Rodrigo Magalhães foi durante 20 anos diretor-técnico da formação do Benfica. No último dia como funcionário do clube, depois de esvaziar o gabinete no Seixal e de entregar o carro na Luz, encontrou-se com o Maisfutebol no Estádio Universitário para um longa conversa.
Durante cerca de duas horas, falou de tudo e emocionou-se uma, e outra, e outra, e outra vez. A entrevista parou várias vezes, enquanto as lágrimas lhe caíam pela cara. Mas não se negou a falar de nada: do passado, das razões para a saída e de como será o futuro.
Falou de uma wishlist que fez na primeira viagem de autocarro para Lisboa e que quase cumpriu na totalidade, revelou que uma vez parou o carro numa área de serviço e começou a chorar e contou que ele tem na cabeça dele uma estratégia para construir uma equipa com potencial para ganhar a Champions, que um dia gostava de testar.
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Sabe que quando cheguei ao Benfica trazia uma wishlist, que partilhei, e ainda partilho, com os jogadores e com a estrutura, que é um sonho e uma visão também poderosa.
Quando é que fez essa wishlist? Foi quando já trabalhava no Benfica?
Acho que foi durante a viagem para Lisboa, a primeira vez que vim reunir com o António Carraça, o Jaime Graça e o Manuel Ribeiro. Em março de 2004. Vim a Lisboa apresentar o meu projeto para a formação do Benfica, que tinha criado num livrinho encadernado e num DVD. Seria a minha ideia para tentar implementar no futebol de iniciação do Benfica.
Mas estava a falar da wishlist...
Sim, acho que é um pensamento poderoso que ainda hoje gosto de ter, de ver da janela do meu quarto...
[Rodrigo Magalhães volta a emocionar-se]
Eu sou de Moçâmedes, uma aldeia no concelho de Vouzela, distrito de Viseu, e atrás da minha casa há um muro. Se eu saltar esse muro estou num campo de futebol pelado. A janela do meu quarto é virada para o campo pelado.
[As lágrimas voltam a cair e Rodrigo Magalhães tenta recompor-se]
De certeza que passei centenas de horas olhar para aquele campo pelado e a sonhar ser jogador de futebol. Não o consegui, joguei a um nível modesto, e depois mais tarde comecei a pensar em ser treinador. Desenvolvi a minha atividade no Dínamo Clube da Estação, no Grupo Desportivo de Campia, no Sport Viseu e Benfica e no Académico de Viseu. Ser coordenador técnico veio por um acaso não muito premeditado, e acho que a imagem da janela para o campo pelado é...
É uma imagem muito forte.
É uma imagem com um simbolismo de um poder inacreditável. E acho que é daí que emerge a wishlist.
E o que é essa wishlist?
A wishlist passa por vários objetivos para a formação do Benfica. Passa por formar os jogadores para campeonatos profissionais. Passa por colocar os jogadores na equipa principal do Benfica e a ganhar títulos na equipa principal do Benfica. Passa por colocar os jogadores nas seleções nacionais e há vários jogadores formados no Benfica que contribuíram ativamente para o sucesso da Seleção Nacional no Euro 2016 e nas duas Ligas das Nações. Passa por colocar jogadores a ganhar a Liga dos Campeões, e é fantástico quando isso acontece. E, depois, acho que há três tópicos que não consegui cumprir: formar uma Bola de Ouro, ganhar uma Liga dos Campeões no Benfica com alguns jogadores da formação, e na minha cabeça teriam de ser no mínimo seis, e o último era poder reformar-me no Norte com isto tudo cumprido.
[Rodrigo Magalhães volta a emocionar-se]
Mesmo assim, a maior parte dos objetivos foi cumprida.
Lembro-me quando o City ganhou a Liga dos Campeões - e eu tinha ido à outra final, o Ruben Dias tinha-nos oferecido, a mim e ao mister Luís Nascimento, um bilhete para a final que eles perderam contra o Chelsea -, então no ano a seguir, quando venceram, mandaram-me uma mensagem a dizer: ‘você ajudou-nos e nós agora também o ajudamos a cumprir o seu objetivo’.
«À vinda de um congresso na Maia, parei o carro na área de serviço de Estarreja e comecei a chorar»
Esse também é um sinal de quanto mudou a formação do Benfica nestes vinte anos?
Quando cheguei nós não éramos convidados muitas vezes para falar em congressos, ou quando íamos a congressos éramos olhados com algum desprezo. Não tínhamos muitos jogadores nas seleções jovens, não tínhamos sucesso desportivo, não tínhamos um nome, não tínhamos uma marca. E há um momento impactante para mim, que é um congresso na Maia. Estavam lá o Sporting, o FC Porto, a Seleção Nacional, estava o Luís Castro do Porto, estava o presidente Pinto da Costa, estava o Paulo Bento como selecionador nacional. E o Benfica, pela falta de crédito, pelas perguntas do público, sai dali pequenino, pequenino, pequenino. À vinda para baixo parei na área de serviço de Estarreja e fiquei lá um bom bocado, a chorar dentro do carro. Liguei à minha mãe, a perguntar ‘o que é que estou aqui a fazer?’, ‘isto é uma distância tão grande para os outros, nós não somos ninguém’.
[Rodrigo Magalhães começa outra vez a chorar]
O nível do clube na altura era mesmo muito baixo. Eu tinha vindo do Académico Viseu e de uma realidade em que passámos por muitas dificuldades, foi na altura em que o clube acabou por cair, acabou o Clube Académico de Futebol e renasce como Académico Viseu Futebol Clube. E já nessa altura, para além de vários meses sem recebermos, a malta passou por algumas dificuldades do género de receber vencimentos em caixas de vinho da Quinta do Cabriz, para vender as garrafas e ajudar a fazer o nosso ordenado.
