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Dez histórias de Luisão no balneário

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Nuno Gomes

Nuno Gomes

Colega de Luisão no Benfica entre 2003 e 2011

«A história do Luisão que vou recordar mostra uma das características dele, que foi bem vincada muito precocemente desde a chegada. Apesar de ao início se ter revelado um pouco tímido, demorou pouco até se perceber que era um líder. Nos treinos muitas vezes era ele quem me marcava. Houve um treino em que ele, num ou noutro lance, entrou mais duro. Senti que estava a ser agressivo e reagi. Houve ali um lance mais ríspido em que olhámos um para o outro e nos pegámos por cinco segundos. Era o primeiro ano dele, acho, e apesar de não termos muita diferença de idade eu era mais antigo. Foi ali marcar uma posição, impor algum respeito. Também sofri na pele isso, perceber que tinha de ter respeito aos mais velhos. Perante a atitude dele lembro-me de pensar depois: ‘Este miúdo vai ter personalidade. Para um defesa é bom, tem sangue na guelra.’ Recordámos mais tarde esse episódio. Joguei muito tempo com o Luisão, é ele que me sucede como capitão. Na altura do mister Jorge Jesus, o Simão tinha saído, era eu capitão e o Luisão sub-capitão. Eu deixei de jogar com tanta frequência e ele usava a braçadeira dentro de campo. Muitas vezes havia situações em que falávamos só entre os capitães primeiro, antes de falarmos com o grupo e antes de assumirmos o papel de representantes do grupo com o treinador ou a direção.»

2
Juan

Juan

Colega de Luisão na seleção brasileira entre 2001 e 2010

«Em 2004, na final da Copa América, eu e o Luisão fomos titulares na defesa do Brasil e jogámos contra a Argentina. O Luisão até marcou um golo. Já na segunda parte, num lance normal, ele chocou de cabeça com cabeça com o Ayala e ficou muito queixoso. Foi assistido fora do relvado, regressou, mas não se lembrava de nada. Ele claramente não podia voltar, mas naquele espírito guerreiro dele quis voltar. Só que não se lembrava de nada e perguntava-me a toda a hora que jogo era aquele e quanto estava. Perguntou-me até para que lado nós atacávamos. Nessa altura fiquei com muito medo pela saúde dele. Passado um pouco ele saiu de campo, foi levado para o hospital e já não viveu a festa por termos sido campeões da Copa América.»

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Coreia do Sul vs Grécia (EPA/CARL FOURIE)

Katsouranis

Colega de Luisão no Benfica entre 2006 e 2009

«Grande jogador, grande capitão. Muito boa pessoa, lutou sempre pelo clube. Merece todo o respeito do mundo do futebol. Era um tipo que nunca queria perder. Fazia todos os treinos a 100 por cento. Numa noite em Setúbal (janeiro de 2008) eu fiz um mau passe, eles lançaram um contra-ataque e o Luisão fez falta para travar o adversário e viu amarelo. Ele repreendeu-me e eu reagi, mas foi um erro. Ele era capitão e tinha de respeitar. Talvez ele não tenha agido bem, mas eu era mais novo, devia ter aceite a reação. Foi um erro meu e dele, mas foi maior da minha parte do que da dele. Um erro, com muita gente a ver. Mas às vezes os jogadores não conseguem controlar os nervos. Ambos temos personalidades fortes. Foi um mau momento. Mas no dia seguinte falámos e esclarecemos tudo. Depois disso ficámos mais próximos. Quando voltei a relação entre nós ficou melhor que antes. Ainda mantemos algum contacto, pelo twitter e assim.»

4
Witsel e Artur

Artur Moraes

Colega de Luisão no Benfica entre 2011 e 2015

«Vivi tantas histórias com Luisão, mas prefiro destacar um facto curioso. Nós somos da mesma geração, jogámos juntos no Brasil, depois viemos encontrar-nos no Benfica e aconteceram coisas realmente marcantes. O meu filho e a filha dele nasceram praticamente um ao lado do outro aqui em Lisboa, no Hospital dos Lusíadas, o meu filho nasceu a 10 de outubro e a filha dele a 11 de outubro, numa altura em que já vivíamos lado a lado, as nossas casas eram pegadas, os nossos cacifos tanto no Seixal como no Estádio da Luz eram um ao lado do outro. Não foi nada de propositado, aconteceu assim, por isso acho que estava destinado a que nós os dois fôssemos muito amigos. A nossa relação é mais do que de companheiros. Somos amigos para a vida toda, pela ligação que temos e pela ligação que têm os nossos filhos, que são muito próximos e até andam na mesma escola. Aliás, amanhã vou ligar-lhe para irmos jogar o nosso golfezinho. Os grandes momentos das nossas vidas são sempre partilhados.»

5
Petit

Petit

Colega de Luisão no Benfica entre 2003 e 2008

«Nós tínhamos um grupo no Benfica que nos aniversários se juntava sempre, com mulheres, filhos e famílias, para festejarmos os anos num restaurante. O aniversariante pagava, claro. O Moretto tinha a mania de em todas as festas mandar vir tudo do bom e do melhor, porque não era ele que pagava. Então eu e o Luisão, no aniversário do Moretto, combinámos que íamos fazer a maior despesa que conseguíssemos: falámos com o empregado e ele estava sempre a trazer um copo do vinho mais caro, um copo do whiskey mais caro, um copo, e outro, e outro, e depois despejávamos tudo num daqueles baldes para manter a água fresca. Quando veio a conta, o Moretto ficou doido, com uma azia do caraças. Era um grupo grande e a gastar dinheiro daquela forma, a conta era enorme. Custou-lhe um bocado, mas teve de pagar.»

