Cristiano Ronaldo não é caso único entre os campeões do desporto nacional que são também casos de longevidade. Em Porto Salvo, por exemplo, há dois exemplos bem paradigmáticos.

O capitão Ré está na 12.º temporada no Leões de Porto Salvo e bateu, em maio deste ano, a marca dos 250 jogos pelo clube. Já André Sousa chegou este ano proveniente do Benfica, após recuperar de uma grave lesão que o fez equacionar até a retirada das «quadras».

Dois dos jogadores mais experientes do campeonato nacional de futsal, ambos com 39 anos. São, ainda, grandes responsáveis pelo sucesso nesta temporada: o Leões de Porto Salvo, recorde-se terminou a fase regular no quarto posto. Nos «quartos», eliminou a  Quinta dos Lombos em três jogos. Agora, nas meias-finais, defronta o tetracampeão em título, Sporting.

Atingiu a marca dos 250 jogos pelos Leões de Porto Salvo. O que é que isso significa?

Ré: Significa muito para mim porque é um clube no qual já jogo há 12 anos. Não é só um clube, é a minha família. Já faço parte da casa e por isso sinto-me muito orgulhoso de fazer os 250 jogos, que é uma coisa que fica na minha memória.

Muitos colegas seus apelidam-no de «jovem promessa». Será mesmo como o vinho, quanto mais velho melhor?

Ré: [risos] Muita gente brinca comigo. Uns chamam «velhote», outros de «jovem promessa». Há cinco anos até eu pensei que estava muito próximo de acabar. Não esperava aos 39 anos ainda estar a este ritmo. É a prova de que estou a cuidar-me bem. Vou fazer 40 anos mas ainda me sinto bem, já renovei por mais um ano. Vou vendo ano a ano como me sinto, mas neste momento sinto-me bastante bem.

Quando estava no Benfica teve uma lesão complicada. Passou-lhe pela cabeça terminar a carreira?

André Sousa: Passou-me pela cabeça deixar de jogar porque foi muito tempo sem saber o que era a lesão. De uma coisa tinha a certeza, como estava não podia continuar. Felizmente as coisas estão noutro rumo e estou numa fase muito positiva, numa época em que não falhei nenhum jogo nem nenhum treino. Isso deixa-me muito feliz e motivado.

Depois disso acaba por sair do Benfica e ir para o Leões de Porto Salvo. Sente-se realizado com a decisão?

André Sousa: Estou altamente surpreendido com o que apanhei em Porto Salvo. Não só a competência técnica e tática, que eu já sabia que existia. Mas diria que a expectativa foi mais superada ao nível de organização enquanto clube. Todos os intervenientes sabem o que têm e devem fazer, sempre em prol do clube, e nisso quem sai beneficiado tanto é o Leões de Porto Salvo como também o futsal português.

«Sporting? Quem sabe podemos fazer uma surpresa que ninguém espera»

Alcançaram as meias-finais em três anos consecutivos. Como é que tem visto esta evolução do clube?

Ré: Quando regressei a Porto Salvo foi uma época muito difícil, porque lutámos até às últimas duas jornadas do fim para não descer. De lá para cá acho que houve um «clic», não só nos jogadores contratados como também na gestão do clube. O presidente é o maior culpado, porque subiu o patamar do clube para uma das quatro melhores equipas de Portugal. Hoje em dia para jogar no Porto Salvo, além de ter muita qualidade, tens de ter personalidade e trabalhar no limite, porque o clube assim o exige.

Eliminaram a Quinta dos Lombos nos «quartos» em três jogos. Estas vitórias mais «suadas» dão uma motivação extra à equipa?

André Sousa: Tivemos muita dificuldade, mas olhamos para a Quinta dos Lombos e falamos de uma equipa muito capaz. Em todos os jogos houve equilíbrio e o nosso não foi exceção. Perdemos o primeiro nos penáltis. Acho que em alguns momentos do jogo não estivemos tão bem e acabámos por pagar por isso. Depois fomos para os penáltis e na lotaria não tivemos competência para ganhar. Depois tivemos dois jogos em casa para reverter a situação. As duas vitórias assentaram bem e acabámos por passar a eliminatória de uma forma justa.

