Aos 32 anos, Tomás Amaral aceitou o desafio de se tornar diretor-desportivo do Spartak Moscovo, o clube com mais adeptos na Rússia, mas que só venceu um campeonato nos últimos 20 anos e precisava de uma reestruturação profunda.

Para trás ficaram quatro anos e meio no scouting do Benfica, departamento liderado até ao verão passado por Pedro Ferreira (hoje head of recruitment do Nottingham Forest de NES, atual terceiro classificado da Premier League) e do qual foi um dos primeiros membros integrantes após uma profunda reestruturação em 2019.

Esses anos e, antes, outros cinco durante os quais esteve ao serviço de três clubes espanhóis, também na área do scouting, deram-lhe a bagagem de que precisava para se sentir preparado para assumir um dos cargos mais complexos e desafiantes do futebol profissionais.

Nesta última parte de uma longa entrevista ao Maisfutebol, Tomás Amaral explica como surgiu o Spartak, fala do salto de scouting para a direção desportiva, da reestruturação que se propôs a fazer no futebol do clube - incluindo no scouting, o que o levou a contratar Joaquim Pinto ao Benfica - do contexto da Rússia, dos desafios de trabalhar o mercado num país em guerra e sob sanções, de uma «contratação milagre» e do que o levou a tomar a decisão de deixar o clube moscovita quando ainda tinha meio ano de contrato pela frente: «Enquanto eu lá estive, defendi o clube, quem me paga o salário e fui muito honesto com as pessoas do clube, mesmo sabendo que não estava a agradar outras pessoas, porque quando se quebra uma espécie de sistema nem toda a gente fica contente. (...) Na Rússia, muita gente fala, mete-se e quer ter o seu ganha-pão através dos clubes.»

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Maisfutebol – Como surgiu a oportunidade de se tornar, aos 32 anos, diretor-desportivo de um clube como o Spartak Moscovo?

Tomás Amaral – Fui abordado por uma pessoa que se identificou como consultora do Board do Spartak. Disse-me que o clube estava à procura de um diretor-desportivo e perguntou-me se eu estaria interessado em responder a algumas questões para um concurso para a posição. Mostrei abertura, respondi a essas questões e, depois, fiz uma primeira reunião por videochamada com esse consultor e uma série de reuniões também por videochamada com o CEO do clube. Já numa fase final fui convidado para ir a Moscovo e reunir com o Board do clube, que são duas pessoas que supervisionam a gestão do clube: o Pavel Zhdanov e o Aleksandr Matytsyn.

Quanto tempo durou esse processo desde a primeira abordagem até à decisão final?

Entre um mês e um mês e meio. Quando fui a Moscovo ainda não sabia se seria o escolhido, mas preparei-me de forma séria. Criei um documento com uma apresentação na qual exprimia as ideias que tinha, em termos de projeto desportivo, para um clube como o Spartak e acabei por ser selecionado para o cargo.

Sentia-se preparado para saltar de scout para um cargo de diretor-desportivo de um clube com tanto impacto na Rússia? Teve algum tipo de receio de dar esse passo?

Sentia-me preparado. Tive vários diretores-desportivos na vida, o que me permitiu retirar muitas aprendizagens do bom e até daquilo com o qual eu não concordava tanto e isso também faz parte. Senti, à medida que fui criando esse tal documento, que estava realmente preparado para isso. Na entrevista final cheguei ao momento em que tive 100 por cento de certezas de que estava preparado.

Foi a primeira vez que foi abordado por um clube para assumir um cargo de diretor-desportivo?

Não. Já tinha tido uma abordagem de um clube em Portugal, mas não mostrei interesse na altura por não achar que fosse o melhor passo. Posso dizer que não era de primeira liga.

Quais foram os diretores-desportivos que mais o influenciaram positivamente? Em quais é que mais se revê?

Aprendi com todos. Mesmo com todos, porque todos têm as suas valências positivas. Mas posso dizer dois que me marcam pela vertente humana e sensibilidade que têm no dia a dia: o Miguel Ángel Gómez, no Valladolid, e o Tiago Pinto, no Benfica.

E como é o Tomás diretor-desportivo em termos de personalidade?

