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Portugal: o guia

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Futebol feminino: Portugal-Grécia (ANTONIO COTRIM/LUSA)

ANÁLISE

«Trocávamos a presença neste Europeu por um mundo sem guerra e sem os acontecimentos chocantes que temos acompanhado pela televisão: bombardeamentos, mortes… crianças, mulheres, famílias inteiras em sofrimento e em fuga. Ninguém fica indiferente».

As palavras do selecionador, Francisco Neto, retratam o motivo infeliz que abriu as portas do Campeonato da Europa à seleção portuguesa.

Na fase de qualificação, Portugal ficou no segundo lugar do Grupo E, superada apenas pela Finlândia. O confronto direto acabou por fazer a diferença, já que a equipa de Francisco Neto empatou em casa e, depois, perdeu em Helsínquia.

A seleção portuguesa garantiu a presença no playoff, ainda assim, mas não conseguiu bater a Rússia (derrota por 1-0 em Lisboa e empate sem golos em Moscovo).

Perante as sanções impostas pela UEFA (e pela FIFA) à Rússia, depois da invasão da Ucrânia, Portugal ficou a saber que seria repescada para o Europeu.

Apesar das circunstâncias horríveis que motivaram esta oportunidade, a segunda presença de Portugal na competição é uma montra para mostrar ao continente a evolução que tem conseguido no futebol feminino, ao mesmo tempo que a experiência contribuirá para essa mesma evolução.

«Há oito anos estávamos no 49.º lugar do ranking, e neste momento estamos em 29.º. Não é aqui que queremos ficar», diz Francisco Neto, que tirar proveito de cada minuto da experiência.

«Uma das grandes vantagens é o tempo que teremos disponível para trabalhar com as jogadoras. Nunca tivemos tanto tempo. Só há cinco anos (Euro 2017). É outro aspeto que, naquela altura, fez alavancar a qualidade da equipa. Esperemos que dê para alavancar mais uma vez a qualidade coletiva da equipa», acrescenta.

A equipa está consolidada na sua forma de jogar, em 4x4x2 (losango) ou 4x3x3. Com duas jogadoras soltas na frente, ou então com uma referência (mais ou menos fixa) no centro do ataque. Mas Portugal regressa ao Europeu com outra bagagem, com outros argumentos, e tem condições para crescer individual e coletivamente.

Como o selecionador já disse diversas vezes, é a jogar com as melhores seleções que a equipa consegue crescer.

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Francisco Neto (Lusa)

O SELECIONADOR: FRANCISCO NETO

Natural de Mortágua, onde muitos ainda o tratam por «Miná», Francisco Neto cresceu a ver o irmão jogar e o pai a dar treinos no clube local. Ainda sonhou com uma carreira de futebolista, mas cedo ficou atraído pelo papel de treinador. Trabalhou como coordenador da associação de futebol de Viseu, e foi depois convidado a estagiar na seleção feminina, onde começou como treinador de guarda-redes. Depois de uma passagem pela seleção sub-21 de Goa, com a qual conquistou a medalha de ouro nos Jogos da Lusofonia, voltou à Federação Portuguesa de Futebol para assumir o papel de treinador principal da seleção feminina, com apenas 32 anos.

Iniciou funções em 2014, e conseguiu a primeira qualificação portuguesa para um Campeonato da Europa, em 2017.

Conseguiu incutir uma nova dinâmica na seleção feminina, rentabilizando o investimento da Federação Portuguesa de Futebol e o trabalho meritório dos clubes.

Na fase inicial teve a preocupação de fechar um pouco o grupo, para criar uma base forte, mas aos poucos foi lançando as jogadoras do futuro do futebol português, que já estão a crescer num contexto muito mais favorável, com mais condições.

«Fechámos um pouco o grupo, e acreditámos que esta geração podia dar estes resultados. Essa base tem sido constante. Claro que não temos o grupo fechado, é importante que as jogadoras sintam que têm um espaço na seleção. Em todas as convocatórias há gente nova a entrar, mas há uma base forte que tem sido o alicerce. Na seleção temos pouco tempo para trabalhar, e por isso não podemos estar sempre a alterar as jogadoras, a reiniciar o processo de treino, a nossa ideia de jogo. Achamos que faz todo o sentido manter uma base forte, que serve de alicerce para quem entra. Foi um dos grandes segredos para estes resultados», explicava ao Maisfutebol em 2018.

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Jéssica Silva (getty)

A FIGURA: JÉSSICA SILVA

Embora tenha sido pouco utilizada no poderoso Lyon, em 2019/20, Jéssica Silva tornou-se a primeira jogadora portuguesa a conquistar a Liga dos Campeões.

A experiência em França foi curta, mas o currículo de Jéssica é digno de destaque, sobretudo se tivermos em conta o histórico discreto de jogadoras portuguesas no estrangeiro. A avançada jogou também na Suécia (Linkoping), Espanha (Levante) e Estados Unidos (Kansas City).

Em 2017 falhou a estreia de Portugal em Europeus, devido a lesão, e teve de acompanhar o torneio no papel de comentadora televisiva, sem esconder a emoção quando Portugal conquistou a primeira vitória.

