A Associação Desportiva de Fafe é a grande sensação da Taça de Portugal em 2025/26. É o único clube da Liga 3 nos quartos de final da prova rainha (fase na qual está pela quinta vez) e, em quarta-feira de clássico no Dragão, recebe o Sp. Braga (18h45) num duelo minhoto que terá casa cheia no Municipal de Fafe, na tentativa de chegar pela terceira vez às meias-finais.

Mário Ferreira, que completa 31 anos esta terça-feira, é um dos mais jovens treinadores dos campeonatos nacionais e comanda uma equipa que tem um janeiro decisivo para o grande objetivo da época: ir à fase de subida da Liga 3. Porém, há também ambição de continuar a fazer história na Taça. Foi precisamente na estreia de Mário Ferreira que a equipa somou a primeira vitória da época e começou a caminhada de êxitos na prova: 1-0 na visita ao Oriental, o mesmo resultado conseguido em Évora ante o Lusitano, já depois de fazer tombar Moreirense (1-0) e Arouca (2-1) em Fafe.

Entrevista Maisfutebol a Mário Ferreira, que nesta Parte I fala da caminhada na Taça e dos objetivos do Fafe nesta época, bem como do seu regresso a um clube em que já tinha sido preparador físico em 2017 e 2018.

LEIA TAMBÉM:
PARTE II - «Estávamos no 10.º ano e o foco do Bruno Fernandes era o futebol. Estava certo...»
PARTE III - «Mourinho abriu portas a muitos treinadores como eu e sonho ouvir o hino da Champions»

_

Maisfutebol – Faz a estreia como treinador do Fafe na Taça, com a vitória ante o Oriental na segunda eliminatória (0-1). Alguma vez lhe passou pela cabeça que fariam este percurso, mais ainda eliminando duas equipas da Liga?

Mário Ferreira (MF) – Eu sabia que este plantel tem jogadores que já estiveram em ligas profissionais, sabem perfeitamente como se trabalha, a realidade dos clubes profissionais dia após dia, por isso sabem que a diferença entre esta divisão e as divisões profissionais não é assim tão grande. Trabalha-se muito bem, cada vez melhor, a Liga 3 está a ficar cada vez mais competitiva, com jogadores de sucesso, treinadores que passam por aqui, são campeões e vão para outros patamares, como o Vasco [Botelho da Costa] que está no Moreirense, o treinador do Estrela [João Nuno] que estava no Belenenses… ou seja, é sinónimo de que se trabalha bem aqui. Acho que o nosso trabalho na Taça tem sido positivo. Se eu imaginava passar duas equipas da Liga… obviamente sonhava e sonhar é permitido, mas acreditava que tínhamos uma probabilidade. Agarrámo-nos a ela e conseguimos.

Como rotula este percurso do Fafe na Taça? Sentem que já estão na história do clube?

MF – Sim, 25 anos sem conseguir estar nos quartos de final… um quarto de século é muito tempo, por isso acho que obviamente estamos na história e acredito ainda que vamos fazer mais história.

Chegou com o Fafe no último lugar da Liga 3, com dois pontos em quatro jogos. Como encontrou a equipa e que evolução destaca desde então?

MF – Acima de tudo, uma das coisas a que nos propusemos foi a parte da organização defensiva, porque sentimos a equipa um pouco desequilibrada. Obviamente também – e é público – dei o mérito ao trabalho feito pela equipa técnica anterior, porque os métodos ofensivos que a equipa foi criando são de realçar. Às vezes o futebol não nos traz felicidade no momento da concretização e acredito que foi um bocadinho isso que se passou. E a equipa, nos primeiros quatro jogos, do que fomos vendo depois de já estarmos aqui, foi sofrendo um ou outro golo que não permitiu pontuar o que seria expectável e sentimos a equipa, na parte defensiva, um bocadinho mais em baixo. Tentámos trabalhar isso, consolidar primeiro os processos defensivos e a partir daí crescermos com a confiança e passarmos para a parte ofensiva, para darmos aí uma ou outra dinâmica e fazer o bom trabalho que estamos a fazer.

Como é que o balneário tem gerido o aspeto mental deste feito na Taça? Até porque o Fafe está num mês decisivo para ir à fase de subida da Liga 3, objetivo declarado…

MF – O balneário tem vivido de uma forma equilibrada, são homens maduros, a maior parte deles com experiência no futebol, sabem a responsabilidade, é nossa e de mais ninguém, temos de assumi-la, mas de forma segura, equilibrada, consistente, com compromisso semanal, que é o que nos pode dar sustento no jogo. Está a encarar de forma profissional.

É a quinta presença do clube nos quartos de final, a primeira desde 2000 e por duas vezes foi às meias-finais, já há quase 50 anos. É um objetivo lá voltar e acha possível, mesmo sendo contra o Sp. Braga?

