planeta, a Hungria de Ferenc Puskas - campeã olímpica em Helsínquia em 1952, meses antes tinha vergado a Inglaterra, em Wembley a uma humilhante derrota por 6-3, e levava o impressionante registo de invencibilidade de 24 vitórias e quatro empates - é arrebatado pelo lado ocidental de uma Alemanha dividida.

O formato de 1950 é abandonado, com o regresso de um esquema misto, com uma primeira fase de grupos e quartos e meias-finais a eliminar. A poderosa seleção magiar abre a competição com 17 golos em duas partidas, oito à Alemanha (8-3) na estreia. No entanto, o jogo fica marcado por uma entrada de Werner Liebrich ao calcanhar de Puskas, que o retira do torneio até à final. Quanto do Mundial não terá sido aí ganho pelos germânicos?

Nos quartos de final, o conjunto de Gusztáv Sebes, os Poderosos Magiares defrontam o Brasil, campeão do mundo em título, naquela que fica conhecida como a Batalha de Berna. Dois brasileiros (Nilton Santos e Humberto) e um húngaro (Bozsik) são expulsos durante a segunda parte, e a violência passa do relvado para os balneários após o apito final e o triunfo dos europeus por 4-2.

A final, com a República Federal Alemã de novo como adversário, parece mera formalidade. Ainda mais depois de Puskas e Czibor colocarem a Hungria na frente por 2-0. O que não está nos planos é a determinação do conjunto germânico, que iguala aos 18 minutos, e marca mesmo o golo do inesperado triunfo, por Helmut Rahn, a cinco dos 90. Pelo meio, Kocsis, o Cabeça de Ouro, acerta na trave, Turek nega duas vezes o golo a Puskas, e Kohlmeyer tira em cima da linha um golo quase certo de Toth. E depois do 3-2, o Major Galopante chega a introduzir a bola na baliza, mas o golo é anulado de forma polémica por fora de jogo.

Uma das histórias da final, recontada ao longo dos anos, fala da deficiente condição física de Puskas, colocado em campo em evidentes limitações físicas, com o tornozelo ainda magoado. As fortes chuvas tornavam as condições do relvado longe do ideal. O Major é, apesar do golo e das oportunidades criadas, uma sombra do jogador que realmente era. Também por culpa disso, acontece mesmo o Milagre de Berna.

RESULTADOS:

Suíça, de 16 de junho a 4 de julho de 1954
Vencedor: Alemanha (República Federal Alemã) (1º título)
Finalista vencido: Hungria
3º lugar: Áustria
4º lugar: Uruguai

GRUPO A

16-06 Estádio La Pontaise (Lausanne) Jugoslávia-França, 1-0
16-06 Estádio Les Charmilles (Genève) Brasil-México, 5-0
19-06 Estádio La Pontaise (Lausanne) Brasil-Jugoslávia, 1-1
19-06 Estádio Les Charmilles (Genève) França-México, 3-2

J V E D GM-GS P
Brasil 2 1 1 0 6-1 3
Jugoslávia 2 1 1 0 2-1 3
França 2 1 0 1 3-3 2
México 2 0 0 2 2-6 0

GRUPO B

17-06 Estádio Sportzplatz Hardturm (Zurique) Hungria-Coreia do Sul, 9-0
17-06 Estádio Wankdorf (Berna) Alemanha-Turquia, 4-1
20-06 Estádio St. Jakob (Basileia) Hungria-Alemanha, 8-3
20-06 Estádio Les Charmilles (Genève) Turquia-Coreia do Sul, 7-0

J V E D GM-GS P
Hungria 2 2 0 0 17-3 4
Turquia 2 1 0 1 8-4 2
Alemanha 2 1 0 1 7-9 2
Coreia do Sul 2 0 0 2 0-16 0

Play-off

23-06 Estádio Sportzplatz Hardturm (Zurique) Alemanha-Turquia, 7-2

GRUPO C

16-06 Estádio Sportzplatz Hardturm (Zurique) Áustria-Escócia, 1-0
16-06 Estádio Wankdorf (Berna) Uruguai-Checoslováquia, 2-0
19-06 Estádio Sportzplatz Hardturm (Zurique) Áustria-Checoslováquia, 5-0
19-06 Estádio St. Jakob (Basileia) Uruguai-Escócia, 7-0

J V E D GM-GS P
Uruguai 2 2 0 0 9-0 4
Áustria 2 2 0 0 6-0 4
Checoslováquia 2 0 0 2 0-7 0
Escócia 2 0 0 2 0-8 0

GRUPO D

17-06 Estádio St. Jakob (Basileia) Inglaterra-Bélgica, 4-4
17-06 Estádio La Pontaise (Lausanne) Suíça-Itália, 2-1
20-06 Estádio Wankdorf (Berna) Inglaterra-Suíça, 2-0
20-06 Estádio Comunale di Cornaredo (Lugano) Itália-Bélgica, 4-1

J V E D GM-GS P
Inglaterra 2 1 1 0 6-4 3
Itália 2 1 0 1 5-3 2
Suíça 2 1 0 1 2-3 2
Bélgica 2 0 1 1 5-8 1

Play-off

23-06 Estádio St. Jakob (Basileia) Suíça-Itália, 4-1

QUARTOS DE FINAL

26-06 Estádio La Pontaise (Lausanne) Áustria-Suíça, 7-5
26-06 Estádio St. Jakob (Basileia) Uruguai-Inglaterra, 4-2
27-06 Estádio Wankdorf (Berna) Hungria-Brasil, 4-2
27-06 Estádio Les Charmilles (Genève) Alemanha-Jugoslávia, 2-0

MEIAS-FINAIS

30-06 Estádio La Pontaise (Lausanne) Hungria-Uruguai, 4-2
30-06 Estádio St. Jakob (Basileia) Alemanha-Áustria, 6-1

JOGO DE ATRIBUIÇÃO DO 3º E 4º LUGARES

03-07 Estádio Sportzplatz Hardturm (Zurique) Áustria-Uruguai, 3-1

FINAL

04-07 Estádio Wankdorf (Berna) Alemanha-Hungria, 3-2

17
Hungria

A revolução húngara, e o Major Galopante

NO MUNDIAL DA SUÍÇA, em 1954, a Hungria apresentou um futebol revolucionário e uma linha de ataque demolidora. Mas a 4 de Julho, na final, a Alemanha conseguiu impor-se, por 3-2, causando uma das maiores surpresas na história do futebol.

Era no tempo em que a televisão dava os primeiros passos. As lendas construíam-se a partir das crónicas entusiasmadas dos correspondentes e do boca-a-boca de quem não via mas jurava ter visto. Havia ainda a Guerra Fria e a Cortina de Ferro, a adensarem a capa de mistério em relação àqueles húngaros de idioma impenetrável, de quem se contavam proezas sobre-humanas.

Não perdiam um jogo desde 1950: 24 vitórias e quatro empates, marcando 119 golos, à média assombrosa de 4,25 por jogo. Pelo meio, o título Olímpico em Helsínquia. E, acima de tudo, a destruição da mítica superioridade inglesa, com uma inédita vitória em Wembley (e logo por 6-3) e uns impensáveis 7-1 em Budapeste a acentuar a humilhação.

O espírito de grupo explicava muita coisa. A estrutura centralizada do regime húngaro permitira transferir para o Honved, o clube do exército, os melhores jogadores do país. E, com a personalidade dominante de Puskas como referência, era como se a selecção, orientada por um técnico profundamente sabedor, Gustav Sebes, treinasse em conjunto todos os dias, jogando para o campeonato a cada domingo.

Depois, havia pormenores invulgares: os jogadores entravam em campo suados, como se aproveitassem os últimos minutos para fazer exercícios. Num tempo em que a importância do aquecimento ainda não era conhecida, essa revolução de hábitos - a que se juntava uma outra, ainda mais importante, no plano táctico - chegava para marcar as diferenças nos primeiros minutos de jogo.

Na Suíça, os 9-0 com que a inexperiente Coreia do Sul foi despachada, em ritmo de treino, acentuaram a convicção de que o título estava entregue. Talvez por isso, o adversário seguinte, a Alemanha (de volta ao contacto internacional depois da «quarentena» no rescaldo da II Guerra) poupou vários titulares, oferecendo um onze secundário ao previsível massacre. A Hungria voltou a deslumbrar, brindando o público de Basileia com uns eloquentes 8-3 (3-0 aos 20 minutos). Mas na segunda parte desse jogo, o alemão Liebrich, com uma entrada duríssima ao tornozelo de Puskas, deixou o capitão húngaro praticamente fora da competição.

A Hungria resistiu bem à ausência do líder. Nos quartos-de-final, em Berna, tinha pela frente um Brasil ainda traumatizado pela derrota com o Uruguai, no Mundial anterior. Aos 7 minutos os húngaros já ganhavam por 2-0, deixando vincada uma supremacia que os brasileiros nunca conseguiram aceitar. Os seus dirigentes acompanharam o jogo aos gritos, clamando contra uma «conspiração mundial comunista» que teria no árbitro inglês Arthur Ellis o elemento mais destacado. O mau perder do escrete só chegou para estragar o jogo, que terminou com 4-2 para a Hungria, três expulsões e um tremendo arraial de pancadaria no túnel e nos vestiários.

Na meia-final, contra o Uruguai, campeão em título, foi tudo diferente menos o resultado, 4-2 para a Hungria. Mas em vez do festival de violência assistiu-se a um inesquecível choque de estilos: os afortunados cronistas que estiveram em Lausanne nessa tarde chamaram-lhe «o jogo mais bonito da história do futebol». Como de costume, os húngaros entraram a todo o gás e venciam por 2-0 a um quarto de hora do fim, mas o Uruguai tinha realmente uma grande equipa e conseguiu forçar a igualdade e o prolongamento. Aí, à falta do portentoso pé esquerdo de Puskas, foi a cabeça de ouro de Kocsis a resolver as coisas e a colocar a Hungria na final. O jogo terminou com uma estrondosa ovação para as duas equipas e os uruguaios a felicitarem com desportivismo os seus mais que prováveis sucessores.

Quatro dias mais tarde, em Berna, após dois dias de chuvadas intensas dava-se o regresso de Puskas à equipa. Ninguém concebia uma final sem o melhor jogador do mundo, mesmo que com o tornozelo recuperado em cima da hora. Foi a condição precária do capitão a limitar as movimentações de ataque da Hungria? Houve excesso de confiança pelos 8-3 conseguidos na primeira fase diante daquela Alemanha? Ou desgaste pelos duros jogos anteriores, agravado pela relva empapada do estádio Wankdorf? Provavelmente terá sido um pouco de tudo isso, conjugado com um azar de proporções épicas, a determinar uma das maiores surpresas de toda a história dos Mundiais.

