Quando chegou ao Sporting, no início de 2001, foi a contratação mais cara de sempre do clube. Custou 7,5 milhões de euros e a marca vigorou por vários anos, até ser batida quando se fechou a aquisição do brasileiro Elias (8,8 milhões). Falamos de Rodrigo Tello, chileno que esteve seis temporadas e meia em Alvalade e quando saiu rumou ao Besiktas.

Ora, atendendo ao encontro entre as duas equipas, agendado para esta quinta-feira na Liga Europa, a ocasião era perfeita para recordar o esquerdino, agora com 35 anos, mas ainda a jogar, no Audax Italiano, do seu país.

Apesar de ter jogado o triplo dos anos de leão ao peito, admite que terá o coração dividido para o duelo europeu. Esteve menos tempo no Besiktas, mas foi, garante, um período igualmente marcante.

«São duas equipas muito importante na minha vida. Duas etapas diferentes. O Sporting foi a equipa que me recebeu na Europa, foi a minha casa por seis anos. Fui lá campeão, tenho lá muitos amigos. Não esqueço os adeptos, o carinho. Depois o Besiktas foi outra etapa muito boa. Estão as duas no meu coração e é muito difícil escolher», assume, em conversa com o Maisfutebol, a partir do Chile.

Numa análise mais fria ao jogo em si, deixando de lado o natural sentimentalismo, acredita que há um ligeiro favoritismo para a equipa da casa. Fatores emocionais, mas também o badalado inferno turco.

«O Besiktas vem de ganhar o dérbi com o Fenerbahce e está com muita confiança. Está na frente da Liga, começou a época muito bem este ano e isso pode ajudar a fazer a diferença nestes jogos da Europa. Espero que assim continue… (pausa) no campeonato», sublinha. A referência final é fácil de explicar: «Não digo na Europa porque é contra o Sporting e isso provoca sentimentos mistos.»

Já em relação ao ambiente, Tello lembra que poderia ser pior para o Sporting. «O jogo é no Olímpico, não é? Pois. Não é a mesma coisa», comenta.

E explica porquê: «No estádio antigo as bancadas ficam muito perto do relvado, os adeptos ficam muito em cima e colocam uma pressão muito forte. No Olímpico a pressão é menor, tem a pista que afasta os jogadores dos adeptos. Não se sente tanto, mas o ambiente é sempre forte nos jogos do Besiktas.»


Para Rodrigo Tello, o ambiente nos jogos turcos só encontra paralelo ao que conhece das ‘hinchadas’ da América do Sul. Recorda «algumas claques da Argentina» e a da «Universidade do Chile», o clube que o catapultou para a Europa.

«Na Turquia é igual. Muito coração. Cantam os 90 minutos. Se há estádios onde os adeptos são um jogador a mais, o do Besiktas é o melhor exemplo», remata.



«Nada fazia prever que aquele seria o último título»

Tello fez poucos jogos na primeira época em Portugal. Chegou em janeiro, vinha campeão do Chile, mas o Sporting, também campeão em título, acabou ultrapassado pelo Boavista. O ano seguinte foi diferente. Não se pode dizer que tenha explodido, mas a festa final em tons de verde e branco tornou a época memorável.

«O primeiro ano com Boloni foi fantástico. Fomos campeões com toda a justiça. Tenho muito boas lembranças do Sporting», garante.

Ainda assim, nunca mais se sagrou campeão. Mais do que isso, nunca mais o Sporting foi campeão.

«Nada fazia prever que aquele seria o último título. Não sei o que aconteceu ao Sporting. É uma equipa que continua a lançar muitos jogadores e já naquela altura era assim. Tem feito boas equipas, mas o FC Porto e Benfica conseguiram sempre fazer melhor. Aquela foi uma época extraordinária. Dizem que foi a época do Jardel, não é? A nossa equipa tinha uma supremacia muito grande. Espero que o Sporting consiga o mesmo este ano», deseja.

Mesmo sublinhando as «boas lembranças» de Alvalade, Tello recorda também a página mais negra: «Aquela final da Taça UEFA. Foi uma pena. Pior momento no Sporting? Foi dos piores da minha carreira toda! Não podíamos ter perdido. Em casa, com os nossos adeptos. Enfim.»

«Ronaldo superou Quaresma porque trabalhou mais»

Ainda no capítulo das recordações do seu Sporting, Tello lembra os vários jogadores que iam saindo da Academia. Foi assim com Hugo Viana, Quaresma e, claro está, Cristiano Ronaldo.

«Perguntam-me sempre pelo Ronaldo»
, conta, entre risos, o chileno. «Eu digo sempre o mesmo. Quando estava no início, quando apareceu, via-se que era um jogador com muito talento, que podia chegar longe, mas se não fosse o trabalho, a ambição, a vontade de fazer sempre mais e melhor, não chegava de certeza onde chegou hoje. Talento muitos têm, depois é preciso saber o que fazer com ele», sublinha.

E dá o exemplo de Ricardo Quaresma, que, acredita, poderia ter conseguido uma carreira (ainda) mais recheada. Quaresma que, recorde-se, será um dos rivais do Sporting em campo, pois está no Besiktas.

«O Ronaldo tentava sempre melhorar dia a dia e isso fez a diferença. Naquela altura fazia-se muito a comparação entre ele e o Quaresma. Uns gostavam mais do Ronaldo, outros do Quaresma. Não sei quem tinha mais qualidade, mas o Ronaldo superou enormemente o Quaresma porque trabalhou mais», defende.



«Jogador preferido? Gostava muito do Carrillo»

Voltando ao jogo e aos tempos que correm, Tello revela que vai tentar ver a partida. Sem preferências. «Vou torcer por um empate», diz entre risos.

«O Sporting com Jorge Jesus tem vindo a mostrar outra mentalidade, outro futebol. Apesar que vem de um empate, não é? Vai ser difícil claro. Acho que o Sporting tem de ter a bola mais tempo, penso que seja a solução sobretudo para travar o início do Besiktas, que normalmente é forte. Não deixar jogar»
, explica.

Tello mostra-se ainda conhecedor da realidade leonina até porque, garante, não vê apenas os jogos: «Leio os jornais e ainda mantenho contacto com algumas pessoas no Sporting. Foram seis anos. É muito tempo…»

«Jesus conhece muito bem o campeonato português. Tem um prestígio muito grande porque ganhou vários títulos com o Benfica. Espero que este ano consigam ser campeões», remata.

Para fim de conversa, questionamos Tello sobre os jogadores preferidos no atual Sporting. Respondeu com sorrisos, pois sabia que estava a dar uma resposta que não é pacífica nos tempos que correm.

«Eu gostava muito do Carrillo. Sei que está a ter alguns problemas agora, lamentavelmente. Mas era um jogador que me encantava», assume.

Aproveitando a deixa, quisemos saber a opinião sobre o imbróglio. «Difícil, difícil», desabafa.

«O jogador fica sempre dividido. Tive um ou outro caso parecido na minha carreira, mas menos grave. Por um lado há o contrato, por outro quer jogar. É uma decisão que não envolve só o jogador. Tem de pensar na família, tem de pensar no futuro. Não é fácil», conclui.