Efeméride é uma rubrica que pretende fazer uma viagem no tempo por episódios marcantes ou curiosos da história do desporto, tenham acontecido há muito ou pouco tempo. Para acompanhar com regularidade, no Maisfutebol.






Às 17:02 a torre emite o boletim meteorológico ao piloto. « Nebulosidade intensa, rajadas de chuva, visibilidade baixa, nuvens 500 metros». « Recebido. Está bem, muito obrigado. Estamos a chegar», responde o piloto um minuto depois. Foi o último contacto.

O avião começa a descida para Turim. No caminho, passa pela Basílica de Superga, no alto de uma colina. Lá dentro, o padre, que estava a ler, ouve o barulho dos motores da aeronave. Está habituado a isso porque são muitos os aviões que sobrevoam a igreja. Mas depois um estrondo. A terra treme. A basílica abana por completo. O Fiat-G212 tinha-se despenhado contra uma parede da igreja.

Uma explosão mata as 31 pessoas a bordo. Mas faz mais do que isso. Destroça famílias, abala uma cidade, mata um clube, devasta uma seleção e muda por completo a história do campeonato italiano.


A ascensão do Grande Torino














27 de fevereiro de 1949 - último golo de Valentino Mazzolla pela seleção no Itália-Portugal

O jogo com o Benfica

A 27 de fevereiro de 1949, a seleção italiana, com seis jogadores do Torino no onze, goleou a portuguesa, em Génova (4-1). O capitão de Portugal era Francisco Ferreira, o de Itália, Valentino Mazzola. Dos contactos que mantiveram antes e depois do jogo nasceu uma relação de respeito e amizade.

Em maio, Francisco Ferreira iria ser alvo de um jogo de homenagem por parte do seu clube, o Benfica. O Torino era o adversário ideal. Entre avanços e recuos, motivados pelo facto de o título italiano estar em fase decisiva, o presidente do clube italiano concorda com a data de 3 de maio.

A 1 de maio, 24 horas depois de um empate com o Inter que lhe deixa as portas do pentacampeonato escancaradas, o Torino, aterra em Lisboa. Sauro Tomá, a contas com uma lesão no joelho, que lhe atrapalhou a carreira posteriormente, não viajou. Apesar de gripado, Valentino Mazzolla, insistiu em viajar.

Dois dias mais tarde, perante 40 mil espectadores, as equipas protagonizam um grande jogo no Jamor, com vitória do Benfica por 4-3. Em seguida, confraternizam no Parque Mayer. Ferreira convida Mazzolla a ficar mais uns dias em Lisboa, mas este declina e resolve regressar com a equipa naquele 4 de maio.

Trailer do documentário «Benfica-Torino, 4-3»

500 mil nos funerais

Em Turim, os familiares esperavam a chegada do avião. Com a demora, começam a telefonar para o aeroporto. Sabem então a notícia. O  Fiat-G212 despenhou-se. Não há sobreviventes.

Nos destroços, encontram-se pedaços de muitas vidas. Sapatos, documentos pessoais, fotografias, presentes que os jogadores traziam para a família. 


A notícia começa a circular e deixa a cidade consternada. Em Turim, os rapazes do Grande Torino não eram estrelas distantes. Heróis em campo, eram conhecidos por fazerem parte da vida da cidade. Um deles tinha uma loja de vernizes, dois uniram-se numa sociedade e abriram um café. Iam aos bares, ao cinema e falavam com os adeptos sobre o último jogo, sobre o próximo, sobre o tempo, sobre a guerra... Os filhos brincavam na rua com os vizinhos, mesmo numa altura em que o som do alarme dos bombardeamentos os fazia correr para os abrigos.

Sandro Mazzolla, conhecido na altura por toda a cidade como Sandrino, filho do capitão da equipa grená, lembra-se dos passeios matinais pelo centro da cidade, de mão dada com o pai, e de conversar com quem com eles se cruzava na rua.


Não foram só os heróis que caíram em Superga. Foram pais, filhos, irmãos, vizinhos, clientes, amigos...  Na colina, o avião despedaçado era uma metáfora do que aconteceu a muitas famílias. Só os  Ballarin perderam logo dois irmãos: Aldo e Dino.

Turim disponibilizou o maior palácio para as cerimónias fúnebres. 500 mil pessoas acompanharam os funerais, que se realizam a 6 de maio. Por toda a Itália, sucediam-se as homenagens.


Pentacampeões

A federação italiana decide atribuir o título ao Torino, que na altura do acidente liderava com quatro pontos de avanço sobre o Inter. É o Penta para a equipa grená. Nas últimas quatro jornadas, o clube alinha com a equipa júnior, e, numa demonstração de desportivismo, os adversários fazem o mesmo.

Um ano depois da tragédia, é uma Itália dizimada e desmoralizada que viaja de barco para o Brasil, onde participa sem brilho no Mundial, sendo eliminada na primeira fase. Faltam-lhe Bacigalupo, Ballarin, Rigamonti e Castigliano, entre outros. Mas principalmente Valentino Mazzola, ídolo, goleador e capitão, o melhor de uma geração.

Após Superga, o Torino perde o estatuto de maior clube italiano. Depois, deixa mesmo de ser o maior da cidade de Turim, deixando terreno para o avanço da Juventus. Em 1959, dez anos depois da tragédia, desce pela primeira vez à Série B. Só em 1976 o «Toro» volta a ganhar um «scudetto» de enorme carga emocional.

Sem Mazzolla para responder ao toque da cavalaria, o Filadélfia vai morrendo. Durante dez anos o estádio manteve-se ativo mas a sombra de Superga pesava demasiado e, quando a equipa desceu à Serie B, começou a estudar-se definitivamente a mudança. Em 1963, o Torino passou a jogar no Comunalle. O Filadelfia foi deixado ao abandono como uma ruína dos dias de gloria do clube e uma lembrança do dia em que 31 vidas se perderam em Superga.


Lista de jogadores do Torino que morreram em Superga:

Aldo Ballarin
Danilo Martelli
Dino Ballarin
Eusebio Castigliano
Ezio Loik
Franco Ossola
Giuseppe Grezar
Guglielmo Gabetto
Julius Schubert
Mario Rigamonti
Milo Bongiorni
Piero Operto
Romeo Menti
Rubens Fadini
Ruggero Grava
Virgilio Maroso
Valerio Bacigalupo
Valentino Mazzola