6
Benfica vence Taça da Liga (Foto: Catarina Morais)

Moreira

Colega de Luisão no Benfica entre 2003 e 2011

«Quando o Luisão chegou, em 2003, o Benfica andava com a casa às costas. Ainda não existia o Centro de Estágios, o Estádio da Luz estava em remodelação, então treinávamos em Massamá ou no Estádio Nacional. O Luisão foi bastante criticado quando chegou, depois teve uma pequena lesão e quando estava praticamente apto a regressar, o treino dele era subir e descer escadas. O preparador físico era um espanhol chamado Fernando Gaspar e só o punha a subir a escadaria, descer a escadaria, subir a escadaria, descer a escadaria. Todos os dias 30 ou 40 minutos disto. Nós estávamos a treinar e olhávamos para ele com pena. Mas ele, do alto dos seus quase dois metros, não desistia. O que prova como nada lhe foi dado: não teve um início nada fácil e tudo o que alcançou no Benfica foi pelo esforço dele.»

7
Benfica vs Sporting (ANTONIO COTRIM/LUSA)

Quim

Colega de Luisão no Benfica entre 2004 e 2009

«Quando cheguei ao Benfica o Luisão ainda não era capitão, mas já tinha espírito de liderança. Gostava de integrar os novos no plantel e até nos convidava para um churrasco em casa dele. Tratava os novos sempre da melhor forma, levava-os para casa e identificava-os com a mística do Benfica. Comigo também fez isso. Passado uns tempos, num lance normal de jogo, houve uma bola que ele achou que não devia sair e começou a cobrar-me por isso. A levantar os braços, a gesticular muito e chamar-me a atenção. Aquilo não me caiu bem. Quando chegámos ao balneário disse-lhe: ‘Luisão, pá, não faças mais isso, podes chamar-me atenção, podes dizer-me o quiseres, mas não levantes os braços que eu não gosto’. Ele foi homem para pedir desculpa e dizer-me que não aconteceria mais, mostrando que era um líder de mão cheia: que sabia ser compreensivo com as tropas. As coisas ficaram sanadas e não passaram disso. Nunca mais voltou a acontecer.»

8
AZ vs Benfica (REUTERS)

Siqueira

Colega de Luisão no Benfica entre 2013 e 2014

«Lembro-me que quando cheguei ao Benfica, o clube vinha de perder todos os títulos no ano anterior. Por isso cheguei num momento muito complicado, muito conturbado. Havia alguns jogadores muito impacientes e o capitão Luisão era o mais impaciente de todos. As primeiras semanas criaram um grande impacto em mim, porque cada vez que o Luisão abria a boca para falar dava-nos uma bronca enorme, as nossas orelhas ficavam a arder. As primeiras semanas com o capitão foram complicadas, foram muito difíceis, muitas broncas em cima de nós. Mas a verdade é que nesse ano ganhámos tudo em Portugal e o Luisão que começou a época a dar-nos broncas não foi o mesmo que terminou. É um grande amigo que tenho para a vida, uma referência, no futebol e fora do futebol. Um excelente amigo, pai, irmão, filho e que merece tudo de bom.»

9
Léo

Léo

Colega de Luisão no Benfica entre 2005 e 2008

«Houve um jogo em Alvalade, um dérbi com o Sporting, em 2005, em que perdemos [2-1, com golos de Luís Loureiro, Simão e Liedson] e no final o Luisão fechou todo o grupo no balneário, sem mais ninguém. Falou com o grupo e chamou-nos a atenção, dizendo que o Benfica não era aquilo e que não podia voltar a repetir-se. Foi um discurso crítico, mas positivo. A liderança dele era assim. O que é certo é que depois dessa conversa fizermos uma série de bons resultados e até ganhámos no Porto. O Luisão era um líder respeitado por toda a gente. Fico até triste com a notícia do fim da carreira dele, porque foi um companheiro que me ajudou muito e me deixou saudades. Ainda quando o Benfica veio jogar cá ao Brasil na minha despedida falei com ele e fiquei com a impressão que ainda jogar vários anos. Mas a carreira de jogador é assim, chega um momento em que não dá mais.»

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Álvaro Magalhães

Álvaro Magalhães

Treinador adjunto de Luisão entre 2003 e 2005

«O Luisão quando chegou teve alguns problemas de integração, sobretudo porque teve algumas lesões relacionadas com problemas dentários. Mas ao poucos foi-se integrando e notou-se logo que tinha características de liderança. Lembro-me de uma vez, numa altura em que as coisas estavam a correr mal, na altura do Camacho, termos feito uma reunião de grupo para discutir o que estava mal. Os jogadores calaram-se todos: entraram mudos e saíram calados. Mesmo aqueles mais antigos, que cá foram eram uns heróis, não diziam nada. Foi o Luisão, mesmo sendo novo no clube, que pediu para falar. 'Professor, eu posso falar?' Podes, pá, fala para aí. E ele falou. 'Eu acho isto e acho aquilo'. Deu a opinião, defendendo o grupo, e as pessoas ouviram-no. A partir daí tornou-se normal ele falar nas reuniões de grupo. Era um rapaz que gostava de perceber onde estava, pedia-me para lhe explicar o que era isso da mística, integrava-se no grupo e demonstrava uma forte liderança, que nasceu com ele, não foi uma coisa adquirida.»