Não é uma característica comum no treinador português: a capacidade de falar aberta e publicamente sobre os jogadores que conduz. Em entrevista ao Maisfutebol publicada originalmente a 29 de janeiro de 2013, que agora recuperamos, o técnico do Paços de Ferreira, que se prepara para rumar ao FC Porto, analisou o seu plantel e até falou exaustivamente sobre Josué, um caso muito especial. Passou de suplente pouco utilizado a influente titularíssimo. O problema do jogador que deverá reencontrar no Dragão, diz Paulo Fonseca, estava na cabeça.

Este mês de janeiro é uma tormenta para os treinadores? Tem medo de perder jogadores fundamentais?

«Tenho um grupo equilibrado e acredito que uma ou outra saída não nos vá afetar. Mas precisamos rapidamente de ter equilíbrio emocional. É normal que este mês e o mercado mexam com alguns jogadores. Acredito nas notícias que vêm nos jornais, mas perturbam, não há dúvida. Quero que o mês acabe e que nos voltemos a focar totalmente no que interessa. Os jogadores têm trabalhado bem, querem ver as suas vidas melhoradas e é normal que pensem em sair».

Já elogiou publicamente o André Leão e o Vítor. Ficou surpreendido com a capacidade destes e de outros dos jogadores ao seu dispor?

«Não conhecia muitos deles. Todos me têm surpreendido pela qualidade e ambição. É natural que alguns de destaquem mais, mas todos revelam uma crença incrível nas ideias da equipa técnica».

Fale-me um pouco sobre cada um dos atletas que estão às suas ordens.

«O Vítor é o caso mais evidente do médio de qualidade acima da média. O André Leão e o Luiz Carlos têm sido ótimos também. O Josué apareceu muito bem a partir de dezembro, o Antunes voltou ao que era no antigamente, o Caetano está a subir muito de produção e é um jogador de futuro. O Diogo Figueiras não era uma opção e tem vindo a conquistar o seu espaço. O Cícero nunca tinha feito uma época boa na I Liga e está a ser determinante.

O Cássio tem estado a um excelente nível na baliza. É um excelente guarda-redes. O Tiago Valente já tinha estado comigo nas Aves e tem conferido enorme estabilidade à defesa. O Tony tem-me surpreendido muito pela determinação. Está a fazer uma época muito regular. O Ricardo está muito confiante. O nosso capitão de equipa, sem ser utilizado regularmente, tem sido de uma entrega louvável. Estou a falar do Filipe Anunciação. É um defensor extraordinário do grupo.

Temos ainda o Hurtado, um extremo rápido e que tem estado a fazer muitos golos. E há mais. Todos são importantes para mim».

O caso do Josué é curioso. Tinha poucos minutos até novembro e em dezembro começa a aparecer num nível fantástico.

«Temos a preocupação de motivar sempre quem joga pouco. O Josué não estava dentro do que pretendíamos no início da época. Tem vindo a evoluir. Valor não lhe falta e conquistou o seu espaço. Não mexi no trio do meio-campo [Vítor, Luiz Carlos e André Leão] e encontrei uma solução que vai de encontro ao que pretendo. O Josué está a um nível excelente e é difícil não apostar num jogador assim. Ele tem de perceber que não se pode acomodar».

É um jogador que necessita de uma abordagem diferente da sua parte?


«Não tenho problemas nenhum em dizê-lo: o problema do Josué não tem a ver com qualidade técnica ou pensamento de jogo. Tem a ver com a personalidade dele. Encontrei uma forma de o motivar, mas até aí tentei outras coisas que não funcionaram. Não quer dizer que funcione para sempre, mas vou fazer tudo para ele não sair da linha correta».

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