Muito calmo, acho eu. Pelo menos, quem trabalhou comigo no Spartak – e até os próprios jogadores, que têm termos comparativos – dizem que sou muito calmo. Por fora, sim, mas por dentro depende do momento. No meu dia a dia em casa exteriorizo mais, mas depois, no trabalho, também depende muito da situação e do momento. O mercado é sempre um momento de maior tensão, com discussões normais que fazem parte do trabalho. E aí há discussão. No dia a dia com a equipa, o treinador, o staff e o scouting sou mais tranquilo.

Voltando um pouco atrás, ao processo de recrutamento para o Spartak, em alguma ocasião a guerra foi tema de conversa?

Nunca foi tema. O tema era futebol e o que seria melhor para o Spartak quer para o presente, quer para o futuro.

Mas o facto de a Rússia se tratar de um país sob sanções ocidentais – nas quais se inclui Portugal – fizeram-no hesitar antes de tomar uma decisão?

Não. Por dois motivos: porque sou casado com uma mulher russa, que desde muito cedo me fez ver que há sempre dois lados da história. E, se calhar, nenhum deles está certo. Não tomo partido de nenhum lado, sou sim a favor da paz. Há pessoas que sofrem em ambos os lados.

Segundo motivo?

Era uma oportunidade muito grande e que eu sentia que tinha de aproveitar.

Também pelo aspeto financeiro?

Pelo desafio. Não vou ser hipócrita e dizer que não era algo bom financeiramente, mas o desafio de criar, como dizem na Rússia, um sistema para o desenvolvimento do clube na área desportiva, que permitisse um sucesso imediato – porque tem de ser assim em todos os clubes – mas que desse acima de tudo sustentabilidade para um sucesso consistente a longo prazo foi o que me fascinou verdadeiramente.

Conseguiu criar algumas bases para o futuro?

Bases para o futuro e que estão lançadas. Não me foi permitido fazer outras coisas, mas são questões que respeito e percebo. Se como scout eu tinha de saber qual era o meu lugar, como diretor-desportivo é exatamente igual. Acredito que quem está no clube quer o melhor para ele, mas chegou-se a uma fase em que, havendo questões com as quais eu não me identificava tanto, tive de pedir para sair. Principalmente naquilo que era a perspetiva a médio e a longo prazo do clube.

O Spartak comunicou uma saída por mútuo acordo, mas foi o Tomás a tomar a iniciativa, portanto.

Sou eu que peço a saída do clube. Obviamente que depois houve um mútuo acordo. Saio muito agradecido. Pela experiência, pela oportunidade de trabalhar num clube com aquela dimensão e pelas pessoas fantásticas que conheci. Há duas pessoas que não posso deixar de nomear e que são do Board of Directors, que são o Aleksandr Matytsyn e o Pavel Zhdanov. Além da experiência que me foram passando noutras vertentes não tão relacionadas com o futebol, o jogo em si, foram pessoas que me receberam de braços abertos e que sempre me respeitaram imenso. São homens com H grande e a quem vou estar agradecido para a vida e que sei que são meus amigos para a vida.

Tinha mais quanto tempo de contrato?

Assinei um contrato curto de um ano e meio, com a possibilidade de renovar, mas não aconteceu e acho que foi o melhor para todas as partes.

Sentiu que foi encontrando resistências que o impediriam de continuar a dar tudo de si ao Spartak?

Sim. Houve alguma resistência. Eu tenho dificuldades em trabalhar num contexto em que muita gente de fora tenta influenciar decisões não de acordo com o que é melhor para o clube, mas de acordo com o que é melhor para essas individualidades. Há uma coisa que me deixa orgulhoso: defendi sempre o clube, defendi sempre quem me pagava o salário e dei tudo para que o clube ficasse melhor, para que a equipa ficasse melhor e para que as coisas fossem mais estáveis. Depois, há questões que eu não controlo e que só tenho de respeitar.

Mas tentou lutar contra isso?

Lutei até onde percebi que podia. A partir do momento em percebo que já não é da minha esfera de responsabilidade, tenho de tomar uma decisão. Ou aceito trabalhar naquelas condições, ou peço a saída. Acho que ser honesto nestas questões é o melhor. Nunca quis ficar agarrado a um contrato porque ele era bom ou porque o estatuto era bom ou porque o clube era enorme. Seria se calhar o mais fácil, mas esta é a minha forma de ser. Talvez porque já na juventude eu era inconformado. Mas fica o agradecimento e o orgulho do que fica feito. A verdade é que quem for justo e comparar a equipa de há um ano com a de hoje em dia, vai ver que a diferença é notória. Mérito acima de tudo de jogadores e do treinador, o Dejan Stankovic, que é um grande treinador.

