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Espanha: a análise

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Embora continue em processo de regeneração após a conquista de dois Europeus (2008 e 2012) e um Mundial (2010), a Espanha continua a basear o seu estilo no passe, movimento, posse e técnica. Mas sem nomes como Xavi, Iniesta, Villa, Piqué e Casillas, este torneio vai obrigar a equipa a provar o seu valor sem esses líderes em campo, e com problemas sérios no ataque e na defesa.

A tragédia fez parte deste processo. Luis Enrique teve de abandonar o cargo de selecionador durante a fase de qualificação, na sequência da morte da filha Xana, aos nove anos de idade.

O adjunto Robert Moreno foi promovido e aproveitou as ideias de Luis Enrique, mantendo o 4x3x3. Parecia encantado com o seu próprio trabalho: «Na linha lateral costumo dizer a mim mesmo: “Estamos a jogar tão bem!”», afirmou após os jogos com Roménia e Malta, em 2019.

Moreno pode ter gostado do que estava a fazer, mas a federação espanhola decidiu prescindir dele quando Luis Enrique pediu para voltar e o antigo adjunto sentiu que merecia continuar no comando.

Luis Enrique tem agora de ser o farol da equipa, especialmente na ausência de Sergio Ramos, motivada pelos problemas físicos que marcaram a temporada. A experiência da equipa fica basicamente entregue a Jordi Alba e a Sergio Busquets, sendo que este último ainda testou positivo à covid-19 a poucos dias do torneio.

A ausência de Ramos deixa a Espanha sem um verdadeiro capitão, e também sem qualquer jogador do Real Madrid, algo inédito na sua história. Resta saber como Pau Torres, Aymeric Laporte e Eric García vão apresentar-se à frente de Unai Simón, jovem guarda-redes do At. Bilbao. Talvez seja por isso que Luis Enrique testou o 4x1x4x1 nos jogos mais recentes, ou até mesmo o 4x2x3x1.

A Espanha é uma equipa de médios que sente dificuldades para marcar na ausência de avançados do calibre de Fernando Torres ou David Villa. Gerard Moreno marcou 29 golos pelo Villarreal, e pode ser uma boa solução na frente, mas a Espanha está a jogar a um nível mais baixo. É uma seleção difícil de decifrar, pelo menos até dar para perceber se as peças encaixam ou não.

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Luis Enrique

O selecionador: Luis Enrique

Ninguém duvida da extraordinária capacidade de Luis Enrique para trabalhar com uma formação em 4x3x3. É a melhor forma de aproveitar as características dos jogadores espanhóis: a paixão pela circulação rápida de bola e a relativa leveza a nível físico. “Lucho” é fascinado pela ideia de conflito, mas talvez não tenha ido pelo caminho certo. Para começar deixou de fora os jogadores do Real Madrid, numa decisão sem precedentes. Não perdeu o espírito de luta, nem tão pouco o hábito de subir andaimes para observar os jogadores. Mas a pandemia vai privá-lo de uma das suas rotinas, pelo menos: apaixonado ciclista, não vai ter a possibilidade de escapar-se do hotel de bicicleta.

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Thiago Alcántara

A figura: Thiago

Sem Sergio Ramos a Espanha não tem uma figura, um ícone. Por isso tem de criar um. Se depender da classe e da qualidade atlética, então o jogador mais qualificado é Thiago Alcántara. Nenhum médio tem uma visão tão penetrante, pelo que este pode ser um momento definidor no mais imprevisível dos jogadores. Se, aos 30 anos, for capaz de mostrar a sua melhor faceta, aquela que vimos na final da Liga dos Campeões 2020, então a Espanha será capaz de qualquer coisa. Se Thiago simplesmente fizer o papel de que está apaixonado por Thiago, como já sucedeu no passado, então o Euro dele e da Espanha pode assemelhar-se a alguém a caminhar nos limites do telhado de um arranha-céus.

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Onze provável

4x3x3

Unai Simón; Azpilicueta, Pau Torres, Laporte, Jordi Alba; Thiago, Busquets (Rodri), Pedri; Ferrán Torres, Morata, Oyarzabal.

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Pedri (AP)

O jogador mais grato pelo adiamento: Pedri

Pedro González López não representava um dos principais emblemas espanhóis há um ano. Nem sequer tinha contrato profissional no Las Palmas, e já tinha sido rejeitado pelo Real Madrid. A transferência para o Barcelona, em 2020, passou despercebida até Ronald Koeman dar-lhe um lugar no onze, e aí a Espanha deu conta de um jogador que parece ser um génio. Um novo Iniesta. Aos 18 anos este médio subtil, que joga simples, tornou-se uma grande esperança para a regeneração da Roja. «O que mais gosto nele é a calma, humildade, e o equilíbrio entre o trabalho ofensivo e defensivo», diz Luis Enrique.

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O que os adeptos cantam

“¡Y Viva España!”, lançada por Manolo Escobar em 1973, foi um sucesso colossal. Foram vendidas seis milhões de cópias, como ponto de partida para um frenesim que ainda se faz ouvir nos estádios, sempre que a seleção joga. A ditadura fascista de Franco usou a canção como hino promocional do turismo, quando o regime decidiu puxar pelo futebol, tourada, sol e praias para impulsionar a economia. É por isso que parte da população, especialmente no País Basco e na Catalunha, associa a música à opressão fascista.

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O que os adeptos dizem

A Espanha é um país de pintores, poetas e músicos. Não de intelectuais. Jogar futebol é exercício sensual que não requer verbalização. Mas falar de futebol, por outro lado, requer um certo esforço filosófico. A Espanha é conhecida mundialmente como o país do tiki-taka, mas nenhum adepto vai gritar «passa e mexe-te, passa e mexe-te». A grande maioria demonstra a sua paixão com o grito de guerra «Echadle cojones!» (qualquer coisa como «Tenham tomates!»). No fundo é um pedido para que os jogadores espanhóis façam precisamente aquilo que raramente fazem, uma vez que jogam muito menos com o físico do que outras seleções do norte da Europa.

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Dani Olmo (AP Photo/Miguel Morenatti)

Herói/vilão da pandemia: Dani Olmo

Abalado pelo sofrimento do mundo com a pandemia, o jogador do Leipzig associou-se a Juan Mata na Fundação «Common Goal». «Quero ajudar a mudar o mundo», disse Olmo, que cedeu parte do salário para financiar escolas de zonas pobres dos Balcãs.

Vilões não há, pelo menos entre os jogadores convocados por Luis Enrique. O selecionador espanhol gosta de estar rodeado de jogadores obedientes e disciplinados. O que remete para um risco existencial e deixa a questão: será que aqueles que criam problemas são mais competitivos?

Textos de Diego Torres, que escreve para o El Pais.

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