Maisfutebol

Especial FC Porto campeão 2017/18

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Sérgio Conceição: as raízes do herói do título do FC Porto

O rapaz de Ribeira de Frades que dedica a vida aos pais

O MAISFUTEBOL viajou até às origens de Conceição, e numa aldeia de sportinguistas encontrou as raízes do herói do título portista. O jovem que ficou órfão na adolescência tornou-se num homem de família, devoto e solidário, que jamais vira cara à luta. Quem o conhece bem traça-lhe o perfil e explica o que o fez arriscar uma aventura que agora teve final feliz: «Se o FC Porto estivesse a ganhar, ele não viria. Foi o desafio que o fez regressar». Para ler no capítulo seguinte. Ao lado, a reportagem da TVI24 sobre o mesmo tema.

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Reportagem Sérgio Conceição

As origens do treinador que revolucionou a Liga

Na hora da conquista, Sérgio Conceição recordou-se da promessa que havia feito no dia da apresentação como treinador do FC Porto, a 8 de junho do ano passado, e dedicou o título de campeão aos seus falecidos pais. «Onde quer que estejam, eles já estão felizes; mas estarão ainda mais em maio.» Onze meses depois, cumpriu a promessa que havia feito e, celebrando, não conteve as lágrimas no momento de recordá-los.

O treinador do FC Porto é um homem ligado à família, devoto e solidário, como o MAISFUTEBOL pôde constatar ao conhecer as suas raízes em Ribeira de Frades, aldeia do concelho de Coimbra, onde nasceu e cresceu. Ao menino de uma família humilde – o pai era pedreiro e a mãe doméstica –, o segundo mais novo de sete irmãos, o futebol haveria de dar-lhe tudo o que jamais imaginou na infância.

A vida havia, porém, de trazer-lhe uma mágoa constante. O pai de Sérgio faleceu quando ele tinha 16 anos, num acidente de motorizada, no dia seguinte a tê-lo acompanhado às Antas para assinar contrato pelo FC Porto. A mãe, que tinha problemas de saúde e estava obrigada a locomover-se numa cadeira de rodas, morreu dois anos depois. Nesse período da adolescência, faleceu-lhe também um irmão, num de acidente de trabalho numa fábrica de pré-esforçados.

O «seu» estádio em frente à casa do sogro

«O gajo tem um iate, os melhores carros, casas fantásticas e nunca pôde dar isso aos pais, que viveram sempre num cantinho recatado… É uma amargura que o acompanha; sobretudo por os pais nunca terem podido desfrutar dos filhos dele», conta ao MAISFUTEBOL Jorge Manuel Mendes, amigo há mais de 20 anos e empresário que ajuda à gestão da carreira do treinador.

Sérgio casou-se aos 20 anos com a atual mulher. Têm cinco filhos, todos rapazes. Exceto o mais jovem (José, de 3 anos) todos jogam futebol. Três deles são extremos, a posição em que o progenitor se destacou: Rodrigo, de 18 anos, joga no Benfica; Moisés, de 17, no FC Porto; Rodrigo, de 15, trocou o Sporting pelo Padroense nesta época. O mais velho, de 21, Sérgio, como o pai, está na universidade a tirar gestão desportiva e também é futebolista: nesta época representou os seniores do Sp. Espinho.

Jorge Manuel Mendes, amigo e empresário de Sérgio Conceição

Os sogros são como «segundos pais». Porém, no início, não foi fácil driblar os humores do sogro e levar por diante o namoro.

«O pai da esposa dele não gostava muito que eles, ainda pequenitos, com 14 anos ou assim, namorassem. No entanto, curiosamente, mesmo em frente à casa dos sogros, em Taveiro, existe agora o Estádio Sérgio Conceição. Quando acorda, o sogro leva com o estádio do genro logo ali em frente. Não o queria, mas afinal o gajo é bom…», graceja Jorge.

Herói portista numa aldeia de leões

Vizinha a Taveiro, Ribeira de Frades é uma aldeia com uma esmagadora maioria de adeptos sportinguistas. Há um núcleo leonino e o clube da terra, o Sporting Clube Ribeirense, é a filial número 83 do clube de Alvalade.

Por influência da família, Sérgio era do Sporting em miúdo, mas nunca chegou a jogar no Ribeirense.

«A única ligação ao clube aconteceu em maio de 2014, numa altura em que ele treinava a Académica e veio apadrinhar um torneio de sub-11, com 120 crianças. Foi uma espécie de homenagem que achámos que a nossa terra e o clube lhe devia de fazer», afirma Paulo Mourinho, ex-presidente do Ribeirense.

Sérgio Conceição em maio 2014 apadrinhou o torneio do Sporting Ribeirense

Sérgio jogava à bola no baldio de Santa Eufémia, junto da casa dos pais, que há tempos comprou e onde hoje mora uma das irmãs. Raramente vinha jogar para o Largo do Rossio, no centro da aldeia, onde fica o Café Amoreira, do seu primo Álvaro Serrano, de 47 anos, quatro anos mais velho.

O treinador portista vem a Ribeira de Frades com frequência. Vai ao cemitério visitar a campa dos pais, pára no café de Álvaro para trocar dois dedos de conversa com os irmãos ou com amigos. «Ainda há três semanas cá esteve», dizem-nos. E é lá que paramos também, por agora. Para perceber como é que um rapaz que nem era um prodígio com a bola nos pés chegou da Académica ao FC Porto e daí ao estrelato em Itália ao serviço de Lazio, Parma, Inter... Até chegar às 56 internacionalizações pela Seleção Nacional.

«Toda a gente sabe que na Académica sempre houve uns privilégios e um certo protecionismo aos filhos dos senhores doutores… Sendo ele filho de gente humilde estava logo em desvantagem. Mas ele punha muito gosto e muito esforço naquilo que fazia», recorda Álvaro, que também é simpatizante do Sporting.

Álvaro Serrano com uma camisola que lhe foi oferecida pelo primo Sérgio Conceição

O pai de Sérgio ajudava. Todos os dias, José (nome com que o treinador do FC Porto batizou o descendente mais novo) levava o filho na moto para treinar ao Campo de Santa Cruz, em Coimbra. Os dez quilómetros de distância eram especialmente mais duros no inverno, sob frio e chuva.

O craque e o maior portista de Ribeira de Frades

Apesar da diferença de idades de sete anos, em miúdo era Paulo Aniceto o craque da aldeia; até chegou a jogar no União de Coimbra e a ser chamado a um estágio da seleção de sub-21 no Estádio do Bessa.

«Eu jogava um bocadinho, jogava… (pausa) Mas era preciso ter cabeça e o Sérgio tinha muito mais do que eu. Eram outros tempos… Já se notava que ele tinha jeito, mas foi a garra dele que fez a diferença na Académica e depois lá foi para o FC Porto», recorda Aniceto, que se cruzou em campo apenas quando ele já era estrela, muitos anos depois, num torneio de futsal.

Rui Nunes, autointitulado o maior portista de Ribeira de Frades, lembra-se do salto de Sérgio da Académica para os dragões, onde haveria de chegar à primeira equipa em 1996 e sagrar-se bicampeão nacional, antes de ser vendido para a Lazio por 10 milhões de euros… E onde havia de regressar em 2003/04 para integrar a equipa de José Mourinho, que nessa época foi campeã nacional e europeia.

«Houve um jogo em que ele marcou três golos e começou a dar nas vistas. Um olheiro viu-o e indicou-o ao FC Porto, apesar de Benfica e Sporting também terem mostrado interesse», conta, antes da conversa ser interrompida pelo barulho de uma moto, que pára à porta do café. Mais um sportinguista, mais uma brincadeira: «Eh, campeão! Os gajos (benfiquistas) andam com azia, pá!»

O «craque» Aniceto, o portista Rui Nunes e o primo Álvaro Serrano (dir. p/ esq.), junto ao Café Amoreira

No sábado, mal terminou em empate o dérbi de Lisboa, houve umas buzinadelas à volta do largo. Paulo Aniceto, também leão, não nega apoio ao filho da terra: «Se não for para o Sporting, que seja para o Sérgio.»

Por sua vez, Álvaro sublinha um detalhe: «Este primeiro título como treinador terá tido um impacto especial para ele, também pelo facto de ter sido celebrado no Dia da Mãe.»

O amigo devoto e solidário da «Madre Teresa»

Segunda-feira, momentos antes de celebrar o 56.º aniversário na companhia de Sérgio Conceição, com gente do futebol e outros amigos em comum, como o humorista Fernando Rocha ou o cantor Toy, Jorge Manuel Mendes encontrou-se com o Maisfutebol na Pedrulha, arredores de Coimbra. Não quis perder a oportunidade para dar a conhecer um pouco mais o treinador do FC Porto, de quem é confidente há muitos anos. Por trás da figura pública do técnico, há um homem apegado à família e à fé católica.

«Ele é muito devoto. Vai a pé a Fátima, cumpre a abstinência durante a Quaresma…», refere, antes de destacar também o lado solidário de alguém que, sem alaridos, quer dar o exemplo e ajudar meninos de famílias carenciadas como um dia foi a sua.

«Desde que a vida lhe começou a sorrir que ele quer partilhar. Quando ele estava a jogar em Itália, na Lazio, pediu-me para encontrar alguma instituição aqui em Coimbra para ajudar», afirma Jorge. O melhor exemplo disso é a Comunidade Juvenil Francisco de Assis, fundada por Maria Teresa Granado, que ao longo de mais de 40 anos ajudou mais de meio milhar de jovens órfãos ou de famílias carenciadas.

Instalações da Comunidade Juvenil Francisco de Assis, em Eiras

Naquelas instalações de casas pré-fabricadas, na freguesia de Eiras, às portas da cidade de Coimbra, encontrámos a «Madre Teresa», como é conhecida por aquelas bandas, que aos 89 anos revela uma lucidez e memória notáveis. Lembra-se, por exemplo, do momento exato em que o jovem Sérgio, então já estrela do calcio, lhe apareceu à frente para ajudar no que pudesse.

«Eu estava a fazer um bolo de iogurte para o aniversário de um jovem daqui e apareceu-me na cozinha um rapaz, que me disse: “Eu sou o Sérgio Conceição. Gosto muito da sua obra e venho aqui trazer-lhe uma ajuda.” E deu-me dois mil euros para a instituição. Fiquei-lhe grata. Nessa altura, tinha umas 80 crianças aqui. Agora, são bem menos. Não o conhecia; não ligava nada a futebol», recorda Maria Teresa Granado, enquanto, por coincidência, se ouve em fundo na televisão notícias da festa de campeão do FC Porto no domingo anterior.

Passaram vinte anos e Sérgio Conceição não mais largou esta amizade. Passou a visitar regularmente a instituição. Por vezes, aparece meio disfarçado, de capuz e barba por fazer. Mas sempre pronto a ajudar.

