Arsenal, Southampton, Fulham, West Ham... Boa Morte recorda uma carreira marcante no futebol inglês e duas aventuras noutras paragens, sem esquecer a Seleção Nacional, pela qual foi 28 vezes internacional.

Foi um choque sair da Lourinhã e ir para Londres jogar no Arsenal?

Não tinha nada que ver. Chegar ali ao balneário do Arsenal… São coisas completamente diferentes. Não dá para comparar. Tinha ali jogadores de topo… Fui bem recebido por eles. Vê-los em campo, estar com eles no balneário era um privilégio. Saí da Lourinhã para treinar com Ian Wright, Bergkamp, Patrick Vieira, Overmars… Parecia um sonho!

Como era a vida em Londres?

Cheguei a Inglaterra com 19 anos. No meio de uma cidade que tem tudo e mais alguma coisa. Tinha duas irmãs a viver em Inglaterra, o que ajudou a adaptar-me. Na altura, os meus amigos mais próximos eram o Chirstopher Wreh e o Nicolas Anelka, também jovens estrangeiros do Arsenal, que estavam na mesma condição que eu. Vivíamos na mesma zona e dávamos apoio uns aos outros.

Que relação tinha com Wenger?

Ele era muito atencioso e sempre preocupado com o que fazíamos dentro e fora de campo. Tinha muita responsabilidade, porque trazia jogadores muito jovens e formava-os para jogar ao mais alto nível.

Recorda-se da sua estreia a titular pelo Arsenal?

Claro! O primeiro jogo de início e aquele em que primeiros golos: bisei contra o Birmingham (4-1) para a Taça da Liga, em Highbury.

Como lhe deram a notícia da estreia pelo Arsenal?

O Wenger não dava a equipa antes. Mas ao saber que ia jogar fiquei surpreendido, claro.

E nervoso?

Não… Queria era expressar o meu futebol. Quando é assim, não se pode estar nervoso, mas sim sentir liberdade.

Não lhe correram mal esses primeiros tempos no Arsenal. Foi o primeiro português a vencer a Premier League e a Taça de Inglaterra...

Sim. E a Supertaça também, duas vezes. Em Inglaterra, um jogador tem de fazer um mínimo de dez jogos na época para ser considerado campeão.

No entanto, após duas épocas no Arsenal, foi para o Southampton.

Fui para o Southampton à procura de jogar mais vezes. Consegui, mas depois entrou um novo treinador e deixei de ser opção e tive de procurar alternativa.

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CARREIRA PROFISSIONAL:

. 1997 a 1999: Arsenal (37 jogos/4 golos)

. 1999/2000: Southampton (17 jogos/1 golos)

. 2000 a 2007: Fulham (249 jogos/54 golos)

. 2007 a 2011: West Ham (109 jogos/2 golos)

. 2011/12: Larissa (7 jogos/0 golos)

. 2011/12: Orlando Pirates (3 jogos/0 golos)

. 2012/13: Chesterfield (13 jogos/0 golos)

. Seleção Nacional: 28 internacionalizações/1 golo

Títulos: Premier League (1997/98), Taça de Inglaterra (1997/98), Supertaça Inglesa (1998 e 1999), First Division (2000/01) e Taça Intertoto (2002). 

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E na época seguinte saiu para o Fulham, onde se impôs em definitivo no futebol inglês.  Wenger foi mais uma vez importante na sua carreira, ao indicá-lo a Jean Tigana, então treinador do Fulham, não foi?

Quando chegou ao defeso de 2000/01, o treinador do Southampton disse que não contava comigo e tive de encontrar uma solução. Depois de ter vencido Premier League, Taça de Inglaterra, etc… acabo por ficar sem clube. Tive de crescer rápido e dar a volta à adversidade. Aceitei ir para o Fulham fazer um teste de dez dias e fiquei.

Concorda que o Fulham coincidiu com o seu período mais feliz em Inglaterra?

