Depois de quatro anos e meio de ligação ao FC Porto, com dois empréstimos pelo meio, Hernâni mudou-se para o Levante para jogar num dos maiores campeonatos do mundo.

O vínculo entre o extremo luso e os dragões expirou e ficaram as memórias. E dois títulos: uma Supertaça e um campeonato.

O Maisfutebol encontra-se com o português na nova casa: o estádio Cidade Valência. Hernâni aborda os primeiros meses em Espanha e passa obrigatoriamente pela ligação ao FC Porto, mas também pelas passagens por V. Guimarães e Olympiakos.

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PARTE I

Maisfutebol - Tinhas o teu futuro nas mãos, visto que eras um jogador livre. Porquê o Levante?

Hernâni - Escolhi o Levante por vários fatores: pela Liga, pelo clube em si e pela forma como poderia adaptar-me. O treinador também me queria muito, isso pesou bastante.

MF - O Levante mostrou interesse em ti desde março, certo?

H - Sim. Já sabia que o clube tinha interesse há bastante tempo, apesar de não haver nada formal. O tempo passava e o Levante continuava a insistir. Ainda para mais terminava contrato… o clube estava sempre em cima. O sinal que me deram foi importante.

MF – Disseste que beneficiarias da forma como o Levante joga.

H - Tentei conciliar tudo, tanto a nível económico – que é bastante importante e estou satisfeito como tudo aconteceu – como a nível desportivo. Mas principalmente a nível desportivo. Precisava de jogar e de estar num sítio onde sentisse que podia voltar a estar bem e a sentir-me importante.

MF – O Adrián López e e o Iker Casillas deram-te conselhos antes de vires para o Levante. O que é que te disseram?

H - Aconselhei-me com o Adrián, com o Iker, enfim, com a malta espanhola. Todos me disseram muito bem tanto do clube como da cidade, independentemente de na altura não conhecer muito. Deram-me boas referências e depois procurei saber mais, até porque havia bastante interesse.

MF - E como estão a correr estes primeiros dois meses?

H- Muito bem. A adaptação está a ser ótima, não tive qualquer tipo de complicação tanto no balneário como na própria cidade. Há muitos restaurantes aqui, é tudo muito porreiro. Estou muito contente.

MF – A presença do Vezo também ajudou, certamente.

H - Sim, por acaso ajudou-me bastante logo no início. Há muitos espanhóis, naturalmente, e por muito que recebam bem não há muito à-vontade no início. Como o Vezo fala espanhol e português, ajudou-me muito e agradeço-lhe bastante.

MF - Como é passar de uma equipa que tem de ganhar os jogos todos para uma equipa que quer fazer um campeonato tranquilo?

H - Um jogador, quando vem de uma equipa como o FC Porto, já tem a mentalidade de querer ganhar. Se não for assim, não faz sentido.

MF – Quais são as principais diferenças entre a Liga espanhola e a portuguesa? 

H - Há clubes como Atlético, Barcelona, Real Madrid e Valência, mas depois dá para notar que os outros gostam de jogar e de aparecer. É muito competitiva, independentemente do jogo. As equipas não se rendem com facilidade.

MF - É obrigatório recuar um pouco na tua carreira. Brilhas em Guimarães e saltas para o FC Porto, fazes dez jogos e dois golos. Depois és emprestado. O que se passou?

H- Dei um grande passo para o FC Porto. As coisas começaram a correr bem, jogava com regularidade, fiz alguns golos. Acabou a época, fiz a pré-época e as coisas continuaram a sair normalmente. Pelos vistos o treinador mudou de ideias e não contava comigo para aquela altura. Pelo menos foi sincero comigo e deixou-me seguir o meu rumo. Fui para a Grécia e dei sequência ao trabalho que estava a fazer.

MF - Disseste que as melhores épocas que fizeste foram fora do FC Porto. Em Guimarães fizeste, inclusive, a melhor época da carreira.

H - Não sei. Não aponto o dedo nem culpo ninguém, mas provavelmente em Guimarães foi pelo treinador [Pedro Martins]. Sentia a confiança dele e sentia-me bem, os meus colegas apoiavam-me muito – não que não o fizessem noutros clubes, atenção. Em Guimarães foi onde tudo começou. Não sei ao certo o que aconteceu.

MF - O Pedro Martins (em Guimarães) e o Marco Silva (Olympiakos) deram-te mais confiança que todos os treinadores que tiveste no FC Porto?

H - Eles mostraram interesse em mim para que fosse a ajudar essas equipas e para fazer a diferença. Fosse para onde fosse, sabia que me queriam. Era muito mais fácil. No FC Porto, as coisas foram-se arrastando um pouco. Houve muitos momentos bons e outros menos bons. Tornei-me um jogador inconstante por jogar com pouca regularidade. Não fico totalmente triste por ter saído do FC Porto.

MF - Como justificas a irregularidade no FC Porto?

H - Quem vê os meus números no FC Porto pode ter as suas dúvidas, é normal. Não tenho uma explicação óbvia para isso. Acima de tudo há decisões do treinador. Se o treinador achou que tinha de jogar três jogos seguidos e depois não jogar cinco… era uma decisão dele. Fiz um bom trabalho, fiquei de consciência tranquila. Sabia que, mesmo que estivesse muito bem, havia depois uma decisão.

MF – Na altura percebias essa decisão?

H - Às vezes não. Estava a fazer o meu trabalho e inúmeras vezes fazia-o muito bem. Todo o jogador quando está bem tem de «reclamar» o poder de estar em campo. Muitas vezes na minha cabeça achava que tinha de estar em campo, mas o treinador achava que não.