Ao amigo a «Madre» traça o perfil em dois tempos: «É um rapaz que gosta de ajudar toda a gente. Teve dificuldades na adolescência e quando a vida lhe sorriu tornou-se num homem generoso, mas também trabalhador e muito exigente… Não é para brincadeiras. Com ele não se brinca ao trabalho.»

Maria Teresa Granado: fundadora da instituição e amiga.

Sobre a relação entre ambos, acrescenta: «Eu passei a ligar mais ao futebol. Quer dizer, ao Sérgio. Quando ele ganha, fico muito contente e telefono-lhe a dar os parabéns. Escolho sempre um momento em que ache que não o vou incomodar. Nesta época vi tudo. Vejo tudo o que é do Sérgio. Ainda ontem [domingo] estive a ver a festa dos campeões. Escrevi um livro sobre a minha vida e convidei-o para o lançamento, no dia 11 (nesta sexta-feira), ali na Praça da República, em Coimbra. Ele disse que no dia seguinte tinha jogo, mas que ia tentar aparecer…», refere, sempre num tom sereno e cativante.

Da ajuda à Académica à vontade de presidir uma instituição

A ligação à Comunidade de São Francisco de Assis é tão forte que Jorge Manuel Mendes até nos faz uma revelação surpreendente: «Ele já me disse: “Um dia, quando eu tiver tempo, gostaria de ser presidente da instituição”. Ele ganhou amizade com a senhora. Mas também, por exemplo, ajuda alguém que veja em dificuldades na televisão.»

Os exemplos sucedem-se. Sérgio já telefonou para programas para, sob anonimato, oferecer, por exemplo, uma cadeira de rodas a alguém que precisa. Noutra ocasião, após um apelo do falecido presidente da Académica, João Moreno, comprou a receita de um jogo por 60 mil euros.

«Ele é assim. Não gosta de divulgar o que faz, mas tem um coração enorme», explica Jorge. O primo Álvaro corrobora o testemunho, ao salientar o gosto de Sérgio Conceição por ajudar e a discrição com que o faz:

«O Sérgio não precisa de estar nos sítios para fazer as coisas acontecerem. Ele tem tantos amigos verdadeiros, como ele, que não tem necessidade de sequer de aparecer. Basta um ou dois telefonemas e resolve um problema. Houve uma vez que faltou leite na Comunidade Francisco de Assis e, mal soube, tratou logo de fazer lá chegar umas paletes...»

Exigente e motivador na relação com os jogadores

Sérgio tem também o seu lado temperamental. Detesta perder, mesmo que seja a jogar matraquilhos com os sobrinhos no Café Amoreira. É também rigoroso, desconfiado, até obsessivo com o trabalho.

Por outro lado, tem o lado social, bem-humorado, atento a recompensar quem trabalha. Promove desde jantares a uma série de atividades com o grupo (de sessões de stand-up comedy, paintball, corridas de karts...). Nesta época, houve um dia em que, sentindo o plantel cansado, marcou uma sessão de spa num hotel de cinco estrelas e em seguida levou craques e equipa técnica do FC Porto a almoçar numa pizzaria.

Em troca, exige trabalho. Sempre à sua maneira. Na memória dos ex-pupilos ficam gestos marcantes. Como um presente especial que ofereceu a cada jogador quando deixou o comando técnico do Olhanense, o primeiro clube que treinou, em 2011/12, antes de Académica, Vitória de Guimarães, Sp. Braga e Nantes. Dessa vez, marcou um jantar de despedida e ofereceu uma caneta Montblanc personalizada a cada jogador.

Jorge Manuel Mendes (1.ª à direita) com Conceição e Paulo Mourinho (entre ambos), ex-presidente do Ribeirense

Jorge Manuel Mendes sorri enquanto confidencia as peculiaridades do amigo: «Por vezes, ele fala comigo para tirar dúvidas, mas não se lhe pode dar muitos conselhos, senão ele faz tudo ao contrário. Amadurece muito cada decisão. Às vezes, até exagera. França mudou-o muito. Ele era visto como um tipo explosivo, mas a época passada no Nantes fez-lhe muito bem. Quem o conhece, sabe que ele é uma pessoa educada e muito correta, mas ele tem o seu temperamento e não queria passar uma má imagem.»

Amigo resume: «Tudo o que seja confuso ele adora»

A aventura em França terminou de forma abrupta no início desta época. Sérgio ficou tentado pelo regresso a um FC Porto que é como sua casa desde os 16 anos. Não podia recusar o desafio lançado por Pinto da Costa.

Havia ali uma oportunidade de sonho para potenciar a frontalidade e coragem que o caracteriza. Foi esse lado que falou mais alto quando no último defeso decidiu comprar uma guerra com o presidente Nantes, Waldemar Kita, e trocou um contrato a receber quatro milhões por cada uma das três épocas por um salário bastante inferior num FC Porto com restrições financeiras e com uma pressão tremenda para ganhar ao fim de quatro anos de seca de títulos.

«O facto de o FC Porto estar num momento difícil fascinou-o. Se o FC Porto estivesse a ganhar, tenho a certeza de que ele não viria. O FC Porto estar há quatro anos sem vencer, a passar por dificuldades… Isso mexeu com ele. Foi o desafio que o fez regressar. Ele adora isso. Tudo o que seja confuso, ele adora», diz Jorge, acrescentando: «Menosprezá-lo ou tentar feri-lo é o maior erro que um adversário pode cometer. Ele convive com isso de uma forma extraordinária. Alimenta-se disso.» E remata, resumindo tudo numa frase que não deixa ninguém indiferente: «O Sérgio tem mais talento como treinador do que como jogador. Pese embora a carreira fantástica que fez. Disse-lhe isso desde o início.»

Sérgio Conceição abraça a mulher na celebração do título.

A verdade é que Sérgio Conceição arriscou e venceu. Foi campeão. No final, cumpriu a promessa solene que havia feito onze meses antes. No Porto, em Ribeira de Frades, um pouco por todo o lado paira agora no ar a ideia de que este êxito ainda é só o começo.

Há uma carreira cheia de promessas para cumprir. Há uma vida inteira para dedicar aos seus pais.

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FC Porto

O homem que inventou a roda

Após a longa travessia do deserto, a história recente do FC Porto começou a mudar a 8 de junho de 2017. Nesse dia, Sérgio Conceição foi formalmente apresentado como treinador do FC Porto. Fez questão de dizer que não vinha para aprender, mas sim para ensinar. E disse mais: «Penta do Benfica? Não vai acontecer. Vai coincidir com o nosso campeonato.»

No parque de estacionamento do Dragão, junto ao acesso para os balneários (inusitado local escolhido para a apresentação), apareceu um treinador determinado, de discurso frontal, focado no título. O contexto, porém, não era fácil. Com o FC Porto intervencionado pela UEFA, o investimento em reforços seria praticamente nulo, inversamente proporcional à pressão de vencer após quatro épocas de seca.

O anúncio do treinador demoraria longos 17 dias… Conceição acabaria até por ser uma solução inesperada. Eram outros os nomes badalados para o cargo. Sérgio até tinha acabado de renovar com o Nantes e dobrado o salário de dois para quatro milhões de euros anuais.

O que fazer perante as dificuldades? Sérgio decidiu avançar e consigo trouxe o quarteto, que compõe a equipa técnica, Siramana Dembelé, Vítor Bruno, Diamantino Figueiredo e Eduardo Oliveira. Forçou a saída do Nantes, comprando a guerra com o presidente Waldemar Kita, aceitou baixar o salário substancialmente para vir para o Dragão, abraçou um projeto de elevado grau de dificuldade e… venceu.

O discurso frontal da apresentação tornou-se também imagem de marca. A determinação que mostrou na sala de imprensa, esteve ainda mais patente no banco. Sérgio pegou num grupo de jogadores e fez uma equipa. Resgatou emprestados – Ricardo Pereira, Reyes, Aboubakar, Marega… Criou um sistema de jogo marcadamente ofensivo; deu metros e músculo ao FC Porto e tornou-o dominador, muitas vezes avassalador, até. Inventou a roda com os jogadores no relvado, que se fez impreterivelmente no final de cada jogo e durou a época inteira.

Sérgio é um duro. Assim ditou o destino. Na adolescência perdeu os pais – o pai morreu num acidente com a mesma mota que usava para o levar aos treinos no dia a seguir a tornar-se dragão e a mãe viria a falecer pouco depois. Casou-se aos 20 anos com a atual mulher.

Foi forçado a crescer antes do tempo e o futebol acabou por dar-lhe tudo aquilo que nunca imaginou, ao crescer numa família humilde de Ribeira de Frades, freguesia do concelho de Coimbra. Formou-se na Académica, cresceu no FC Porto, onde acabaria por sagrar-se campeão nos anos do penta e voltaria para fazer parte do plantel que sob o comando de José Mourinho venceu a Liga dos Campeões. Brilhou em Itália (Lazio, Parma, Inter) e pela seleção nacional, com mais de meia centena de internacionalizações A, passou pelo Standard de Liège e pendurou as chuteiras no PAOK, em 2008/09.

Haveria de seguir-se a carreira como treinador, primeiro no Olhanense, em 2012/13, depois, na época seguinte, na sua Académica. Antes de treinar os rivais do Minho (Sp. Braga e V. Guimarães) em 2014/15 e 2015/16, respetivamente, e da aventura em Nantes, onde salvou a equipa da descida de divisão e guindou-a até ao sétimo lugar na última época.

Temperamento, franqueza e detalhe: os seus ex-pupilos apontaram-lhe essas características, em declarações ao MAISFUTEBOL, aquando da sua contratação pelo FC Porto. No foro privado, Sérgio mostra-se devoto e solidário, como o MAISFUTEBOL mostrou numa reportagem publicada em abril de 2013. Outra das suas facetas é a de homem de família, que revelou em entrevista ao jornal francês «Ouest France», em março do ano passado.

«Os meus filhos [cinco rapazes] nasceram no meio do futebol. O de 17 anos joga no Benfica e também está na seleção sub-17, é extremo como eu. O mais novo, de 14, também é extremo e joga no Sporting. O mais velho está na universidade, está a tirar gestão desportiva e joga na 3.ª divisão. É duro estar longe da família, não poder acompanhá-los. É o meu ponto fraco.», disse então, meses antes de assinar pelo FC Porto. O resto já se sabe. Qual bom filho, regressou a casa para fazer história, e, mesmo sem o reclamar, merece uma «fatia de dragão» no mérito pela conquista do título do 28.º título de campeão nacional conquistado pelo FC Porto.

