conquistar o título pela primeira vez

Longe de ser uma desconhecida (caminha a passos largos para as 100 internacionalizações), Ana Borges admite, contudo, que 2015 está a ser um ano à margem de todos os outros. Para melhor.

«Nunca tinha ganho nenhum título e este ano consegui a Taça de Inglaterra e agora o campeonato. É muito bom. Posso dizer que esta é a melhor fase da minha carreira, foi um ano de sonho», assume.

Em conversa com o Maisfutebol a partir de Londres, Ana Borges admite o «sabor bastante agradável» da conquista. Para quem nunca tinha ganha um título, a sensação de vencer dois quase de seguida «é algo a que é fácil habituar-se». Ainda por cima depois de uma primeira época traumática.

«No ano passado perdemos o título na diferença de golos. Foi frustrante. Tínhamos os mesmos pontos e um golo fez a diferença. Mas também por causa disso este título agora sabe ainda melhor», conta.

No jogo do título, este domingo, o Chelsea goleou o Sunderland por 4-0. Ana Borges não saiu do banco, mas ficou na história: «Nunca uma outra portuguesa tinha sido campeã aqui. Ficarei com o nome da história do futebol feminino em Portugal o que, sendo por algo conseguido fora do país, é ainda mais agradável. Mais do que conquistar algo no estrangeiro, só conseguir levar a seleção a uma fase final.»

Outra conversa, claro. Antes, Londres. A terceira experiência no estrangeiro, depois dos Estados Unidos e de Espanha. Estava no Atlético Madrid quando rumou aos «Blues». Mesmo que o primeiro telefonema tenha vindo de outras paragens.

«A primeira equipa que me ligou até foi o Liverpool, mas não tenho dúvidas que o Chelsea foi a melhor escolha. Sabia que o Liverpool tinha sido campeão, era uma equipa grande pensei se não poderia estar a dar um passo maior que a perna. Preferi o Chelsea porque era uma equipa em crescimento», explica.

Depois da frustração no primeiro ano, a festa no segundo. «Fiz a escolha certa», resume a extremo.

As mensagens de Terry e…José Mourinho

Nas bancadas, para o jogo do título, esteve John Terry. O capitão da equipa masculina do Chelsea fez, de resto, mais do que isso, conta Ana Borges: «Mandou-nos uma mensagem, antes do jogo, a desejar boa sorte.»

«No final foi impossível falar com ele, foi-se logo embora. O contacto que temos com a equipa masculina é essencialmente através dele, porque é o capitão e o porta-voz», explica.

A nível pessoal, contudo, a portuguesa assume apoio…com o mesmo sotaque. «O Paulo Ferreira também desejou boa sorte. É uma pessoa que foi muito importante na minha adaptação cá», assume.

Com José Mourinho o contacto é menor, embora o técnico português a conheça bem. «Estive com ele na Gala do clube, em junho», revela. Uma conversa rápida, mas curiosa. «Ele esteve a falar com a minha treinadora que lhe disse que tinha uma portuguesa na equipa. Disse-lhe que eu era muito boa mas não gostava de ginásio. Ele veio ter comigo, contou-me isso e disse-me para lhe dizer que eu não precisava de ginásio. Precisava era de bola no pé», conta.

Por ser portuguesa, Ana Borges admite: «Associam-me logo a Mourinho, Cristiano [Ronaldo]...».

Ainda que, atualmente, ser ligado a Mourinho não é exatamente o mesmo por aqueles lados do que em maio, por exemplo, quando o Chelsea se sagrou campeão. «Na altura em que cheguei, o Mourinho era praticamente o rei daqui. Agora está um bocado diferente, não está a correr tão bem, mas acredito que vai dar a volta», projeta.

«Sair de Portugal é obrigatório para evoluir»

Ana Borges vê com bons olhos o panorama em Portugal para o futebol feminino. Não que seja perfeito ou perto disso, mas, essencialmente, porque vê ventos de mudança. Para melhor.

«Em Portugal falta mais apoio às equipas. Mas, ainda assim, acredito que está a evoluir. Só que é um processo longo. Leva o seu tempo, aos poucos vai ficando mais competitivo. Atualmente já é muito melhor do que há uns anos. Se conseguir mais apoios poderá crescer ainda mais», considera.

Num reflexo da sociedade atual e apesar da evidente diferença para outros casos, não deixa de ser importante notar que Ana é mais uma portuguesa que se viu forçada a deixar o país para poder chegar mais longe e ter melhores condições na área que ama.

«Sair de Portugal é obrigatório para nós que queremos evoluir ainda mais», considera. Pelo menos em 2015. Talvez na próxima década ou perto disso seja diferente, confia.

«Nesta altura, em Portugal, ainda não há condições suficientes para alcançar o nível que algumas jogadoras portuguesas pretendem e podem conseguir. Mas, pelo caminho que o futebol feminino português está a tomar, acredito que, a médio prazo, algumas de nós possam regressar a casa», encerra.

«Falta, agora, chegar ao Europeu com a seleção»

Olhando para o futuro, Ana Borges só se consegue ver vestida de azul. Renovou recentemente pelo Chelsea por mais dois anos, com outro de opção. E é ao clube que dá prioridade. «Depois destes dois ou três anos não sei o que vai acontecer. Até lá não penso em mais nada que não seja o Chelsea», garante.

Mas depois corrige. Há espaço para Portugal. «Depois destes títulos creio que o que me falta é alcançar a fase final do Europeu com a seleção», assume. «Vamos ter também a Champions pelo Chelsea, mas é uma competição nova e parece-me arriscado falar em ganhar. Aí o objetivo tem de ser ir o mais longe possível», acrescenta.

«Qualquer jogadora quer sempre mais e mais. Nunca estamos 100 por cento realizados, queremos sempre mais títulos, mas esta é uma fase muito boa. Falta, então, conseguir sucesso com a seleção. Temos algumas hipóteses mas não será fácil chegar ao Europeu. Das cinco equipas do nosso grupo de apuramento, três, Espanha, Finlândia e Irlanda, estão à nossa frente no ranking. Mas temos de ter ambição e no final fazemos as contas», conclui.