Passaram cerca de três anos e meio desde que Paulo Jorge Pereira foi anunciado como selecionador português de andebol.

Ao olhar para o percurso realizado até ao momento, o técnico de 55 anos acredita que a marca mais importante que gravou foi a de ajudar a afastar um dos principais adversários da seleção na última década: «o estigma da derrota».

A ideia de entrar em campo já derrotado não cabe mais nesta história, garante.

Mas ainda há muito por fazer, defende nesta segunda parte da entrevista. Até porque Paulo Jorge Pereira ainda não foi convidado para fazer publicidade a uma grande marca. E só depois disso diz, entre gargalhadas, pode começar a pensar em abandonar a luta pelo crescimento do andebol.

MF: Se deixasse de ser selecionador de Portugal neste momento, qual seria a marca que se orgulhava de ter deixado?

PJP: Primeiro, se eu tivesse de deixar agora a seleção, tentaria fazer aquilo que tentei quando entrei: uma conferência de imprensa conjunta com o treinador que ia entrar. Para lhe desejar boa sorte publicamente. Na altura isso não foi possível por diversas razões. Mas eu acho que no desporto temos uma excelente oportunidade para dar palco às boas práticas. E se temos oportunidade de dar o exemplo, devemos fazê-lo. Às vezes vou ver um jogo de andebol e toda a gente insulta toda a gente. Na Tunísia, teoricamente um país menos desenvolvido, se isso acontece, o árbitro pára o jogo e dá dois minutos ao banco da equipa cujos adeptos estão a insultar. Eu adoraria ver uma medida deste género – que é anti-populista, mas que pode ajudar a fazer crescer.

MF: Mas isso é algo que gostaria de implementar. Pergunto por aquilo que já foi conseguido neste período. Que grande marca acha que já conseguiu deixar?

PJP: Aquilo que eu sempre tentei quebrar desde o início foi aquele estigma que existia da derrota. Lutei sempre contra isso. Posso estar a deixar um pouco essa marca.

MF: Existia um peso da derrota antecipada muito vincado?

PJP: Sim. Eu recordo-me do primeiro jogo que fiz na seleção, na Alemanha, onde fomos perder por 11, depois de termos tido cinco dias de trabalho. E o nosso presidente [Miguel Laranjeiro], que também tinha chegado há pouco tempo, e é uma pessoa muito cordial e que gosta de passar mensagens de serenidade, pediu-me para fazer um discurso no final do jogo. E lembro-me que ele disse algo do género: ‘tenham calma, não jogámos contra uma seleção qualquer e o nosso caminho está a ser construído’. E aquilo na altura pareceu-me um discurso demasiado light. Então, pedi para falar logo a seguir.

MF: E foi mais duro…

PJP: Oh, pá. Eu ouvi aquilo e disse aos jogadores: ‘Vocês desculpem lá, mas nós parecíamos uns autênticos parolos! A entrar no pavilhão, a olhar para aquilo… Parecíamos uns autênticos parolos! Eu incluído! As pessoas todas a fazer a festa e nós a fazermos parte daquilo, tipo os cabeçudos! Nós não podíamos ter feito melhor do que isto? Eu tenho a certeza de que podíamos!’. Tanto assim é que uns dias depois empatámos em casa com a Eslovénia e não ganhámos por pouco.

MF: Confiava na qualidade dos jogadores…

PJP: Claro. Porque nós tínhamos gente para isso. Se não tivéssemos, eu acho que não me arriscava tanto. Nós temos um misto de atletas que combina os inteligentes, os combatentes, os apaziguadores… E o grupo funciona lindamente, com gente com carácteres completamente diferentes uns dos outros.

MF: Acredita que a naturalização dos atletas cubanos também contribuiu para afastar esse tal estigma da derrota?

PJP: Sim. Esta vinda dos cubanos foi excecional e decisiva para nós. Deu-nos peso, altura e agressividade. Eles não conhecem ninguém! Isto é, não têm aquele preconceito de estar a jogar com X ou Y. Eles querem é jogar, combater e ganhar. E divertirem-se a jogar. Vivem o jogo e a competição de uma forma mais natural. Centram-se mais naquilo que tem de fazer e não tanto nas consequências. Mas nós também temos atletas com essas características.