Que façanha! Sobretudo tendo em conta o ponto de partida. Sem extraordinários recursos, Sérgio Conceição fez uma revolução tranquila e tirou o FC Porto do marasmo, reconciliando-o com os adeptos e com o bom futebol. Que extraordinário progresso! Tão genialmente simples como a invenção da roda.

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FC Porto-Rio Ave (Lusa)

Marega e mais dez: as figuras do campeão

A época em que Herrera pediu desculpa com um golaço, Casillas acrescentou mais um título ao currículo, Brahimi fez a magia do costume, Alex Telles deu assistência e o maliano...esteve em todas.

Moussa Marega. A improvável figura maior do título portista. O avançado maliano passou de patinho feio a jogador mais decisivo rumo ao campeonato que fugia há quatro anos, com Sérgio Conceição a conseguir potenciar ao máximo as suas características.

Mas, como é óbvio, o FC Porto campeão foi obra de muitos mais. Passa pelo golo de Herrera na Luz, pela forma como Sérgio Oliveira colou a equipa quando perdeu Danilo, pelos golos de Aboubakar, pelas assistências de Alex Telles, pela segurança de Casillas ou da dupla Felipe-Marcano. Uma mescla que resultou na reconquista do título e lançou a euforia entre as hostes azuis e brancas.

Quem és tu Marega?

Estávamos em agosto e os adeptos faziam contas. Os reforços não chegavam, Sérgio Conceição apresentava um esquema de jogo que indiciava dar espaço a dois avançados na frente e a dedução era simples: falta gente. Parecia, não era? Ninguém estava era a adicionar Marega à equação. Muito provavelmente, só mesmo Conceição percebeu que o maliano, a regressar de empréstimo após uma primeira passagem para esquecer no Dragão, ainda poderia ser feliz de azul e branco vestido.

Na primeira jornada, Marega saltou do banco para render o lesionado Soares e marcou dois golos. O que começou por ser visto como uma espécie de «sorte de principiante», aos poucos foi-se transformando em constante. Os golos sucederam-se, as exibições convenceram e quando, após a vitória caseira com o Sporting, se lesionou, a equipa sentiu muito a sua falta. Voltou a tempo de, na Madeira, marcar o golo que deixou tudo mais claro. Foi o jogador mais decisivo na época do FC Porto, virando, completamente, a imagem do avesso.

Herrera: um título serve de pedido de desculpas?

É verdade que, não sendo um jogador consensual, também não tinha sobre si um espectro pessimista tão grande quanto Marega. De qualquer forma, havia sempre o fantasma do jogo com o Benfica, no Dragão, na época passada, em que cedeu de forma inusitada o canto que viria a resultar no empate para lá da hora. Que melhor forma de se redimir do que fazer o FC Porto renascer para o título em pleno estádio da Luz, com um golaço?

Começou a época na sombra da dupla Danilo-Oliver, mas rapidamente ganhou o lugar ao espanhol e tornou-se indiscutível no miolo. Quando o português se lesionou, ganhou companhia de Sérgio Oliveira e conseguiu formar uma dupla coesa, fazendo com que o FC Porto não se ressentisse da ausência e empurrando os colegas para uma reta final que, pese os tropeções de Paços de Ferreira e Restelo, acabou por dar o tão desejado título.

Brahimi, porque a magia faz sempre falta

Numa equipa que foi, quase sempre, direta ao assunto e sem grandes curvas no caminho até ao golo, Brahimi foi a exceção necessária. A magia faz falta a qualquer equipa quando o plano A ameaça falhar.

O mago argelino consegue, à quarta tentativa, o título que buscava desde que aterrou em Portugal e começou a mostrar a sua classe nos relvados lusos. Viveu, por ventura, a mais regular das épocas em Portugal, com lampejos da primeira amostra, do verão de 2014, marcando ainda o decisivo golo na vitória com o Sporting. O jogo com o V. Guimarães, em casa, quando fez um dos golos do ano, será a melhor amostra daquilo que Brahimi dá ao jogo do FC Porto: o seu lado imprevisível.

Alex Telles, precisa de assistência?

Há uma brincadeira que já passou por vários jogadores e que os compara a uma seguradora: quando for preciso assistência, ele está lá. Alex Telles é mais um que encaixa neste perfil.

O rei das assistências do plantel e da Liga confirmou no segundo todas as qualidades que já tinha mostrado no primeiro. É mais um na linhagem de bons laterais esquerdos do FC Porto, numa posição onde não há muito tempo havia Alex Sandro ou Álvaro Pereira. Também deu o seu contributo decisivo com o golo de livre que iniciou a reviravolta no Estoril, num dos jogos mais marcantes da temporada.

Casillas: ora diga 23!

Na mais conturbada época de dragão ao peito, em que chegou a perder o lugar para José Sá durante um largo período, Iker Casillas pode sair de cabeça erguida. Não só recuperou o posto à custa do seu trabalho e de uma postura irrepreensível mesmo quando assistiu a vários jogos no banco de suplentes, como ainda consegue o 23.º título da carreira, o primeiro em Portugal.

No currículo de um dos jogadores mais titulados da história do futebol, passa a constar a Liga portuguesa, ao lado de cinco campeonatos espanhóis, duas Taças do Rei, quatro Supertaças de Espanha, três Ligas dos Campeões, duas Supertaças Europeias, uma Taça Intercontinental, um Mundial de Clubes, um Mundial de Seleções, dois Europeus de seleções e um Mundial sub-20. Ufff...

Agora fica a dúvida: o contrato termina. Iker despede-se ou renova?

Marcano e Felipe: se calhar Pinto da Costa não exagerou assim tanto...

Foi na época passada que o presidente do FC Porto colocou um rótulo pesado em Marcano e Felipe: «uma das melhores duplas de sempre» do clube e do futebol português. Será mesmo? A verdade é que os números encarregaram-se de colocar a sentença do presidente portista debaixo de uma capa que parecia exagerada, mas se calhar não é assim tanto.

Já ninguém se lembra do Marcano hesitante e errático que chegou à Invicta em 2014, sendo que com Felipe as dúvidas dissiparam-se bem mais rápidos. É difícil separá-los nesta análise, embora seja de salientar que o espanhol viveu, este ano, a mais goleadora temporada da carreira: seis golos, quatro deles na Liga. Felipe marcou quatro, mas foi, sobretudo, na segurança defensiva, claro está, que a ação de ambos se revelou decisiva, secundados por Reyes, que se mostrou à altura para suprir ausências, mas nunca ousou contestar o estatuto dos dois titulares.

Sérgio Oliveira: dos jogos grandes aos jogos todos

Mónaco-FC Porto, 26 de setembro. Cerca de uma hora antes do início do jogo, a notícia cai como uma bomba: Sérgio Oliveira titular. O médio não tinha qualquer minuto de competição até àquele dia. O sucesso no Principado ajudou a validar a aposta e Sérgio Conceição passou a repeti-la em jogos de maior grau de dificuldade. Os primeiros jogos do médio a titular foram, por esta ordem, contra Mónaco, Sporting, Leipzig, Besiktas e Benfica. Um percurso caricato que, contudo, a partir da 19.ª jornada alargou-se a tudo o resto.

A lesão de Danilo, abriu uma vaga no miolo e Conceição não perdeu muito tempo a apostar a tempo inteiro em Oliveira. Passou de jogador dos jogos grandes a jogador dos jogos todos.

Ricardo Pereira: cresceu quando recuou

Um bom exemplo de como uma sustentada política de empréstimos pode ser útil a um clube. Ricardo Pereira passou dois anos em França, deixou de ser extremo e passou a lateral. Recuou no terreno e cresceu imenso como jogador. Partiu menino, voltou homem.

Desde o início da época que a lateral direita da defesa foi dele e Ricardo transformou-a numa autêntica passadeira em vaivém defesa ataque. Passadeira bloqueada, claro, porque a segurança também lá esteve nas doses certas. Jogou a extremo quando o treinador precisou, foi lateral no resto do tempo, foi útil de início a fim.

Danilo: guerreiro travado pelo combate

Decisivo no início, afastado depois. Danilo foi, por ventura, a ausência mais prolongada da época, depois da lesão sofrida na meia final da Taça da Liga, seguindo-se outra, logo no regresso, em Belém, naquele que foi o ponto mais baixo da temporada portista.

Antes disso, contudo, Danilo foi indiscutível como sempre, desde que chegou ao FC Porto. Demorou um pouco a perceber as ideias de Sérgio Conceição para o seu lugar, mas quando tudo encaixou foi o guerreiro do costume, marcando ainda golos importantes ao Rio Ave, em Vila do Conde, ou ao Leipzig, para a Liga dos Campeões. A lesão roubou-lhe a ponta final e o Mundial, mas Danilo pode ser o primeiro reforço para o campeão na época que aí vem.

Aboubakar: para quem não queria vir...

A presença de Vincent Aboubakar no plantel portista foi, por si só, uma surpresa. O avançado chegou a afirmar, durante a passagem pelo Besiktas, que não tinha intenções de voltar a vestir a camisola portista. Sérgio Conceição mudou tudo. Convenceu-o, motivou-o e tirou dele a melhor temporada da carreira!

A sua importância pode ser mais discreta agora, pois os problemas físicos obrigaram-no a uma quebra notória de rendimento a partir de janeiro: apenas três dos 26 golos que somou este ano, em todas as competições, foram em 2018. Mas a época dura dez meses e não cinco e, por isso, ainda hoje, Aboubakar é o melhor marcador portista somando todas as provas, o que, por si só, realça a importância que conseguiu ter no grupo. É caso para dizer: para quem não queria vir, nem se saiu nada mal.

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Escolhas de Conceição: sem H&M a abrir, mas sempre fiel ao seu estilo

FC Porto iniciou a caminhada para o título sem aquela que se tornaria a sua maior figura, nem tão pouco o autor do golo mais simbólico

Se recuarmos até 9 de agosto de 2017, dia em que o FC Porto iniciou a caminhada para o título 2017/18, é curioso verificar que o «onze» apresentado frente ao Estoril não tinha aquele que se revelaria o jogador mais influente da campanha (Moussa Marega), nem tão pouco o autor do golo que mais tarde lançaria o dragão em definitivo para esta conquista (Héctor Herrera).

Onze do FC Porto na 1ª jornada, frente ao Estoril (4-0)

Mas com a lesão de Tiquinho Soares logo ao minuto 32 da ronda inaugural, que implicou uma paragem de um mês, Marega saltou para a titularidade.

Herrera teve de esperar um pouco mais, mas não muito. Após a derrota caseira com o Besiktas, para a Liga dos Campeões, Sérgio Conceição lançou o mexicano para o lugar de Óliver Torres. Isto para o duelo com o Rio Ave, da sexta jornada da Liga.