Mérito também do diretor-desportivo?

O diretor-desportivo escolhe os jogadores, escolhe o treinador e tenta montar, como diz o Luís Campos, o puzzle. Acho que tive mérito nisso, mas o diretor-desportivo não é nada sem um treinador competente e se os jogadores não forem profissionais e muito competentes. Vivo muito daquilo que é a competência deles. Vivemos muito da competência da equipa. O mérito acima de tudo é dela.

Que clube é o Spartak em termos de dimensão, número de adeptos e exigência?

É o clube do povo, para começar. E eu costumava dizer, tal é a dimensão do clube e a pressão mediática que existe à volta dele, que é o Benfica ou o Real Madrid da Rússia. Estamos a falar de um clube que ganhou um campeonato nos últimos 20 anos, mas em que todos os anos há a expetativa de que isso aconteça.

Mas essa expetativa tem fundamento?

Tem fundamento porque é a história do clube. Pelos anos 90, que foram anos de muita glória.

Até o Zenit aparecer?

Não só. Antes do Zenit aparecer, o clube já estava sem ganhar há alguns anos. É um clube que merece voltar a viver esses anos gloriosos, mas que terá de perceber que é preciso estruturar-se para atingir esse sucesso de forma consistente.

Concretamente, o que se propôs a mudar no Spartak?

Reformular o departamento de scouting, tornando-o mais eficiente, reformular um plantel que estava desequilibrado na altura em que cheguei, reformular tudo aquilo que seria o sistema de futebol de formação, de equipa B e da subida de jogadores à equipa principal. No fundo, reformular toda a área desportiva do clube no que toca a futebol masculino.

No fundo, o Tomás seria, mais do que um diretor-desportivo, um diretor-geral.

No que era direccionado para o futebol sim, tendo sempre de reportar e pedir autorização ao CEO e consequentemente ao Board que davam o OK final. Depois havia o CEO, que no fundo era o meu chefe direto e era também responsável por áreas que já não me tocam tanto, com o marketing e a área comercial. Propus também criar também uma escala de salários que fosse justa. Senti necessidade de criá-la, porque a Rússia é um país que por si só paga bem aos jogadores, mas é preciso que exista estruturação na forma como paga. Um jogador que chega ao clube para ser um jogador-chave não pode receber o mesmo salário de outro que chega para ser um jogador de grupo. E tem de existir essa escala de salários, que foi um projeto que eu criei dentro do clube e que me fazia todo o sentido e que também fez ao Board, porque são eles que metem o dinheiro e todos queremos que o jogador seja o mais barato e o melhor possível. Mas tinha de se começar por algum lado e começámos por criar um sistema de escalões dentro do plantel onde cada jogador teria um salário adequado ao seu estatuto, sendo que alguns surpreendem e que mais tarde tornam-se jogadores-chave, mas aí cabe ao clube reconhecer esse mérito e valorizá-lo nesse sentido.

No âmbito desse projeto de reformulação contratou o Joaquim Pinto, alguém com quem trabalhou no Benfica, para liderar o scouting do clube.

Antes de mais, é importante dizer que o Joaquim, na área do scouting, é alguém de elite a nível mundial. E depois, além da muita competência profissional que tem, tem competência humana e eu tinha de estar sempre acompanhado por alguém em quem confiasse a 200 por cento. Surgiu essa necessidade porque eu percebi que havia coisas que teriam de ser atualizadas e de evoluir. No fundo, o Joaquim foi a minha primeira contratação. Para eu fazer um bom trabalho no Spartak, precisava de alguém que me ajudasse a reformular aquele departamento. E quem estiver atento no clube percebe que há diferenças entre aquilo que era o departamento antes do Joaquim e aquilo que é hoje. E isso é mérito dele e das pessoas do departamento que deram abertura para que o Joaquim as liderasse, ouvindo-o e respeitando-o.

O que faz do Joaquim Pinto um scout de elite?

