Matheus Reis diz que ainda hoje não consegue perceber porque João Pereira não funcionou no Sporting, mas lembra que ele encontrou uma equipa de luto pela saída de Ruben Amorim.

Já sobre Rui Borges, o brasileiro garante que conseguiu devolver a paz ao balneário, e que a forma como o fez foi incrível, elogiando também a abertura que sempre teve para mudar e deixar os jogadores confortáveis.

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A esta distância já consegue perceber porque é que o João Pereira não funcionou?

Não entendi e não consigo entender. Quando cheguei ao Sporting, eu vim com ele, ainda enquanto jogador. Sempre nos demos muito bem, é uma pessoa espetacular, muito trabalhadora, muito dedicada e eu não consigo entender porque não funcionou. Foi um período difícil. Houve a quebra de ciclo com a saída do Amorim e ele entra logo naquele momento.

Ele apanha uma equipa de luto, pela partida de Amorim?

Sinceramente, acho que sim. O Amorim não tinha uma relação connosco de apenas treinador-jogador. Comigo, e com outros atletas, tinha uma ligação muito grande, de estar sempre a mandar mensagens por WhatsApp e tudo mais. Na despedida dele muitos jogadores choraram. Choraram muito. Foi muito difícil. Para virar a chave e fechar a porta, de que tudo aquilo acabou, foi complicado. Ele ajudou muita gente, muita gente mesmo, muitos jogadores que não tinham o brilho que têm hoje. O Amorim foi e acreditou e colocou a jogar e buscou o sucesso. Às vezes os jogadores não tinham um desempenho tão bom e ele mantinha a confiança, metia-os outra vez a jogar e tudo mais. Dava muitos conselhos. Por isso, acho que sim. Posso dizer que, de facto, sentimos muito a perda. E depois entrámos numa fase complicada. Vínhamos numa sequência espetacular, depois aparece a primeira derrota e logo aí surgem as dúvidas. Aquilo entrou numa bola de neve.

O João Pereira que conheceu como jogador foi a mesma que encontrou enquanto treinador?

Sim, sim. Aliás, enquanto treinador foi até melhor, porque eu vi o outro lado dele, de querer cuidar de nós. Lembro-me de uma conversa que tive com ele depois da derrota com o Brugges. Eu estava desolado e disse-lhe: ‘Caramba, mister, estamos a fazer tudo bem, a treinar bem, a analisar os vídeos todos, os pormenores todos e as coisas não saem porquê? Parece que há sempre alguma coisa contra nós, não me lembro de ter vivido uma coisa assim’. E ele disse-me: ‘Calma, Matheus. Calma. Eu sei que vocês estão tristes, estamos todos tristes, mas estamos a fazer tudo bem e isto vai mudar’. Vi muito no João esse lado de ser humano, de querer ajudar toda a gente.

Mas para quem está de fora é complicado perceber como é que uma equipa que tem onze vitórias e que se sente imbatível, de repente tem seis jogos sem ganhar. Parece que perderam a confiança toda de um momento para o outro...

Sim, mas nos três títulos que conquistei no Sporting, a equipa passou sempre por momentos assim. Momentos de dúvida, de tensão, de será que vai dar para nós? Será que somos capazes? É normal, não vivemos só de alegrias. Mas acho que é quando ultrapassámos estes momentos que podemos conquistar títulos. Vínhamos de onze vitórias, de ganhar ao City, da reviravolta em Braga e, de repente, o João entra e logo a seguir chega a derrota. Ficamos assustados. Depois vem mais uma... O João Pereira fez tudo para ultrapassar aquele momento e para a equipa ter sucesso. Mas há coisas que não se conseguem explicar.

O que é que mudou com o Rui Borges?

Foi impressionante a forma como ele acalmou as coisas, entende? Ele chegou na semana do um dérbi, a equipa vinha de resultados maus e o que me deixou mesmo espantado foi a paz, a tranquilidade e a confiança que ele trouxe ao balneário. Ele trouxe um olhar de fora, que nós não tínhamos. Então ele veio com um discurso de ‘vocês são incríveis’, ‘vocês são uma equipa top’, ‘vocês são os campeões’. Esse discurso de dar tranquilidade foi fundamental para nós.

Muitos colegas seus falaram também de uma conversa sobre recuar e voltar a um esquema de três centrais. Esse foi o momento-chave da época?

Sim, sim, sem dúvida. Estávamos habituados a essa forma de jogar já há muito tempo, desde a chegada do Amorim, ele chegou com outra forma de jogar e estava a ser difícil a adaptação. Mas desde que ele chegou, teve sempre essa abertura. Tanto ele, como a equipa técnica dele. ‘Ouçam bem, se quiserem colocar alguma dúvida, se tiverem alguma ideia, falem, falem sempre, sintam-se totalmente à vontade. Nunca impôs uma coisa, sempre quis um consenso. Pelo contrário. ‘Digam como se sentem mais confortáveis para pressionar, como gostam de defender, como se sentem melhor a fazer isto ou a fazer aquilo’. Teve essa abertura sempre e foi nesse momento que aproveitámos para falar. Ele fez tudo para que deixar a equipa da forma mais confortável possível em campo.