Onze do FC Porto na 6ª jornada, em Vila do Conde (1-2)

Por esta altura o técnico portista começa também a revelar algumas das nuances táticas reservadas para a temporada. Em Vila do Conde lançou Otávio como terceiro médio e encostou Marega à direita.

Uma estratégia idêntica à que apresentou em Alvalade, duas jornadas depois, mas com Sérgio Oliveira em vez de Otávio.

Onze do FC Porto em Alvalade, na 8ª jornada (0-0)

Em meados de Outubro o técnico portista avançou com a troca mais debatida da época, a da baliza. José Sá começou por substituir Iker Casillas frente ao Lusitano de Évora, para a Taça de Portugal, e aí ninguém julgou mais além, mas o português repetiu a titularidade em Leipzig, para a Liga dos Campeões, assim como na goleada caseira ao Paços de Ferreira, na 9ª jornada da Liga.

Onze do FC Porto para a receção ao Paços de Ferreira, para a 9ª jornada (6-1)

Passou o espanhol a ser a opção para a Taça de Portugal e Taça da Liga, regressando à atividade no campeonato apenas a 18 de fevereiro, frente ao Rio Ave, na 23ª jornada. Por esta altura estava Sérgio Oliveira a cimentar um lugar no «onze», por força da lesão de Danilo, no final de janeiro. A primeira ideia de Sérgio Conceição foi recuperar Óliver Torres, titular na 20ª ronda, a do nulo em Moreira de Cónegos, mas frente ao Sp. Braga a escolha já recaiu no português, que não mais largou o lugar.

Onze do FC Porto na receção ao Sp. Braga, para a 21ª jornada da Liga (3-1)
Onze do FC Porto na receção ao Rio Ave, para a 23ª jornada (5-0)

Estava encontrado o onze-base para atacar a reta final da temporada, independentemente dos ajustes exigidos por cada desafio, ou mesmo a necessidade de gerir a condição física de alguns jogadores. Dalot rendeu o lesionado Alex Telles em quatro jornadas; Ricardo foi lateral, extremo e até avançado (fez de Marega frente ao Boavista); Corona alternou com Otávio; Soares compensou a perda de fulgor de Aboubakar após a lesão.

Em suma, as alterações de fundo registaram-se na baliza e na zona intermédia, sendo que a troca de Danilo até foi forçada.

Apesar das condicionantes financeiras na construção do seu plantel, Sérgio Conceição cedo mostrou o que queria. Mais do que criar uma identidade, conseguiu contagiar o grupo com a sua forma de olhar para o jogo.

Salvo raras exceções na caminhada para o título, o FC Porto foi sempre uma equipa intensa, pressionante, vertical. A dar até mais importância à alma do que ao cérebro, sobretudo no processo ofensivo, mas bem consciente daquilo que tinha de fazer em todos os momentos do jogo, inclusive no trunfo das bolas paradas.

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Sérgio Conceição

«Não seria fácil encaixar Neymar»: frases que marcam o ano do dragão

Desde o início de junho até este mês de maio, houve uma palavra que percorreu toda a temporada azul e branca: ganhar, ganhar, ganhar. Mas também houve frases engraçadas.

O FC Porto sagrou-se campeão este fim de semana, cumprindo uma profecia de Sérgio Conceição, que logo na apresentação garantiu que em maio ia haver festa.

O treinador está muito neste texto sobre as melhores frases do campeão, mas não está sozinho. De Casillas a Herrera, de Deco a Manuel Machado, venha daí recordar o que eles disseram.

«Onde quer que os meus pais estejam, estão felizes hoje. Mas estarão ainda mais em maio, com a conquista do título»
Sérgio Conceição, num final de tarde de 8 de junho de 2017, mostrava tudo o que era: coração e ambição

«Muito contente por continuar por mais uma temporada no FC Porto. Com muita vontade perante os objetivos que aí vêm»
Casillas, depois da renovação por um ano, cheio de ambição de vencer

«Quem me conhece sabe que eu gosto de rigor e disciplina. Marega não vai possivelmente ter uns primeiros tempos muito fáceis, mas depois penso integrá-lo e fazer parte do grupo»
Sérgio Conceição, já a adivinhar que os últimos tempos de Marega iam ser muito bons

«Estou contente com os jogadores que tenho. Aliás, fiquei preocupado quando o Neymar veio ao Porto fazer exames médicos. Teria de o encaixar na equipa e não seria fácil...»
Sérgio Conceição, sem queixas do grupo sem reforços que tinha

«Para sermos campeões temos de estar com Sérgio Conceição até à morte»
Danilo, numa demonstração de união lapidar

«Não gosto de festas, mas percebo a paixão dos adeptos. Não gosto muito deste tipo de eventos mas tenho de respeitar. Para mim a festa faz-se depois do nosso trabalho em campo»
Sérgio Conceição, após a apresentação aos adeptos, pouco satisfeito, portanto

«Somos culpados de fazer uma boa pré-época? Temos culpa de mostrar uma equipa competitiva e forte? Não entendo. Parece que é pecado»
Sérgio Conceição, no final da pré-temporada, quando o FC Porto já era considerado o candidato mais forte ao título

«Por que nos atrasámos para a segunda parte? Foi por minha causa. Disse logo que pago a multa. Tinha que dar indicações para o início do segundo tempo»
Sérgio Conceição, após a segunda jornada, quando ainda não estava farto de pagar multas

«É verdade que disse que não queria voltar, porque eu não queria partir e acho que não merecia sair do FC Porto. Tudo mudou depois de falar com os responsáveis do FC Porto. Voltei, estou feliz, estou contente e sinto-me bem no grupo do FC Porto»
Aboubakar explicou o que mudou em relação a quando disse que não voltaria ao FC Porto

«É um FC Porto muito mais peludo do que no passado. Com pelo na venta»
Manuel Machado, como não amar?

«Entrámos no jogo de uma forma que não planeámos, culpa minha. Se há algum culpado sou eu e assumo a culpa. A abordagem para este jogo não foi a melhor, se tivesse sido tínhamos ganho»
Sérgio Conceição, após a primeira derrota da época, frente ao Besiktas, ilibando os jogadores

«Ontem na antevisão em dez perguntas tive oito sobre o Benfica. O que eu disse foi o contrário do que vem na imprensa. Nunca falei em crise do Benfica, disse que estava à vista de todos o que é o campeonato e que não durmo nem acordo a pensar nos rivais. Sobre o jogo não falo, porque ontem também não me perguntaram pelo jogo. Por isso não falo»
Sérgio Conceição, abandonando a sala de imprensa após a vitória sobre o Portimonense, no primeiro momento de fúria da época

«Valorizo muito jogadores como Brahimi, Marega e Aboubakar, porque se não fossem bons não estariam no FC Porto. Tiveram todos os três grandes propostas para sair, mas disse não a todos»
Pinto da Costa, como que perguntando: afinal o FC Porto investiu ou não no plantel?

«Desde que assinei pelo FC Porto, em janeiro de 2016, que tudo foi muito difícil para mim. A crítica caiu-me em cima, mas em Guimarães consegui evoluir de novo e voltar a erguer-me»
Marega, que nesta altura ainda não sabia que seria a figura do futuro campeão

«Estive a pensar se devia ir a Lisboa ou não. O Jesus disse que se o Sporting jogasse como tinha jogado contra o Barcelona ganhava ao FC Porto. Não sei se valerá a pena dar despesa ao clube»
Sérgio Conceição, antes do clássico em Alvalade, sempre descontraído

«O que disse aos jogadores no final do jogo na roda? Não costumo revelar isso, mas vou fazê-lo: que íamos ser campeões. Com esta atitude, determinação, qualidade, vamos ser campeões»
Sérgio Conceição, no final do empate (0-0) no clássico em Alvalade

«Sérgio Conceição disse-me que não gostou do que viu nas redes sociais e eu respondi que não fiz de propósito, para chocar fosse quem fosse. Pedi desculpa ao treinador, aos meus colegas, ao presidente, aos dirigentes e aos adeptos. E agora, mais uma vez, peço desculpa»
Aboubakar depois de ser filmado no balneário do Besiktas a dançar após uma derrota

«Tem a ver com o que foi a semana de trabalho de cada um. Tem que haver competitividade interna. Há outros que se calhar valorizam o estatuto, os olhos, a cor da pele... Eu não. A única grande referência que existe no nosso clube é o presidente»
Sérgio Conceição, justificando por que Casillas ficou de fora do onze

«O José Sá tem um grande problema: tem a barba muito grande. Toda a gente o massacra. Num jornal vem Frango de José Sá. No outro vem Perdoado [referindo-se a Svilar]. Se é por causa da barba, já o mandei cortar a barba»
Sérgio Conceição, defendendo José Sá depois de uma estreia pouco feliz na baliza

«14 Anos. Parabéns. Um Estádio que continua a trazer boas recordações»
Tweet do FC Porto no aniversário do Estádio da Luz

«Disseram-vos a vocês e a mim não me disseram nada? Com quem falaram no FC Porto?»
Casillas, através do twitter, reagindo a notícias que davam conta da saída dele do clube

«Quando cheguei ao FC Porto perguntei: um mexicano a capitão do FC Porto? Mas depois compreendi. Além de bom jogador, Herrera é excelente pessoa e muito respeitado no balneário»
Sérgio Conceição comentava assim a boa temporada de Herrera

«O FC Porto é o favorito ao título, depois estamos nós e a seguir o Benfica»
Piccini, num momento de lucidez, mostrou o futuro

«O Sérgio Conceição faz-nos acreditar que somos fortes»
Danilo, explicando a fórmula do sucesso do FC Porto

«O Sérgio Conceição não consegue ser uma pessoa como jogador e outra como treinador. Como jogador conquistou tudo na raça, na vontade. Não admite a derrota»
Deco, numa análise lúcida

«Se eu não puder ficar com Marcano e se ele for parar ao Benfica, o que posso fazer? Não o vou retirar da equipa, porque tenho a certeza de que vai ser sério até ao último dia»
Pinto da Costa, quando se lhe perguntava sobre Marcano estar em final de contrato

«Sou a pessoa que mais quer ganhar neste clube. Estou cansado de não ganhar nada por este ou aquele motivo»
Herrera, o capitão, dando o exemplo para o grupo

«Rui Vitória faz-me lembrar um boneco que o meu filho tem em casa e que não tem expressão. Depois carrega-se no botão do modo agressivo e ele cerra os dentes. Depois carrega-se no botão do modo padre e ele faz assim [junta as mãos]. Eu não sou desses, não sou comandado para aparecer de diferentes maneiras à frente da comunicação social.»
Sérgio Conceição, em resposta a Rui Vitória, que tinha reagido com irritação quando o treinador do FC Porto o acusou de não ser coerente