A paixão que ele tem pela área, a competência que tem na avaliação do jogador, do rendimento, do potencial, de prever a margem de crescimento que o jogador vai ter, a rede de contactos que ele tem e que facilita em muitos momentos o estreitar caminhos para chegar mais rápido a algum jogador. Isso tudo e o volume de trabalho que consegue dar, porque ele é uma máquina de trabalho. Por exemplo, conhece tudo do Brasil: Série A, Série B, Série C, sub-20… tudo! É muito raro o jogador que eu, enquanto diretor-desportivo ou enquanto colega no Benfica, perguntasse ao Joaquim e ele não conhecesse e tivesse já informação.

Com Joaquim Pinto, que foi buscar ao Benfica para liderar o departamento de scouting do Spartak Moscovo

Foi fácil passar do Tomás scout para o Tomás diretor-desportivo com responsabilidades financeiras, a negociar salários, prémios, etc…?

Foi. Muitas vezes fala-se que há pessoas que sabem negociar e outras não. Mas quanto melhor conhecemos o mercado, o valor dos jogadores e o seu potencial, mais preparados estamos para negociar valores reais em termos de salários e de transferência. É quase com as casas. Se eu tenho um milhão para comprar uma casa, vou procurar uma casa que valha esse milhão. Não vou pagar esse milhão por um T0 fora da cidade, porque esse não é o seu valor real. Conhecer o mercado, os jogadores, o valor deles e o potencial que têm é um passo decisivo para se negociar melhor. E eu suportava-me muito no scouting para isso. Porque são os elementos do scouting que fazem esse trabalho diariamente e que conseguem perceber até onde vale a pena ir por um determinado jogador. Obviamente que, depois, a decisão passava por mim, pelo Board of Directors e pelo CEO do clube. Mas eu suportava-me muito no scouting.

Que experiência tinha na negociação de jogadores? Chegou ao Spartak sensivelmente no mercado de inverno.

Eu já tinha acompanhado diretores-desportivos em reuniões, mas a minha participação, verdadeiramente, tinha-se resumido a uma primeira abordagem para perceber condições e a abertura ou não do jogador para os clubes onde que eu trabalhava. A grande mudança no Spartak foi, além de começar esse processo, já o estava a mediar e a finalizar o negócio. Não era fácil, pelo contexto, e era muito desafiante. Mas no final de contas, com todas as dificuldades que existiram, conseguimos jogadores que se calhar muita gente não esperava que conseguíssemos.

Qual foi o primeiro jogador que contratou?

Manfred Ugalde, internacional da Costa Rica. É um jogador que eu já conhecia do Benfica e já tinha relatórios dele.

Encaixava no Benfica?

Hoje em dia sim. Mas não sei se agora seria possível. Mas conhecia-o e, ao fazer todo o trabalho de reconhecimento do plantel do Spartak quando cheguei para perceber onde tínhamos de atacar primeiro e ao falar com o então treinador, o Guillermo Abascal, percebemos que era uma necessidade. O plantel tinha apenas dois avançados – Sobolev e o Meleshin – o primeiro já com algum estatuto e o segundo, um miúdo que vinha da formação. Precisávamos de um avançado também com características diferentes. O Sobolev é mais um avançado de área e o Ugalde é mais móvel, liga muito bem o jogo, consegue atacar o espaço e tem algo raro de encontrar na pressão no momento defensivo, porque trabalha muito. E depois tem faro de golo. Tem esse instinto de estar muitas vezes no sítio certo.

Como foi o processo de negociação do primeiro jogador que contratou na vida?

Eu falo com um agente que é o parceiro do agente do Ugalde na Europa e há abertura do agente do jogador para conversar e depois começa aquilo que eu chamo de processo de charme. Explicar o projeto Spartak, o clube Spartak, explicar também que nem tudo o que se vê nas notícias relativamente ao país Rússia é verdade, tentando passar alguma tranquilidade ao jogador. E, depois, é um processo natural de ganhar confiança, de alinhar quais são os valores que o jogador poderá vir a aceitar e, mais tarde, negociação com o Twente, que era o clube onde ele jogava.

Por ter sido o primeiro processo negocial que liderou, esteve nervoso?

Sim. Houve aquela ansiedade natural de pensar: ‘Vou conseguir? Ou será que vou ser o primeiro diretor-desportivo que nunca conseguiu contratar um jogador?’ Isso existe, mas à medida que o processo avançou fui-me sentindo mais confortável. Felizmente fechou-se a contratação por um valor, na minha opinião, justo. E acredito que é um jogador que, além do rendimento desportivo que está a dar ao Spartak, vai dar rendimento financeiro.