Como sempre, a Hungria entrou melhor e ganhava por 2-0 aos 8 minutos. Mas dois erros defensivos levaram ao 2-2, que se manteve até ao intervalo. Na segunda parte, os húngaros massacraram: ao todo, foram 25 remates à baliza alemã, onde o guarda-redes Turek multiplicava proezas. Quando era batido, havia um poste, uma trave, ou uma perna salvadora sobre o risco, a adiar o terceiro golo, que acabou por cair, mas para a Alemanha, num remate de Rahn, a seis minutos do fim. Um controverso golo anulado a Puskas, logo de seguida, foi o canto do cisne para os homens de Gustav Sebes. O jogo acabava pouco depois, com 3-2 para a Alemanha e o mundo a trocar olhares incrédulos.

Não fora ali, não seria nunca mais: dois anos depois, a intervenção militar soviética em Budapeste levaria à debandada daquela mágica selecção, a melhor da História a jamais ganhar um Mundial. Com ela, também a era romântica do futebol chegava ao fim.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

18

Vingança servida fria em Berna

FICHA DE JOGO

Árbitro: William Ling (Inglaterra)

ALEMANHA – Turek; Posipal, Kohlmeyer e Eckel; Liebrich e Mai; Rahn, Morlock, O. Walter, F. Walter (c) e Schäfer

HUNGRIA – Grosics - Buzánszky, Lantos, Bozsik - Lóránt, Zakariás - Czibor, Kocsis, Hidegkuti, Puskás (c) e M.Tóth

Marcadores: 0-1, Puskás (6); 0-2, Czibor (9); 1-2 Morlock (11); 2-2, Rahn (18); 3-2 Rahn (84)

19
Suíça 1954

Golos, golos e mais golos!

MARCADORES

11 - Kocsis (Hungria)
6 - Probst (Áustria), Morlock (Alemanha) e Hügl (Suíça)
4 - Rahn, Schäfer e O.Walter (Alemanha), Hidegkuti e Puskás (Hungria), Ballaman (Suíça) e Borges (Uruguai)
3 - Stojaspal e Wagner (Áustria), Anoul (Bélgica), Lofthouse (Inglaterra), F. Walter (Alemanha), Czibor (Hungria), Burhan e Suat (Turquia), Hohberg e Miguez (Uruguai)
2 - A. Körner e Ocwirk (Áustria), Didi, Julinho e Pinga (Brasil), Broadis (Inglaterra), Lantos e Palotás (Hungria), Lefter (Turquia), Abbadie e Schiaffino (Uruguai)
1 - Coppens (Bélgica), Baltazár e D. Santos (Brasil), Finney, Mullen e Wilshaw (Inglaterra), Kopa e Vincent (França), Hermann, Klodt e Pfaff (Alemanha), J.Tóth (Hungria), Boniperti, Frignani, Galli, Lorenzi, Nesti e Pandolfini (Itália), Milutinović e Zebec (Jugoslávia), Balcazár e Lamadrid (México), Fatton (Suíça), Erol e Mustafa (Turquia), Ambrois e Varela (Uruguai)
Autogolos - 4 (Cruz, Uruguai), Dickinson (Inglaterra), Cárdenas (México) e Horvat (Jugoslávia)

Total: 140 goals (5,38 média)
Melhor ataque: Hungria (27)
59 jogadores marcaram, Checoslováquia, Escócia e Coreia do Sul não marcaram qualquer golo.

20

1958: o primeiro rei e uma nova dinastia, a brasileira

SE 1954 VIU DESAPARECER uma das maiores equipas de todos os tempos, a Hungria de Ferenc Puskas, quatro anos depois nasce a dinastia reinante do futebol brasileiro, herdeira dos Magníficos Magiares, e a sua primeira grande estrela: Edson Arantes do Nascimento, o moleque Pelé. Ali, aos 17 anos, perante as primeiras câmeras internacionais, é coroado rei do futebol mundial. Pelé, o Primeiro.

As quatro seleções britânicas - Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte - qualificam-se para a fase final. Os irlandeses, treinados por Peter Doherty e capitaneados por Danny Blanchflower, chegaram aos quartos, e aí caem aos pés da França. Os galeses, liderados por John Charles, também são afastados nessa altura pelo futuro campeão. Já a campanha escocesa é tão desastrosa quanto a de quatro anos antes, e a Inglaterra, fragilizada pelo desastre aéreo do Manchester United em Munique, no passado mês de fevereiro, acaba eliminada pela União Soviética.

A única presença inglesa até à final é a de George Raynor, selecionador sueco, que construíra uma equipa competitiva em redor dos históricos Nils Ledholm e Gunnar Gren, medalhas de ouro olímpicos dez anos antes e agora estrelas do campeonato italiano.

A herança de Guttmann

Vicente Feola monta o Brasil num revolucionário 4x2x4, herdado das ideias de Béla Guttmann, futuro campeão europeu de clubes com o Benfica, enquanto treinador do São Paulo, do qual o agora selecionador tinha sido adjunto. Didi é o líder, no meio-campo, Vavá o goleador, Djalma e Nilton Santos laterais de primeira água. No entanto, o início do escrete não é convincente. Depois do triunfo frente à Áustria, empate a zero com a Inglaterra traz contestação e a necessidade de mudar. Entram Garrincha e Pelé no onze, e o futebol não voltará a ser o mesmo.

Depois do vitória magra com o primeiro golo de Pelé frente a Gales, o Brasil produz frente à França do goleador-recordista Just Fontaine e do talentoso Raymond Kopa a sua primeira exibição de gala em solo nórdico. O novo menino bonito não se faz rogado e assina um hat-trick na retumbante vitória por 5-2.

O bailado de Pelé

Segue-se a final. Raynor prevê que se o Brasil ficar a perder por 1-0 entrará em pânico, e a teoria não tarda a ser testada. Liedholm assina o primeiro para a Suécia, mas o escrete não vacila. Garrincha e Vavá combinam duas vezes e viram o resultado à passagem da meia-hora. Depois, é com Pelé. Aos 55 minutos, jovem rei domina a bola com peito, passa-a por cima de um rival em pé em riste e remata para o golo. História a ser escrita.

Zagallo, Simonsson e de novo Pelé voltam a inscrever os seus nomes na lista dos marcadores, elevando o score para 5-2. A Taça Jules Rimet sai mesmo para o Brasil, oito anos depois do Maracanazo. Pelé carrega a bandeira às costas na sua primeira volta triunfal.

RESULTADOS:

Suécia, de 6 a 29 de junho de 1958
Vencedor: Brasil (1º título)
Finalista vencido: Suécia
3º lugar: França
4º lugar: Alemanha (República Federal Alemã)

GRUPO A

08-06 Estádio Örjans Vall (Halmstad) Irlanda do Norte-Checoslováquia, 1-0
08-06 Estádio Malmö (Malmö) Alemanha-Argentina, 3-1
11-06 Estádio Örjans Vall (Halmstad) Argentina-Irlanda do Norte, 3-1
11-06 Estádio Olympiavalle (Hälsingborg) Alemanha-Checoslováquia, 2-2
15-06 Estádio Olympiavalle (Hälsingborg) Checoslováquia-Argentina, 6-1
15-06 Estádio Malmö (Malmö) Alemanha-Irlanda do Norte, 2-2
 
J V E D GM-GS P
Alemanha 3 1 2 0 7-5 4
Checoslováquia 3 1 1 1 8-4 3
Irlanda do Norte 3 1 1 1 4-5 3
Argentina 3 1 0 2 5-10 2

Play-off

17-06 Estádio Malmö (Malmö) Irlanda do Norte-Checoslováquia, 2-1

GRUPO B

08-06 Estádio Arosvallen (Västeraas) Escócia-Jugoslávia, 1-1
08-06 Estádio Idrottsparken (Norrköping) França-Paraguai, 7-3
11-06 Estádio Idrottsparken (Norrköping) Paraguai-Escócia, 3-2
11-06 Estádio Arosvallen (Västeraas) Jugoslávia-França, 3-2
15-06 Estádio Eyravallen (Örebro) França-Escócia, 2-1
15-06 Estádio Tunavallen (Eskilstuna) Paraguai-Jugoslávia, 3-3

J V E D GM-GS P
França 3 2 0 1 11-7 4
Jugoslávia 3 1 2 0 7-6 4
Paraguai 3 1 1 1 9-12 3
Escócia 3 0 1 2 4-6 1

GRUPO C

08-06 Estádio Raasunda (Solna) Suécia-México, 3-0
08-06 Estádio Jernvallen (Sandviken) Hungria-Gales, 1-1
11-06 Estádio Raasunda (Solna) México-Gales, 1-1
12-06 Estádio Raasunda (Solna) Suécia-Hungria, 2-1
15-06 Estádio Raasunda (Solna) Suécia-Gales, 0-0
15-06 Estádio Jernvallen (Sandviken) Hungria-México, 4-0

J V E D GM-GS P
Suécia 3 2 1 0 5-1 5
Hungria 3 1 1 1 6-3 3
Gales 3 0 3 0 3-3 3
México 3 0 1 2 1-8 1

GRUPO D

08-06 Estádio Rimnersvallen (Uddevalla) Brasil-Áustria, 3-0
08-06 Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo) Inglaterra-União Soviética, 2-2
11-06 Estádio Ryavallen (Boraas) União Soviética-Áustria, 2-0
11-06 Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo) Brasil-Inglaterra, 0-0
15-06 Estádio Ryavallen (Boraas) Áustria-Inglaterra, 2-2
15-06 Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo) Brasil-União Soviética, 2-0

J V E D GM-GS P
Brasil 3 2 1 0 5-0 5
Inglaterra 3 0 3 0 4-4 3
União Soviética 3 1 1 1 4-4 3
Áustria 3 0 1 2 2-7 1

Play-off

17-06 Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo) União Soviética-Inglaterra, 1-0

QUARTOS DE FINAL

19-06 Estádio Raasunda (Solna) Suécia-União Soviética, 2-0
19-06 Estádio Malmö (Malmö) Alemanha-Jugoslávia, 1-0
19-06 Estádio Idrottsparken (Norrköping) França-Irlanda do Norte, 4-0
19-06 Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo) Brasil-Gales, 1-0

MEIAS-FINAIS

24-06 Estádio Raasunda (Solna) Brasil-França, 5-2
24-06 Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo) Suécia-Alemanha, 3-1

JOGO DE ATRIBUIÇÃO DO 3º E 4º LUGARES

26-06 Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo) França-Alemanha, 6-3

FINAL

29-06 Estádio Raasunda (Solna) Brasil-Suécia, 5-2

21

A coroação do jovem rei

FICHA DE JOGO

Árbitro: Maurice Guigue (França)

BRASIL – Gilmar; Djalma Santos, Nilton Santos e Zito; Bellini (c) e Orlando; Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo

SUÉCIA - Svensson; Bermark, Axbom e Börjesson; Gustavsson e Parling; Hamrin, Gren, Simonsson, Liedholm (c) e Skoglund