«Nunca foi minha intenção ofender ninguém. Sou frontal. Falo de uma forma apaixonada. Mas não fui feliz num exemplo que dei de um colega meu de profissão»
Sérgio Conceição retratou-se desta forma do que dissera de Rui Vitória

«Fui eu que dei o aval ao presidente do Sp. Braga para ir buscar o Abel. Fui eu que fui buscar o Abel, no fundo. E depois trabalhámos sete meses juntos, tivemos uma ou outra reunião, falámos várias vezes ao telefone. E diz que não me conhece pessoalmente?»
Sérgio Conceição, admirado quando Abel disse que não o conhecia e que preferia uma crítica construtiva a uma falso elogio

«Não gostei, o Soares retratou-se publicamente, mas mais importante que publicamente, é dentro do balneário: e aí foi tudo tratado olhos nos olhos. Portanto a porta está entreaberta agora cabe ao Tiquinho saber se entra ou fica na parte de fora»
Sérgio Conceição comentando a atitude de Soares, que saiu chateado quando foi substituído no clássico com o Sporting e recusou cumprimentar alguns responsáveis do FC Porto

«Casillas é importante na equipa e no balneário. Tem mais experiência e há momentos em que isso conta. Senti que o momento da equipa, depois dos 5-0, pedia que ele jogasse»
Sérgio Conceição, sobre o regresso de Casillas à titularidade após a goleada com o Liverpool

«A história do Felipe Vale-Tudo deu-me gás. É sinal de que estou a incomodar. Se fossem os meus adeptos, aí ficaria incomodado. Mas se é do meu rival...»
Felipe, em resposta às críticas do Benfica, que o acusavam de excessiva dureza

«E-toupeira? Faz parte do que é falar do futebol e eu não falo do futebol, falo de futebol. Quando entrámos no Olival toda a bicharada fica de fora, sejam toupeiras ou outra coisa»
Sérgio Conceição, concentrado apenas em jogar à bola

«O tempo, o clima, o adversário... Se não fazemos bem as coisas de início é normal que tenhamos dificuldades»
Casillas, depois da derrota em Paços de Ferreira, assumindo que não há desculpas

«Ao intervalo abordei o Sérgio de uma forma que não foi a melhor, porque o deixou intranquilo para bater o penálti. A culpa é exclusivamente minha. O próximo penálti vai marcá-lo ele»
Sérgio Conceição, retratando-se perante Sérgio Oliveira e perante o grupo publicamente, depois do médio ter falhado um penálti em Paços de Ferreira

«No balneário e na nossa roda no final, a mensagem foi: respeito pelos adversários porque ainda não ganhamos nada»
Sérgio Conceição, depois da vitória na Luz e da subida à liderança da Liga

«A justiça para Herrera só virá quando ele levantar o troféu»
Layún, garantindo que Herrera merece ser campeão mais que todos pelo que sofreu depois de ter concedido o canto que permitiu ao Benfica empatar no Dragão em 2016

«Tivemos alguns problemas no início, como problemas financeiros, que não deram hipótese para grandes contratações, mas formámos um grupo forte com jogadores que pertenciam a toda a gente. O mérito é de toda a gente na estrutura do FC Porto»
Sérgio Conceição. Parabéns, campeão

7
Benfica-FC Porto

O «Herrerazo» e mais nove momentos

Da chegada de Sérgio Conceição ao verdadeiro jogo de duas partes distintas no Estoril: todos os momentos contam, mas estes foram os mais marcantes

Da chegada de Sérgio Conceição ao verdadeiro jogo de duas partes distintas no Estoril: todos os momentos contam, mas estes foram os mais marcantes

1 - Um treinador que veio «para ensinar»

«Não vim para aprender, vim para ensinar». Esta foi uma das frases mais marcantes da apresentação de Sérgio Conceição no FC Porto. Foi o momento que deu início a tudo o que se seguiu. Depois de experiências falhadas com Paulo Fonseca, Julen Lopetegui, José Peseiro e Nuno Espírito Santo, o dragão encontra um líder. Um homem que conhece a casa, ainda com currículo curto mas com uma vontade grande de triunfar, que também ajudou a fazer a diferença.

2 - Braga confirma entrada à campeão

À quarta jornada, o primeiro grande teste da época. Com categoria em casa e de forma sólida fora de portas, o FC Porto tinha ultrapassado as barreiras colocadas por Estoril, Tondela e Moreirense. Vencer em Braga confirmaria uma entrada de candidato. E a armada de Conceição não vacilou. Jesus Corona fez um golaço logo na fase inicial do jogo, o FC Porto controlou até ao fim e até poderia ter ganhado por mais. Manteve o pleno de vitórias, que só cairia em Alvalade, e a liderança da Liga. O dragão estava com fome e era mesmo candidato a campeão.

3- O primeiro empate levou ao grito de Conceição

O FC Porto vinha de sete triunfos seguidos quando chegou a Alvalade. Num jogo em que dominou por completo, algo assumido inclusivamente por Jorge Jesus, não conseguiu manter o ritmo e cedeu os primeiros dois pontos. Terminou sem golos, mas não sem emoção. Na roda que começava a ficar famosa e que os jogadores e equipa técnica faziam no relvado no final de todos os jogos, as câmaras televisivas apanham um grito em forma de confidência de Sérgio Conceição: «Vamos ser campeões!». Os jogadores não desvalorizaram a mensagem e, sete meses depois, fizeram-lhe a vontade.

4 - A maior goleada, com novidade na baliza

Foi a jornada seguinte ao empate em Alvalade, mas tanta coisa aconteceu pelo meio. O FC Porto estreou-se na Taça de Portugal com goleada ao Lusitano Évora (6-0) e foi jogar a Leipzig para a Liga dos Campeões perdendo 3-2. Na baliza, em ambos, José Sá. Se na Taça ninguém estranhou, a continuidade da Champions apanhou toda a gente de surpresa. Na 8.ª jornada, na receção ao Paços de Ferreira, ficava consumada a troca na baliza: Iker Casillas ia para o banco de onde só sairia, na Liga, pela 24.ª jornada. Quando ao jogo, foi mais uma goleada portista, a maior do campeonato: 6-1!

5 - A primeira desilusão a sério no duelo com o Benfica

O FC Porto já tinha cedido pontos com Sporting e Desp. Aves, sendo que, sobretudo o segundo resultado, esteve naturalmente longe de agradar. Mas a primeira grande desilusão da época, num ano em que não abundaram, aconteceu no Dragão frente ao Benfica. O FC Porto não saiu do nulo, tal como acontecera em Alvalade, desperdiçando ocasiões suficientes para vencer, sobretudo na reta final. Era a oportunidade de deixar o rival no tapete, mas os homens de Rui Vitória conseguiram agarrar-se às cordas e só tombaram uma volta depois, quando até parecia bem menos provável.

6 - Estoril: o tal jogo de duas partes distintas

Conhecem a expressão estafada do «foi um jogo com duas partes distintas»? Pois bem, aqui aplica-se na perfeição: a primeira parte do Estoril-FC Porto, da 18.ª jornada, jogou-se a 15 de janeiro e a segunda 21 de fevereiro. Por culpa da bancada norte, cuja segurança em risco levou à interrupção do jogo ao intervalo. Com uma equipa renovada, o FC Porto consumou a reviravolta de 1-0 para 1-3 com golo de Telles (que se lesionou) e bis de Soares, e só precisou de meia parte. Num jogo atribulado pelas inusitadas incidências, o dragão apareceu dominador na segunda parte e no fim ampliou a vantagem no comando para 5 pontos, com 13 jogos por disputar.

7 – Leão abatido e volta olímpica

Comecemos pelo fim: o clássico termina com os jogadores do FC Porto a darem a volta olímpica ao relvado e cantando em uníssono com os adeptos «Eu Quero o Porto Campeão!». O triunfo por 2-1 no Dragão sobre o Sporting (com golos de Marcano e Brahimi) praticamente arredou os leões da luta pelo título. A equipa de Sérgio Conceição venceu o primeiro clássico da Liga, depois de três empates entre os três grandes, e ficou com oito pontos de vantagem sobre Sporting e cinco sobre o Benfica a nove jornadas do final.

8 – A cruz do Restelo e liderança perdida

Após a vitória no clássico frente ao Sporting, o título parecia encaminhado… Parecia. Ninguém esperava, porém, que nas duas deslocações que se seguiram o até então invicto FC Porto perdesse os dois jogos. À derrota por 1-0 em Paços de Ferreira (jornada 26), seguiu-se novo desaire na jornada 28, por 2-0 em casa do Belenenses. A cruz do Restelo pesou nas costas do dragão, que perdeu a liderança e foi ultrapassado pelo Benfica, ficando a um ponto do 1.º lugar, que era seu desde o arranque do campeonato (exceto quando teve jogos em atraso). Impressionante, mesmo assim, foi o apoio do público portista, que proporcionou a melhor casa da época no Restelo (assistência de 12 859 espectadores), que no final, após o desaire, não esmoreceu nos cânticos e aplausos à equipa.

9 – Herrerazo: a acender a luz do campeão

15 de abril: o dia da viragem. A escolher um momento do campeonato, este será sem sombra de dúvida o minuto 89 do Benfica-FC Porto: o momento da redenção de Herrera, que um ano e meio antes havia ficado marcado por um canto que viria a dar um empate num clássico no Dragão frente aos encarnados. Desta vez, no jogo do título, na jornada 30, à entrada da área, o capitão disparou para o golo do clássico e do campeonato. Os dragões vencem, depois de uma segunda parte em que foram superiores, e ultrapassam o Benfica, que fica a dois pontos, a quatro jornadas do fim e com um clássico ainda por disputar. Uma espécie de Maracanazzo na Luz. Ou de momento Kelvin, mas com Herrera. 15 de abril foi o dia do Herrerazo.

10 – Caminho Marítimo para o título

Da partida no Dragão, com milhares de adeptos na despedida, ao regresso ao aeroporto, com uma multidão ainda maior na receção, a festa antecipada do título fez-se na jornada 32. A surpreendente derrota do Benfica na Luz diante do Tondela acelerou a definição do título, que ficaria quase em definitivo encaminhado com o triunfo do FC Porto na Madeira, ilha amaldiçoada nas últimas temporadas. Seis anos depois, os azuis e brancos voltaram a ganhar na Madeira. Um golo de Marega, aos 89’, abriu o caminho Marítimo para o título. Após a chegada apoteótica ao aeroporto do Porto, no passado domingo, a festa haveria de ser consumada com o empate no dérbi, na véspera da celebração no Dragão frente ao Feirense.

8

Sérgio, o 11º campeão como treinador e jogador

Sérgio Conceição foi campeão como treinador pelo FC Porto, depois de ter festejado três títulos como jogador. O primeiro troféu na carreira de Conceição no banco junta-o a um clube restrito: é apenas o 11º a celebrar o título de campeão nacional como jogador e treinador.