Com Ugalde, o primeiro jogador que contratou para o Spartak e que é nesta época o melhor marcador do campeonato russo

Falou há pouco do contexto da Rússia. A guerra é o principal obstáculo no trabalho de um diretor-desportivo de uma equipa russa?

Não só a guerra. Também as competições europeias.

Uma proibição que é consequência das sanções.

Sim. Mentiria se dissesse que não houve casos de jogadores que não quiseram ir. Mas tenho jogadores que já fui eu a contratar e que estão muito agradecidos pelo passo que deram. E isso também é um sinal para outros jogadores que ainda não foram abordados ou que não quiseram ir para a Rússia, no sentido de perceberem que se calhar existem pessoas que são muito felizes a viver e a jogar no Spartak, mesmo em tempos de guerra.

Sente que o facto de ser um diretor-desportivo não russo, que foi para a Rússia já com a guerra em andamento, pode transmitir uma sensação de maior tranquilidade a um jogador com quem se está a negociar?

Acho que sim. Há dois fatores que me fizeram ter alguma vantagem na negociação do jogador estrangeiro para a Rússia. Primeiro, o facto de ser um português – mas podia ser um espanhol ou um inglês – e poder mostrar que vivo em Moscovo e que estou feliz. E o segundo fator, que um dia se vai desvanecer, é o fator idade, que me permitiu criar uma relação mais próxima e de maior confiança com os jogadores. Eu tinha uma proximidade muito grande com os jogadores, sabendo muito bem a minha função como diretor-desportivo e que há áreas que eu não tenho de tocar e que competem exclusivamente à equipa técnica. Mas eles podiam confiar em mim para qualquer questão extra treino ou extra jogo.

Depois de ter fechado o Ugalde, o Spartak perdeu um dos seus melhores jogadores: Quincy Promes, que foi detido no Dubai após ter sido condenado por tráfico de droga.

Antes de mais, é importante dizer que o Quincy, do que eu conheci, é uma grande pessoa e um profissional de excelência com um talento à vista de qualquer pessoa e uma atitude competitiva que dava prazer ver. Foi uma situação muito delicada perder aquele que, para mim, além de ser o melhor jogador do Spartak era também o melhor jogador do campeonato. Isto a dois ou três dias de retomarmos a competição logo com um jogo com o Zenit em São Petersburgo. Fizemos uma pré-época com uma ideia de jogo em que o Quincy era obviamente uma das referências da equipa e ele estava a fazer uma dupla muito boa com o Ugalde, porque houve uma conexão muito forte entre os dois no início. Perder um jogador como ele deixou marca. E depois criou-se a expetativa de quem seria o substituto do Quincy. Eu disse-o na altura em volto a dizer: não havia substituto para ele e é impossível encontrá-lo. Pelo jogador que é e pelo contexto que ele tinha enquanto pessoa e profissional. Torço para que as coisas se resolvam na sua vida pessoal, porque merece que tudo seja mais bem esclarecido.

No final da época foi contratado Dejan Stankovic para treinador. Um ex-jogador com uma carreira brilhante em Itália.

Chegámos a acordo para a saída do Guillermo Abascal, que é um treinador com potencial e que acredito que virá a ser um treinador de nível alto, mas chegou-se a um momento insustentável e em que era inevitável uma mudança. Colocámos um treinador interino, da casa, para orientar a equipa na reta final da época, mas já estávamos a preparar uma solução para entrar no clube. Criei uma lista com vários treinadores com os quais tinha interesse em falar. Não queria contratar ninguém sem falar, conhecer e sem entrevistar. O próprio Board também não o queria fazer. E o Stankovic era um deles. Foi-nos indicado por um agente quando ainda estava no Ferencváros, que nos disse que ele teria alguma abertura. O clique com ele foi imediato.

Porquê?

A forma como ele via o jogo e como queria ser dominante, que é algo que está ligado à cultura do Spartak e que o clube terá sempre de ter. E a personalidade forte dele: acabámos logo por ter uma comunicação muito direta. Senti logo que ele era o treinador certo e o Stankovic também sentiu, pela conversa que teve comigo, que seria o passo certo. Criámos uma ligação muito forte desde a primeira conversa. Falei imediatamente com os donos e o CEO do clube e disse-lhes que era o treinador certo. Mesmo antes de escrever aquele que seria o meu relatório sobre o Stankovic, que acabei por escrever na mesma.