Marcadores: 0-1, Liedholm (4); 1-1, Vavá (9); 2-1, Vavá (32); 3-1, Pelé (55), 4-1, Zagalo (68); 4-2, Simonsson (80); 5-2, Pelé (90)

22
Brasil 1958

Just Fontaine, o homem-golo

MARCADORES

13 - Fontaine (França)
6 - Pelé (Brasil) e Rahn (Alemanha)
5 - Vavá (Brasil) e McParland (Irlanda do Norte)
4 - Zikán (Checoslováquia), Tichy (Hungria), Hamrin e Simonsson (Suécia)
3 - Corbatta (Argentna), Kopa e Plantoni (França), Schäfer (Alemanha) e Vaselinović (Jugoslávia)
2 - Altafini (Brasil), Dvořák e Hovorka (Checoslováquia), Kevan (Inglaterra), Wisnieski (França), Seeler (Alemanha), Petaković (Jugoslávia), Agüero, Amarillo, Parodi e Romero (Paraguai), Liedholm (Suécia), Allchurch (Gales), Ilyin e A.Ivanov (União Soviética)
1 - Avio e Menéndez (Argentina), Koller e A.Körner (Áustria), Didi, N.Santos e Zagalo (Brasil), Feureisl (Checoslováquia), Finney e Haynes (Inglaterra), Douis e Vincent (França), Cieslarczyk (Alemanha), Bencsik, Bozsik e Sándor (Hungria), Ognjenović e Rajkov (Jugoslávia), Belmonte (México), Cush (Irlanda do Norte), Ré (Paraguai), Baird, Collins, Mudie e Murray (Escócia), Gren e Skoglund (Suécia), J.Charles e Medwin (Gales) e Simonian (União Soviética)

Total: 126 golos (3,60 média)
Melhor ataque: França (23 golos)
59 jogadores e todas as equipas marcaram (incluindo 7 que tinham marcado em 1954)

23

1962: quem não tem Pelé caça com Garrincha

TRÊS NAÇÕES CANDIDATAM-SE ao Campeonato do Mundo de 1962, seis anos antes, no Congresso da FIFA de Lisboa. Duas sul-americanas, Argentina e Chile, e uma europeia, a República Federal Alemã. A proposta germânica é excluída para evitar um terceiro torneio consecutivo na Europa, depois de Suíça e Suécia, o que torna a Argentina favorita, com a sua herança futebolística, interesse pelo jogo e estádios maiores. No entanto, a instabilidade política no país das Pampas e a onda de solidariedade que motiva a tragédia dos sismos de 1960 levam a FIFA a entregar a organização aos chilenos. «Não temos nada, por isso é que temos de ter o Mundial», foram as famosas palavras de Carlos Dittborn, presidente da federação do país, que terão ajudado a convencer o organismo.

Apesar da pobreza, o Chile propõe-se construir novos palcos, e um magnífico Estádio Nacional, em Santiago, está pronto para o início da competição. O projeto original abrange oito estádios diferentes, mas novo terramoto de grandes proporções em Valdiva, sul de Santiago, reduz os planos para três cidades e três diferentes infra-estruturas, bem mais pequenos que o da capital.

O nível do futebol praticado, com Pelé também afastado por lesão logo ao segundo jogo, é que deixa muito a desejar, apesar dos esforços do pássaro Mané Garrincha com as suas fintas imparáveis. O Brasil mantém a estrutura de 1958, com um importante reforço: Amarildo. É ele quem assume o lugar do rei lesionado.

Apesar de as seleções africanas e asiáticas participarem na qualificação, apenas europeias e americanas chegam à fase final. Estão obrigadas a um jogo extra, frente a adversários europeus, o que diminui as suas hipóteses. Só daí a oito anos uma formação do continente negro chegará a uma fase final, precisamente quando a FIFA lhes abre uma vaga garantida. A Suécia, vice-campeã, é uma das grandes ausentes, não resiste à qualificação.

Acabam os jogos de repetição após uma igualdade, e o primeiro critério de desempate passa a ser a diferença de golos. Tal como nas edições anteriores, não são permitidas substituições, nem são mostrados cartões amarelos ou vermelhos, embora se registem seis expulsões durante toda a competição.

Uma das grandes estrelas presentes é Ferenc Puskas, mas desta vez ao serviço da seleção espanhola, depois de ter mudado de nacionalidade com a Revolução Húngara. Mudar de país é algo bastante frequente nesta altura.

Setenta mil espectadores assistem a La Batalla de Santiago entre Chile e Itália, com dois jogadores transalpinos a receber ordem de expulsão e muitos outros a merecer castigo idêntico, depois de inúmeros pontapés e socos no relvado. A escolta policial no final pontua o final da partida, com os locais a vencer por 2-0. Os chilenos derrotam depois a campeã europeia União Soviética e atingem, surpreendentemente, as meias-finais, onde defrontam o Brasil. Garrincha e Vavá carregam o escrete para nova final, desta vez frente à Checoslováquia, que elimina a Jugoslávia. Os da casa festejam o terceiro lugar como se fosse o primeiro. As expetativas eram bem mais baixas.

Garrincha, expulso na meia-final, é autorizado a estar no jogo decisivo. Mais uma vez, é o adversário quem marca primeiro, por Masopust, e de novo nada lhe serve. O escrete dá a volta e vence por 3-1, com golos de Amarildo, Zito e Vavá. Mesmo sem Pelé, o Brasil consegue defender o título. É a maior potência do planeta.

RESULTADOS:

Chile, de 30 de maio a 19 de junho de 1962
Vencedor: Brasil (2º título)
Finalista vencido: Checoslováquia
3º lugar: Chile
4º lugar: Jugoslávia

GRUPO A

30-05 Estádio Carlos Dittborn (Arica) Uruguai-Colômbia, 2-1
31-05 Estádio Carlos Dittborn (Arica) União Soviética-Jugoslávia, 2-0
02-06 Estádio Carlos Dittborn (Arica) Jugoslávia-Uruguai, 3-1
03-06 Estádio Carlos Dittborn (Arica) União Soviética-Colômbia, 4-4
06-06 Estádio Carlos Dittborn (Arica) União Soviética-Uruguai, 2-1
07-06 Estádio Carlos Dittborn (Arica) Jugoslávia-Colômbia, 5-0

J V E D GM-GS P
União Soviética 3 2 1 0 8-6 5
Jugoslávia 3 2 0 1 8-3 4
Uruguai 3 1 0 2 4-6 2
Colômbia 3 0 1 2 5-11 1

GRUPO A

30-05 Estádio Nacional (Santiago) Chile-Suíça, 3-1
31-05 Estádio Nacional (Santiago) Itália-Alemanha, 0-0
02-06 Estádio Nacional (Santiago) Chile-Itália, 2-0
03-06 Estádio Nacional (Santiago) Alemanha-Suíça, 2-1
06-06 Estádio Nacional (Santiago) Alemanha-Chile, 2-0
07-06 Estádio Nacional (Santiago) Itália-Suíça, 3-0

J V E D GM-GS P
Alemanha 3 2 1 0 4-1 5
Chile 3 2 0 1 5-3 4
Itália 3 1 1 1 2-3 3
Suíça 3 0 0 3 2-8 0

GRUPO C

30-05 Estádio Sausalito (Viña del Mar) Brasil-México, 2-0
31-05 Estádio Sausalito (Viña del Mar) Checoslováquia-Espanha, 1-0
02-06 Estádio Sausalito (Viña del Mar) Brasil-Checoslováquia, 0-0
03-06 Estádio Sausalito (Viña del Mar) Espanha-México, 1-0
06-06 Estádio Sausalito (Viña del Mar) Brasil-Espanha, 2-1
07-06 Estádio Sausalito (Viña del Mar) México-Checoslováquia, 3-1

J V E D GM-GS P
Brasil 3 2 1 0 4-1 5
Checoslováquia 3 1 1 1 2-3 3
México 3 1 0 2 3-4 2
Espanha 3 1 0 2 2-3 2

GRUPO D

30-05 Estádio Braden (Rancagua) Argentina-Bulgária, 1-0
31-05 Estádio Braden (Rancagua) Hungria-Inglaterra, 2-1
02-06 Estádio Braden (Rancagua) Inglaterra-Argentina, 3-1
03-06 Estádio Braden (Rancagua) Hungria-Bulgária, 6-1
06-06 Estádio Braden (Rancagua) Argentina-Hungria, 0-0
07-06 Estádio Braden (Rancagua) Bulgária-Inglaterra, 0-0

J V E D GM-GS P
Hungria 3 2 1 0 8-2 5
Inglaterra 3 1 1 1 4-3 3
Argentina 3 1 1 1 2-3 3
Bulgária 3 0 1 2 1-7 1

QUARTOS DE FINAL

10-06 Estádio Carlos Dittborn (Arica) Chile-União Soviética, 2-1
10-06 Estádio Nacional (Santiago) Jugoslávia-Alemanha, 1-0
10-06 Estádio Sausalito (Viña del Mar) Brasil-Inglaterra, 3-1
10-06 Estádio Braden (Rancagua) Checoslováquia-Hungria, 1-0

MEIAS-FINAIS

13-06 Estádio Nacional (Santiago) Brasil-Chile, 4-2
13-06 Estádio Sausalito (Viña del Mar) Checoslováquia-Jugoslávia, 3-1

JOGO DE ATRIBUIÇÃO DO 3º E 4º LUGARES

16-06 Estádio Nacional (Santiago) Chile-Jugoslávia, 1-0

FINAL

17-06 Estádio Nacional (Santiago) Brasil-Checoslováquia, 3-1

24
Garrincha

O anjo da ponta direita

MANÉ GARRINCHA, extremo-direito do Brasil, tinha pernas deformadas e alcunha de pássaro. Foi o maior driblador da história e tornou-se sinónimo de fantasia nos relvados.

A um passe de Didi, Garrincha avança. O estádio sustém a respiração. O público sabe o que ele vai fazer. Os colegas sabem o que ele vai fazer. O adversário sabe o que ele vai fazer. Garrincha, claro, esse sempre soube, antes de todos os outros, o que ia fazer. Como nos jogos de infância, em Pau Grande, ia gingar para a esquerda e sair pela direita. A questão não era, nunca foi, «o quê». Era, sim, «quando».

Esteve para ser «nunca», assim que o médico do Botafogo examinou as pernas daquele candidato à primeira equipa. Uma separação de seis centímetros entre os joelhos, a perna esquerda muito arqueada para fora, a direita outro tanto para dentro, a bacia inclinada, a acompanhar o desenho das vírgulas que a ligavam aos pés. Mas no primeiro treino chegou perto de Nilton Santos, titular da selecção brasileira, e fez o mesmo de sempre: gingou para a esquerda e saiu pela direita. Uma vez. Duas. Três. Em todas elas saiu disparado, rumo à linha de fundo da eternidade.

