«Dondinho e Celeste idealizaram e fizeram o rei chamado Pelé
O nome do rei é Pelé, o nome do rei é Pelé
Pelé de todos os tempos
Incomparável Pelé, Pelé

Pelé da arte e da magia
Com a bola nos pés, Pelé
Menino de Três Corações, Bauru, Vila Belmiro
Seguindo o seu futuro e seu destino»

O Nome do Rei é Pelé. O dono da letra desta música é Jorge Ben Jor. Edson Arantes Nascimento sopra 80 velas e o mundo do futebol aplaude de pé. O menino nascido em Três Corações, Minas Gerais, inspirou músicos e realizadores de cinema, transportou o nome do Brasil pelo planeta da bola, transformou o seu país na pátria de chuteiras – com a devida vénia ao génio de Nelson Rodrigues.

Génios, Nelson e Pelé. Aliás Edson, aliás Edison. Dondinho e Celeste deram ao filho o nome do inventor da lâmpada, mas Pelé, já adolescente, decidiu riscar o «i» do bilhete de identidade. Até aos 13 anos, e à entrada definitiva no futebol, Pelé foi ainda Dico e Bilé, alcunhas apressadas escoltadas pelo carinho familiar.

Aos cinco anos, o menino acompanhou o pai na mudança para Bauru. Dondinho arranjou emprego e um lugar num clube de génese portuguesa, o Lusitana FC. Pelé, pequeníssimo, arranjou novos amigos e começou a ir para a baliza, impelido a imitar… Bilé, um anónimo goleiro do Vasco de São Lourenço, onde jogara o progenitor.

- «Como se chama, garoto?»
- «Bilé.»
- «Pelé?»
- «Bilé!»
- «Pelé?»

E Pelé ficou. Em Bauru, interior de São Paulo, entrou para a escola e a escola não o convenceu. Quis ser piloto de aviação, até espreitar pela janela da morgue a autópsia a um aviador morto. Ajudou o pai a engraxar sapatos na rua, ajudou o tio a fazer entregas de mercearia na Casa Lusitana, ajudou a mãe a vender fruta e hortaliça.

Pelé, Pelezinho, a fazer de tudo e a pensar só no futebol. Casa, trabalho, futebol com os amigos e aventuras. Muitas.

Aos sete anos, foi para o rio Bauru com o amigo Zinho e perdeu forças na travessia das águas revoltas. Foi salvo por um carroceiro que, por casualidade, passava no local. Poucos dias depois, um adepto insultou Dondinho num Bauru AC-Noroeste e o pequeno Pelé nem pestanejou: atirou um tijolo à cabeça do homem.

A infância em Bauru foi livre, de profunda comunhão com a natureza. O Clube dos Poetas Mortos do pequeno Edson, sem «i», juntou-se certa vez numa caverna para fazer o que bem lhe apeteceu. A caverna desmoronou e um dos rapazes morreu asfixiado. Pelé voltou a sobreviver por pouco.

 

Infância e adolescência: o Santos descobre o menino sonâmbulo

1953, o Rei ainda sem trono saltitava de clube em clube, de camisola em camisola. Aos 13 anos assentou nos principiantes do Bauru Atlético Clube. Agarrou-se ao sonho do profissionalismo e, com o tempo, destruiu um dos maiores adversários: o sonambulismo.

Dondinho e Celeste, os pais, falavam de «episódios aterradores». Pelé a acordar aos berros durante a noite, às vezes a vaguear por casa e a sair para a rua. Muitas vezes gritava «golo!» em pleno sono. Na manhã seguinte não se lembrava de nada.

O resto é a história que o mundo conhece. O Santos Futebol Clube descobriu-o aos 15 anos e no Santos Pelé tudo venceu. A carreira acabou em 1977, nos cinematográficos Cosmos de Nova Iorque, e deixou números sobrenaturais: 1284 golos em 1375 jogos,

Marcou 1284 golos em 1375 jogos. Foi tricampeão mundial pelo Brasil, bicampeão intercontinental pelo Santos, criou uma legião de fãs por todo o mundo, muito antes de o mundo entrar na era da comunicação e nos dias do digital. Pelé vestiu a pele de mito e o mito ecoou pela eternidade.

Parabéns, Rei. Muitos parabéns e muita saúde.

O árbitro expulso na Colômbia, o rapto em Trinidad e Tobago

Pepe, o Canhão da Vila. Irmão por afinidade, compadre, camarada no Santos dos anos 60 e no Brasil dos Mundiais de 1958 e 1962. Uma amizade assim não é perturbada pelo tempo.