MF: Quem?

PJP: O [Luís] Frade, por exemplo. O que ele que é jogar, quer lá saber se é contra o Karabatic. O Miguel Martins, para quem jogar é uma diversão. Às vezes até de mais. [risos]. Temos de o puxar e dizer: ‘vamos, mais eficácia’! E ele é excecional nisso. E vai ficando cada vez melhor.

MF: Sente que os atletas têm agora um compromisso maior?

PJP: Não só os atletas, mas o staff também. Felizmente, temos agora um staff mais alargado do que nunca, mas muitos deles estão a funcionar quase de forma altruísta. Ganham alguma coisa, mas trabalham muito de forma altruísta. Não temos a federação mais rica do mundo e tem de haver um equilíbrio entre o que as pessoas auferem e aquilo que eles produzem. E neste momento, aquilo que eles produzem é 500 vezes superior ao que auferem. Tenho um grupo de pessoas envolvida em fazer mais e todos trabalham para um objetivo de elevada exigência.

MF: Cerca de um mês antes da fase final do Europeu, disse que estava a meio daquilo que podia vir a fazer na seleção. Já está a mais de meio desse caminho?

PJP: Diria que estamos mais ou menos a 60 por cento. Aquilo que fizemos foi interessante, mas ainda falta muito. Quer na seleção, quer no meu percurso como treinador. Quero acreditar que estou nos 60 por cento.

MF: Ainda não tem um outdoor publicitário…

PJP: [risos] Sim, eu disse uma vez que só poderei abandonar a minha atividade quando aparecer num outdoor a promover alguma marca importante. Porque isso seria sinal, não de que eu sou uma figura extraordinária, mas de que o andebol em Portugal estava a vender. E de que estamos num bom caminho.

MF: Tem alguma preferência?

PJP: [risos] Eu gostava de fazer à Nespresso, por exemplo. Não! À Delta, que é uma marca portuguesa!

MF: Acredita que já faltou mais para isso?

PJP: Já faltou mais, sim! As pessoas culpam os políticos e eu também culpo um pouco. Por que é que não valorizamos o desporto? As pessoas acham que é fácil ficar em sexto lugar num Europeu? Ou que é fácil saltar não sei quantos metros com aquela vara? É fácil fazer recordes na piscina? As pessoas do desporto trabalham muito mais do que muita gente na nossa sociedade. Mas muita gente, mesmo. E nós temos de mudar um pouco esta forma de estar e tentar fazer a nossa parte.

MF: Uma das mudanças que defende ser essencial é a do planeamento das épocas para que haja tempo para a seleção se preparar.

PJP: Sim. Temos de começar a planificar a época pensando que Portugal vai estar em todas as grandes competições. Ainda há dias a falar com o nosso vice-presidente ele dizia: ‘se formos ao Mundial’… E eu disse: ‘Nós vamos ao Mundial!’. ‘Ah, mas se não formos…’ Não! Nós vamos ao Mundial! É assim que temos de planificar: nós vamos ao Mundial, vamos aos Jogos Olímpicos, vamos a isto e aquilo! Aquela história do ‘se calhar não vamos, metemos aqui um jogo’, isso acabou. Acabou! Temos de planificar de outra forma.

MF: O play-off do Mundial também está próximo, Quais as ambições de Portugal?

PJP: Se nós adormecermos um pouco, vamos pensar que vai ser fácil apurar para o Mundial. Porque, como ficámos em sexto no Europeu, já não precisámos de ir ao play-off de abril. Ainda por cima, a equipa que vamos defrontar [Israel ou Letónia] é, teoricamente, das mais acessíveis. Mas temos de perceber que todas elas são seleções fortíssimas. Temos de ser inteligentes e dizer que podemos ir ao Mundial. Podemos. Mas temos de ir outra vez com tudo. Não podemos achar que já está, porque isso é um erro. Não podemos confundir ambição e querer com laxismo. São coisas muito diferentes.

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