Cinco anos mais tarde, no Mundial da Suécia, Garrincha esperou dois jogos na reserva. Ao terceiro, contra a URSS, só precisou de 40 segundos para driblar quem lhe apareceu à frente e acertar na trave de Iashin. Vinte segundos depois tinha dado a bola ao também estreante Pelé. Outro tiro na trave. Aos três minutos desse jogo, finalmente, o passe para o primeiro golo de Vavá. Para trás ficava um rasto de russos sentados no relvado e gargalhadas nas bancadas. E ficavam também, nas palavras do jornalista francês Gabriel Hanot, «os maiores três minutos da história do futebol mundial». Sempre com a mesma ginga para a esquerda e saída pela direita.

Nunca a perfeição foi tão repetitiva. Nunca a perfeição foi tão imperfeita. Garrincha tinha quase tudo contra si. As pernas deformadas. Um intelecto limitado, caracterizado pela total ausência de agressividade. Além disso não sabia o que fazer ao pé esquerdo. E trocava uma caminhada em linha recta em direcção à baliza pelo prazer dos atalhos que lhe permitiam encontrar mais alvos para os seus dribles. Ou antes, «do» drible. Do drible com saída pela direita.

Desde esse 15 de Junho até à consagração, catorze dias mais tarde, Garrincha fez o mesmo a galeses, franceses e suecos. Bastaram quatro jogos para os adeptos de todo o planeta descobrirem o primeiro jogador capaz de levar sorrisos para os relvados dos Mundiais. Reproduzindo, nos palcos mais sérios, o divertimento malandro das peladas de miúdos, Garrincha foi a desforra definitiva do futebol de rua sobre a falsa gravidade de um Campeonato do Mundo. E foi de todos os grandes o que mais cativou os poetas.

Se a sua entrada em cena foi demolidora, o auge da carreira estava ainda guardado para 1962.

Quatro anos antes, Garrincha fora acompanhado pela explosão de um fenómeno de 17 anos, chamado Pelé. E também pela sabedoria madura de Didi, o inventor da folha seca, o craque que «jogava um Mundial como quem chupava laranja», na definição do próprio Pelé. Mas no Chile, com o «Rei» lesionado logo no segundo jogo e o escrete quatro anos envelhecido, Garrincha teve de pegar na equipa em ombros. Sempre a partir da linha, sempre a gingar para a esquerda e a sair pela direita, desdobrou-se em golos, assistências e incontáveis repetições do mesmo drible.

Esteve quase a falhar a final, por, pela primeira e única vez, numa carreira pontuada por caneladas épicas e rasteiras homéricas, ter respondido a uma agressão do chileno Rojas. O governo brasileiro intercedeu, lembrando a folha disciplinar imaculada do anjo das pernas tortas e a FIFA fechou os olhos. Garrincha jogou e o Brasil foi bicampeão, com um sorriso malandro no canto dos lábios. Nunca, até aí, um só jogador tivera tanto peso na consagração de uma equipa. Seriam precisos mais 24 anos para Maradona conseguir proeza semelhante, no México: ganhar um Mundial quase sozinho e recolher, na ponta do pé esquerdo, o sorriso que Garrincha deixara no ar.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

25

Nas asas do pequeno pássaro

Árbitro: Nikolai Latichev (União Soviética)

BRASIL – Gilmar; Djalma Santos, Nílton Santos e Zito; Mauro (c), Zózimo, Garrincha e Didi; Vavá, Amarildo e Zagalo

CHECOSLOVÁQUIA – Schrojf; Tichý, Novák (c) e Masopust; Popluhár e Pluskal; Pospichal, Scherer, Kadraba, Kvašňák e Jelinek

Marcadores: 0-1, Masopust (15); 1-1, Amarildo (17); 2-1, Zito (69); 3-1, Vavá (78)

26
1962

Um Escrete ao ataque

MARCADORES

4 - Garrincha* e Vavá (Brasil), L.Sánchez (Chile), Albert (Hungria), Jerković (Jugoslávia), V. Ivanov (União Soviética)
3 - Amarildo (Brasil), Scherer (Checoslováquia), Galić (Jugoslávia), Tichy (Hungria)
2 - Ramirez, Rojas e Toro (Chile); Flowers (Inglaterra), Seeler (Alemanha), Bulgarelli (Itália), Sasia (Uruguai), Chislenko e Ponedelnik (União Soviética)
1 - Facundo e Sanfilippo (Argentina), Pelé, Zagalo e Zito (Brasil), Asparoukhov (Bulgária), Aceros, Coll, Klinger, Rada e Zuluaga (Colômbia), Kadraba, Mašek, Masopust e Štibrányi (Checoslováquia), R. Charlton, Greaves, Hitchens (Inglaterra), Adelárdo e Peiró (Espanha), Brülls e Szymaniak (Alemanha), Solymosi (Hungria), Mora (Itália), Melić, Radaković, Skoblar (Jugoslávia), Del'Aguila, Diaz e Hernández (México), Scheitner e Wüthrich (Suíça), Cabrera e Cubilla (Uruguai), Mamikin (União Soviética)

* Garrincha ganhou o prémio de melhor marcador por sorteio.

Total: 89 golos (2,78 média)
Melhor ataque: Brasil (14)
54 jogadores (seis repetiram o feito de 1958) marcaram. Todas as equipas marcaram.

27

1966: a Inglaterra regista finalmente a patente

O FUTEBOL REGRESSA A CASA, e coroa os seus auto-proclamados inventores, tal como Alf Ramsey tinha profetizado depois de assumir o comando da seleção inglesa em 1963. Não é o passeio esperado, surgem no caminho três fantásticas gerações de jogadores reunidas nas equipas de Portugal - com Eusébio, Torres e Coluna, entre outros Magriços famosos -, República Federal Alemã e União Soviética, além do Brasil de Pelé, e não é conseguido sem controvérsia, com um golo-fantasma, que terá ficado aquém de passar a linha.

World Cup Willie é a primeira mascote de uma fase final. São introduzidos os controlos anti-doping, e a FIFA deixa de permitir a naturalização de jogadores. Dezasseis seleções africanas boicotam o torneio em protesto contra a existência de um play-off de apuramento para o campeão africano frente aos congéneres asiáticos ou da Oceania. A Taça Jules Rimet é roubada durante um evento, e encontrada uma semana depois por um cão chamado Pickles. Como medida de segurança, a FIFA mandou fazer uma réplica para a festa de campeão.

O sorteio é o primeiro a ter honras de transmissão televisiva. Com Sir Stanley Rous à frente da presidência da FIFA, a Inglaterra fica com a vantagem de disputar todos os seus jogos na fortaleza de Wembley, mas mesmo assim o arranque não vai além de um nulo frente ao Uruguai. A partida começa com atraso porque vários futebolistas britânicos esquecem-se do cartão de identidade no hotel. Um polícia motociclista é enviado para recolhê-los.

Seguem-se triunfos perante México e França, e a Argentina nos quartos de final. Os sul-americanos garantem a presença na fase a eliminar qualificando-se de um grupo onde também está a Alemanha, onde floresce um dos melhores futebolistas de todos os tempos, o jovem líbero Franz Beckenbauer.

A Argentina mostra-se um osso duro de roer, pela agressividade excessiva que coloca em campo. Antonio Rattín, o capitão, é expulso, seguem-se dez minutos de protestos, e quando o encontro é retomado a Seleção dos Três Leões chega à vitória. É Geoff Hurst, suplente de Jimmy Greaves e que se tornaria herói inglês poucos dias depois, quem cabeceia para as redes, depois de um cruzamento de Martin Peters. Ramsey impede que os jogadores ingleses troquem camisolas com os adversários, e chama-os de «animais».

Outro jogo entre europeus e sul-americanos, França e Uruguai, tem de ser disputado no Estádio London White City, que não é palco tradicional para jogos de futebol, porque uma corrida de galgos está marcada para Wembley e os organizadores recusam cancelá-la.

O grupo mais interessante é aquele precisamente onde está o bicampeão Brasil, uma Hungria a tentar renascer e Portugal, construído à volta do Benfica campeão europeu poucos anos antes. A Bulgária aparenta ser o elo mais fraco, mas desempenha um papel importante no torneio, ao limitar fisicamente Pelé ao ponto de este ter de abandonar o relvado.

No jogo seguinte, a Hungria destroça o Brasil, com Florian Albert e Ferenc Bene em grande destaque. O escrete não perdia em jogos do campeonato do mundo desde 1954, e logo de seguida a sua situação ainda iria piorar. Morais voltou a mover uma marcação impiedosa e altamente agressiva a Pelé, e Eusébio ofuscou todos os restantes brasileiros, com Portugal a vencer por 3-1. O 10 brasileiro iria quatro anos depois quebrar a jura de não voltar a jogar no Mundial.

Pior do que o Brasil, a Itália. Com os seus clubes no topo do futebol europeu, a squadra azzurra foi arrumada pela União Soviética, e acabou eliminada pela Coreia do Norte e um golo de Pak Doo-Ik. Os Magriços parecem ter destino idêntico aos transalpinos com 22 minutos jogados nos quartos de final e um inesperado 3-0 no marcado, mas Eusébio coloca a capa de super-herói e assina quatro em meia-hora frente aos asiáticos.

A RFA goleia o Uruguai, a União Soviética ultrapassa a Hungria. Já nas meias-finais, Portugal é ultrapassado pela melhor exibição da Inglaterra e de, sobretudo, Bobby Charlton, apesar dos esforços de Torres e Eusébio. Na outra meia-final, o melhor guarda-redes do mundo, Lev Yashin, comete o erro que afasta os soviéticos, aproveitado da melhor forma por Helmut Haller, que voltará a inaugurar o marcador na final de Wembley,

Hurst empata, Peters, aos 78 minutos, parece ter garantido o troféu, mas já a Alemanha, ainda apenas a Ocidental, granjeia o rótulo de equipa que nunca desiste. Wolfgang Weber empata nos descontos, e leva a partida para o prolongamento, apesar do desgaste evidente dos germânicos, obrigados a longas correrias pelo velocista Alan Ball.

O segundo golo de Hurst continua polémico aos dias de hoje. Passou ou não a linha? Talvez não. No entanto, o fiscal de linha Bakhramov acena com a cabeça com uma confiança tal que dá uma vantagem irreparável ao conjunto da casa. O hat-trick de Hurst no último minuto confirma os inventores finalmente como senhores do jogo. Por pouco tempo.

