Houve um penálti marcado por Beto, e um canto direto de Dani. Mas foi o terceiro golo a ficar na memória de todos os que o viram: aos 70 minutos, com vantagem confortável no marcador. Dani e Bruno Caires prepararam a marcação de um livre junto à lateral direita do ataque. Assim que o árbitro apitou correram para a bola, em simultâneo. E depois. . .

Quando atende a chamada, Nelo Vingada começa por mostrar-se espantado. Depois a memória deste livre suscita-lhe o mesmo efeito que a milhares de portugueses em 1995: põe-lhe um sorriso na voz. «Foi há 20 anos?! Eram uns garotinhos... Essa era uma equipa especial, gavroche, como dizem os franceses. Atrevida, muito alegre, e com um nível cultural apreciável», começa por dizer. Pode parecer estranho descrever assim um conjunto de jogadores, mas o contexto é decisivo: sem alegria, manha e atrevimento não há golos destes. «Partiam dois ao mesmo tempo, chocavam, combinados, e tentavam trazer desconcentração ao adversário. Depois, havia uma execução rápida, a tentar aproveitar essa pausa. Ensaiávamos outros lances de bola parada. Esse é que ficou na memória, mas às vezes há outras coisas que são bem feitas e não resultam. Era uma bela equipa, que além disso tinha um jogador capaz de resolver, quando as outras coisas não resultavam», lembra.

A seleção campeã da Europa de sub-18, um ano antes do Mundial sub-20

Avança o suspeito. Dani não precisa de rever o livre para comentá-lo em pormenor: «Lembro-me, como se fosse hoje. Tínhamos tentado muitas vezes nos treinos, mas nunca em jogo. Só que esse foi o Mundial em que praticamente tudo nos saiu bem. Nesse jogo, já ganhávamos por 2-0, estávamos apurados, a ser totalmente superiores à Holanda e eu tinha marcado um canto direto pouco antes. O contexto era ideal. Por isso eu e o Bruno não tivemos dúvidas: é agora, vamos fazer», conta.

Não foram precisos muitos sinais para toda a equipa perceber o que vinha aí. «Bastam olhares, não me lembro se havia um sinal de braço, mas nem era preciso. Havia um movimento de atração ao primeiro poste, e outro jogador fazia um movimento circular para aparecer ao segundo. Os movimentos estavam bem treinados, independentemente de quem os executava», conta o autor do cruzamento para a cabeçada vitoriosa de Agostinho, que estava longe de ser um especialista de área.

«A própria FIFA fez referência a esse golo nos relatórios», lembra Nelo Vingada, com uma ponta de orgulho. «A iniciativa partiu de mim e da equipa técnica. Tínhamos duas ou três combinações para bola parada, não muitas mais: quando há demasiada informação, os jogadores não absorvem tudo. Eu encorajava o atrevimento. Quem me conhece, sabe que se há coisa que tenho, na relação com os jogadores, é capacidade para libertar a cabeça dos jogadores permitindo-lhes correr riscos ofensivos», conta.

Dani subscreve em toda a linha: «Quando ensaiávamos este livre não era por brincadeira. Fazia mesmo parte do trabalho de equipa. Não me lembro da primeira vez que o treinámos, mas acredito que tenha começado logo nos sub-15, ou sub-16. Aliás, Nelo Vingada, e todos os treinadores nas camadas jovens da FPF, incentivavam-nos a desenvolver características individuais e promover estas situações mais criativas», lembra o criativo dessa seleção que, curiosamente, ano e meio depois tinha alguns desses jogadores da Holanda como colegas em Amesterdão: «Lembro-me de falar desse lance com o Tom Pronk, olheiro do Ajax que foi muito importante na minha ida para lá. Ninguém dos holandeses considerou que tivesse havido falta de respeito da nossa parte. Audácia, sim, mas acharam genial», conta.

Anos mais tarde, a questão da autoria do livre foi levantada. Um exemplo de 1983 associou-o a um jovem Alex Ferguson, então no Aberdeen, num jogo decisivo com o Bayern de Munique.

É uma falsa questão, até porque Nelo Vingada nunca reclamou para si a paternidade do lance: «Sei que já o tinha visto algures, numa das muitas observações. Mas não sei precisar em que jogo foi. Lembro-me, por exemplo, que essa seleção, nos cantos, tinha sempre um jogador colado ao guarda-redes, o que na altura não era habitual. Isso vi fazer a uma equipa sueca, com enorme eficácia», conta. No futebol nada nasce do vazio, tudo é resultado de bons exemplos e do contexto próprio.

E, às vezes, também uma questão de sorte, admite, recordando um episódio sucedido em Alvalade, uns anos mais tarde, quando treinava o Marítimo: «Tivemos um livre em posição frontal, e o Bruno, que era um bom especialista, estava a ter um diálogo aceso com outro jogador sobre quem devia bater. Enquanto eles conversavam, o Mariano, que nem sequer era marcador habitual, mas era dessa seleção de sub-20, aproximou-se e bateu a bola no ângulo. O Schmeichel nem se mexeu. Ficou toda a gente parada a olhar para a discussão, que dessa vez não era ensaiada», conta.

Dani lembra um derradeiro fator fundamental para as boas memórias desse mundial de sub-20: «Éramos um grupo muito solidário, junto há muito tempo e talvez tenha sido esse espírito a levar-nos ao título europeu de sub-18 e a esse terceiro lugar», conta. Além disso, aquele foi um Mundial praticamente livre de distrações: «Foi a competição mais isolada que fiz, no Qatar havia pouco para ver e menos ainda para se fazer. Mas a estrutura da FPF conseguiu manter-nos com espírito alegre, arranjando sempre atividades para não nos aborrecermos. E assim fizemos tudo o que havia para fazer, os nossos jogos foram brilhantes», lembra Dani. Um mal que veio por bem, afinal: usando a definição de Nelo Vingada, durante esse mês de abril, aquele grupo de gavroches, não teve alternativa se não divertir-se a jogar futebol.

Passaram 20 anos, mas de certa forma parecem muito mais. Em Portugal, no ano de 1995, a TV por cabo ainda dava os primeiros passos, com a norma de consumo a ser ainda de apenas quatro canais de televisão. Havia menos de cinco telemóveis por cem habitantes, a internet era uma coisa esotérica, lenta e ruidosa, com modems de 28 kbps. Em suma: a informação era mais limitada e principalmente, circulava muito mais devagar. Nunca mais voltámos a ver golos desta forma. Não porque eles não continuem a acontecer, de vez em quando. Mas porque a nossa inocência e disponibilidade para o assombro eram infinitamente superiores.