Nas costas de Pelé o número 10. Nas costas de Pepe o número 11. «Era fácil jogar com ele? Que imbecilidade. Era dificílimo. O homem pensava sempre cinco segundos antes de todos os outros. Quando eu olhava ele já não estava lá», desabafa o homem que passou pelo futebol português e treinou o Boavista de 1987 a 1989.

«Ele é um E.T., veio de Saturno. É por isso que eu me considero o melhor marcador de sempre do Santos. Concorrer contra um alien não é justo para um humilde humano como eu.»

Cinco anos mais velho, Pepe refere-se a Pelé por «xará». O xará era único. «Tinha remate, velocidade, arranque, impulsão e também sabia ser duro. Mas o melhor de tudo era a forma como tratava a menina dele, a bola. Era perfeito.»

Aventuras? Muitas. Pepe na primeira fila, Pelé já vestido de Rei. Caixa alta, Rei. Um avançado capaz de expulsar o árbitro que o expulsou. Não há engano, garante Pepe.

«Fomos à Colômbia, para um amistoso contra o Millionarios. As bancadas estavam repletas, havia gente no relvado e o jogo recomeçou. Por volta dos 25 minutos, o árbitro expulsou o Pelé. Ele saiu do campo, foi para o balneário e a partida continuou. Mas por pouco tempo. Percebemos que o próprio povo colombiano protestava. Eles estavam ali para ver o Pelé e mais ninguém. Pois bem, o empresário que organizou o jogo invadiu o campo, expulsou o árbitro e foi chamar o Rei de volta aos balneários. Só assim a populaça sossegou.»

Das digressões do Santos pela Europa, Américas e Caraíbas sobraram episódios inverosímeis. Este é um dos melhores, jura Pepe. Aconteceu em Port of Spain, capital de Trinidad e Tobago.

«Nesse jogo eu já era treinador do Santos. Aos 43 minutos o Pelé fez um golo de cabeça e a reacção dos adeptos foi incrível. Invadiram o campo, pegaram no Pelé às costas e saíram dali com ele. Raptaram-no!»

Pelé desapareceu «durante horas». «Ficámos preocupados, claro. Mas sem razão. Os doidos só queriam passear com o melhor do mundo e acabaram por levá-lo ao hotel.»

E hoje, como seria Pelé no futebol de 2020? «Voltaria a ser o melhor do mundo, marcaria 1500 golos e sairia a sorrir como sempre fez. O Rei Pelé existiu mesmo. Podem não acreditar, mas ele existiu e eu confirmei isso de perto. Obrigado, xará.»

PEPE ESCOLHE OS CINCO MELHORES JOGOS DE PELÉ:

Santos-Botafogo, 11-0: 21/11/1964, Campeonato Paulista
«Marquei um golo olímpico [canto directo] nesse jogo e ninguém falou nisso. Há uma explicação para isso, claro: o Pelé fez oito golos nessa partida.»

Brasil-França, 5-2: 24/06/1958, Mundial-58 na Suécia
«Com o Pelé e o Garrincha em campo, o Brasil deu festival. A França tinha uma bela equipa, com o Kopa e o Fontaine, e o Rei conseguiu marcar três golos. Um desses golos foi um chapéu lindo, perfeito, com duas abas e tudo.»

Brasil-Itália, 4-1: 21/06/1970, Mundial-70 no México
«Só fez um golinho nessa grande final, mas que golinho! Foi de cabeça, numa impulsão fantástica... Fez também aquele passe decisivo para o golo do Carlos Alberto.»

Benfica-Santos, 2-5: 11/10/1962, Taça Intercontinental, no Estádio da Luz
«Se calhar foi o melhor Pelé de sempre. Ele estava imparável. Marcou três golos e em dois entrou a driblar com a maior facilidade do mundo pelo meio da defesa. Num dos lances, ele até fintou um polícia que estava sossegadinho atrás da baliza.»

Santos-Inter de Milão, 7-1: 26/06/1959, em Valência
«Quatro golos contra uma equipa fantástica do Inter de Milão. Um menino de 19 anos a fazer o que queria de alguns dos maiores monstros do futebol de então.»

«O Brasil de 70 tinha cinco números dez e o Pelé era o centro de tudo»

Seleção do Brasil, ano de 1970. Mundial do México. Pelé, Tostão e Jairzinho no ataque; Gerson, Clodoaldo e Rivelino atrás deles; Carlos Alberto, Brito, Everaldo e Piazza no quarteto defensivo, à frente do guarda-redes Felix. O esplendor da perfeição.