RESULTADOS:

Inglaterra, de 11 a 30 julho de 1966
Vencedor: Inglaterra (1º título)
Finalista vencido: Alemanha (República Federal Alemã)
3º lugar: Portugal
4º lugar: União Soviética

GRUPO A

11-07 Estádio de Wembley (Londres) Inglaterra-Uruguai, 0-0
13-07 Estádio de Wembley (Londres) França-México, 1-1
15-07 Estádio Olímpico de White City (Londres) Uruguai-França, 2-1
16-07 Estádio de Wembley (Londres) Inglaterra-México, 2-0
19-07 Estádio de Wembley (Londres) Uruguai-México, 0-0
20-07 Estádio de Wembley (Londres) Inglaterra-França, 2-0

J V E D GM-GS P
Inglaterra 3 2 1 0 4-0 5
Uruguai 3 1 2 0 2-1 4
México 3 0 2 1 1-3 2
França 3 0 1 2 2-5 1

GRUPO B

12-07 Estádio de Hillsborough (Sheffield) Alemanha-Suíça, 5-0
13-07 Estádio Villa Park (Birmingham) Argentina-Espanha, 2-1
15-07 Estádio de Hillsborough (Sheffield) Espanha-Suíça, 2-1
16-07 Estádio Villa Park (Birmingham) Argentina-Alemanha, 0-0
19-07 Estádio de Hillsborough (Sheffield) Argentina-Suíça, 2-0
20-07 Estádio Villa Park (Birmingham) Alemanha-Espanha, 2-1

J V E D GM-GS P
Alemanha 3 2 1 0 7-1 5
Argentina 3 2 1 0 4-1 5
Espanha 3 1 0 2 4-5 2
Suíça 3 0 0 3 1-9 0

GRUPO C

12/07 Estádio Goodison Park (Liverpool) Brasil-Bulgária, 2-0
13/07 Estádio Old Trafford (Manchester) Portugal-Hungria, 3-1

Portugal Carvalho; Morais, Baptista, Vicente e Hilário; Jaime Graça, Coluna (c) e José Augusto; Eusébio, Torres e Simões

Hungria – Szentmihalyi; Mátrai, Káposzta, Sovari e Mészöly; Sipos (c), Bene e Nagy; Albert, Farkas e Rakosi

Marcadores: 1-0 Augusto (2); 1-1 Bene (59); 2-1, José Augusto (65); 3-1, Torres (89)

15/07 Estádio Goodison Park (Liverpool) Hungria-Brasil, 3-1
16/07 Estádio Old Trafford (Manchester) Portugal-Bulgária, 3-0

Portugal José Pereira; Festa, Germano, Vicente e Hilário; Jaime Graça, Coluna (c) e José Augusto; Eusébio, Torres e Simões

Bulgária Naidenov; Shalamanov, Vutzov, Gaganelov (c) e Penev; Zhekov, Zhechev e Yakimov; Dermendyev, Asparoukhov e Kostov

Marcadores: 1-0, Vutzov (7 pb); 2-0 Eusébio (38); 3-0, Torres (82)

19/07 Estádio Goodison Park (Liverpool) Portugal-Brasil, 3-1

Portugal José Pereira; Morais, Baptista, Vicente e Hilário; Graca, Coluna (c) e José Augusto - Eusébio, Torres e Simões

Brasil Manga; Fidelis, Brito, Orlando (c) e Rildo; Denilson, Lima e Jairzinho; Silva, Pelé e Paraná

Marcadores: 1-0 ,Simões (15); 2-0, Eusébio (36); 2-1, Rildo (73); 3-1, Eusébio (85)

20/07 Estádio Old Trafford (Manchester) Hungria-Bulgária, 3-1

J V E D GM-GS P
Portugal 3 3 0 0 9-2 6
Hungria 3 2 0 1 7-5 4
Brasil 3 1 0 2 4-6 2
Bulgária 3 0 0 3 1-8 0

GRUPO D

12/07 Estádio Ayresome Park (Middlesborough) União Soviética-Coreia Norte, 3-0
13/07 Estádio Roker Park (Sunderland) Itália-Chile, 2-0
15/07 Estádio Ayresome Park (Middlesborough) Chile-Coreia Norte, 1-1
16/07 Estádio Roker Park (Sunderland) União Soviética-Itália, 1-0
19/07 Estádio Ayresome Park (Middlesborough) Coreia Norte-Itália, 1-0
20/07 Estádio Roker Park (Sunderland) União Soviética-Chile, 2-1

J V E D GM-GS P
União Soviética 3 3 0 0 6-1 6
Coreia Norte 3 1 1 1 2-4 3
Itália 3 1 0 2 2-2 2
Chile 3 0 1 2 2-5 1

QUARTOS DE FINAL

23/07 Estádio de Wembley (Londres) Inglaterra-Argentina, 1-0
23/07 Estádio de Hillsborough (Sheffield) Alemanha-Uruguai, 4-0
23/07 Estádio Goodison Park (Liverpool) Portugal-Coreia Norte, 5-3

Portugal José Pereira; Morais, Baptista, Vicente e Hilário; Jaime Graça, Coluna (c) e José Augusto; Eusébio, Torres e Simões

Coreia do Norte Lee Chan-myung; Lim Zoong-sun, Lee Dong-woon, Shin Yung-kyoo e Ha Yung-won; Oh Yoon-kyung, Park Seung-zin (c) e Im Seung-hwi; Han Bong-zin, Park Doo-ik e Yang Seung-kook

Marcadores: 0-1, Park Seung-zin (1); 0-2, Lee Dong-woon (22); 0-3, Yang Seung-kook (24); 1-3, Eusébio (27); 2-3, Eusébio (42 gp); 3-3, Eusébio (57); 4-3, Eusébio (59 gp); 5-3, José Augusto (79)

23/07 Estádio Roker Park (Sunderland) União Soviética-Hungria, 2-1

MEIAS-FINAIS

25/07 Estádio Goodison Park (Liverpool) Alemanha-União Soviética, 2-1
26/07 Estádio de Wembley (Londres) Inglaterra-Portugal, 2-1

Inglaterra – Banks; Cohen, Wilson, Stiles e Jackie Charlton; Moore (c), Ball e Bobby Charlton; Hurst, Hunt e Peters

Portugal José Pereira; Festa, Baptista, José Carlos e Hilário; Jaime Graça, Coluna (c) e José Augusto - Eusébio, Torres e Simões

Marcadores: 1-0, Bobby Charlton (30); 2-0, Bobby Charlton (79); 2-1, Eusébio (82 gp)

JOGO DE ATRIBUIÇÃO DO 3º E 4º LUGARES

28/07 Estádio de Wembley (Londres) Portugal-União Soviética, 2-1

Portugal José Pereira; Festa, Baptista, José Carlos e Hilário; Jaime Graça, Coluna (c) e José Augusto; Eusébio, Torres e Simões

União Soviética – Yashin (c); Ponomarev, Khurtsilava, Voronin e Danilov; Korneyev, Sichinava, Metreveli e Banichevski; Malafeev e Serebrianikov

Marcadores: 1-0, Eusébio (12 gp); 1-1, Malafeev (43); 2-1, Torres (88)

FINAL

30/07 Estádio de Wembley (Londres) Inglaterra-Alemanha, 4-2 ap

28
Eusébio

Eusébio, o Pelé da Europa (ou vice-versa?)

EUSÉBIO FOI O MELHOR marcador e a grande figura do Mundial-1966, na campanha que terminou com o terceiro lugar de Portugal.

Mal soa o apito final o guarda-redes Gordon Banks aproxima-se de Eusébio, que anda por ali, de olhos na baliza da Inglaterra, e dirige-lhe o primeiro cumprimento, antes de festejar a presença na final do Mundial. Eusébio retribui. Responde também à saudação de Nobby Stiles, a sua sombra naquela tarde de Wembley. Depois, chora.

Pode contar-se Eusébio pelas imagens que sobreviveram aos anos. As lágrimas de Wembley, claro. Ou a perna em ângulo recto para o golo que vence o Brasil, seguida do sorriso de felicidade e do salto de braço no ar em direcção à multidão. E o momento em que marca à Coreia do Norte e vai buscar a bola do fundo das redes, para recomeçar o jogo o mais rápido possível e poder marcar mais um, e outro, e outro.

Também se pode falar de Eusébio através dos nomes que lhe acrescentaram e tentaram resumi-lo em elogios, adjectivos e cognomes sem fim, inventados e repetidos ao ritmo dos golos que marcou e dos títulos que ganhou. Para chegar à conclusão que depois de tudo ficou apenas Eusébio, sem mais. O nome é universal como poucos foram.

Começou por ser Maga, abreviatura para dizer rápido e forte entre os meninos que jogavam com bola de trapos na Mafalala, subúrbio pobre de Lourenço Marques, hoje Maputo e capital de Moçambique independente. Nasceu aí o fenómeno que havia de se tornar uma combinação perfeita de força, velocidade, intuição, técnica apurada e um remate impiedoso, para gastar mais alguns adjectivos.

Já era Eusébio, com direito a nome próprio e primeiras páginas nos jornais, quando partiu rumo a Lisboa, tudo por causa do braço-de-ferro que Benfica e Sporting arrastaram para tentar a sua contratação. Foi comparado a Pelé logo na sua estreia internacional. Poucos dias depois de vestir pela primeira vez a camisola do Benfica defrontou em Paris o Santos. Marcou três golos nesse frente a frente com Pelé, desencadeando as comparações que haviam de ser constantes na sua carreira. E o incomodariam, tantas vezes. «Chamarem-me Pelé da Europa não é insulto para mim, mas de certeza que não chamam a ninguém Eusébio do Brasil», repetiu ainda agora, para o livro «Sport Europa e Benfica».

Foi Pantera Negra cinco anos antes de 1966. O nome veio com a estreia em Wembley, numa derrota com sabor a confirmação para Eusébio, então um menino de 19 anos que maravilhou Inglaterra nesse encontro de apuramento para o Mundial-62.

Quando chegou finalmente ao Mundial, quatro anos depois, Eusébio já se dizia Iusibiô com acento de admiração. Tinha em casa a Bola de Ouro para o melhor jogador da Europa, ganha no ano anterior, tinha sido protagonista de três finais da Taça dos Campeões Europeus com o Benfica.

A primeira presença de Portugal num Mundial já tinha a sua assinatura, com uma página brilhante escrita em Bratislava, numa vitória épica frente à Checoslováquia e golo memorável de Eusébio. Depois Portugal viaja para Inglaterra, com Otto Glória a treinador, Manuel da Luz Afonso a seleccionador, uma equipa experiente e Eusébio, número 13 nas costas por capricho de sorteio.

O filme de 1966 sublima Eusébio e eterniza-o. Pode-se contá-lo também ao ritmo dos golos, os nove que lhe deram o título de melhor marcador do Mundial-66. O primeiro foi frente à Bulgária (3-0), depois da vitória na estreia sobre a Hungria: Simões mete a bola na área, Eusébio deriva para a direita a fugir à marcação e remata para o lado contrário.

O apuramento estava perto, mas o adversário seguinte era o Brasil. Bicampeão do Mundo, com Pelé e ainda Garrincha, mas pouco. Mané, em fase descendente da carreira, não jogou frente a Portugal, Pelé esteve em campo, mas vinha de uma lesão no primeiro jogo e foi uma sombra, até sair em ombros, depois de uma entrada dupla de Morais. O rei foi Eusébio.