Conceição já tinha no currículo os títulos do FC Porto de 1996/97, 1997/98 e 2003/04, estes em campo, agora celebra o de 2017/18.

Campeões nacionais como jogadores e treinadores:

Juca (Sporting)

Mário Lino (Sporting)

Mário Wilson (Sporting/Benfica)

Pedroto (FC Porto)

Fernando Mendes (Sporting)

Artur Jorge (FC Porto/Benfica)

Toni (Benfica)

António Oliveira (FC Porto/Sporting)

Inácio (FC Porto/Sporting)

Jaime Pacheco (Boavista/FC Porto)

Sergio Conceição (FC Porto)

9

André e Gonçalo repetem feito dos pais

André e Domingos são por esta altura, mais do que nunca, pais babados. Os filhos conquistaram este sábado pela primeira vez o título nacional ao serviço do FC Porto, imitando o feito dos progenitores.

António André, pai de André André, foi sete vezes campeão nacional no FC Porto: 1984/85, 1985/86, 1987/88, 1989/90, 1991/92, 1992/93 e 1994/95.

Domingos Paciência, pai de Gonçalo, ganhou o campeonato nacional também em sete ocasiões: 1987/88, 1989/90, 1991/92, 1992/93, 1994/95, 1995/96 e 1996/97.

André André (12 jogos) e Gonçalo Paciência (8 jogos) também já são campeões nacionais, mas ainda estão a seis títulos dos pais.

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Todos os resumos e fichas de jogo

Liga, 1ª jornada, 9 de agosto de 2017
FC Porto-Estoril, 4-0
(Marega, 34 e 60; Brahimi, 52; Marcano, 69)

Liga, 2ª jornada, 13 de agosto de 2017
Tondela-FC Porto, 0-1
(Aboubakar, 37)

Liga, 3ª jornada, 20 de agosto de 2017
FC Porto-Moreirense, 3-0
(Aboubakar, 18, 21, 77)

Liga, 4ª jornada, 27 de agosto de 2017
Sp. Braga-FC Porto, 0-1
(Corona, 6)

Liga, 5ª jornada, 9 de setembro de 2017
FC Porto-Desp. Chaves, 3-0
(Aboubakar, 49; Soares, 86; Marega, 89)

Liga, 6ª jornada, 17 de setembro de 2017
Rio Ave-Sporting, 1-2
(Nuno Santos, 80) (Danilo, 54; Marega, 67)

Liga, 7ª jornada, 22 de setembro de 2017
FC Porto-Portimonense, 5-2
(Marcano, 20; Aboubakar, 22; Marega, 25; Brahimi, 48 e 66) (Nakajima, 36; Rúben Fernandes, 72)

Liga, 8ª jornada, 1 de outubro de 2017
Sporting-FC Porto, 0-0

Liga, 9ª jornada, 21 de outubro de 2017
FC Porto-P. Ferreira, 6-1
(Ricardo Pereira, 4; Felipe, 18; Marega, 25 e 33; Corona, 65; Aboubakar, 72) (Welthon, 8)

Liga, 10ª jornada, 28 de outubro de 2017
Boavista-FC Porto, 0-3
(Aboubakar, 50; Marega, 81; Brahimi, 86)

Liga, 11ª jornada, 4 de novembro de 2017
FC Porto-Belenenses, 2-0
(Herrera, 42; Aboubakar, 90)

Liga, 12ª jornada, 25 de novembro de 2017
Desp. Aves-FC Porto, 1-1
(Vítor Gomes, 63) (Ricardo Pereira, 6)

Liga, 13ª jornada, 1 de dezembro de 2017
FC Porto-Benfica, 0-0

Liga, 14ª jornada, 10 de dezembro de 2017
V. Setúbal-FC Porto, 0-5
(Aboubakar, 32, 45 gp e 69; Marega, 41 e 83)

Liga, 15ª jornada, 18 de dezembro de 2017
FC Porto-Marítimo, 3-1
(Reyes, 19; Marega, 45 e 76) (Fábio Pacheco, 26)

Liga, 16ª jornada, 3 de janeiro de 2018
Feirense-FC Porto, 1-2
(Rocha, 26) (Aboubakar, 22; Felipe, 76)

Liga. 17ª jornada, 7 de janeiro de 2018
FC Porto-V. Guimarães, 4-2
(Aboubakar, 57; Brahimi, 62; Marega, 79 e 83) (Raphinha, 22; Heldon, 88)

Liga, 18ª jornada, 15 de janeiro, terminado a 21 de fevereiro de 2018
Estoril-FC Porto, 1-3
(Eduardo, 17) (Alex Telles, 53; Soares, 59 e 67)

Liga, 19ª jornada, 19 de janeiro de 2018
FC Porto-Tondela, 1-0
(Marega, 14)

Liga, 20ª jornada, 30 de janeiro de 2018
Moreirense-FC Porto, 0-0

Liga, 21ª jornada, 3 de fevereiro de 2018
FC Porto-Sp. Braga, 3-1
(Sérgio Oliveira, 14; Reyes, 39; Aboubakar, 73) (Raúl Silva, 31)

Liga, 22ª jornada, 11 de fevereiro de 2018
Desp. Chaves-FC Porto, 0-4
(Soares, 15 e 28; Marega, 57; Sérgio Oliveira, 90)

Liga, 23ª jornada, 18 de fevereiro de 2018
FC Porto-Rio Ave, 5-0
(Sérgio Oliveira, 2; Soares, 22 e 86; Marcelo, 34 pb; Marega, 72)

Liga, 24ª jornada, 25 de fevereiro de 2018
Portimonense-FC Porto, 1-5
(Possignolo, 90) (Marega, 10 e 44; Otávio, 16; Soares, 55; Brahimi, 66)

Liga, 25ª jornada, 2 de março de 2018
FC Porto-Sporting, 2-1
(Marcano, 29; Brahimi, 49) (Rafael Leão, 45)

Liga, 26ª jornada, 11 de março de 2018
P. Ferreira-FC Porto, 1-0
(Miguel Vieira, 35)

Liga, 27ª jornada, 17 de março de 2018
FC Porto-Boavista, 2-0
(Felipe, 2; Herrera, 63)

Liga, 28ª jornada, 2 de abril de 2018
Belenenses-FC Porto, 2-0
(Nathan, 2; Maurides, 70)

Liga, 29ª jornada, 8 de abril de 2018
FC Porto-Desp. Aves, 2-0
(Alex Telles, 8 gp; Otávio, 11)

Liga, 30ª jornada, 15 de abril de 2018
Benfica-FC Porto, 0-1
(Herrera, 90)

Liga, 31ª jornada, 23 de abril de 2018
FC Porto-V. Setúbal, 5-1
(Marega, 6; Marcano, 13; Brahimi, 16; Corona, 36; Alex Telles, 72) (João Amaral, 24)

Liga, 32ª jornada, 29 de abril de 2018
Marítimo-FC Porto, 0-1
(Marega, 89)

Liga, 33ª jornada, 6 de maio de 2018
FC Porto-Feirense, 2-1
(Sérgio Oliveira, 37; Brahimi, 57) (Valencia, 90)

Liga, 34ª jornada, 12 de maio de 2018
V. Guimarães-FC Porto, 0-1
(Marcano, 69)

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FC Porto Campeão Nacional

Um rendimento ainda longe do top 10 dos campeões

O FC Porto sagrou-se campeão com 88 pontos em 102 possíveis, o que dá um rendimento de 86,3 por cento. Iguala o melhor Benfica do tetra, o de 2015/16. Essa é a pontuação máxima atingida por um campeão, embora não corresponda ao melhor rendimento (a percentagem de pontos possíveis conquistados).

Nos quatro anos anteriores em que foi campeão, o Benfica conseguiu um rendimento de 80,4 por cento no último título (2016/17), os tais 86,3 em 2015/16 na primeira época de Rui Vitória, 83,3 em 2014/15 e 82,2 por cento em 2013/14.

Os melhores campeões

1972/73 Benfica (96,7%)
1939/40 F.C. Porto (94,4%)
2010/11 F.C. Porto (93,3%)
1962/63 Benfica (92,3%)
1984/85 F.C. Porto (91,7%)
1971/72 Benfica (91,7%)
1994/95 F.C. Porto (91,2%)
1990/91 Benfica (90,8%)
1946/47 Sporting (90,4%)
1969/70 Sporting (88,5%)
1963/64 Benfica (88,5%)
1960/61 Benfica (88,5%)
1987/88 F.C. Porto (86,8%)
2012/13 F.C. Porto (86,7%)
1989/90 F.C. Porto (86,7%)
1983/84 Benfica (86,7%)
1979/80 Sporting (86,7%)
1959/60 Benfica (86,5%)
1949/50 Benfica (86,5%)
1950/51 Sporting (86,5%)
1945/46 Belenenses (86,3%)
1941/42 Benfica (86,3%)
2015/16 Benfica (86,3%)
2017/18 FC PORTO (86,3%)

1943/44 Sporting (86,1%)
1936/37 Benfica (85,7%)
1982/83 Benfica (85,0%)
1977/78 F.C. Porto (85,0%)
1976/77 Benfica (85,0%)
2009/10 Benfica (84, 4%)
2002/03 F.C. Porto (84,3%)
2014/15 Benfica (83,3%)
1980/81 Benfica (83,3%)
1978/79 F.C. Porto (83,3%)
1996/97 F.C. Porto (83,3%)
1975/76 Benfica (83,3%)
1944/45 Benfica (83,3%)
1942/43 Benfica (83,3%)
2011/12 F.C. Porto (83,3%)
2007/08 F.C. Porto (83,3%)*
1988/89 Benfica (82,9%)
1966/67 Benfica (82,7%)
1964/65 Benfica (82,7%)
1961/62 Sporting (82,7%)
1957/58 Sporting (82,7%)
1952/53 Sporting (82,7%)
1955/56 F.C. Porto (82,7%)
1953/54 Sporting (82,7%)
1995/96 F.C. Porto (82,3%)
1991/92 F.C. Porto (82,3%)
2013/14 Benfica (82,2%)
1937/38 Benfica (82,1%)
1940/41 Sporting (82,1%)
1938/39 F.C. Porto (82,1%)
1986/87 Benfica (81,7%)
1985/86 F.C. Porto (81,7%)
1973/74 Sporting (81,7%)
1974/75 Benfica (81,7%)
1965/66 Sporting (80,8%)
1948/49 Sporting (80,7%)
2003/04 F.C. Porto (80,4%)
2016/17 Benfica (80,4%)
1993/94 Benfica (79,4%)
1992/93 F.C. Porto (79,4%)
1970/71 Benfica (78,8%)
1967/68 Benfica (78,8%)
1958/59 F.C. Porto (78,8%)
1956/57 Benfica (78,8%)
1951/52 Sporting (78,8%)
1947/48 Sporting (78,8%)
1934/35 F.C. Porto (78,6%)
2008/09 F.C. Porto (77,7%)
2005/06 F.C. Porto (77,4%)
1998/99 F.C. Porto (77,4%)
1981/82 Sporting (76,7%)
2006/07 F.C. Porto (76,6%)
2000/01 Boavista (75,5%)
1999/00 Sporting (75,5%)
1997/98 F.C. Porto (75,5%)
1968/69 Benfica (75%)
1954/55 Benfica (75%)
1935/36 Benfica (75%)
2001/02 Sporting (73,5%)
2004/05 Benfica (63,7%)

* O F.C. Porto perdeu seis pontos na secretaria devido ao Apito Final, mas essa decisão foi anulada e repostos os pontos originais em julho de 2017

12
FC Porto-Sporting (Foto/Pedro Trindade)

Todos os marcadores: Marega, rei do golo

Moussa Marega foi a grande figura do campeão FC Porto, e também o seu melhor marcador na Liga. O maliano marcou até agora, quando faltam duas jornadas, 22 golos, mais 9 do que na última temporada ao serviço do V. Guimarães e mais dez que a soma das duas épocas no Marítimo (12).