Vão agora apanhar o Sporting nas meias-finais pelo terceiro ano consecutivo. O que espera deste novo embate com os «leões»?

Ré: Sabemos que o Sporting é um adversário duro e uma das melhores equipas do mundo. Porém, encaramos esses jogos com motivação e com orgulho, porque também chegámos às meias-finais. Sabemos que não vai ser fácil, mas estamos preparados para fazer dois/três jogos, porque queremos mais. Quem sabe, fazer aqui uma surpresa que ninguém está à espera.

Acredita num Sporting mais «débil» tendo em conta o passado recente?

André Sousa: Fala-se que o Sporting não está tão capacitado. A exigência do Sporting é muito grande por mérito próprio. As conquistas têm sido consistentes e acabam por habituar-se mal, porque quem ganha tem de continuar a ganhar. Se fizermos um rescaldo, o Sporting perdeu a Supertaça e a Champions, o resto ganhou e de forma convincente, a meu ver. Tiveram jogos onde as coisas correram menos bem, mas eu olho para o Sporting e vejo uma equipa muito capaz.

«Voltar à seleção é um objetivo meu, não o escondo»

Quando começou a jogar, pensou que poderia chegar aos 39 anos e estar, ainda, ao mais alto nível?

Ré: Não, para ser sincero nunca pensei chegar aos 39 anos e ainda jogar na primeira divisão e a este nível. Antigamente, quando os atletas chegavam aos 32/33 anos, já começavam a pensar em acabar a carreira. E, em termos psicológicos, muitos jogadores ficaram presos a essa ideia. Mas com uma boa alimentação, uma boa recuperação e um bom descanso é possível chegar aos 40 anos. É uma questão de mentalidade, essencialmente. Claro que não ter uma lesão grave também ajuda.

Quais são os pontos chave para estar ainda apto para jogar ao mais alto nível?

André Sousa: São os famosos «clichês», mas acho que tudo isso é importante - desde alimentação, ginásio, dormir bem - são todos pontos fundamentais, mas partem de uma premissa que é a disciplina. Se formos disciplinados e tivermos o desporto como prioridade, acaba por ser consequência. Temos de perceber que o corpo acaba por ser a nossa ferramenta de trabalho e por isso tem de ser bem tratado. Ter esta longevidade aos 39 anos - e sentir-me ainda capaz e com muito para dar - passa por todos esses cuidados de que estamos aqui a falar.

Como é que se prepara mentalmente várias épocas desgastantes?

André Sousa: Tudo é uma evolução. Quando começamos aos 20 anos temos uma capacidade de pensar diferente da que tenho aos 40 anos. Hoje em dia vivo as coisas com mais normalidade, acreditando que o erro faz parte do processo. O aspeto mental tem sido cada vez mais abordado na nossa sociedade, e felizmente que assim o é. Para mim, a importância da cabeça é 80 por cento de um atleta. Evitar o tabu e normalizar o erro deixa os jogadores muito mais capacitados para conseguirem jogar na melhor versão possível.

A seleção ainda é um objetivo?

Ré: A seleção hoje não é um objetivo e está muito longe para mim. Hoje em dia tem bons miúdos e muita qualidade na minha posição, então é algo em que eu nem penso já há muitos anos.

André Sousa: Sim, é. Não o escondo. Tudo o que tenho feito permite-me sonhar com a seleção, como outro jogador qualquer. É um dos meus objetivos pessoais também na continuidade no Porto Salvo. Tenho a esperança de ser chamado, mas obviamente que não parte só de mim. A mim compete-me fazer o trabalho e aumentar o leque de opções e a dificuldade de quem toma a decisão.