Liverpool, 19 de Julho de 1966, Portugal-Brasil. Ao quarto de hora Eusébio cruza da esquerda, Manga defende para a frente e Simões cabeceia. 1-0. Dez minutos depois a bola parte de um livre de Jaime Graça, Torres amortiza, Eusébio ganha de cabeça e faz o 2-0. Insiste, inventa oportunidades: sobe pela esquerda, remata forte, Manga segura; a seguir tenta de livre, a barra estremece; depois sobe pela direita e remata, Manga já sua. Faltam cinco minutos, Rildo já tinha feito 1-2 para o Brasil. Há um canto de Simões, a bola vai para Torres, ressalta, salta sobre a relva, Eusébio vai ao seu encontro, assenta a perna esquerda, puxa a direita atrás e dispara. «Have you ever seen anything like that?», grita o comentador inglês enquanto Eusébio corre para a consagração.

Neste filme em crescendo, a Coreia do Norte e os quatro golos de Eusébio foram o clímax da odisseia de 1966, a Inglaterra o ponto final. A meia-final jogou-se no estádio mítico em que a Inglaterra teve lugar cativo, forçando Portugal a uma viagem imprevista de comboio de Liverpool a Londres. Bobby Charlton, referência da selecção inglesa, marcou dois golos e sentenciou a decisão. A oito minutos do fim Jack Charlton aliviou a bola com a mão, Eusébio bateu o penalty e transformou-o no primeiro golo sofrido pela Inglaterra nesse campeonato.

Eusébio dava tudo. O profundo respeito pelo jogo é outra forma de contar o grande jogador que foi. Daí as lágrimas que não consegue conter depois do fim em Wembley, escondendo a cara na camisola vermelha. Ou outra imagem, como epílogo de 1966: o cumprimento a Yashin em vez da celebração, depois do penalty que marcou ao grande guarda-redes soviético, no jogo para decidir o terceiro lugar no Mundial.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

29
Taça Jules Rimet

Jules Rimet: a taça que não teve vida fácil

A PRIMEIRA TAÇA para o vencedor do Campeonato do Mundo teve uma vida atribulada. Escondida durante a II Guerra Mundial, foi roubada duas vezes. Da primeira foi descoberta por um cão, à segunda acabou por ser derretida.

A vida da Taça Jules Rimet é um livro de aventuras, a que não faltam heróis improváveis, histórias de polícias e ladrões e um final misterioso.

Concebida em 1928, consagrada nos regulamentos que criaram o Campeonato do Mundo, a pequena estatueta nasceu em 1930, sob a forma de uma figura alada que representava a deusa grega da vitória, segurando um cálice octogonal. Feita de prata de lei e ouro, assentava sobre uma base em pedra semi-preciosa onde repousavam as placas que haviam de receber os nomes dos campeões, pesava 3,8 quilos e media 35 centímetros. Custou 50 mil francos, uma fortuna para a época.

Teve uma infância itinerante, mas tranquila. O seu primeiro momento de glória foi no Uruguai, depois mudou-se para Itália, onde ficou muito mais tempo do que esperaria à guarda dos campeões do Mundo de 1934 e 1938, apanhada, como todo o planeta, na voragem da II Guerra Mundial. Sobreviveu-lhe, não sem alguns sobressaltos. A lenda conta que foi um dirigente da Federação italiana, Ottorino Barassi, quem a escondeu da cobiça do «Eixo» italo-alemão, e que terá andado numa caixa de sapatos, debaixo da sua cama, até ser depositada num banco em Roma.

Só em 1946, depois de passada a guerra, foi baptizada com o seu nome definitivo: Taça Jules Rimet, em homenagem ao homem que idealizou o Campeonato do Mundo, o mesmo que em 1950 a transportava debaixo do braço, de olhar perdido no Maracanã, à procura do capitão dos campeões do Mundo que não estavam no programa.

A Jules Rimet passou o resto da adolescência sem dar sinais de instabilidade, a maior parte do tempo ao abrigo do calor do Brasil, o campeão de 1958 e 1962. Já estava na idade adulta quando viajou para Inglaterra. Chegou meses antes do Mundial’66, para ser mostrada aos britânicos. Em Março de 1966 era a figura central de uma exposição no Centrall Hall de Westminster, em Londres, que tinha por tema «Desporto e selos».

No dia 20 de Março desapareceu misteriosamente da vitrina onde se encontrava, aproveitando um serviço religioso noutro local do edifício para desviar as atenções. Escândalo, chamou-se a Scotland Yard. Estava a polícia britânica a virar Londres e arredores de pernas para o ar à procura de pistas quando um cão resolveu o assunto. Pickles passeava com o seu dono, David Corbett, quando farejou algo junto a uns arbustos. Corbett foi ver e encontrou um embrulho, com um objecto dentro. Abriu, começou por ver ouro e as palavras «Brasil 1962». Correu para casa para contar à mulher, depois dirigiu-se à esquadra mais próxima e salvou a honra inglesa. A descoberta valeu uma recompensa a Corbett e fama eterna para Pickles.

A Inglaterra não ganhou para o susto e não quis deixar-se enganar segunda vez. Por isso a Federação inglesa mandou fazer uma réplica em bronze da Jules Rimet e no dia da final de 1966 levou ambas para Wembley. A rainha entregou o troféu verdadeiro a Bobby Moore, mas no meio da festa um polícia trocou as taças, e foi com o troféu falso que a selecção inglesa prosseguiu os festejos da vitória.

Depois das aventuras inglesas a Jules Rimet ganhou companheiro definitivo. Levou-a o Brasil, junto com o título de 1970. Os regulamentos diziam que um país que vencesse três vezes o Mundial podia ficar com a taça para sempre, o Brasil de Pelé ganhou esse direito.

Treze anos depois a Jules Rimet desapareceu de vez. Na noite de 19 de Dezembro de 1983 foi levada da vitrina onde estava exposta na sede da Confederação brasileira, com vidro à prova de bala mas com a base à mercê de um pé de cabra, e nunca mais apareceu. Foram presos e condenados vários suspeitos, entre os quais o argentino dono de uma ourivesaria que teria sido o receptor. Até Pelé intercedeu, num apelo para que a taça fosse devolvida, mas nada feito. Foi-se, provavelmente derretida para aproveitar o ouro. Ao Brasil restou uma réplica, apresentada como consolo em 1984.

Para premiar os futuros campeões do Mundo a FIFA mandou fazer nova taça. O italiano Sílvio Gazzaniga ganhou o concurso e criou o troféu actual, que representa dois atletas a segurar o globo. A Taça do Mundo da FIFA, nome oficial, é feita de ouro maciço, as faixas verdes na base são de malaquita, um mineral semi-precioso, e é maior que a sua antecessora: mede 36,5 cm, pesa 6,175 quilos. O seu destino é itinerante, ninguém a ganhará em definitivo.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

30

A marca de Hurst

Árbitro: Gottfried Dienst (Suíça)

Inglaterra – Banks; Cohen, Jackie Charlton, Moore (c) e Wilson; Stiles, Bobby Charlton e Peters; Ball, Hunt e Hurst

Alemanha – Tilkowski; Höttges, Schulz, Weber e Schnellinger; Beckenbauer, Overath e Haller; Seeler (c), Held e Emmerich

Marcadores: 0-1, Haller (12); 1-1, Hurst (18); 2-1, Peters (78); 2-2, Weber (90); 3-2, Hurst (101); 4-2, Hurst (120)

31
Mundial 1966

A força das quinas

MARCADORES

9 - Eusébio (Portugal)
6 - Haller (Alemanha)
4 - Hurst (Inglaterra), Beckenbauer (Alemanha), Bene (Hungria) e Perkujan (União Soviética)
3 - Artime (Argentina), Bobby Charlton e Hunt (Inglaterra), José Augusto e Torres (Portugal) e Malafeev (União Soviética)
2 - Marcos (Chile), Seeler (Alemanha), Mészöly (Hungria), Park Seung-sin (Coreia Norte) e Chislenko (União Soviética)
1 - Onega (Argentina), Garrincha, Pelé, Rildo e Tostão (Brasil), Asparoukhov (Bulgária), Peters (Inglaterra), Amancio, Fuste, Pirri e Sanchis (Espanha), De Bourgoing e Hausser (França), Emmerich, Held e Weber (Alemanha), Farkas (Hungria), Barison e Mazzola (Itália), Lee Dong-woon, Park Doo-ik e Yang Seung-kook (Coreia Norte), Borja (México), Simões (Portugal), Quentin (Suíça), Cortés e Rocha (Uruguai) e Banichevski (União Soviética)
Autogolos - 2 (Davidov e Vutzov, Bulgária)

Total: 89 goals (2,78 média)
Melhor ataque: Portugal (17)
45 jogadores (6 repetiram o feito de 1962 e outros 2 de 1958 e 1962) e todas as equipas marcaram.

32

1970: Pelé, o melhor Brasil de sempre, e a Rimet de vez

O PRIMEIRO MUNDIAL fora da Europa e da América do Sul, o primeiro visto a cores pela televisão. São finalmente permitidas substituições e introduzidos cartões amarelos, vermelhos e o prémio fair-play. Triunfa o futebol-arte brasileiro, no auge da sua maturidade.

O selecionador João Saldanha junta força física à fantasia, e o escrete passa meses isolado num estágio espartano. Embora dê o seu lugar antes do torneio a Mario Zagallo, que se torna o primeiro a vencer como jogador e treinador, a equipa mantém-se fiel ao registo anterior, derrubando todos os obstáculos até à vitória final. Após ter jurado, em 1966, que não voltaria a jogar um Mundial, Pelé regressa do exílio, e tem a companhia de Tostão, Rivelino, Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto. Juntos formam a mais poderosa força atacante à face da terra.

A violência marca e muito os jogos de qualificação entre El Salvador e a vizinha Honduras, e em julho de 1960, os dois países entram em conflito, naquela que viria a ficar conhecida como a Guerra do Futebol.

As dúvidas sobre a localização do torneio são muitas desde o início. A altitude e os problemas respiratórios associados, aliados ao calor intenso, com temperaturas a ultrapassar os 40 graus, causam preocupação, sobretudo com alguns jogos agendados para a tarde a fim de satisfazer horários europeus. No entanto, os futebolistas adaptam-se bem, e RFA, Inglaterra e Itália são inclusive protagonistas em alguns dos melhores encontros.

Gordon Banks e a «Defesa do Século»

A suposta final antecipada surge ainda na fase de grupos, em Guadalajara. Depois de adeptos brasileiros terem cantado toda a noite em frente ao hotel dos ingleses, no sentido de impedirem que tivessem uma noite descansada de sono, o Brasil vence mesmo. Jairzinho marca e Gordon Banks nega um outro golo a Pelé com a chamada Defesa do Século. Uma entrada do capitão Bobby Moore, que esteve antes do Mundial detido na Colômbia acusado de roubo e obriga a equipa dos Três Leões a viajar primeiro sem ele, deixa marcas em Jairzinho.

