Depois de revelar alguns segredos do balneário da Seleção Nacional, Roberto Martínez leva-nos «para o treino». Ou melhor, guia-nos até ao principal campo de treinos da Cidade do Futebol.
É aqui que Portugal vai começar a preparar o próximo Campeonato do Mundo, um torneio para o qual parte com aspirações, sonhos e estrelas, incluindo, ainda, Cristiano Ronaldo como cabeça de cartaz.
Uma nota: esta entrevista foi feita antes do capitão da Seleção Nacional se lesionar, ao serviço do Al Nassr. Seja como for, Roberto Martínez espera ter Ronaldo na equipa e explica porquê.
A conversa tinha de passar por aí: afinal, Portugal é ou não é melhor com Cristiano Ronaldo? A resposta está mesmo aí em baixo.
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Estamos no campo de treinos da Seleção, é aqui que vai começar toda a preparação antes de ir para o Mundial… Qual é o jogador mais difícil que tem quando está aqui a trabalhar?
(antes da resposta, um sorriso largo…) Eu digo sempre que os jogadores saem no dia do jogo. Depois há pessoas; pessoas que jogam futebol e que têm bons e maus momentos.
Ao nível do clube é diferente. Ao nível do clube, as emoções, o não entrar no onze inicial, pode levar a ter uma atitude diferente no dia a seguir.
Na seleção não é assim. A seleção tem um ambiente de muito respeito. Os jogadores querem jogar, mas não é uma equipa difícil. O que é difícil é poder proteger o jogador, para que consiga ser ele mesmo e mostrar toda a sua qualidade.
Acho que a dificuldade a um nível de seleção é criar o ambiente onde o jogador consiga desfrutar de jogar futebol, porque a pressão é mais forte do que aquilo que tem no clube.
Mas aqui o ambiente é são e as condições na cidade de futebol são fantásticas.
E quando tem de dizer ao Ronaldo que ele não vai jogar de início?
Com naturalidade (risos). O Cristiano… Todas as pessoas têm uma opinião e falam, mas o Cristiano é um profissional e um jogador do qual posso falar de acordo com o meu tempo como selecionador.
É um jogador que marcou - em campo - 25 golos em 30 jogos. No dia a dia é um jogador que quer ganhar, que tem uns níveis de performance incríveis. É um exemplo para os jogadores novos, porque é um jogador que ganhou tudo e ainda tem uma fome incrível. Para nós é um exemplo.
Há momentos bons, há momentos maus, acontece com todos. Mas sempre com respeito e muito, muito profissionalismo.
Neste momento da sua carreira, será que ele próprio já interiorizou que já não é aquele Ronaldo que era há quatro, oito ou dez anos, que é uma pessoa diferente, um jogador diferente? Sente que ele cresceu nesse nível de autoavaliação?
Todos nós aprendemos com a nossa experiência. Não é o mesmo jogar na seleção com 20 jogos ou com 200 jogos. Mas espero que o Cristiano não perca a competitividade, o desejo de ser o melhor, o desejo de ganhar sempre em tudo aquilo que faz. Porque é isso que o diferencia.
Mas o importante é o que nós temos no balneário. Um balneário com muito respeito, mas com muita competitividade. Isso é que é importante.
A experiência do Cristiano é essencial. Quando falamos de jogadores na seleção, temos o aspeto da qualidade, o talento - porque o jogador consegue chegar à Seleção. Depois há a experiência. O Cristiano pode fazer o sexto Mundial. Estamos a falar de um jogador que pode ajudar muito os jogadores com a sua experiência.
Finalmente, há o aspeto da atitude. Isso é evolutivo, é sempre novo; todos os dias são momentos para avaliar a atitude. E é nisso que o nosso capitão, com a sua atitude, tem sido até agora exemplar.
Ainda sobre o Cristiano: chega a ser aborrecido que metade das perguntas que lhe fazem sejam sobre ele?
Não, isso faz parte. Eu acho que o Cristiano é conversa de elevador! No elevador há duas conversas: o tempo e o Cristiano. Mas isso faz parte. É giro, é giro... E eu percebo muito bem o motivo.
O que é importante é que quando chegamos aqui, ao campo, o Cristiano tem um compromisso total e ajuda muito o grupo de jogadores e a Seleção em geral.
É isso que é importante. A conversa… estamos a falar do melhor jogador de sempre, da história. Não há outro jogador que tenha 21 épocas na Seleção. Então, faz parte.
Já percebemos que, para si, Portugal é mais forte com o Ronaldo. O que é que sente quando ouve dizer, tantas vezes, que Portugal seria melhor sem ele?
Isso faz parte… Eu adoro a paixão à volta da Seleção. Paixão é opinião, é algo subjetivo.
O Cristiano tem uma exigência diária, como todos os jogadores...
Insisto: 25 golos em 30 jogos. Está aqui porque está a fazer um trabalho muito bom agora, não é pelo que fez no passado.
As opiniões fazem parte, mas é importante que eu possa ter a informação certa para tomar decisões que ajudem a equipa a ter o melhor nível, a maior competitividade para enfrentar os adversários.
E perde a paciência por ter de explicar sempre que é melhor jogar com Cristiano?
Não, não, porque todos temos as nossas opiniões e elas devem ser respeitadas.
O que é importante é ganhar jogos. E esta seleção está a ganhar. Temos o maior número de golos, o maior número de pontos por jogo de sempre. Então, a equipa está a jogar bem. Fala-se muito de poder ser favorita para o Mundial. Ora isso é um elogio a tudo aquilo que estamos a fazer. A opinião subjetiva é respeitável, mas o que é importante é o que está a acontecer.
Esta equipa joga bem, ganha, ganhou a Liga das Nações, o que importa é continuar com muita responsabilidade para tomar as decisões certas, com a informação que precisamos de ter.
Portanto, o Cristiano vai continuar a ser o jogador no ataque, para marcar os golos, é isso? Ou está a pensar em outra coisa?
Na seleção é importante ter disciplina nas nossas posições.
Estamos a falar de uma equipa que está a conseguir entre 60 e 65, quase 70% da posse de bola. A disciplina de todas as peças é essencial. O Cristiano agora é um jogador de área, o seu último movimento é importante, a sua capacidade de marcar golos é importante, condicionar a linha defensiva é importante. Mas não só, a disciplina dos alas é importante, o nosso jogo precisa de largura. Não é só o Cristiano, todas as peças devem ter uma disciplina para o nosso jogo posicional.
Há outro jogador de que o Roberto Martínez gosta muito, o Nuno Mendes, que também está numa forma fantástica...
Pois, eu disse que o Nuno Mendes, neste momento, é o melhor jogador do mundo. Isso porque não há outro jogador que consiga defender na posição de lateral esquerdo e ainda fazer tudo o que ele faz. Tem a capacidade física, mas não só. Quando chega a posições de ataque, consegue jogar entre linhas, pode jogar por dentro, pode jogar por fora, pode chegar ao último terço, tem capacidade de finalização, mas logo depois pode defender como lateral esquerdo.
Lembro-me muito das críticas quando o Nuno Mendes jogou como terceiro central. E ele é um jogador que também consegue jogar como central, porque é muito bom no jogo aéreo.
Não há um jogador que tenha este nível de capacidade no seu jogo ofensivo e defensivo, como o Nuno já mostrou na final na Liga das Nações.