Rodrigo Magalhães foi durante 20 anos diretor-técnico da formação do Benfica. No último dia como funcionário do clube, depois de esvaziar o gabinete no Seixal e de entregar o carro na Luz, encontrou-se com o Maisfutebol no Estádio Universitário para um longa conversa.
Durante cerca de duas horas, falou de tudo e emocionou-se uma, e outra, e outra, e outra vez. A entrevista parou várias vezes, enquanto as lágrimas lhe caíam pela cara. Mas não se negou a falar de nada: do passado, das razões para a saída e de como será o futuro.
Pelo meio recordou três casos muito particulares: Vitinha, Diogo Costa e Geovany Quenda. Todos eles passaram pelos Centros de Formação e Treino que o clube espalhou pelo país, mas nenhum vingou de encarnado. O que é que se passou? Rodrigo Magalhães conta.
--------------------------------------------
LEIA OUTRAS PARTES DA ENTREVISTA
«No Benfica só não formámos um Bola de Ouro e não ganhámos uma Champions»
«Sinto um sabor agridoce: não era desta forma que queria sair do Benfica»
«Hoje estamos a educar jovens analfabetos motores: isto está errado»
Os Centros de Formação e Treino foram um dos seus grandes projetos ao longo destes vinte anos?
Mais uma vez, os Centros de Formação e Treino são associados a mim, e eu fui um dos pensadores, mas não fui o único. O Bruno Maruta também esteve envolvido, por exemplo.
E como surgiu essa ideia?
Estamos numa altura em que o talento não tem hora, não tem tamanho, não tem raça, não tem religião e também não tem local para nascer. Por isso, assistíamos a uma problemática emergente: qual é o enquadramento a dar aos jovens talentos nacionais de 9, 10, 11 e 12 anos que estão em Aveiro, em Faro, em Braga, em Viseu ou em Vila Real? Durante alguns anos o modelo era vir treinar uma ou duas vezes por semana a Lisboa e jogar ao fim de semana.
O que não era de todo o ideal.
Não, não era. Como deve calcular, era extremamente dispendioso, era cansativo e começava a afetar a vida social e académica dos jovens. Havia a necessidade de mudar de paradigma e pensamos em inverter o processo. Então criámos os Centros de Formação e Treino, com um protocolo com as casas do Benfica no local, que nos permite estar inscritos nas associações distritais onde o CFT está implementado. Os CFT’s jogam com as camisolas oficiais do clube, os jogadores são tratados da mesma forma, recebem exatamente o mesmo kit que recebem os jogadores em Lisboa, os treinadores são selecionados e formados pela estrutura central, têm acompanhamento feito por um coordenador só para os CFT’s da estrutura central. Foi e é o maior e o melhor projeto descentralizado a nível nacional e, de certeza, um dos melhores projetos descentralizados a nível internacional.
E que já deu frutos, não é? João Neves, Gonçalo Ramos...
... O António Silva, o Ferro, o André Gomes, o guarda-redes que foi emprestado ao Alverca, para além de todo um conjunto de jogadores que está a emergir e outros que estão em atividade noutros clubes. Porque inicialmente pensava-se que isto era mau, que o Benfica ia secar os jogadores a nível nacional, e curiosamente assistimos ao fenómeno inverso: melhores jogadores foram formados a nível nacional. O Benfica fica com um, dois, três por ano, e os restantes acabam por integrar outros clubes e beneficiar até as seleções nacionais. É um projeto do Benfica para o futebol nacional.
«Diogo Costa? A direção do Benfica decidiu excluí-lo após ter ido treinar a um rival»
O Diogo Costa e o Vitinha são dois desses casos, não é?
O Diogo Costa e o Vitinha, por motivos distintos, durante a sua formação passaram pelo nosso Centro de Formação e Treino de Braga. Depois há aí umas histórias mal contadas, mas enfim.
Que histórias?
Dizem, por exemplo, que o Benfica não quis o Vitinha, que esteve uma semana no Seixal, mas que o Benfica não o quis porque era pequenino. O que é falso. Não foi nada disso, o Vitinha fazia parte do nosso CFT de Braga e a determinada altura os encarregados de educação entenderam que havia outro projeto, que respondia melhor às suas necessidades e ele foi para esse outro projeto. O Diogo Costa é outro caso, embora não desta natureza. Muitas vezes muita gente fala, mas não conhece os factos, o que é mau e até é perigoso.
Nestes dois casos o Benfica teve interesse?
No caso do Vitinha, o Benfica nem estava em fase de tomar essa decisão, porque ele não tinha idade ainda para transitar para o Benfica Campus. Obviamente que ele tinha qualidade e era um jogador de interesse superior, daí estar no Centro de Formação e Treino.
E o que se passou com o Diogo Costa?
O Diogo Costa foi uma situação diferente. O Diogo Costa estava, em simultâneo com outros dois guarda-redes, que eram o Diogo Garrido e o João Virgínia, em equação para transitar para o Benfica Campus. Nesse período, logo a seguir à Páscoa, foi treinar um clube rival, ao FC Porto. Perante esta atitude, a direção do Benfica decidiu excluir o jogador do Centro de Formação e Treino.
O Geovany Quenda também passou pelo Benfica e acabou a brilhar num rival...
Em relação ao Quenda, acho que na altura a comunicação do Benfica não foi muito feliz e não esclareceu os benfiquistas. A história que circula não corresponde à verdade dos factos, porque o Benfica sempre teve um carinho especial pelo Quenda, providenciou-lhe sempre transporte e chegou ao ponto de até o nosso departamento de psicologia tratar de dar explicações ao Quenda, para ele transitar de ano. Quando se diz que o Quenda não ficou no Benfica porque não o colocámos no Benfica Campus, é falso. Há uma mensagem do Benfica a marcar uma reunião com os encarregados de educação, para eles poderem falar e conhecer o Benfica Campus. Gosto muito do miúdo, acho que é um ser humano fantástico e desejo-lhe a melhor sorte do mundo. Mas o que se diz não corresponde à verdade. O Benfica na altura optou por não se pronunciar, mas isto coloca em causa o profissionalismo de várias pessoas, de vários departamentos e eu não posso permitir isso, porque essa versão é mentira.
Mas então o Quenda saiu porquê?
Teve a ver com uma proposta que foi feita ao Quenda, e à família do Quenda, que o levou a optar por outro clube.
LEIA OUTRAS PARTES DA ENTREVISTA
«No Benfica só não formámos um Bola de Ouro e não ganhámos uma Champions»
«Sinto um sabor agridoce: não era desta forma que queria sair do Benfica»
«Hoje estamos a educar jovens analfabetos motores: isto está errado»