As duas seleções avançam para os jogos a eliminar, mas a República Federal Alemã vinga-se de quatro anos antes. Com 2-0 e depois de Bobby Charlton e Martin Peters serem substituídos por Alf Ramsey, que já pensava no jogo seguinte, a Mannschaft protagoniza uma impressionante reviravolta. O guarda-redes Peter Bonetti fica bem mal na fotografia de um remate de longe de Beckenbauer e no cabeceamento de Uwe Seeler para o empate. Mais fortes fisicamente, os germânicos chegam mesmo ao golo do triunfo, no prolongamento, pelo inevitável bombardeiro: Gerd Müller.

O Brasil, por sua vez, ultrapassa o Peru de Teofilo Cubillas e o arqui-rival Uruguai, que até marca primeiro. Um brilhante golo de Clodoaldo, e depois Jairzinho e Rivelino, colocam os canarinhos em mais uma partida decisiva. Na outra meia-final, os alemães pagam caro o esforço de León frente aos ingleses e são derrotados pelos italianos, também após tempo-extra, por 4-3. O resultado muda cinco vezes no prolongamento. Kaiser Beckenbauer magoa-se e joga parte do encontro com o braço ao peito. O menino bonito do calcio Gianni Rivera marca o golo decisivo aos 112 minutos.

A exibição de luxo que vale uma taça

Pelé é o maestro do atropelamento dos brasileiros aos fatigados italianos na final. Aos 19 minutos, faz o primeiro, de cabeça, depois de um cruzamento de Rivelino. Boninsegna ainda empata, após erro de Clodoaldo, mas o Brasil embala. Gerson assina o 2-1, e Pelé coloca a bola em Jairzinho para o terceiro. O quarto é o primeiro melhor golo de sempre, antes de Maradona achar que o caminho mais rápido para a baliza era um slalom entre seis ingleses. O remate seco de Carlos Alberto, servido pelo seu 10 em bandeja, é o culminar de uma jogada mágica, que se prolonga pelos tempos. O ponto de exclamação supremo do futebol-arte.

A Taça Jules Rimet tem finalmente dono definitivo, depois dos três títulos mundiais em 1958, 1962 e, agora, 1970. É roubada da sede da Confederação Brasileira de futebol 13 anos depois.

RESULTADOS:

México, de 31 maio a 21 junho de 1970
Vencedor: Brasil (3º título)
Finalista vencido: Itália
3º lugar: Alemanha (República Federal Alemã)
4º lugar: Uruguai

GRUPO A

31/05 Estádio Azteca (Cidade do México) México-União Soviética, 0-0
03/06 Estádio Azteca (Cidade do México) Bélgica-El Salvador, 3-0
06/06 Estádio Azteca (Cidade do México) União Soviética-Bélgica, 4-1
07/06 Estádio Azteca (Cidade do México) México-El Salvador, 4-0
10/06 Estádio Azteca (Cidade do México) União Soviética-El Salvador, 2-0
11/06 Estádio Azteca (Cidade do México) México-Bélgica, 1-0

J V E D GM-GS P
União Soviética 3 2 1 0 6-1 5
México 3 2 1 0 5-0 5
Bélgica 3 1 0 2 4-5 2
El Salvador 3 0 0 3 0-9 0

GRUPO B

02/06 Estádio Cuauhtemoc (Puebla) Uruguai-Israel, 2-0
03/06 Estádio La Bombonera (Toluca) Itália-Suécia, 1-0
06/06 Estádio Cuauhtemoc (Puebla) Uruguai-Itália, 0-0
07/06 Estádio La Bombonera (Toluca) Israel-Suécia, 1-1
10/06 Estádio Cuauhtemoc (Puebla) Suécia-Uruguai, 1-0
11/06 Estádio La Bombonera (Toluca) Itália-Israel, 0-0

J V E D GM-GS P
Itália 3 1 2 0 1-0 4
Uruguai 3 1 1 1 2-1 3
Suécia 3 1 1 1 2-2 3
Israel 3 0 2 1 1-3 2

GRUPO C

02/06 Estádio Jalisco (Guadalajara) Inglaterra-Roménia, 1-0
03/06 Estádio Jalisco (Guadalajara) Brasil-Checoslováquia, 4-1
06/06 Estádio Jalisco (Guadalajara) Roménia-Checoslováquia, 2-1
07/06 Estádio Jalisco (Guadalajara) Brasil-Inglaterra, 1-0
10/06 Estádio Jalisco (Guadalajara) Brasil-Roménia, 3-2
11/06 Estádio Jalisco (Guadalajara) Inglaterra-Checoslováquia, 1-0

J V E D GM-GS P
Brasil 3 3 0 0 8-3 6
Inglaterra 3 2 0 1 2-1 4
Roménia 3 1 0 2 4-5 2
Checoslováquia 3 0 0 3 2-7 0

GRUPO D

02/06 Estádio Guanajuato (León) Peru-Bulgária, 3-2
03/06 Estádio Guanajuato (León) Alemanha-Marrocos, 2-1
06/06 Estádio Guanajuato (León) Peru-Marrocos, 3-0
07/06 Estádio Guanajuato (León) Alemanha-Bulgária, 5-2
10/06 Estádio Guanajuato (León) Alemanha-Peru, 3-1
11/06 Estádio Guanajuato (León) Bulgária-Marrocos, 1-1

J V E D GM-GS P
Alemanha 3 3 0 0 10-4 6
Peru 3 2 0 1 7-5 4
Bulgária 3 0 1 2 5-9 2
Marrocos 3 0 1 2 2-6 0

QUARTOS DE FINAL

14/06 Estádio Azteca (Cidade do México) Uruguai-União Soviética, 1-0
14/06 Estádio La Bombonera (Toluca) Itália-México, 4-1
14/06 Estádio Jalisco (Guadalajara) Brasil-Peru, 4-2
14/06 Estádio Guanajuato (León) Alemanha-Inglaterra, 3-2

MEIAS-FINAIS

17/06 Estádio Jalisco (Guadalajara) Brasil-Uruguai, 3-1
17/06 Estádio Azteca (Cidade do México) Itália-Alemanha, 4-3

JOGO DE ATRIBUIÇÃO DO 3º E 4º LUGARES

20/06 Estádio Azteca (Cidade do México) Alemanha-Uruguai, 1-0

FINAL

21/06 Estádio Azteca (Cidade do México) Brasil-Itália, 4-1

33
Brasil 1970

A perfeição é amarela

A 21 DE JUNHO DE 1970 o Brasil conquistou o terceiro título. E com goleada à Itália essa equipa oficializou o estatuto de melhor selecção de todos os Mundiais.

À direita, Jairzinho. À esquerda, Rivelino. No meio, Tostão. Por toda a parte, Pelé. A composição da linha de ataque do Brasil de 1970 é um pouco o pai-nosso dos adeptos de futebol de ataque: mesmo os não crentes e os seguidores de outras fés sabem enunciá-la de cor. Não é exagero dizer-se que a história dos Mundiais se divide em duas eras, antes e depois do México, antes e depois de as transmissões televisivas ganharem cor e aquele amarelo em fundo verde se tornar sinónimo de técnica, sedução e criatividade.

Em apenas dezoito dias viram-se seis jogos e 19 golos que mudaram o mundo. Sim, a revolucionária Hungria de 1954 tinha conquistado corações um pouco por toda a parte. Mas a história não tivera final feliz. E faltavam-lhe as imagens para reforçar a lenda, nascida das crónicas apaixonadas das raras testemunhas presenciais. Desta vez não havia margem para dúvidas, distorções ou exageros. Aquele Brasil jogava um futebol perfeito e exibia-o em palco planetário.

Aos comandos, tinha um bicampeão mundial de personalidade discreta: Mário Zagalo, extremo-esquerdo nas campanhas de 1958 e 1962. Mas essa equipa foi concebida e idealizada por outro homem, João Saldanha, jornalista e comentador que o presidente da CBD, João Havelange, escolhera sob uma chuva de críticas para suceder a Aimoré Moreira.

Na ressaca da desilusão de 1966, Saldanha definiu uma estrutura renovada em redor do talento intocável de Pelé e conduziu-a num apuramento sem mácula. Mas as convicções de esquerda tornavam-no «persona non grata» ao regime dos generais. Quando o presidente Garrastazu Médici exigiu a presença na selecção do avançado Dário Saldanha foi curto e grosso na resposta: «Não fui convidado para opinar no ministério dele. Ele trata do seu time, eu trato do meu.» A três meses do Mundial estava na rua.

Zagalo, mais conciliador, teve o bom senso de não mexer numa equipa ganhadora. Sim, é verdade: convocou Dário. Mas manteve-o no banco, dando a titularidade a Tostão, um ponta-de-lança franzino e inteligente, recuperado em cima da hora de um descolamento de retina.

Com o suporte de uma defesa tecnicista e de um meio-campo cerebral, que tinha no esquerdino Gérson um digno sucessor do maestro Didi, o Brasil entrou em campo a 3 de Junho para demolir a Checoslováquia (4-1). Apoiados numa condição física invejável – mérito do plano de adaptação à altitude idealizado por dois futuros seleccionadores, Cláudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira – os seus jogadores espalhavam uma sensação de facilidade que refrescava os espectadores e desmoralizava os adversários.

O segundo jogo, com a Inglaterra, campeã mundial, foi um tratado de futebol de ataque e o marcador só ficou pelo 1-0 porque Bobby Moore e Banks, os líderes da defesa britânica, deram também uma demonstração de como defender com arte. O terceiro, com a Roménia (3-2), já foi uma simples formalidade, que confirmou o talento de um extremo imprevisível, chamado Jairzinho. O sucessor de Garrincha estava em estado de graça e assinou o ponto em todos os jogos dessa campanha: depois dos golos na primeira fase, marcou também nos 4-2 ao Peru e nos 3-1 ao Uruguai, que colocaram o Brasil na final, vinte anos após o trauma do «Maracanazo».

Quando Brasil e Itália entraram em campo para decidir qual dos dois se tornaria tricampeão mundial, ganhando de vez a Taça Jules Rimet, eram duas concepções de futebol que estavam frente a frente. De um lado a fantasia, a ginga e a criatividade dos brasileiros. Do outro, o rigor, a avareza e o calculismo de uma «squadra azzurra» fiel intérprete do realismo dominante nos anos 60. Hora e meia mais tarde, do alto de uma goleada (4-1) sem apelo, o escrete fazia a festa e os Mundiais tinham viravam uma página. A partir desse dia, mais ninguém estava autorizado a dizer que estilo e eficácia eram incompatíveis. E todos os apreciadores de futebol ofensivo ganhavam um destinatário preciso para as suas orações contra a monotonia e o antijogo: Jairzinho-Tostão-Pelé-Rivelino. Deles, para sempre, o reino dos céus. Ámen.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

34
Pelé

Quatro letras para um rei

PELÉ É UNIVERSALMENTE considerado o melhor futebolista de todos os tempos. Foi o primeiro e único jogador a conquistar três campeonatos do Mundo, entre 1958 e 1970.