Sim, até passei a ser capitão de equipa. Não era normal, sobretudo naquela altura, um estrangeiro ser capitão. Depois subimos do Championship para a Premier League e conseguimos um bom período na história do clube.

Qual foi o jogo que mais o marcou?

O que mais me marcou… [pausa] No Fulham, talvez a nossa vitória frente ao Chelsea (2005/06), em que marquei o golo.

Foi o seu golo preferido?

Teve importância, até porque o Fulham já não ganhava ao Chelsea há 27 anos… São clubes vizinhos, com uma rivalidade histórica. Sempre que vou a Londres os adeptos lembram-se desse jogo. Mas o meu golo mais bonito foi frente ao Newcastle. Ganhámos lá 4-1.

Que outros jogos guarda na memória?

Vários. No West Ham, o dos quartos-de-final da Taça da Liga em que vencemos o Manchester United. No Arsenal, lembro-me bem do jogo contra o Panathinaikos para a Liga dos Campeões.

E o defesa mais duro que teve de enfrentar no futebol inglês, qual foi?

Eu era um extremo que fazia o flanco todo. Daqueles que dava umas porradas e levava logo a seguir. O Gary Neville e o Lucas Neill eram defesas complicados, mas leais: nunca viravam a cara à bola.

Depois de seis épocas e meia no Fulham foi para o West Ham, trocando o oeste pelo este de Londres. Como aconteceu essa mudança?

Fui para o West Ham, que é um clube com muitos adeptos, mas não por minha vontade. Não queria ter saído do Fulham. Um ano antes, podia ter ido para o Newcastle e não fui por não querer forçar a saída. Depois, o CEO do Fulham decidiu vender-me e tanto eu como o Chris Coleman (treinador) fomos apanhados de surpresa. Eles aceitaram a proposta do West Ham. Como capitão achei que merecia mais consideração.

No final da carreira, esteve na Grécia (Larissa) e África do Sul (Orlando Pirates). Qual das experiências lhe agradou mais?

Ambas! Sou um cidadão do mundo. Dou-me bem com a adaptação a novas realidades. Na Grécia o mais complicado era a barreira da língua e o facto de ser um país mais desorganizado do que Inglaterra. Mas gostei de viver lá. Fui bem tratado. Os adeptos são superfanáticos. Os do Larissa, então, puxa… É outra realidade.

E na África do Sul? É verdade que foi lá parar por intermédio do Benni McCarthy, que jogou no FC Porto?

Dele e do irmão. Benni estava lá no Pirates e convenceu-me. Fiquei impressionado com a qualidade técnica dos jogadores. É um futebol muito rico em matéria prima.

Falemos um pouco da Seleção Nacional. Tem 28 internacionalizações, mas ficou à porta do Mundial 2002 e do Euro 2004.

Em 2002 falhei por lesão, por ter rompido o ligamento lateral. Em 2004, não fui opção para Scolari.

Ficou particularmente desanimado pela exclusão da convocatória para o Euro 2004?

Um Campeonato da Europa jogado em casa… Quem não gostaria de lá estar? Além disso, 2003/04 foi a minha melhor época em Inglaterra.

Quem foi na sua vez foi o Cristiano Ronaldo…

Não posso dizer que foi X ou Y na minha vez. O treinador é que fez a convocatória.

Depois foi chamado para o Mundial 2006. Quem eram os seus amigos na Seleção?

Havia colegas mais próximos. Tínhamos ali um grupinho: eu, Paulo Ferreira, Jorge Andrade, Simão. Lembro-me que o Jorge Andrade via filmes de terror no youtube… E depois tinha medo de dormir sozinho. Passou o Mundial 2006 a dormir no meu quarto.

Quem era a sua referência?

Luís Figo. Era o ídolo na altura. Via-o como um modelo de profissional.

PARTE 1: «Tiago Fernandes? Partilhámos o mesmo metro quadrado mas não conversámos»

PARTE 2: «Percebo de eletricidade e ainda saberia reparar motores»

PARTE 4: «Homenagem em Alvalade? Fiquei sentido pelo meu filho»