A dupla com Aboubakar foi demolidora, sobretudo numa primeira fase da época, durante a qual o camaronês esteve também ele imparável. Ao todo, foram 15 os remates certeiros no campeonato, um da marca de penálti.

Brahimi e Tiquinho Soares aparecem logo depois na lista, respetivamente com nove e oito. O argelino bateu o seu melhor registo, de sete finalizações bem sucedidas, em 2014/15 e 2015/16.

OS MARCADORES DOS GOLOS PORTISTAS:

22 – Marega*
15 – Aboubakar (1 de penálti)
9 – Brahimi
8 – Tiquinho Soares
5 – Marcano
4 – Sérgio Oliveira
3 – Corona, Felipe, Herrera e Alex Telles (1 de penálti)
2 – Ricardo Pereira, Reyes e Otávio
1 – Danilo

* A Liga considerou golo de Marega um autogolo inicialmente atribuído a Marcelo, defesa do Rio Ave (5-0), no jogo da 23ª jornada entre as duas equipas.

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FC Porto-Sporting (Foto/Pedro Trindade)

Brahimi, o papa-minutos

Brahimi foi o jogador com mais minutos no FC Porto na época que agora acaba, em jogos do campeonato.

O avançado argelino apenas falhou um encontro, o da 22ª jornada (a visita a Chaves), e aproveitou a ausência de Felipe da receção ao Feirense para passar para o topo. São 2766 minutos nas pernas, enquanto o central brasileiro conseguiu 2695.

Marcano fechou o pódio, com 2655.

Não houve, portanto, um único jogador que tenha estado em todos os encontros dos dragões na Liga.

No plano oposto aparece André Pereira, que na segunda metade da época foi emprestado ao Vitória de Setúbal, com apenas três minutos no empate perante o Desportivo das Aves (1-1, 12ª).

Fabiano, com os 10 de hoje, Galeno, com 24, divididos em dois encontros, e Osório, com 72 minutos no Restelo (28ª), vêm logo depois. Já o também reforço Waris conseguiu 125, em cinco jogos, apenas um como titular.

Sérgio Conceição utilizou 30 jogadores.

Top Minutos:

Brahimi, 2766 minutos
Felipe, 2695
Marcano, 2655
Alex Telles, 2640
Marega, 2411
Herrera, 2335
Ricardo Pereira, 2271
Aboubakar, 2020
Casillas, 1755
Danilo, 1540
Corona, 1440
Sérgio Oliveira, 1338
José Sá, 1215
Tiquinho Soares, 1092
Maxi Pereira, 1001
Óliver Torres, 929
Otávio, 793
Reyes, 768
Diogo Dalot, 408
André Andre, 332
Hernâni, 281
Layún, 257
Gonçalo Paciência, 218
Paulinho, 126
Waris, 125
Vaná, 80
Osório, 72
Galeno, 24
Fabiano, 10
André Pereira, 3

Top jogos completos:

Felipe, 29
Marcano, 29
Alex Telles, 27
Marega, 24
Ricardo Pereira, 23
Brahimi, 20
Casillas, 19
Danilo, e José Sá, 13
Sérgio Oliveira, 11
Maxi Pereira, 8
Aboubakar e Reyes, 7
Tiquinho Soares, e Dalot, 4
Óliver Torres, 4
Layún, 2
Corona, e Otávio, 1
André André, Hernâni, Gonçalo Paciência, Paulinho, Waris, Osório, Galeno, Vaná, Fabiano e André Pereira, 0

14
FC Porto é Campeão Nacional 2017/2018

A festa começou no hotel, e acabou com susto

A festa começou mal soou o apito final em Alvalade.

O nulo entre Sporting e Benfica tornava oficialmente o FC Porto campeão ainda antes de entrar em campo para a 33ª jornada. Jogadores e treinadores celebraram no hotel, os adeptos um pouco por todo o lado. Com foco na Avenida dos Aliados, claro, mas também em Lisboa, rumo ao Marquês de Pombal. E em muitos outros pontos do país e do mundo.

A festa terminou com um susto, um incêndio que deflagrou no hotel onde a equipa estagiava para o jogo de domingo seguinte com o Feirense e que mobilizou quatro dezenas de bombeiros. Apesar de a situação ter ficado resolvida, a comitiva mudou de hotel durante a madrugada.

Até aí houve muitas manifestações de alegria, lágrimas de Sérgio Conceição e mensagens vindas também de longe, naquela que foi a primeira festa do 28º título de campeão nacional do dragão, o primeiro em cinco anos.

Uma semana depois, a festa estendia-se finalmente aos Aliados.

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Sérgio Conceição até banho de geleira levou

Do recorde de pontos ao banho gelado

Sérgio Conceição respondia às perguntas dos jornalistas na sala de imprensa, após o triunfo sobre o Vitória de Guimarães, quando, de repente... irrompeu a festa azul e branca, que acabou em dois tempos com a conferência.

Todo o plantel do FC Porto entrou na sala, bem munido, diga-se, e despejou de tudo sobre o técnico portista: água, muita água, bebidas energéticas, gelo... Até a geleira onde Sérgio Conceição se senta durante os jogos fez parte da celebração.

«Campeões, campeões... Nós somos campeões!», gritaram.

Encharcado, Conceição terminou a pergunta que estava a responder já de pé e saiu da sala.

Os festejos dos jogadores portistas obrigaram a um ligeiro atraso na conferência de José Peseiro, já que os funcionários do Vitória tiveram de intervir para fazer a limpeza.

O FC Porto continuava em êxtase com mais um objetivo cumprido: o recorde de pontos do primeiro Benfica de Rui Vitória tinha sido igualado.

16
FC Porto - Festa nos Aliados

19 anos depois, o regresso aos Aliados

O percurso era relativamente curto. Cerca de cinco quilómetros separam o Estádio do Dragão da Avenida dos Aliados, não mais de 15 minutos de viagem num dia normal. Já a contar com a normal resistência do trânsito.

Mas este sábado, esses cinco quilómetros chegaram a parecer intermináveis. 200 mil almas portistas envolveram o autocarro dos novos campeões nacionais e o veículo lá foi avançando como pôde, a passo de caracol, mas um caracol triunfante e feliz.

Os dois quilómetros finais, na zona da Rua de Camões e dos Clubes Fenianos, foi particularmente exigente. Com os campeões no veículo descapotável, as gargantas de atletas e adeptos juntaram-se, perante um impressionante quadro de massa humana.

Herrera gritava «Iker quedate!», Marega abraçava Gonçalo Paciência, Brahimi abria os olhos de espanto perante a imponência da turba azul e branca.

Os relógios apontavam para as 22 horas quando o FC Porto, a comitiva do FC Porto melhor dizendo, entrou na Avenida dos Aliados. Dali a pouco, e passados 19 longos anos, jogadores/treinadores/funcionários seriam recebidos nos Paços do Concelho pelo presidente da autarquia, Rui Moreira.

Às 23h05, o edil portuense, acompanhado por Pinto da Costa (que receberá a Medalha de Honra da cidade), viu o staff do FC Porto entrar no edifício da câmara.

«Estamos a fazer-lhe justiça», afirmou Rui Moreira no momento em que entregou a máxima condecoração a Pinto da Costa. Lá fora, ninguém arredou pé.

Pelas 23h35, Héctor Herrera subiu à varanda da câmara e ergueu o troféu de campeão, num dos momentos mais celebrados da noite. Sérgio Conceição, ao lado do capitão, era um dos mais eufóricos. «Sinto-me um menino», confessou ao Porto Canal.

A partir da meia-noite, plantel e equipa técnica desfilaram, um a um, no palco montado na Avenida dos Aliados. Iker Casillas foi o primeiro a percorrer a longa passerelle (e a prometer luta pelo bicampeonato), o capitão Herrera e o treinador Sérgio Conceição encerraram a festa, antes da última 'roda' do ano.

O mar azul não se desfez e prometeu uma madrugada de loucura portista até aos primeiros raios de sol.

São João antecipado, dizem na Invicta. Acertadamente.

17
FC Porto Campeão Nacional

Luís Mateus

OPINIÃO

Conceição: quem das dificuldades fez todas as forças

O FC Porto é o justo campeão nacional de 2017/18.

Sérgio Conceição é também a figura maior do título e, justamente, o treinador mais influente na época que caminha a passos largos para o final.

Entre todos, era o que o tinha a tarefa mais difícil: um plantel curto, reconstruído com excedentários (de qualidade), zero euros para contratar e uma longa temporada com várias frentes. Contra si pairava a dúvida natural de quatro épocas sem sucesso e também de um currículo ainda com várias alíneas por preencher.

Assim que reentrou no Dragão assumiu a primeira missão. Era preciso recuperar os jogadores, voltar a acreditar nos mesmos, e foi esse o seu primeiro feito. O patinho feio Marega é o maior exemplo, mas Herrera, Sérgio Oliveira e Aboubakar, pelo menos, voltaram a ter novamente quem acreditasse e os fizesse novamente acreditar no seu próprio valor. Os resultados fizeram o resto.

O FC Porto de Conceição cedo mostrou ao que vinha, e com o tempo percebeu-se que, diluído o efeito da injecção de adrenalina que era a entrada do novo treinador, havia por detrás uma ideia mais complexa e elaborada, capaz de evoluir com o tempo e com as próprias dificuldades: o posicionamento de Herrera na primeira zona de pressão e o desvio de Marega para a direita lembram-nos isso mesmo.