Entendeu-se sempre bem com um treinador com uma personalidade tão forte?

Sempre. Tivemos as nossas discussões, claro, que são naturais no trabalho. Da mesma forma como tinha com o Joaquim Pinto ou com o Pedro Ferreira no Benfica, mas o facto de sermos ambos muito diretos na comunicação, não guardando nada para dentro ou a falar nas costas, ajudou a que houvesse sempre muita lealdade. Hoje em dia considero-o um grande amigo e ele sabe que eu torço pelo sucesso dele, assim como sei que ele torce pelo meu sucesso porque ficámos com uma ligação mesmo muito forte. Espero que lhe deem tempo Spartak.

Com o treinador Dejan Stankovic

Como correu o mercado de verão?

No meu entender foi positivo. Obviamente que houve alvos prioritários que não aceitaram, o que faz parte do processo e do contexto onde estávamos, mas foi positivo. Quando se constrói um plantel, tem de se pensar no seu todo: no equilíbrio em termos de número de jogadores por posição, no equilíbrio das personalidades dentro do plantel – como é que elas se vão ligar no dia a dia no balneário – e no perfil do que é preciso para que o Spartak seja uma equipa dominante e jogar dentro da ideia de clube e atendendo às especificidades de um treinador como o Stankovic. Não foi um mercado perfeito, mas foi um bom mercado e a prova disso é como a equipa está montada, como tem jogado e os resultados que está a ter. Dá gosto ver o Spartak jogar futebol. Há qualidade individual e muita qualidade coletiva. Mérito dos jogadores e do treinador, que soube unir as peças.

Um dos jogadores que foram contratados no verão foi o Esequiel Barco, que foi internacional jovem pela Argentina. Foi uma contratação difícil?

Todas foram. O Barco implicou que eu fizesse uma viagem à Argentina, onde eu estive cerca de duas semanas em Buenos Aires, não só para convencer o jogador, mas também para negociar e convencer o River Plate a negociar e a vender um jogador que eles também reconheciam como importante para a equipa. Passando um pouco a presunção, a contratação do Barco acaba por ser um milagre. É o melhor jogador do Spartak e do campeonato russo. Pelo talento, a dedicação, a personalidade e pelo caráter que ele tem, vai seguramente ajudar o clube a atingir objetivos mais altos.

Porque é que diz que a contratação do Barco foi um milagre?

Primeiro, porque já jogava num clube como o River Plate, que é, a par do Boca, um dos dois maiores clubes da Argentina. Depois, já tinha um salário considerável e também teve abordagens de outros clubes que lhe ofereciam mais dinheiro. Se calhar, o que fez a diferença foi a ligação que eu consegui criar com ele e o desejo que ele teve em jogar pelo Spartak e pelo treinador Stankovic.

Com Esequiel Barco, que Tomás Amaral diz ser o melhor jogador a atuar no campeonato russo

Para quem está de fora, talvez o nome mais surpreendente seja o de Willian José, um avançado com uma carreira muito sólida em Espanha.

Nós percebemos que o Sobolev tinha vontade de sair do clube. Queríamos contratar mais um 9 para a equipa e tínhamos de ir por alguém que tivesse qualidade dentro do campo – que ele tem, apesar de não ter tido muitas hipóteses de a demonstrar até agora – mas também qualidade humana enquanto colega. Eu sabia da qualidade enquanto jogador, claro, e também tinha informações sobre a qualidade humana e como profissional. E era importante ter alguém que também pudesse ajudar a crescer o Ugalde, um jogador que representou um investimento 13 milhões e que tinha de mostrar o seu valor e ter o seu espaço. As pessoas não sabem, mas a primeira pessoa a aplaudir no treino o Ugalde, a dar-lhe conselhos e a motivá-lo era o Willian José, que era o seu competidor direto. Criar condições para haver essas ligações também faz parte do trabalho de um diretor-desportivo. A tal peça do puzzle que encaixa. Não foi um investimento muito alto e considero que a sua contratação teve lógica. Infelizmente, dentro do campo não conseguiu demonstrar esse valor, mas quando se tem um jogador como o Ugalde, que tem 15 golos em 18 jornadas, fica difícil ter-se espaço para a aparecer.