Vendiam vinho para receber o ordenado?
E há algo que não me sai da memória também: um conjunto de rifas para um sorteio que se fez, e então nós vendíamo-las para fazermos também o nosso ordenado. Curiosamente ainda tenho uma caderneta de rifas guardada e muitas vezes olho para as rifas e vou aí buscar uma energia e uma força muito grande, porque me faz lembrar de tempos duros.
Mas a realidade do Benfica não era essa, calculo...
Não era um cenário tão profundo, mas havia coisas que hoje são impensáveis. Por exemplo, quando cheguei deram-me dois cartões de telemóvel para trabalhar, cada um com 100 minutos. Todos os meses tinha de pagar entre 75 e 200 euros de telemóvel, porque aqueles 200 minutos não davam para nada. Só muito mais tarde tive um cartão com minutos ilimitados. Lembro-me também de ter adquirido o meu primeiro automóvel, um Renault Clio comercial, com 30 mil quilómetros, e vendi-o com 350 mil quilómetros, tinha de andar com ele para fazer todas as viagens de trabalho, ir ver jogadores, ir para torneios, ir fazer negócios... era um investimento que todos tínhamos de fazer, para provar o que éramos. O clube tinha essa necessidade. Lembro-me até de torneios fora de Lisboa em eu e outros responsáveis dormíamos no chão, porque não havia dinheiro para mais alugar mais quartos. São condições totalmente opostas àquelas que hoje temos.
O Benfica que agora deixa, é o Benfica que idealizava a nível da formação?
O Benfica evoluiu de um campo pelado para ser a maior e melhor academia do mundo, reconhecida a nível nacional e a nível internacional. E portanto, neste percurso, há sempre altos e baixos. Honestamente, nunca senti que o clube estivesse da forma que eu idealizaria, mas acho que já é um aspeto pessoal, por ser irrequieto e irreverente por natureza. No dia em que ganhamos e festejamos, eu faço questão de à noite, quando chego a casa, pegar no meu caderninho e começar a fazer notas e alguns apontamentos. Porque há alguém ferido com a derrota noutro lado qualquer, ferido por não ter conquistado algo, que já está a trabalhar e a tentar ganhar vantagem sobre nós. Portanto, não há universos perfeitos, não há estruturas perfeitas e, no meu entender, há sempre margem para melhorar.
«Tenho ideia de uma estratégia para criar jogadores com projeção para ganhar a Champions»
E o Benfica como fica dentro de si?
São vinte anos ao serviço do Benfica, tenho uma história dentro de Benfica. Os meus avós faleceram quando já trabalhava no Benfica, casei, as minhas filhas nasceram, comprei a minha primeira casa, aconteceu tudo enquanto estava a trabalhar no Benfica. Pela emotividade desta entrevista acho que se percebe o que estou a viver. Mas muitas vezes temos necessidade de ver outro litorais, de viver outros desafios e de fazermos as coisas de forma diferente. Tudo o que eu quis fazer na minha wishlist foi concretizável, menos duas coisas que não dependem de mim, dependem de uma direção superior face à rentabilidade e à retenção dos ativos.
Sobretudo na questão de ganhar a Liga dos Campeões.
Eu tenho uma receita para ganhar a Liga dos Campeões e estou convicto que o conseguiríamos.
Não vendendo os melhores jogadores...?
Também faz parte do plano, mas tenho uma receita que parte da identificação dos jogadores com potencial elevado, aqueles jogadores que perspetivamos que possam atingir esse patamar. Hoje, a partir dos sub-13, nós já fazemos muito pouco na identificação destes jogadores. Criando um mecanismo de aumento e potenciação do long term player development, que já existe no Benfica, afinado para este tipo de jogadores com potencial elevado, colocando-os noutro tipo de contexto, que poderá pôr em causa alguns resultados desportivos, admito, mas que os prepara de outra forma para conseguirem chegar à equipa A no patamar desejado. Depois seria necessário introduzir algumas alterações metodológicas, sempre com um treinador assente neste tipo de crença e obviamente com a capacidade económica para reter alguns anos estes jogadores. Nós temos ciclos de três ou quatro anos e tenho a certeza de que estes jogadores permitiram ao Benfica fazer equipas competitivas para ganhar uma Liga dos Campeões. Estou mesmo convicto que era possível consegui-lo. Por isso acho que é a altura de ir beber informação e transformar esta informação em conhecimento, para me tornar melhor pessoa, com outro tipo de vivências e com outro grau de expertise, para estar noutro patamar daqui por alguns anos.
Chegou a apresentar essa ideia a algum presidente do Benfica?
Cheguei.
E houve abertura para testá-la?
Houve, mas ainda não foi possível encontrar o equilíbrio ideal para a concretizar. Acima de tudo, é um sentimento de orgulho e de gratidão muito grande que tenho para com o Sport Lisboa e Benfica. Isto leva-me também ao discurso que as pessoas mais próximas têm tido comigo, quando eles me dizem ‘não chores’ ou ‘não saias assim’, ou ‘porque é que sais do Benfica?’, ou ‘tu tens tudo, tens o reconhecimento nacional e internacional, toda a gente te reconhece competência, toda a gente te é leal’, tudo isto torna a saída mais difícil, mas eu preciso de sentir o futebol de outra forma.
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