O ordenamento peca por excesso de conservadorismo. Como diz Clodoaldo, Mário Zagallo apostou em cinco números dez. 

«Era assim mesmo. Ninguém sabia como o Brasil jogava. O Pelé era o centro do nosso universo e nós gravitávamos em redor dele: ele, Rivelino, Jairzinho, Gérson e Tostão. Todos jogavam nos clubes deles na posição-dez. Eu jogava atrás desses génios.»

«Essa Copa de 70 marcou todas as nossas carreiras. Eu tive sorte, porque joguei a Copa certa. Em 74 e 78 fiquei de fora por lesão», continua Clodoaldo, velho companheiro de Pelé na seleção do Brasil e no Santos. «Alguém melhor do que Pelé? Nunca vi. Nem Maradona, nem Messi, nem Cristiano Ronaldo. O que mais se aproximou dele foi o Zico.»

«O Pelé estava sempre motivado para vencer. Desde os nossos jogos de damas e bilhar nas concentrações até ao futebol a sério. Foi um privilégio ter passado por tudo isso com ele. Na primeira vez que o vi, o Pelé estava a almoçar e a comer uma maçã. Ele viu-me e ofereceu-me metade dessa maçã. Eu tinha só 15 anos e isso aconteceu no Santos, ele era um pouco mais velho do que eu.»

E Tostão, o Pelé branco, o que acrescenta? «O melhor do mundo fazia com que tudo parecesse mais simples. O nosso futebol era fantástico e o Pelé era a origem de tudo. Passe, toque, movimentação, quase sempre pela relva.»

O antigo avançado era muito «recatado» e Pelé era dos que mais puxava por ele para a brincadeira. «Só na noite em que fomos campeões do mundo fiquei até mais tarde com a equipa. Avisaram-nos que o Presidente da República [Emílio Medici] ia telefonar a dar-nos os parabéns. Eu, o Pelé e o Carlos Alberto fomos os escolhidos para falar com ele. Mal desliguei o telefone fugi da festança para a tranquilidade, até o Pelé me vir acordar. Era sempre assim.»

«Baixinho, eu dou uma bola e eles devolvem uma bala, não dá»

A derrota do Brasil contra Portugal no Mundial de 66 entrou para a lista dos piores momentos de Pelé nos relvados. António Simões estava no lado dos vencedores e criou, a partir desse jogo em Inglaterra, uma amizade forte com o Rei. Anos depois, nos EUA, essa amizade foi solidificada.

Eu jogava com o Eusébio nos Boston Minutemen e recebemos o Cosmos, onde estava o Pelé. Demos 5-0. A meio do jogo falei com ele: Pelé, com esta equipa você está lixado. Eles não jogam nada. Respondeu-me logo, de braços caídos. Baixinho, eu estou a dar uma bola e eles devolvem uma bala. Não dá para jogar.»

Contemporâneo do Rei Pelé, a glória do Benfica, talvez a maior figura viva do emblema da Luz – com José Augusto -, recorda ainda outra noite de glória do aniversariante brasileiro.

«Benfica-Santos, 1962, Taça Intercontinental. O Pelé chateou-se e foi uma chatice. Teve uma atuação fabulosa, marcou três golos e confirmou que era, de facto, o Rei, o melhor do mundo. Antes tinha havido o Di Stéfano, depois houve o Maradona. Defino o Pelé com objetividade. Ele é como um cirurgião rico, que opera e cobra imenso dinheiro aos pacientes ricos, mas que trata gratuitamente dos que não têm dinheiro.»

O Nome do Rei é Pelé. Letra e música, Jorge Ben Jor. 

«De cabeça, de virada, de balãozinho, de bate pronto, de bicicleta,
De carrinho, de letra, de peito, de peixinho,
De falta, de penalty e nos incríveis gols de placa
E no bendito milésimo gol

Viva, Viva o atleta do século
Salve a mágica
A mágica da mágica camisa 10 de Pelé

O nome do Rei é Pelé, o nome do Rei é Pelé
Pelé de todos os tempos
Incomparável Pelé, Pelé

Pelé da arte e da magia
Com a bola nos pés, Pelé
O nome do Rei Pelé, o nome do Rei Pelé.»

NOTA: os depoimentos de Pepe e Simões foram recolhidos por altura do 70º aniversário de Pelé.