Disputados pela primeira vez em 1924, na comuna francesa de Chamonix, situada na zona do Monte Branco, os Jogos Olímpicos de inverno são organizados de quatro em quatro anos e reúnem modalidades disputadas na neve ou sobre o gelo.
De lá para cá, só não se realizaram entre 1940 e 1944, devido à II Guerra Mundial.
Desde 1994, os Jogos Olímpicos de inverno passaram a disputar-se em anos intercalados com os das Olimpíadas de verão.
Este ano, as cidades italianas de Milão e Cortina d'Ampezzo organizam o evento. A próxima edição, agendada para 2030, vai realizar-se nos Alpes franceses.
Depois de Pequim, em 2022, os Jogos Olímpicos de Inverno voltam a Itália, 20 anos depois de Turim ter recebido a competição.
Em 2026, as cidades de Milão e Cortina d'Ampezzo organizam, entre os dias 4 e 22 de fevereiro, a 25.ª edição do evento, naquela que é a primeira prova da era de Kirsty Coventry na liderança do Comité Olímpico Internacional, que no ano passado sucedeu ao alemão Thomas Bach na presidência do organismo.
As diferentes provas terão lugar nas localidades de Antholz/Anterselva, Bormio, Cortina d’Ampezzo, Livigno, Milão, Pedrazzo, Tesero e Verona, onde decorrerá a cerimónia de encerramento.
O mítico estádio Giuseppe Meazza, casa do AC Milan e do Inter Milão, vai receber o evento de abertura, esta sexta-feira.
A edição de 2026 dos Jogos Olímpicos de inverno vai contar com 16 modalidades em competição.
São elas o biatlo, o bobsled (trenó a alta velocidade), o luge, o combinado nórdico, o curling, o esqui alpino, o esqui cross-country, o esqui estilo livre, o hóquei no gelo, a patinagem artística, a patinagem de velocidade, a patinagem de velocidade em pista curta, o salto de esqui, o skeleton, o snowboard e o estreante esqui de montanha.
Por falar em estreias, em 2026 vão participar pela primeira vez nas olimpíadas de inverno atletas da Guiné-Bissau, do Benim e dos Emirados Árabes Unidos. Por outro lado, os atletas russos e bielorrussos que se qualificaram para o evento vão competir sob bandeira neutra.
Vão participar nos Jogos de Milão-Cortina mais de 2.900 atletas, em representação de 92 comités olímpicos.
A comitiva portuguesa conta com três atletas, José Cabeça e os irmãos Vanina e Emeric Guerillot.
Antes deles, representaram Portugal nos Jogos Olímpicos de inverno Duarte Espírito Santo, António Reis, Jorge Magalhães, João Poupada, João Pires, Rogério Bernardes, Georges Mendes, Mafalda Queiroz Pereira, Fausto Marreiros, Danny Silva, Arthur Hanse, Camille Dias, Kequyen Lam e Ricardo Brancal.
Em Milão-Cortina voltam a juntar-se muitas das grandes figuras dos desportos de inverno da atualidade.
Entre elas a norte-americana Mikaela Shiffrin, medalha de ouro na prova do slalom em Sochi (2014) e Pyeongchang (2018) e detentora do recorde de vitórias em etapas da Taça do Mundo, com um total de 108.
No esqui alpino, Lindsey Vonn fez uma pausa na “reforma” para participar, aos 41 anos, nos seus quintos Jogos Olímpicos. No currículo tem uma medalha olímpica de ouro e duas de bronze, para além de 84 vitórias na Taça do Mundo.
Na mesma modalidade, mas na vertente masculina, o suíço Marco Odermatt (na foto) é o principal favorito às medalhas nas disciplinas de downhill, slalom gigante e super-G, nas quais já se sagrou campeão mundial. Foi também medalha de ouro em Pequim, há quatro anos, no slalom gigante e segue numa sequência de quatro títulos consecutivos na Taça do Mundo.
Uma das atletas mais mediáticas destes Jogos é a neerlandesa Jutta Leerdam, noiva do influencer Jake Paul, que tem mais de cinco milhões de seguidores nas redes sociais. A patinadora de 27 anos, sete vezes campeã mundial, é também uma séria candidata às medalhas na velocidade, depois de ter alcançado a prata na prova dos 1.000 metros em Pequim, há quatro anos.
Grande parte das esperanças italianas recaem na recordista de medalhas Arianna Fontana (patinagem de velocidade em pista curta), que vai para as sextas olimpíadas da carreira.
Noutro sentido, falham os Jogos de Milão-Cortina, entre outros, a esquiadora francesa Tess Ledeux, prata em Pequim, que ainda recupera de uma concussão cerebral, e o austríaco Marcel Hirscher, duplo campeão olímpico de esqui alpino.
Depois de, em 2022, ter conseguido o melhor resultado de sempre para Portugal no Esqui de fundo (88.º lugar) na sua estreia em olimpíadas de inverno, José Cabeça, natural de Évora e atleta dos suecos do Mora IFK, espera melhorar esse registo «por larga margem» em Itália.
«O meu objetivo principal é em termos de tempo. Nos últimos Jogos, perdi cerca de 11 minutos e pouco para o primeiro classificado. Então, diria que o meu objetivo para estes Jogos é perder menos de quatro (minutos), o que demonstra uma evolução incrível. Quero competir de igual para igual com alguns dos melhores do mundo e deixar Portugal orgulhoso», disse o atleta de 29 anos, em entrevista à Agência Lusa.
Licenciado em Treino Desportivo, com especialização em Natação, tem ainda formação de grau 1 em Triatlo. Depois do avô, os seus ídolos são Cristiano Ronaldo, Michael Phelps e Michael Jordan. A sua música preferida é «Montanha», de Plutónio, e como prato favorito aponta o bacalhau à brás.