E a contração de Ricardo Mangas ao Vitória?

Surge da necessidade que eu e o treinador identificámos de ter dois laterais de pé esquerdo no plantel. Tínhamos o Oleg Reabciuk, que transitava da época anterior, mas sentimos necessidade de ter alguém para competir com ele e que nos desse garantias quando jogasse. Tínhamos um alvo que não se conseguiu contratar, e que teve outra escolha, o Mangas também estava identificado por nós como uma boa solução e quando eu apresentei o nome dele ao treinador, ele também não teve dúvidas. Estou muito satisfeito por essa escolha, pelo grande profissional e pelo bom jogador que o Mangas é. Com qualquer um que jogue, seja ele ou o Oleg, o Spartak tem rendimento garantido na posição e sei que o treinador pensa da mesma forma.

Foi fácil convencer um jogador português a ir jogar para a Rússia?

Talvez tenha sido mais fácil sendo um português a convencer um português. E, tal como eu, o Mangas também esteve no Benfica, ainda que noutra fase, mas no fim tudo pesa para que existir confiança. Sei que ele está feliz e que vai continuar a trabalhar para ter ainda mais oportunidades, porque mostrou valor quando as teve. Cabe-lhe lutar pela posição, porque o Oleg Reabciuk também está a fazer uma grande época e tem mérito por estar a jogar.

O campeonato russo está parado nesta altura, volta no início de março e o Spartak está a dois pontos do Zenit, que é líder. Olhando para trás, sente que conseguiu construir uma equipa capaz de ombrear com uma equipa tão dominante há tantos anos?

Se me perguntar se o meu trabalho enquanto diretor-desportivo do Spartak ficou finalizado, digo que não. Porque o trabalho era muito mais do que construir a equipa. É o tal sistema, o tal processo de que falei anteriormente. Mas está à vista: o Spartak está a dois pontos e no único jogo que fez com o Zenit, em casa deles, esteve muito mais próximo de ganhar do que de perder. Fizemos um grande jogo e dominámos o Zenit em sua casa. Perdemos em casa 3-0 com o Krasnodar, mas demos uma grande resposta ao ganhar, também 3-0, fora de casa frente ao Krasnodar. Numa zona mista eu disse que tinha confiança de que esta equipa, com este treinador, poderia competir pelos três pontos com qualquer equipa. E compete. Não diria que já é uma equipa perfeita para ganhar de forma consistente durante vários anos, mas as bases estão montadas e acredito e espero que o Spartak seja campeão já este ano.

Em termos de argumentos financeiros, o Spartak também está tão próximo do Zenit como evidencia a classificação do campeonato?

Em termos de poder financeiro, acredito que o Spartak pode competir com o Zenit. Em termos de investimento financeiro, o nível salarial e o nível de investimento são distintos. Mas não acho que é com sacos de dinheiro que se ganham títulos. É com processo, lógica nas decisões e daí eu achar que apesar de o Spartak não investir, em termos salariais, o que investe um Zenit, em termos de equipa, de estruturação do plantel, de capacidade futebolística e humana dos jogadores pode e está a competir.

Deixa-o orgulhoso ver que dois jogadores que o Tomás contratou estão entre os mais impactantes do campeonato russo? O Ugalde é, destacado, o melhor marcador e o Barco um dos melhores marcadores e assistentes.

Dá-me orgulho porque deu trabalho, envolveu muitas horas e existiu também um mérito muito grande no trabalho do departamento de scouting e da equipa técnica, que soube enquadrar esses jogadores e potenciá-los na equipa. Obviamente que me dá orgulho pessoal por saber que fui parte importante na contratação dos jogadores, mas o rendimento só é mérito deles, porque eu podia ter acertado, mas isso não adiantaria nada se eles não rendessem.

O que foi mais desafiante durante os 11 meses em que foi diretor-desportivo do Spartak?

Muita coisa [risos]. Cheguei a um clube onde as coisas não estavam bem e por isso é que existiu uma mudança. Na minha opinião, o plantel não estava muito bem estruturado e era preciso haver frieza na análise e nas decisões para fazermos aquilo que considerávamos ser o melhor para o clube, mesmo que muita gente pudesse não perceber ou não gostar. E houve o contexto normal de mercado na Rússia, que acontece não só no Spartak, onde muita gente fala, mete-se e quer ter o seu ganha-pão através dos clubes.

