Foi com uma cerimónia particularmente tocante em Anfield, que as várias famílias desportivas da cidade de Liverpool, e de toda a Inglaterra voltaram a unir-se na evocação do 25º aniversário da tragédia de Hillsborough. Assim se concluiu uma semana de grande intensidade emocional, num aniversário pontuado pelo desfecho recente da batalha legal com as autoridades, travada (e ganha) pelas famílias das vítimas.

Governo inglês pediu desculpas, 23 anos depois

Para lá dos contornos do drama que, a 15 de abril de 1989, custou a vida a 96 pessoas no estádio do Sheffield Wednesday, talvez esta seja boa altura para lembrar os efeitos que este teve no futebol inglês, europeu e mundial: não há como fugir à evidência de que a forma atual como cada adepto de futebol vive a sua paixão é, direta ou indiretamente, herança de uma tragédia.

O fim dos gradeamentos  e do peão

Quatro anos antes de Hillsborough, os 39 mortos na tragédia do Heysel, antes da final da Taça dos Campeões entre Juventus e Liverpool, em 1985, já tinham sensibilizado as autoridades do futebol para os perigos dos gradeamentos em redor dos campos. Em grande parte dos incidentes mortais nas décadas de 70 e 80, o esmagamento tinha sido a principal causa de vítimas. Em 1990, o relatório Taylor, que no rescaldo de Hillsborough redefiniu as diretivas de segurança para o futebol inglês, determinou que os clubes retirassem as vedações dos seus estádios.

O exemplo alastrou pela Europa durante a década seguinte. Michel Platini, que tinha testemunhado in loco o drama de Heysel, foi uma das vozes mais enérgicas a defender essa mudança estrutural: «Prefiro cem jogos interrompidos por invasão de campo do que mais uma morte por esmagamento num estádio», afirmou, como líder da organização do Mundial-98, em França. Em junho de 1999, o Conselho Europeu oficializou a tendência, através de uma recomendação extensiva a todo o espaço comunitário.

O relatório Taylor não se limitou a impôr o fim dos gradeamentos: ordenou também o encerramento das bancadas com lugares em pé, impondo a norma de que cada espectador deveria ter direito a uma cadeira. Isso implicou o fim de velhas instituições como o Kop (Liverpool) ou Stretford End (Manchester United) e os efeitos foram imediatos, reduzindo as lotações dos estádios e forçando os clubes a um forte investimento na sua remodelação. 

Em paralelo, uma outra tragédia ocorrida em Bradford, em 1985, tinha exposto os perigos das velhas estruturas em madeira face a uma situação de incêndio. Também aí a face do futebol inglês mudou drasticamente, cortando, aos poucos, as ligações arquitetónicas com os palcos construídos na viragem do século XIX para o XX. Um após outro, os testemunhos de um futebol ainda ancorado na revolução industrial transformavam-se ou iam abaixo. Nasciam os novos estádios, desenhados para concentrar a paixão clubista em modernos centros de consumo.

A brigada da sanduíche de camarão

O aumento do conforto e a diminuição das lotações tiveram como consequência o aumento do preço dos bilhetes. Em Inglaterra, o futebol deixou de ser a diversão predileta das classes trabalhadoras, tornando-se um fenómeno mais dirigido à classe média. Com isto, diminuíram as tensões sociais nas bancadas e fenómenos como o hooliganismo. Os camarotes de empresa passaram a ser sinónimo de «status» e os adeptos mais tradicionalistas habituaram-se a coabitar com uma classe nova, a que deram, depreciativamente, o nome de «prawn sandwich brigade», mais tarde adaptado em Portugal para «turma do croquete».

A presença de mulheres, crianças e famílias inteiras nos estádios passou a ser frequente. O aumento da oferta de produtos derivados da paixão clubista, da alimentação ao vestuário, ajudou a transformar adeptos em consumidores levando a que, a partir dos anos 90, os clubes apostassem de forma consistente em estratégias de marketing e políticas de expansão comercial.

O triunfo das marcas globais

Como consequência destas transformações ditadas pela tragédia, acentuou-se o fosso entre os clubes de elite e os restantes. Emblemas com potencial de «marca global» prosperaram, enquanto clubes com base de implantação apenas regional ficaram para trás. Nada simbolizou esses novos tempos com tanta clareza como a passagem do ceptro futebolístico inglês de Liverpool para Manchester, onde o United lançava, nesses anos, as bases desportivas e financeiras para um domínio de duas décadas.