MF – Sim, acho que temos alguma probabilidade de passar. Mas obviamente que o favoritismo está do lado do Sp. Braga, é uma equipa da Liga, tem um orçamento muito superior ao do Fafe, mais condições, mais tudo, por isso o favoritismo está do lado deles, mas nós temos alguma probabilidade e temos de agarrar-nos a ela.

O facto de o jogo ser em Fafe pode aumentar essa possibilidade? Até tendo em conta que o jogo poderia eventualmente ser em campo neutro, como aconteceu com outras equipas de escalão inferior noutras eliminatórias…

MF – O que nós acreditamos é que, se conseguimos, em casa, eliminar o Arouca e o Moreirense, também podemos eliminar o Braga. A diferença entre Moreirense, Arouca e Braga existe, é real, mas não é uma diferença muito grande, isso é notório nos jogos que eles realizam na Liga. Portanto, acreditamos que, se conseguimos eliminar esses, porque não eliminar o Braga?

O último jogo deste percurso na Taça foi a vitória em Évora. E cerca de 300 adeptos fizeram quase 900 quilómetros para ver o jogo, a maioria no próprio dia, com cerca de 20 horas entre partida e chegada… Como viveram esse dia e as emoções todas?

MF – Para nós foi um sentimento de missão cumprida, porque nós queríamos muito dar-lhes a vitória. Obviamente que para nós é positivo, mas sendo o nosso foco o campeonato, esse jogo serviu também como um espírito de missão para darmos a vitória aos nossos adeptos. Tivemos lá cerca de 300 adeptos, fizeram quase mil quilómetros de viagem, são adeptos que vivem isto e que merecem estes momentos. Se merecem, tínhamos de representar bem o Fafe.

É a semana mais importante da época, tendo em conta o jogo com o Sp. Braga e também de seguida o Vitória B na Liga 3?

MF – Para quem anda no futebol, as semanas mais importantes são todas. Não podemos perder minutos e dias a pensar no que se passou ou no futuro. Temos de pensar muito no presente. Não adianta dar esse grau de importância porque o que passo aos jogadores é que não há jogos de vida ou de morte, há jogos importantes.

Vai haver algum tipo de gestão da equipa a pensar no campeonato?

MF – Vai depender do que eles me derem no jogo e no treino, a nossa equipa é sempre montada dessa forma: no que eles fizerem dentro do jogo e no treino.

Que maiores qualidades e desafios apresenta o Sp. Braga e se há jogadores que destaque? E por onde é que o Fafe poderá aproveitar?

MF – Vi alguns jogos do Sp. Braga já este ano, acredito que tem uma identidade muito própria, iremos trabalhar sobre o adversário. E há sempre um ou outro jogador, o Ricardo Horta é um internacional e tem qualidade, mas todos são jogadores com grau de qualidade elevado.

Botelho da Costa (Moreirense) destacou o “banho de humildade” levado de Fafe e Vasco Seabra (Arouca) a “atitude competitiva” da sua equipa, depois de serem «tomba-gigantes». É também a prova de que há valor na Liga 3 para chegar mais longe?

MF – Sim, acho que quando olhamos para treinadores como esses dois, outros tantos que sabem perfeitamente o que é andar em divisões se calhar até mais abaixo de Liga 3, o quanto custou chegar lá acima e o sacrifício que tiveram de passar para chegar, é sinal de que nestas divisões, não só na Liga 3, até mesmo mais abaixo, trabalha-se bem. Acho que é um trajeto natural das coisas. Normalmente quem se prepara melhor, quem trabalha bem, quem tem mais compromisso com o trabalho acaba por ter sucesso, mais tarde ou mais cedo.

Já tinha estado no Fafe em 2017/18 na equipa técnica. Que diferenças encontra daí para cá e como se deu este regresso?

MF – Eu noto muitas diferenças nas condições apresentadas. Os camarotes, por exemplo, um sintético novo que é positivo para a formação, para o clube e para os seniores… Nas infraestruturas há uma melhoria notória e depois temos aqui pessoas extraordinárias, que já estavam cá quando eu tinha passado pela primeira vez, pessoas que sentem muito isto, que vivem o dia a dia do Fafe de forma intensa.

O dia do Fafe-Braga tem um FC Porto-Benfica duas horas depois. O que diria, às pessoas de Fafe, aos adeptos do futebol e a quem vir no estádio ou na televisão do que pode ser esta espécie de aperitivo para o clássico?

MF – O que eu acho que podem esperar é que, quando chegar às 23 horas, vão olhar para trás e o jogo do Fafe-Braga vai ser melhor do que o FC Porto-Benfica. É isso que eu acho que vai acontecer.

Com uma vitória do Fafe?

MF – Com uma vitória do Fafe…