Se os dragões embalaram a partir do primeiro dia, foi preciso depois recuperar ritmo depois de um ou outro tropeção – o Besiktas no Dragão, a primeira parte de Leipzig, o empate inesperado na Vila das Aves, a goleada sofrida com o Liverpool, a eliminação na Taça da Liga, depois as derrotas de Paços e Restelo e o afastamento da final da Taça de Portugal –, mas terá sido ainda mais importante resistir às lesões de Danilo e Marega, e às ausências normais aqui e ali de jogadores nucleares, como Marcano ou até do futebolista com mais assistências da Liga, o brasileiro Alex Telles.

Mais ou menos esticado e espremido, o FC Porto de Conceição foi sempre fiel a uma ideia: um futebol direto e vertiginoso, poderoso, demolidor, capaz de ganhar a bola cedo e provocar o erro dos rivais, massacrando-o sem parar. Caiu na Europa perante o finalista Liverpool, nas Taças nos penáltis frente ao Sporting, mas na Liga, o seu objetivo principal, conseguiu mesmo o primeiro prémio.

É verdade que muitos vão olhar para a caminhada azul e branca e lembrar o clássico com o Benfica, e esse momento em que o FC Porto esteve a jeito de ser ultrapassado com efeitos dramáticos na tabela, mas mesmo aí, nessa altura crítica, Sérgio Conceição não vacilou: só havia uma maneira, e era a sua. Com essa força de carácter, mereceu ser feliz.

O título tornou-se uma inevitabilidade. Com o erro histórico de desinvestimento protagonizado pelo tetracampeão Benfica, com os tiros nos pés que foram sendo dados em Alvalade, o FC Porto disparou para a meta, atirou-se primeiro do que os rivais, sem olhar mais para trás. Sérgio Conceição sempre soube que era ele que ia chegar na frente.

18
FC Porto-Boavista

Pedro Jorge da Cunha

OPINIÃO

CRÓNICA: Blasfémias de amor, por Don Héctor Herrera

«Amo estar aqui, amo a cidade, amo as pessoas, o clube. Acho que ninguém sente o clube como eu».
Héctor Herrera, 6 de maio de 2018

A fé é uma ligação solitária e individual ao Universo. A Deus, a Buda, a Apolo ou Dionísio. Cada um de nós acredita no que quer. No que pode. Apoia-se em muletas invisíveis, em forças naturalmente abstratas. Num clube de futebol, por que não?

Em períodos de dor, de luta e luto, o ser humano agarra-se ao inamovível. À esperança. Esteja ela estampada no rosto da Nossa Senhora, numa receita médica ou no emblema de uma instituição desportiva.

O adepto devoto de um clube, não tenhamos dúvidas, é a maior prova viva de que a cura existe. Sempre. Pode ser difícil acertar a dosagem certa, os momentos de toma, mas as melhoras não têm necessariamente de ser as da morte.

Todos temos algum amigo, parente ou conhecido que é profundamente doente – no bom sentido, vá – por um clube. Grande ou pequeno, não interessa. É uma doença incurável, sim, embora passível de longas fases de felicidade ou, simplesmente, de epifanias nostálgicas.

A grande novidade que tenho para vos dar é que este diagnóstico, normalmente atribuído ao culto popular, pode contagiar também futebolistas profissionais. Eu, cético moderado, perdera há vários anos a esperança em tamanha improbabilidade.

A prova metafísica, sem pastorinhos ou inclinações solares miraculosas, surgiu-me pela boca de Héctor Herrera.

Como não ficar rendido, quiçá comovido, ao ouvir «um mexicano», como a ele se referiu Sérgio Conceição, falar daquela forma de um clube português? Em pleno século XXI, no apogeu do mercantilismo globalista, Herrera abre o coração e confessa o seu amor escassamente platónico pelo FC Porto.

Não me falem de SAD’s, CMVM, relatório e contas, transferências recheadas de comissões obscuras. O que o adepto quer, o que o adepto exige, aliás, é ter jogadores deste calibre moral.

Jogadores que percebem o que significa cada uma das taças no Museu, jogadores cuja humildade os desperta diariamente para a mais básica das realidades: antes deles chegarem, já o clube existia há décadas.

A história de Herrera é especialmente tocante. Nasceu em Tijuana, problemática urbe na fronteira mexicana com San Diego, passou a infância e a adolescência em Playas Rosarito, ganhou provas de ciclismo – vale a pena recordar a reportagem «Herrera, o rapaz da bicicleta habituou-se a cair e levantar» - e de equitação.

Tudo isto antes, muito antes, de sonhar jogar, sofrer, amar e chorar pelo FC Porto.

Com 28 anos, Herrera superou a síndrome de patinho feio e já tem mais de 200 jogos pelos dragões em cinco épocas. Foi campeão nacional pela primeira vez e gritou para quem o quis ouvir o amor ao emblema que todos os meses lhe paga.

Ao escutar Herrera, repus momentaneamente o meu nível de fé pelo futebol. A blasfémia do mexicano devia ser um case study e um formulário de leitura obrigatória para quem chega de fora. De longe.

Deus, Alá ou uma caixa de Benuron podem ajudar a salvar vidas, mas são homens como Herrera que as fazem mais felizes.

«CHUTEIRAS PRETAS» é um espaço de Opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Um olhar assumidamente ingénuo sobre o fenómeno do futebol. Às quintas-feiras, de quinze em quinze dias. Pode seguir o autor no Twitter. Calce as «CHUTEIRAS PRETAS».

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Sérgio Conceição (Lusa)

Sérgio Pires

OPINIÃO

CRÓNICA: a Sérgio Conceição façam-lhe uma estátua, como a de D. Pedro IV

Podemos considerar que o que distingue cada clube é a cor e a camisola. Ou então divertirmo-nos a contemplar, exaltando um por um, cada pormenor daqueles que se fazem as grandes diferenças.

Ao FC Porto reporto-o a D. Pedro IV, mesmo tendo ele morrido antes de o futebol ter sido inventado.

Na verdade, é por culpa dele e da atribuição do dragão da sua Casa de Bragança – e da palavra Invicta – ao brasão da cidade, adotado pelo clube em 1922, que o animal mitológico viria a tornar-se em símbolo portista.

Olhando com atenção, é o coração dele, por sua vontade doado à cidade e guardado na Igreja da Lapa, que pontifica bem lá no centro do emblema que futebolistas e adeptos carregam ao peito.

D. Pedro IV esteve do lado certo da história, ao defender o liberalismo, lutando e vencendo os absolutistas do seu irmão D. Miguel.

Mais do que isso, encarnou como poucos o espírito de «fazer das tripas coração» ao resistir nas trincheiras, no centro da cidade, ao Cerco do Porto, durante mais de treze meses, até ao triunfo final na guerra civil de 1828-1834.

Passando do campo de batalha para o campo de jogo, é dessa mentalidade de resistente, de estoicidade e superação que se forjam os melhores FC Portos da história.

Houve, ainda assim, um tempo bem recente em que o FC Porto se aburguesou, traindo a sua natureza – ADN ou mística, como preferirem.

Havia um deslumbramento com o sucesso. Conquistas internacionais bem frescas na memória e a naturalidade de vencer por cá como quem muda de camisa ou «quem vai ao supermercado» – expressão de Alex Ferguson que ainda hoje é deturpada pela propaganda dos rivais.

O FC Porto ganhou muito dinheiro e depois gastou-o: a rodos e, muitas vezes, sem grande critério. Promovia com o devido marketing lemas como «vencer é o nosso destino», pelo que a soberba haveria de transbordar de dentro para fora e contaminar os adeptos.

Na última celebração de um título de campeão conquistado pelo FC Porto, em 2012/13, havia espantosamente um número considerável a assobiar o treinador, cuja equipa sofrera apenas uma derrota em dois campeonatos seguidos.

Vencer já não bastava. Era sempre preciso mais qualquer coisa.

Mal habituado, o público do Dragão era o mais exigente cá do retângulo. Nas bancadas, a cada passe errado, uma assobiadela monumental. Mais parecia público de ópera: a mínima desafinação da soprano era reprimida com uma sonora pateada.

Até que o FC Porto deixou de vencer. E aí foi alternando os estágios de convulsão e negação com investimentos desenfreados e uma estratégia errática.

Até que chegou a fatura de tudo isso.

Até que, no defeso menos prometedor dos últimos anos, haveria de chegar Sérgio Conceição.

O contexto não era fácil: para regressar a casa, Sérgio comprou uma guerra com o Nantes, mesmo trocando quatro milhões por época por um salário bem inferior. Aceitou as contingências de, com as restrições financeiras impostas pela UEFA, não poder reforçar a equipa; e, mesmo assim, apontou lá para cima, fazendo a promessa solene de que haveria de festejar o título em maio. Em suma: arriscou tudo, numa sociedade em que quase todos evitam o risco e jogam sempre pelo seguro.

«Se o FC Porto estivesse a ganhar, ele não vinha de certeza. O facto de a equipa estar há quatro anos sem vencer, a passar por dificuldades… Isso mexeu com ele. Foi isso que o fez vir. Foi o desafio», contou-me por estes dias um amigo próximo do treinador do FC Porto.

Sérgio chegou para reconciliar o FC Porto com o seu ADN, de, no meio das dificuldades, «fazer das tripas coração».

Os adeptos, que já haviam tomado o purificador banho de humildade, voltaram a ser mais Geraldinos e cada vez menos Arquibaldos – e, percebendo a delicadeza do momento, regressaram aos milhares com um apoio incondicional e avassalador.

A grande vitória de Sérgio Conceição foi, acima de tudo, ter-se tornado na personificação da tal mística que historicamente se alicerçou em fazer das fraquezas forças.

Superando condicionalismos próprios e erros alheios, onze meses depois da sua apresentação, Sérgio cumpriu a promessa: haveria de ser ele a comandar as tropas que furaram o cerco e venceram uma das mais simbólicas batalhas dos últimos tempos no futebol português.

Sábado, a equipa do FC Porto volta merecer honras de uma receção nos Paços do Concelho, 19 anos depois. E, numa daquelas coincidências involuntárias, a celebração estender-se-á até à Praça da Liberdade, em torno do monumento a D. Pedro IV.

Quanto a Sérgio Conceição: no estádio ou no museu, bem podem tratar de fazer-lhe uma estátua. A nação portista já há muito lhe doou o seu coração.

--

«Geraldinos & Arquibaldos» é um espaço de crónica quinzenal da autoria do jornalista Sérgio Pires. O título é inspirado pela expressão criada pelo jornalista e escritor brasileiro Nelson Rodrigues, que distinguia os adeptos do Maracanã entre o povo da geral e a burguesia da arquibancada.

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62 FOTOS

Quatro anos depois, o Porto saiu à rua

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FC Porto - Festa nos Aliados

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