Cinco anos depois tem a oportunidade de viver a prova dentro de campo. As fintas virais têm ajudado a jogadora portuguesa a ganhar admiradores, mas o Europeu será o palco perfeito para, aos 27 anos, mostrar a sua qualidade.

«Sinto que não jogo futebol só para mim. É a minha profissão, mas o facto de sentir que há miúdas e até mesmo miúdos que me vêem como referência dá-me uma energia e motivação enormes para fazer aquilo que gosto. Já tive alguns obstáculos para ultrapassar, às vezes pergunto-me se vou conseguir, mas consegui sempre e essa energia e motivação é muito especial", admite Jéssica, filha de um antigo jogador do Belenenses, Valter Silva, que faleceu antes de a ver brilhar na Seleção.

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Kika Nazareth (Getty)

ATENÇÃO A: KIKA NAZARETH

Francisca é a grande promessa da nova geração do futebol feminino português, e também por isso tornou-se a primeira mulher a ser agenciada por Jorge Mendes.

Cresceu a acompanhar o pai nas bancadas do Estádio da Luz, e aos 19 anos já festejou dois títulos com o Benfica. No último foi mesmo a rainha da festa, já que pegou no microfone e liderou os cânticos.

«O pai tem uma frase brilhante para a descrever: ela é um mundo dentro de uma lata de sardinhas. É uma miúda brilhante e irreverente», disse a mãe, em entrevista ao canal da federação portuguesa.

«Ela dizia que ia ser presidente. Não sabemos bem de quê, mas a verdade é que tinha o seu próprio país, a sua própria língua, e até um hino», acrescenta.

Estreou-se pela seleção principal em 2020, e desde então tem conquistado o seu espaço gradualmente. Ainda não é uma figura indiscutível, até porque sofreu uma lesão no final da temporada, mas Kika pode ser o toque de irreverência da seleção portuguesa no Euro2022.

Curiosamente, em casa, ninguém a trata por Kika, mas sim por Cisca ou mesmo Francisca.

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Genéricas Maisfutebol

ONZE PROVÁVEL

4X3X3 (ou 4x4x2 em losango)

Inês Pereira (Patrícia Morais); Catarina Amado, Carole Costa, Diana Gomes, Joana Marchão; Dolores Silva, Tatiana Pinto, Andreia Norton; Ana Borges, Jéssica Silva, Diana Silva.

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Edite Fernandes

REFERÊNCIA HISTÓRICA: EDITE FERNANDES

Deixou de jogar em 2021, aos 41 anos de idade, mas Edite Fernandes está na história como a melhor marcadora da história a seleção portuguesa. Foram 39 tentos em 132 internacionalizações, em quase duas décadas a representar a equipa das quinas.

Cresceu numa altura em que as mulheres portuguesas tinham de enfrentar muito mais obstáculos para jogar futebol, mas fez uma carreira louvável, tanto no plano nacional como internacional, ao jogar na China (Beijing BG Phoenix), Espanha (Huelva, At. Madrid e Prainsa Zaragoza), Estados Unidos (Bue Heat) e Noruega (FK Donn).

«Seria fantástico que eu tivesse agora 20 anos. Na altura em que eu tinha essa idade sofri um bocadinho, jogava por amor à camisola e paixão pelo futebol. Podia jogar a vida toda por uma sandes e um sumo no final do jogo, mas foram precisos 20 anos para ter a oportunidade de jogar apenas futebol e não preocupar-me em ter um trabalho extra», referiu ao DN em 2017, depois de ter ajudado Portugal a chegar ao Europeu. Edite participou no apuramento mas já não foi convocada para o playoff, e acabou por renunciar à seleção antes da fase final, por sentir que não ia ser chamada.

É uma das embaixadoras do futebol feminino português, a par de Carla Couto, recordista de internacionalizações.

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Portugal-Escócia (Foto: André Sanano/FPF)

HISTÓRICO EM EUROPEUS

Esta será apenas a segunda participação de Portugal, e proporcionada de forma inesperada, por força da exclusão da Rússia. Na estreia, em 2017, nos Países Baixos, a equipa de Francisco Neto ficou no último lugar do Grupo D, mas deixou boa imagem. Conseguiu a primeira vitória da sua história, frente à Escócia (2-1), e despediu-se com uma derrota mínima com a Inglaterra (1-2).

Depois de falhar novamente o Mundial, em 2019, Portugal regressa ao Campeonato da Europa com “wild card”.

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Futebol feminino: Portugal-Grécia (ANTONIO COTRIM/LUSA)

OBJETIVO REALISTA

«O grande objetivo é conseguir melhorar a nossa participação, o que significa mais pontos e golos. Queremos chegar à última jornada a depender de nós», referiu Francisco Neto, no dia em que anunciou a convocatória. Portugal tem o pior ranking do grupo, e continua a ser uma seleção inexperiente neste patamar, mas sonha com a passagem aos quartos de final, ainda que isso não assim tão realista, sobretudo se pensarmos na qualidade de Suécia e Países Baixos.

 

Textos de Nuno Travassos e Berta Rodrigues, Maisfutebol.

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