Quando, nesse 21 de Junho de 1970, Pelé foi levado em ombros pelo relvado do estádio Azteca, o mundo percebeu estar a viver um daqueles raros momentos de consagração unânime. Ao erguer a Taça Jules Rimet pela terceira vez em doze anos, aquele homem de tronco nu e sombrero na cabeça oficializava o estatuto de melhor jogador da História do futebol.

Nenhum antes dele festejara por três vezes o título supremo. Ninguém deslumbrara o mundo daquela forma aos 17 anos. Ninguém superara a marca dos mil golos antes de completar 30. Pelé não prendia bandidos, não usava capa e só voava para comemorar golos com um enérgico soco no ar. Mas nesse fim de primavera concluía uma proeza digna de super-herói: resgatar o futebol, a golpes de talento e génio, das catacumbas de violência e jogo calculista para onde tinha sido atirado pelos anos 60. Ao consagrá-lo, o mundo respirava de alívio: havia vida para além dos «catenaccios» europeus e dos sururus musculados de argentinos, chilenos ou uruguaios.

Como os super-heróis dos livros, Pelé começara por espantar pela precocidade. Aos 16 anos estreava-se na selecção brasileira. Em 1958, com 17, chegava ao Mundial da Suécia. Após dois jogos nas reservas, tornava-se, a par de Garrincha e Didi, o símbolo maior de um Brasil alegre e conquistador: marcou seis vezes e exibiu confiança a roçar a insolência. Ao conquistar o primeiro título com uma enxurrada de golos e fantasia, o escrete passava a ser a reserva moral dos adeptos de todo o planeta. E Pelé, o mais jovem campeão mundial de sempre, o seu profeta.

O percurso nos Campeonatos seguintes acompanha os altos e baixos do futebol: em 1962, no Chile ainda marca um golo na campanha de revalidação do título, mas uma lesão muscular obriga-o a deixar a cena ao segundo jogo. Os holofotes recaem então em Garrincha, alma de nova consagração, raio de sol num torneio globalmente triste. Quatro anos mais tarde, em Inglaterra, os poderes do super-herói parecem irremediavelmente ameaçados. Volta a ser actor secundário: só um golo à Bulgária, no primeiro jogo, antes de ser corrido a patadas e ver um Brasil de transição, órfão de genialidade, ficar-se pela primeira fase. No geral, a qualidade do futebol é ainda mais decepcionante, e apenas a explosão de um goleador poderoso e intuitivo como Eusébio atenua o cinzentismo geral.

Nos quatro anos que vão de Inglaterra ao México, Pelé ganha a resistência e a maturidade que lhe permitem voltar a fazer magia. Além disso, com a camisola do Brasil encontra uma nova geração de talentos, capaz de lhe fazer companhia na luta contra a mediocridade e o aborrecimento. Quando marca o 1000º golo, em Novembro de 1969, já era de novo o super-herói anunciado na Suécia. Faltava-lhe completar a tarefa, somando um terceiro título mundial em 1970. É o mais brilhante de todos, ao longo de seis jogos transmitidos para todo o planeta, pela primeira vez a cores. Marca três golos na primeira fase e multiplica incontáveis proezas técnicas, entre elas três quase-golos que, de tão bonitos, ganharam a eternidade.

O confronto final, frente ao supervilão italiano é o epílogo perfeito. Acabando com as dúvidas acerca do estatuto de super-herói, abre caminho à vitória brasileira, permanecendo suspenso no ar durante uns segundos que pareceram infinitos, antes de cabecear para a baliza de Albertosi. Depois, os discípulos seguem-lhe o exemplo, destroçando a má da fita com uma goleada memorável. E então Pelé subiu aos ombros da multidão, acenou um sombrero e desapareceu de cena. Dizem que ainda anda por aí, vendendo pastilhas e cartões de crédito, com o nome de Edson Arantes do Nascimento. Os super-heróis costumam esconder-se por detrás de uma identidade banal e desinteressante, por isso faz sentido.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

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Brasil 1970

O outro melhor golo de sempre

NA FINAL DE 1970, com a Itália, o Brasil construiu, em 31 toques consecutivos, o mais fantástico golo colectivo dos Mundiais. Nove jogadores do escrete participaram no lance.

Para acabar é melhor voltarmos ao princípio, o melhor golo de todos os tempos. Não, não é esse que está no princípio do livro. É o outro melhor golo de todos os tempos: o quarto do Brasil na final com a Itália, em 1970. Tão bom como o de Maradona, tão completamente diferente. A insolência individualista do argentino subverteu as leis da geometria e descobriu, em 12 segundos e 12 toques de pé esquerdo, que o caminho mais curto entre dois pontos é uma sucessão de ziguezagues. O golo de Carlos Alberto nessa final é outra coisa. É a perfeição colectiva, a utopia passada a letra de forma, a demonstração prática, através de uma equipa de futebol, do que poderia ser uma sociedade ideal em acção, com justiça, ética e produtividade em doses iguais.

Dos onze jogadores brasileiros no relvado do Azteca apenas dois não tocam na bola. O guarda-redes Félix, cuja farda azul lhe reserva um papel de polícia distante e o central Brito, cujo nome de funcionário público recomenda o mergulho no anonimato. De resto, tudo começa numa recuperação defensiva do ponta-de-lança Tostão, no lado esquerdo da defesa canarinha. O toque ligeiro sobre um italiano dá sentido ao carrinho de Everaldo, cujo esforço permite a Tostão o atraso tranquilo para Piazza. A partir daqui, estabelecidas as bases da revolução, é altura de construir.

Piazza dá a Clodoaldo, um trinco que nunca o foi. Pelé entra na cena para dar um toque curto na direcção de Gérson, que devolve a Clodoaldo. Com a equipa equilibrada, o médio decide introduzir um pouco de humor rodopiando e trocando as pernas sobre quatro italianos. Para quê? Para o mesmo que as pessoas usam o humor nas suas vidas: para ganhar tempo, enfrentar as injustiças da vida, preparar o futuro.

O futuro, neste caso, é um passe para Rivelino, na lateral esquerda, sobre a linha do meio-campo. E aqui o absurdo traz-nos o grão de loucura necessário para todas as histórias felizes: trinta metros à frente, Jairzinho espera, colado à linha do mesmo lado. Que o extremo-direito espere tranquilamente pela bola, no ponto oposto ao das suas obrigações e da lógica, eis o que desencadeia o desequilíbrio definitivo na conservadora Itália: Jairzinho começa a correr em paralelo à linha da grande área, dá sete toques na bola até encontrar Pelé, um pouco antes da meia-lua. Tostão faz um movimento para o interior, arrastando a marcação de Rosato e Facchetti. E pela cratera aberta com a mudança de flanco de Jairzinho e a simulação de Tostão entra, a todo o vapor, a última personagem desta história: o lateral-direito Carlos Alberto, que o início do filme apanha junto à grande área do Brasil, a passo, com a indolência de quem rói uma maçã e que agora acelera em direcção à História.

Pelé trava o movimento, faz suspender o tempo com a arrogância dos imortais e solta-lhe uma bola que de tão lenta e perfeita transporta toda a sabedoria do mundo. Carlos Alberto beneficia de um pequeno ressalto num tufo de relva, uma fracção de segundo antes do contacto: a bola sobe o suficiente para ser agredida no ponto exacto, aquele que a solta com a força e a precisão desenhada nas estrelas.

As redes abanam, Carlos Alberto prossegue a corrida para trás da baliza de Albertosi, trava o passo, abre os braços para o céu e grita, marcando bem as consoantes: «Pppputtttta qqque pppppariu!» E nenhum outro comentário poderia ilustrar melhor o que realmente aconteceu naqueles 30 segundos de comunhão com o absoluto.

Entre o génio solitário de Maradona e a perfeição sorridente e sábia do colectivo canarinho, desmontando o previsível a golpes alternados de lógica e absurdo, competência e arte, rigor e fantasia, mora tudo aquilo que nos faz sonhar durante uma vida. É disso que se fala quando falamos de Mundiais.

Texto retirado do Livro «O Essencial dos Mundiais Para Ler em 90 Minutos», Maisfutebol, Livros d'hoje, 2014

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O melhor ataque é mesmo... o ataque

FICHA DE JOGO

Árbitro: Rudi Glöckner (República Democrática Alemã)

BRASIL – Félix; Carlos Alberto (c), Brito, Piazza e Everaldo; Jairzinho, Clodoaldo, Gérson e Rivelino; Tostão e Pelé

ITÁLIA – Albertosi; Burgnich, Cera e Bertini (Juliano, 75); Rosato, Facchetti (c), Domenghini, De Sisti e Mazzola; Boninsegna (Rivera, 84) e Riva

Marcadores: 1-0 Pelé (18); 1-1, Boninsegna (37); 2-1, Gérson (66); 3-1, Jairzinho (71); 4-1, Carlos Alberto (87)

37
Mundial 1970

O (primeiro) Mundial do bombardeiro

MARCADORES

10 - Müller (Alemanha)
7 - Jairzinho (Brasil)
5 - Cubillas (Peru)
4 - Pelé (Brasil) e Bischovets (União Soviética)
3 - Rivelino (Brasil), Seeler (Alemanha) e Riva (Itália)
2 - Lambert e Van Moer (Bélgica), Tostão (Brasil), Petráš (Checoslováquia), Boninsegna e Rivera (Itália), Valdivia (México), Gallardo (Peru) e Dumitrache (Roménia)

1 - Carlos Alberto, Clodoaldo e Gérson (Brasil), Bonev, Dzhermendiev, Kolev, Nikodimov e Zhechev (Bulgária), Clarke, Hurst, Mullery e Peters (Inglaterra), Beckenbauer, Libuda, Overath e Schnellinger (Alemanha), Spiegler (Israel), Burgnich e Domenghini (Itália), Ghazouani e Houmane (Marrocos), Basaguren, Fragoso e González, Peña (México), Challe e Chumpitaz (Peru), Dembrowski e Neagu (Roménia), Grahn e Turesson (Suécia), Cubilla, Espárrago, Maneiro e Mujica (Uruguai), Asatiani e Khmelnitski (União Soviética)

Autogolos: 2 (Peña, México; e mais um não identificado)

Total: 95 golos (2,97 média)
Melhor ataque: Brasil, 19 golos
54 jogadores marcaram, incluindo sete que já o tinham feito em Mundiais anteriores; El Salvador não marcou.

Pelé e Uwe Seeler marcaram no quarto Mundial sucessivo.

Maisfutebol
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