Apaixonado por design de roupa e de equipamento, José Cabeça desenhou os uniformes portugueses para os Jogos Olímpicos de inverno deste ano.
Em Milão-Cortina, vai competir no dia 10 de fevereiro, na prova de sprint, e no dia 13 deste mês, nos 10 quilómetros estilo livre, em ambos os casos no Estádio de cross-country de Tesero.
Em Milão-Cortina, a esquiadora de 23 anos vai tornar-se na primeira portuguesa a participar em mais do que uma edição dos Jogos Olímpicos de inverno, depois da estreia em Pequim, há quatro anos.
A atleta luso-francesa, com raízes maternas em Atães, perto de Guimarães, é detentora do melhor registo português de sempre na prova do slalom gigante, o 43.º lugar alcançado na China em 2022.
«O meu principal objetivo é ter sucesso no slalom, uma prova que me favorece particularmente e na qual tenho grandes esperanças», confessou a atleta, em declarações à Agência Lusa, ela que espera conseguir «inspirar outras jovens a acreditarem nos seus sonhos e a dedicarem-se totalmente ao desporto de alta competição».
Estudante de Desporto na Universidade de Grenoble, em França, gosta de costurar e bordar, é fã do tema «Interlude», dos London Grammar, e elege a lasanha como a sua comida predileta.
A primeira manga do slalom gigante decorre em 15 de fevereiro e a de slalom no dia 18, ambas no Tofane Alpine Skiing Centre, na zona de Cortina d’Ampezzo.
Estreante em Jogos Olímpicos de inverno, Emeric Guerillot, irmão de Vanina, diz-se «bem e preparado» para lutar pelo top-30 nas três disciplinas do esqui alpino para as quais se qualificou.
No Stelvio Ski Centre, em Valtellina, vai participar na prova de super-G, em 11 de fevereiro, no slalom gigante, que terá a primeira manga no dia 14, e no slalom, que principia dois dias depois, a 16 deste mês.
«O super-G será uma boa oportunidade para Portugal brilhar. O objetivo é terminar entre os 30 primeiros e, nas disciplinas técnicas, espero dar o meu melhor para estar o mais perto possível dos melhores», partilhou Emeric, à Agência Lusa, esperando «aproveitar ao máximo uma experiência única na vida».
Tal como acontece com a irmã, Emeric é treinado pelo pai, Yannick Guerillot.
Fã de todos os desportos ao ar livre, com destaque para o ciclismo e o parapente, tem no esquiador Bode Miller e no futebolista Cristiano Ronaldo as suas referências. Gosta de frango assado com batatas fritas – quem é que aos 18 anos não gosta? – tem em Kendrick Lamar o seu músico preferido.
Para lá da carreira como esquiador, o jovem luso-francês frequenta a licenciatura em Ciências da Terra e do Ambiente na Universidade de Grenoble, em França.
Pedro Flávio, presidente da Federação de Desportos de Inverno de Portugal e chefe de missão da delegação portuguesa presente nos Jogos Olímpicos de inverno de Milão-Cortina, em entrevista ao Maisfutebol:
Quais são as expetativas da delegação portuguesa nestes Jogos Olímpicos de Inverno?
As expetativas passam, desde logo, por melhorar os resultados da última participação e garantir a melhor prestação possível dos atletas portugueses. Esse é sempre o nosso principal objetivo. Mas estes Jogos são também uma oportunidade muito importante para dar visibilidade aos desportos de inverno em Portugal e aproximá-los do público, aproveitando o contexto europeu e o maior acompanhamento mediático que vai existir.
Como tem sentido os atletas portugueses, confiantes numa boa prestação?
Sinto os atletas muito focados e confiantes dentro do realismo que estas competições exigem. O José Cabeça deu sinais claros de evolução na forma como conseguiu a qualificação no Campeonato do Mundo, a Vanina chega mais experiente e madura do que em Pequim e o Emeric, apesar de estreante, é um atleta de grande qualidade que conseguiu um feito extraordinário ao qualificar Portugal para o super-G, algo que não acontecia desde 1994.
O que seria uma boa participação para Portugal nestes Jogos Olímpicos de inverno?
Uma boa participação será aquela em que os atletas consigam melhorar os seus resultados anteriores e competir ao seu melhor nível. Em modalidades tão exigentes, isso traduz-se em evoluções claras de resultado e em leituras de prova mais maduras. Mais do que lugares absolutos, queremos prestações que confirmem o crescimento sustentado que temos vindo a construir.
Que principais dificuldades foram enfrentadas na preparação para estes Jogos de inverno?
As maiores dificuldades prendem-se com o nível competitivo cada vez mais elevado e com as limitações infraestruturais e económicas que um país como Portugal enfrenta nestas modalidades. Apesar disso, estamos hoje melhor preparados do que em ciclos olímpicos anteriores, com programas de apoio específicos, academias em funcionamento e um trabalho cada vez mais estruturado.
De que forma este momento pode ser aproveitado para fazer crescer a modalidade?
Estes Jogos podem ser decisivos para mudar o paradigma em Portugal. São Jogos na Europa, com maior exposição televisiva, atletas mais próximos do público e das suas famílias, e isso ajuda a criar identificação. A visibilidade, aliada a resultados mais consistentes e a projetos que temos vindo a desenvolver ao nível da base e modalidades em que nunca tivemos atletas qualificados a caminho do programa olímpico, pode consolidar o crescimento dos desportos de inverno e afastar definitivamente a ideia de que são modalidades menos próximas dos portugueses. Nos próximos Jogos já contaremos com o Pavilhão de Desportos de Inverno, a construir no Seixal, em pleno funcionamento e que nos permitirá ter um equipamento com todas as condições para potenciar o talento dos atletas nacionais.