Quer desenvolver esse tema?

Acho que não faz sentido desenvolver.

Mas isso também pesou na sua saída?

Foi uma das razões, sim. Mas há algo que me deixa orgulhoso. Enquanto eu lá estive, defendi o clube, quem me paga o salário e fui muito honesto com as pessoas do clube, mesmo sabendo que não estava a agradar outras pessoas, porque quando se quebra uma espécie de sistema nem toda a gente fica contente. Mas dá-me igual se ficam contentes ou não. O que me importou sempre foi respeitar o Spartak, a sua história, os seus adeptos e a empresa que gere o clube, que é a Lukoil. E isso eu sempre o fiz e eles também o sabem. Daí ficar uma boa relação entre mim e as pessoas do clube.

Já disse que o Spartak é uma espécie de Benfica ou Real Madrid da Rússia. Como foi lidar com uma pressão mediática que nunca tinha tido?

A pressão mediática num clube como o Spartak e num país como a Rússia é diferente do que se vê num país como Portugal ou Espanha. Existe muita pressão sobre a figura do diretor-desportivo. Foi também uma aprendizagem e uma experiência nova, mas eu estava tão focado no que acreditava ser o melhor para o clube que, depois, passava-me um bocado ao lado o que algum comentador, jornalista ou blogger pudesse dizer nos canais de Telegram, que têm muito peso na Rússia. Mas a minha forma de ver as coisas ou de trabalhar não ia mudar por causa dessa pressão mediática.

Havia muita agressividade?

Existia alguma agressividade, sim. No contacto direto e nas redes sociais. No caso de alguns bloggers, não era só a paixão pelo Spartak ou pelo futebol que falava mais alto. Era a paixão por outros motivos. Mas eu nunca iria mudar a minha forma de estar por pressão de A, B ou C, fosse ele um blogger ou um agente.

Fez muitos amigos na Rússia?

Fiz. Grandes e bons amigos que levo para a vida. Pessoas de dentro do clube que me receberam e que foram sempre impecáveis no trato humano e na competência enquanto profissionais. Posso falar do Artem Rebrov, que foi guarda-redes do clube e que era o coordenador-técnico: é um amigo que levo para a vida. Posso falar do Vladimir, que é o tradutor do clube, mas é mais do que isso: um profissional de excelência que foi, para mim, dos melhores que vi a trabalhar na Rússia. E fiz também amigos fora do circuito do Spartak, pessoas com quem vou manter relação para o futuro.

Com Vladimir Irincheev, tradutor do Spartak Moscovo

Que imagem sente que deixou junto das pessoas dentro do Spartak e dos adeptos do clube?

Há pessoas que vão gostar e recordar-me com boa memória por ter sido o diretor-desportivo que ajudou a construir a equipa que hoje em dia está a dois pontos do primeiro lugar, que apresenta o futebol que apresenta, que escolheu o treinador que escolheu e, nesse ponto, sei que haverá pessoas que estão agradecidas, como haverá adeptos que não gostam. Mas só tenho de respeitar isso, sabendo que nunca irei agradar a toda a gente. Mas estou tranquilo com o que fiz e com as decisões que tomei.

Admite voltar um dia à Rússia?

Porque não? Não se sabe o futuro.

E o futuro próximo?

Já tive abordagens na Europa. Mas quero escolher com calma, quero acima de tudo entrar num projeto com o qual me identifique naquilo que é a linha orientadora: o processo, a visão a médio e a longo prazo para o clube. E onde acima de tudo eu sinta que existe estabilidade e poucas pessoas à volta a querer ter influência.

E admite voltar ao scouting ou não lhe faz muito sentido depois desta experiência como diretor-desportivo?

Neste momento não está na minha perspetiva. O futuro dirá ou não se volta a estar em perspetiva. Mas o scouting estará sempre no meu sangue. Apesar de como diretor-desportivo já não ter tanto tempo para avaliar jogadores como antigamente, vou lutar durante toda a minha vida para não me esquecer de onde vim. Um bom departamento de scouting pode marcar a diferença num clube de futebol e é importante ouvir as pessoas que o integram.

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