Tostão foi um dos melhores jogadores brasileiros de todos os tempos.

Para muitos, a seguir a Pelé, rei incontestável, o eterno ídolo do Cruzeiro no final dos anos 60 e inícios de 70 estará na linha imediatamente a seguir, a par de nomes como Garrincha, Rivelino, Jairzinho, Zico ou, mais recentemente, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho.

Nome de topo do escrete de 1970, equipa levou o Brasil ao «tri» no Mundial do México, Tostão ainda participara, com apenas 19 anos, no Inglaterra-66, mundial de má memória para o Brasil, tendo até marcado um golo à Hungria, na derrota em Liverpool, por 1-3.

Mas foi o México-1970 o seu grande momento em mundiais, sem dúvida. Com uma seleção de luxo, onde brilhavam nomes como Pelé, Jairzinho, Gerson ou Rivelino, Tostão era o «camisa 9», um dos imprescindíveis.

 
Foi, aliás, o primeiro camisa 9 a marcar em Mundiais que o Brasil viria a vencer: fez dois golos no triunfo por 4-2 ao Perú.
 
UM DOS GOLOS QUE MARCOU AO PERÚ AINDA HOJE É RECORDADO:
 

Talentoso e elegante, dele escreveu o escritor e jornalista brasileiro Armando Nogueira: «Quem viu Tostão jogar pode considerar-se uma pessoa feliz. Ele contemplou-nos com as melhores lições de bom gosto que o futebol é capaz de dar ao desporto. Era um artista de rara lucidez. As tabelas de Pelé de Tostão confirmam a existência de Deus».

Em entrevista exclusiva ao Maisfutebol e à Maisfutebol Total, Tostão antecipou o Mundial-2014, que começa na próxima quinta, em São Paulo, com o Brasil-Croácia.

Colunista do «Folha de São Paulo», analista e comentador em diversos órgãos de comunicação social no Brasil, Tostão passou de craque de topo a nível mundial, nos relvados, para especialista na análise das novas tendências do futebol.

Tostão aposta no Brasil como favorito ao «hexa», mas coloca Espanha, Alemanha e Argentina com iguais condições de poder chegar ao título. A final mais provável? «Brasil-Argentina!», atira a velha glória do escrete.

Neymar é, obviamente, o brasileiro em quem Tostão mais confia para levar o escrete ao hexa. Mas o antigo ídolo do Cruzeiro nem hesita em sentenciar: «O Brasil de 70 tinha três ou quatro Neymares!». E desenvolve:  «Falamos muito do Neymar, mas o Brasil de 70 tinha três ou quatro «Neymares»: Pelé, Rivelino, Jairzinho, Gerson, Carlos Alberto... Era uma equipa extraordinária».  

Vale a pena ler a longa conversa que Tostão teve com o Maisfutebo l e a Maisfutebol Total, sobre a Copa, claro, mas também sobre antigas seleções brasileiras, grandes nomes e grandes momentos de um desporto que o «camisa 9» do Brasil-70

 

O Brasil é o maior favorito ao título?

É um dos quatro principais, sim. Mas ponho o escrete a par de outras três grandes seleções: Espanha, Alemanha e Argentina.

Mas por jogar em casa e ser o único penta, o Brasil tem um estatuto especial em relação a essas três?

Talvez tenha, mais por jogar em casa. Agora, do ponto de vista do coletivo, da força da equipa, julgo que Espanha e Alemanha têm seleções ligeiramente superiores. Se esta Copa fosse na Europa, o Brasil estaria um pouco abaixo de Espanha e Alemanha nas possibilidade de ser campeão.

E então, entre Espanha, Alemanha e Argentina, quem mais teme?

São três excelentes seleções, com talentos extraordinários, todas elas. A Espanha, é claro, a campeão em título. Isso conta muito. Vai querer defender o tíulo. Tem Xavi, tem Iniesta, enormes talentos. Tem também o Busquets, fantástico médio. Tantos outros.

 

Mas não acha que o ciclo da Espanha está a acabar?

Não estou certo disso. Acho que ainda vão ser muito fortes nesta Copa.

 

A Confederações, no ano passado, não mostrou que o Brasil pode ser superior à Espanha numa final?