O fenómeno teve réplicas noutros países, como o definhar das potências bascas (At. Bilbao e Real Sociedad) que dominaram parte da década de 80 em Espanha, ou de fenómenos regionais como o Nápoles e a Sampdoria, em Itália. Por regra, quem não foi capaz de criar uma base de apoio e de consumo bem para lá da sua realidade geográfica, perdeu o comboio.

Enquanto a massa salarial dos jogadores de primeiro plano disparava, as receitas de bilheteira tornavam-se insuficientes para sustentar o negócio e a televisão deixou de ser parceiro ocasional, como tinha sido entre as décadas de 50 e 80, para se tornar na alavanca capaz de movimentar todo o circuito. Um desporto aparentemente «limpo» de violências e tragédias casou na perfeição com o crescimento de poderosas TV privadas, como foi o caso da Sky, em Inglaterra.

Com as regras das TV

O contrato assinado entre esta estação e a Liga de clubes profissionais, em 1992, foi a pedra de toque de uma revolução chamada Premier League. Foi sensivelmente nessa altura que, em Portugal, a Liga assumiu a organização dos campeonatos profissionais (1994) aproveitando algumas marcas exteriores vindas de Inglaterra, como os três pontos por vitória, a numeração fixa dos plantéis e os nomes dos jogadores nas camisolas – ideias por sua vez inspiradas no desporto profissional norte-americano.

Foi também em 1992, usando o dinheiro das televisões europeias como motor, que a UEFA aplicou uma nova fórmula para a sua principal competição internacional de clubes. A Taça dos Campeões, até aí uma prova contingente, como todas as taças, em que o sucesso de uma época podia ser posto em causa ao fim de um único jogo caseiro, adaptou um novo nome - e um modelo que garantia mais receitas aos participantes, e mais cabeças-de-cartaz às transmissões televisivas. Também aqui as lições de Hillsborough foram aproveitadas, quer nas normas de segurança e conforto exigidas nos estádios, quer no apelo a um novo tipo de público, com mais poder de compra e menos potencial para conflitos.

À luz da nova mentalidade, uma das condições prévias para a organização de provas desportivas nos primeiros 100 anos de futebol - a igualdade de condições para os participantes – ia deixando de fazer sentido. Os mecanismos de proteção aos mais fortes (sorteios condicionados, garantia de um minimo de jogos e de receitas televisivas) tornaram-se regra. 

A fórmula mais velha de competição, a Taça em regime aberto, todos contra todos, tornou-se obsoleta, pela diminuição de interesse dos patrocinadores e, essencialmente, das televisões – ironia amarga, se nos lembrarmos que a tragédia de Hillsborough, aconteceu precisamente numa meia-final da Taça de Inglaterra, entre Liverpool e Nottingham Forest, jogada em campo neutro, de acordo com uma velha tradição inglesa.

Paixão e memória

Enquanto a transformação da base social do futebol inglês se tornava um legado permanente da era Thatcher – prolongado a partir de 1991 com o governo de John Major - a realidade política da Europa entrava num período de mudança acelerada. À queda do Muro em 1989, mesmo ano de Hillsborough, seguiu-se a desintegração do Bloco Leste e a aplicação dos princípios comunitários de livre circulação laboral no mundo do futebol, com o acórdão Bosman, de 1995, como expressão mais visível.

A identidade nacional de cada campeonato tornou-se mais fluida, com a globalização a refletir-se tanto na composição dos plantéis como na propriedade dos clubes e sociedades anónimas onde o futebol atinge expressão de topo. O estado de coisas permanece até hoje, com mais de metade dos clubes ingleses da Premier League na posse de milionários de outras nacionalidades – e com o peso dos fundos de investimento como face diferente da mesma realidade, noutros países.

Passados 25 anos sobre a tragédia que desencadeou a maior escalada de transformações em mais de um século de história, o futebol ganhou uma identidade mais globalizada, perdendo parte da ligação às raízes e o pudor de se designar como «indústria». Mas as expressões genuínas de emoção, vistas ao longo desta semana, nos tributos às 96 vítimas de Hillsborough, mostram que essa indústria, reinventada nos escombros de uma tragédia, continua a alimentar-se da paixão e da memória. Como sempre, como dantes.