Depois da visita ao relvado, seguimos Roberto Martínez até ao seu gabinete de trabalho, dentro da Casa dos Atletas.

Passamos pela sala de reuniões com os jogadores e chegamos ao espaço onde trabalha com os seus adjuntos, onde são analisados os adversários.

Sentamo-nos à mesa onde tantas decisões são tomadas. Com a árdua tarefa de escolher (só) 26, tentamos saber em que fase está esse processo.

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Parte IV: «O Cristiano Ronaldo é conversa de elevador, está aqui pelo que faz agora, não pelo passado»

Parte V: «Um jogador novo, que nunca tenha estado na lista, tem de estar em março»

Estamos no seu gabinete de trabalho. É daqui que saem as convocatórias para as grandes competições e para os estágios. Qual foi a convocatória mais difícil da sua carreira aqui em Portugal?

Todas as convocatórias têm dificuldades, mas é um processo, como já expliquei.

Eu diria que reunimos muita informação e só no último dia antes da convocatória tomamos a decisão, tendo em conta o adversário e o nosso plano tático.

Mas tivemos… Acho que o momento antes do Europeu foi a convocatória mais difícil porque tivemos de deixar de fora um jogador que tinha feito tudo bem e que sempre ajudou muito a Seleção, o Ricardo Horta.

Mas é aqui que o processo é muito importante, que seja honesto, com muita responsabilidade. Nós precisávamos de outro perfil de jogador, um jogador que tivesse uma intensidade para entrar nos jogos, terminar os jogos... E que foi o Chico Conceição.

O mais fácil para a equipa técnica, ou para o selecionador, seria continuar com uma escolha que fosse mais popular, mas o importante é escolher os jogadores que a equipa precisa, que o grupo precisa, tendo em conta aquilo que vamos tentar executar e o adversário que vamos ter.

Esse foi um momento difícil porque o Ricardo é uma pessoa espetacular e o que ele fez na Seleção foi muito bom, mas precisávamos de um perfil diferente.

Apesar de ter uma equipa de trabalho que está sempre consigo, a decisão final é uma decisão muito solitária?

É solitária, mas é tomada depois de um processo. A equipa técnica tem muita responsabilidade, muita experiência, estamos a falar de ex-jogadores que conhecem muito bem a Seleção, o Ricardo Carvalho, o Ricardo Pereira…  E ainda elementos com muita experiência no futebol de seleções, ao todo são oito pessoas e muitíssima informação.

A responsabilidade é minha, mas a decisão é tomada depois de um processo, isso faz com que seja mais fácil.

A sua experiência com a Bélgica, onde tinha tantas estrelas, tantos egos difíceis de gerir, um balneário que depois percebemos que não era fácil, é útil para o que faz agora em Portugal?

É muito útil, é muito útil. Eu estive sete anos na Premier League, onde o balneário é muito diferente, culturalmente muito diverso e isso também ajuda muito.

A Bélgica estava ao mesmo nível, porque tem três línguas oficiais, há uma diversidade importante.

A experiência de dois mundiais também ajuda muito. E ainda uma fase final da Liga das Nações, ser a equipa número um no Ranking da FIFA, durante quatro anos seguidos… Isso é o que ajuda.

Mas é importante adaptar o que seja necessário. O balneário de Portugal é muito diferente, é só uma cultura. Mas a experiência ao nível de seleções, sim, ajuda muito.

É mais difícil gerir, nesses balneários, um veterano, uma estrela cheia de experiência, ou um jogador jovem que chega agora e já tem milhares de seguidores nas redes sociais?

Não é só gerir, é ver se o jogador consegue manter um nível muito bom durante o jogo. Há momentos em que o jogador está em baixo, há momentos em que precisa de ajuda e há momentos em que não precisa. Não é fácil ou difícil, são situações diferentes, mas o importante é que o balneário tenha compromisso com o grupo.

O que gosto sempre de dizer aos nossos adeptos é que devemos estar muito orgulhosos dos nossos jogadores, porque têm um compromisso incrível e o foco é sempre vestir a camisola (da Seleção) com muito orgulho.

O Selecionador Nacional, com a sua experiência, com a equipa que tem, ainda tem medo de falhar?

Não, o Selecionador tem medo de não estar preparado! Já são 20 épocas de experiência, por isso o momento de ansiedade é quando, antes de um jogo, olhamos para trás e vemos que a preparação não foi perfeita. É isso, o foco para o Selecionador é sempre preparar, saber que fizemos tudo para ajudar o jogador a poder ganhar um jogo. Quando fazemos isso, não há medo de falhar, porque o foco é lutar e fazer tudo o que possamos fazer para ganhar.

Tendo em conta os dados que referiu, dados de jogos, dos treinos, já terá na sua cabeça a grande espinha dorsal dos convocados para o Mundial?

Eu diria que sim, porque a espinha dorsal - que é um bom conceito - é tudo aquilo que aconteceu nos últimos 36 jogos, dos quais 31 oficiais. Falar de 31 jogos oficiais dá muita informação. E é isso que devemos utilizar muito bem. Mas também precisamos de olhar para o momento de forma de jogadores, olhar para valências que sejam importantes num Mundial complexo como este.

Há coisas importantes que vão acontecer nas próximas semanas.

Agora tivemos um período muito importante para a preparação, ver como utilizar as condições, como vamos tentar gerir o Mundial. O estágio de março faz parte dessa preparação e fico muito satisfeito que possamos jogar lá.

Já a questão dos jogadores é mais um aspeto para o dia 16 ou 17 de maio, quando a lista for anunciada.

O grupo de Portugal é o quê? É perigoso? É fácil?

É um grupo que tem a melhor equipa do Pote 2, a Colômbia. É uma equipa que já ganhou um jogo amigável com a Espanha. É uma seleção da CONMEBOL que ganhou à Campeã Europeia. Uma equipa com jogadores que, individualmente, estão num momento muito, muito bom.

Podemos falar do Luis Diaz, do Bayern de Munique, ou de um jogador que conhecemos bem na Liga portuguesa, o Luis Suárez. E de uma mentalidade de jogadores que conheço bem, já que já trabalhei com jogadores colombianos. São competitivos e os Mundiais são especiais para eles.

Recordo-me da Colômbia no Mundial 94, a expetativa criada em redor da equipa do Pacho Maturana e a geração que eles tinham…  Acho que mantêm esse aspeto competitivo nos torneios importantes.

Teremos também uma equipa que vai chegar dos play-offs, o que é sempre difícil, por causa do aspeto emocional - jogar com equipas para quem já é uma vitória chegar ao Mundial. Ou seja, precisamos de igualar o nível emocional.

E o Uzbequistão é uma equipa orientada pelo Fabio Cannavaro, que tem a experiência de ganhar o Mundial. É uma equipa que consegue ser muito competitiva no seu contexto e ninguém conhece o nível real que eles podem vir a atingir no Mundial.

Serão três jogos muito diferentes para nós e temos de conseguir estar ao melhor nível para enfrentar o Mundial.

Roberto, estamos a terminar aqui no seu gabinete. Quando está aqui, sente-se o espanhol mais português de sempre?

(risos…) Eu sinto o carinho do povo português na rua e adoro isso. É uma paixão. Para mim é um orgulho ser o Selecionador de Portugal e agora temos um desafio fantástico. Espero que depois do Mundial seja o espanhol favorito do povo português. Isso seria um bom sinal.