Foi nessa vez e isso foi importante para o percurso desta seleção do Scolari até aqui. Mas não quer dizer nada. Em 2005 e em 2009, o Brasil ganhou a Confederações, mas depois nos anos seguintes foi mal nos Mundiais da Alemanha e da África do Sul.

«Final Brasil-Argentina seria momento extraordinário»

E quanto à Alemanha?

Sempre muito forte. Parece-me estar a voltar a ser uma seleção de topo, desde o tempo do Klinsmann e agora com o Low ao comando. Tem grandes jogadores e um coletivo muito, muito forte. Pode ganhar tudo. 

No Brasil fala-se muito numa final com a Argentina...

Seria a final de sonho, um superclássico. Mesmo duelos entre clubes, no plano sul-americano, são sempre especiais quando se defronta um clube argentino com outro brasileiro. Seria um momento extraordinário, um Brasil-Argentina na final do Maracanã, em julho. 

Como será uma final dessas?

Imprevisível. Mais uma vez, o Brasil jogando em casa pode ter alguma vantagem. Mas continua muito presente na memória do brasileiro o que aconteceu no primeiro mundial, a perda traumática para o Uruguai. O Brasil vai fazer tudo para que isso não se repita desta vez. 

Não lhe parece que o Messi, na Argentina, não rende tanto como no Barcelona?

Não concordo. Acho até que o Sabella, que é um técnico que admiro muito, tem tido mérito na forma como consegue aproveitar o talento do Messi na seleção. Integrar um jogador numa seleção ou numa equipa não é a mesma coisa. O que vejo na Argentina é que Messi é o jogador fundamental, o melhor numa equipa com muito talento.

«Neymar, Thiago Silva e Marcelo são imprescindíveis»

 

Este Brasil está muito dependente de Neymar? Se ele não estiver bem, o escrete perde boa parte das chances?

O Neymar é, de longe, o melhor jogador desta seleção. Mas o Brasil vai jogar o que, coletivamente, for capaz de fazer. Não está assim tão dependente do Neymar. Agora, vejo dois imprescindíveis no escrete: o Neymar e o Thiago Silva, grande capitão. Talvez o Marcelo, também... O resto, sendo mais ou menos previsível, pode ser substituído sem grande problema. Haverá alternativas para todos os lugares.

 

Que outras dúvidas ou alternativas poderão ainda existir no onze base?

Entre Dante e David Luiz não veria grande diferença. Ou mesmo entre Dani Alves e Maicon, por exemplo.

Scolari parece ter o onze praticamente definido e e idêntico ao que atuou na Confederações. Acredita que nomes como Ramires ou Willian podem ainda discutir uma vaga?

Sim, esses dois e mais um ou outro, ainda podem ter algumas hipóteses. O Ramires está ao nível do Luiz Gustavo, do Paulinho, do Fernandinho, é uma posição em que a seleção está bem servida. O Willian é um jogador que o Scolari aprecia, mas o Oscar terá vantagem para já.

 

«Lucas Moura é enorme talento mas não tem estado bem na seleção»
 
Foi, para si, surpresa que o Lucas Moura não tenha sido chamado?

De forma alguma. O Lucas não se apresentou bem nas vezes que teve oportunidade na seleção. Por outro lado, o esquema de jogo usado pelo PSG esta época não o favoreceu. E teve muitas lesões.

Mas não lhe parece o maior talento do Brasil a seguir ao Neymar, neste momento?

Sim, é um miúdo com um talento extraordinário e estou certo que ainda poderá, daqui a algum tempo, impor-se na seleção.

TOSTÃO NO JOGO COM O URUGUAI NA COPA DE 70:

Robinho, Ronaldinho e Kaká já tiveram o seu tempo? Nenhum deles cabia nos 23?

É, foram grandes jogadores, mas já não estão no seu melhor. O Kaká podia ter algumas hipóteses, pela utilização que teve no Milan, mas o problema é que um jogador da sua qualidade e do seu estatuto, estando nos 23, iria causar polémica se não fosse titular. Seria fator de perturbação e todos sabemos como o Felipão gere essas coisas. O Scolari acabou por preferir um jogador como o Bernard, mais jovem e que apesar de ter tido alguns problemas de adaptação lá na Ucrânia, lhe dá outro tipo de vantagens na Copa. Quanto ao Robinho, há muito que ele já não está bem. E o Ronaldinho, que foi um craque, um dos melhores do Mundo, joga como se já tivesse 40 anos... 

 
 
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