Doha, capital do Qatar, 32 graus centígrados a acompanhar o crepúsculo. Pedro Correia, Ró-Ró, já não estranha o calor. A temperatura do deserto urbano deixou de lhe ser insuportável, mesmo que no verão os termómetros atinjam os 45 graus.

«Agora até está fresquinho», brinca o internacional qatari, nado e criado em Mem Martins, no bairro do Casal de São José.

Sim, Pedro Correia representa a seleção do Qatar há três meses. Tem 26 anos, já soma nove internacionalizações e sonha com as presenças nos próximos Mundiais: 2018 e 2022, este a realizar precisamente no país asiático.

Uma história absolutamente rara, explicada na primeira pessoa ao Maisfutebol por um atleta com um passado rico nas escolas de formação do Benfica – cinco temporadas – e que partilha o balneário com o eterno Xavi Hernandez no Al Sadd.

Clube, de resto, treinado por Jesualdo Ferreira.

PARTE II: «Xavi é o meu mentor, uma lição de futebol todos os dias»

«Aprendi a amar as pessoas do Qatar»

De um bairro dos subúrbios de Sintra à ostentação da Tower Zone em Doha. Transformação completa na vida de Pedro, desde sempre Ró-Ró para os amigos.

Como relatar este percurso tão improvável? Bem, saltemos para 2010 e para o dia em que um empresário o levou de Aljustrel para o Al Ahli.

«Fiz três jogos no Aljustrelense, estava muito bem. Na altura, o Pedro Russiano [atual adjunto de Álvaro Magalhães no Gil Vicente] jogava no Bahrain e indicou o meu nome a um empresário. Fui fazer testes ao Al Ahli, mas só podiam ficar com um estrangeiro e havia dezenas de candidatos. Correu-me tudo bem e fiquei».

Seis anos depois, Pedro Correia continua no Qatar e tem «mais quatro anos de contrato pela frente». «Jogo no Al Sadd e, entretanto, naturalizei-me e represento o país. Posso garantir que não é por dinheiro. Aprendi a amar estas pessoas, sempre gentis, e tenho a motivação de estar em Campeonatos do Mundo».

O Qatar, explica o defesa lateral/central, está num período de «completa transformação». Social, económica e desportiva.

«O povo está eufórico com a realização do Mundial2022, há imensas obras por todo o lado e o investimento é brutal. O nosso estádio, por exemplo, é o único do mundo com ar condicionado. É, aliás, impossível jogar futebol sem ser nessas condições».

A naturalização foi célere. Pedro cumpriu o requisito mais apertado (cinco anos de residência no país) e foi desafiado pelos responsáveis da federação.

«Eu sou português, serei sempre, mas aprendi a ser qatari também. Dialoguei com a minha família, com o meu empresário e todos disseram que eu devia aceitar o desafio. Já tenho muitos amigos árabes e a minha vida continuará a passar por cá».

Em 2022, Ró-Ró quer que o Qatar organiza o «melhor Mundial de sempre». «E eu quero estar lá, claro (risos). Tive de sair do clube do meu coração, o Benfica, aos 16 anos. Uma década depois tornei-me jogador da seleção do Qatar. Incrível, não é?».

«Estamos na luta pela presença no Mundial da Rússia»

«Paraíso de tranquilidade», «povo respeitador», «riqueza infinita». Pedro Correia utiliza estas expressões quando instado pelo Maisfutebol a falar sobre o Qatar, um Estado acusado vezes sem conta de graves problemas internos, nomeadamente na forma como tem gerido a mão de obra responsável pela construção dos novos estádios.

«Escravatura? Sinceramente nunca me apercebi de nada. Apenas confirmo que estão a transfigurar vários pontos do país. Estradas, linhas de Metro, prédios…»

O principal problema, insiste, está relacionado com as condições atmosféricas, embora o comité organizador do Mundial esteja empenhado em atenuar os ditames da Natureza.

«Tudo está a ser tratado. Eles vão climatizar os estádios, jogadores e adeptos terão excelentes condições. No Qatar é assim, as coisas acontecem. De outra forma, seria fisicamente impossível haver jogos durante o dia».

Pedro Correia (à direita) com a camisola do Al Sadd

Na sua seleção, Pedro Ró-Ró Correia é treinado pelo experiente Jorge Fossati, uruguaio de 63 anos. O Qatar nunca esteve em nenhum Campeonato do Mundo, embora apresente resultados interessantes nas provas do continente asiático.

Pedro assegura que Fossati está a construir «uma seleção de qualidade» e capaz de estar já no próximo Mundial.

«Há mais atletas naturalizados [Rodrigo Tabata, do Brasil, e Sebastián Soria, do Uruguai] e o nível do país aumentou muito com a aposta em treinadores competentes nos escalões de formação. Vencemos a Síria no último jogo de qualificação e estamos na luta».

No Grupo A de qualificação asiática, o Qatar soma três pontos e segue atrás de Irão, Uzbequistão e Coreia do Sul. Os dois primeiros passam à próxima fase, o terceiro terá de jogar um play-off.