Em 2011, depois de uma época no Servette, Pedro Mendes mudou-se para o Real Madrid, onde foi treinado por José Mourinho, que promoveu a sua estreia na Liga dos Campeões.
Desses tempos, o defesa português recorda a imagem forte do técnico, que pode ser um trunfo para Mourinho num eventual regresso ao Bernabéu, um cenário cada vez mais verosímil.
A experiência de Pedro Mendes no Real Madrid foi curta, mas intensa, e teve alguns momentos polémicos, que o levaram a, um par de anos depois de ter deixado a capital espanhola, ter revelado que, em Espanha, existia um bocado de xenofobia em relação aos portugueses.
Hoje, admite: «Se pudesse retificar, diria que, sim, sofri um pouco de xenofobia, mas por parte de dois, três ou quatro pessoas. Não posso englobar um povo inteiro por isso.»
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Teve um início de carreira sui generis, que o levou a jogar no Real Madrid por empréstimo do Sporting. Aquilo foi de alguma forma estranho para si?
Eu nem acreditava. Fiquei em êxtase quando recebi a notícia, mas depois de lá ter chegado sentia que aquilo fazia parte do que sempre tinha ambicionado. Estava de tal maneira extasiado que, se calhar, não aproveitei a 100 ou 1.000 por cento. Parecia-me uma coisa natural, era aquilo que ambicionava e consegui. Graças a Deus tive a oportunidade de jogar num dos melhores clubes do mundo. Hoje, ninguém pode tirar isso da minha carreira. O objetivo era continuar no Real Madrid, mas não foi possível. Havia uma cláusula de compra muito grande que não foi acionada.
Estreou-se na equipa principal do Real Madrid num jogo da Liga dos Campeões. Ainda hoje revive esse momento?
Às vezes, a minha esposa dá-me na cabeça porque desvalorizo um pouco esse feito. Valorizo muito mais ter chegado à Seleção do que propriamente ter jogado na Liga dos Campeões. Foi uma oportunidade que me foi dada, sendo certo que para a ter era preciso estar lá, mas chegar à Seleção foi diferente. Estava a jogar numa equipa de meio da tabela em França e éramos considerados uma das melhores defesas da Europa porque sofríamos poucos golos. Conseguimos vitórias importantes contra o Lyon ou o PSG, e isso fez despertar o foco do selecionador. Além do coletivo, o meu trabalho individual permitiu-me chegar à Seleção por mérito próprio. Por isso é que sabe de outra forma.
Nesse jogo da Liga dos Campeões, contra o Ajax, foi lançado por José Mourinho, na altura para o lugar de Álvaro Arbeloa. Hoje, fala-se que Arbeloa vai ceder o lugar no banco a Mourinho.
É verdade. Nos últimos dois ou três anos, o Real Madrid não tem ganho nada. Quando isso acontece no melhor clube do mundo, tudo é questionável. Desde o treinador até ao roupeiro ou ao fisioterapeuta. Se for preciso mudar toda a gente, muda-se, para tentar encontrar a melhor solução para o Real Madrid voltar a ter hegemonia. Um clube como o Real quer ganhar tudo.
Mourinho é a pessoa indicada para meter o balneário do Real Madrid na ordem?
Acho que sim, até porque não nos podemos esquecer que o Mourinho tem a carreira e os títulos que tem. Deu mostras da sua qualidade em todos os clubes que representou. Seguramente, haverá pessoas que gostariam de ter outro tipo de treinador, mas Mourinho já demonstrou que é um vencedor nato. As respostas já foram dadas, nem preciso de acrescentar nada.
E como era no seu tempo? Afinal, jogou ao lado de Sergio Ramos, Benzema, Kaká, Cristiano Ronaldo...
Ia lá treinar esporadicamente. Ia mais, por exemplo, quando eles vinham de um jogo da Liga dos Campeões, no típico treino em que os suplentes e os não utilizados trabalhavam com ps da equipa B, enquanto os que tinham jogado faziam recuperação. No microciclo da semana em que joguei na Liga dos Campeões não houve confusão. Acho que a imagem do José Mourinho era, por si só, respeitada. Independentemente da confusão que houve entre o Casillas e o Mourinho, eu não vi nada. Quando lá ia, não sentia qualquer burburinho nem ninguém a falar mal do treinador nas costas. O José Mourinho tinha ganho a Liga dos Campeões pelo Inter e pelo FC Porto, também a Taça UEFA, era um treinador mais do que respeitado por toda a gente.
Em 2013, depois de ter saído do Real Madrid, disse que sentiu um bocado de xenofobia em Espanha em relação aos portugueses. Mourinho também ajudou a desfazer esse sentimento?
Contei uma coisa verídica. Nessa altura, depois de eu me ter estreado na Champions, um jogador da equipa C fez um tweet a falar de um complô entre portugueses e que tive aquela oportunidade porque era português e agenciado pelo Jorge Mendes. Eu nem sequer tinha Twitter, mas quando regressei à minha equipa [Castilla], depois do jogo da Liga dos Campeões, comecei a sentir um burburinho no balneário. Inclusive num estágio, ia no elevador e uma pessoa, sem se aperceber que eu lá estava, começou a comentar esse tweet. E um dos meus colegas disse: «Porque é que ele tem de ser castigado se só disse a verdade?» Houve um ou outro jogador que me deu os parabéns pela estreia, mas os outros sentiram-se incomodados. Posso também dizer que quando cheguei ao Real Madrid senti um burburinho porque me chamo Pedro Mendes e o Jorge Mendes também tem Mendes no nome. Então questionavam se era familiar ou sobrinho do Jorge Mendes, quando isso não tem nada a ver. Eu não dizia nada, mas sentia.
Mas isso não quer dizer que, amanhã, se fosse jogar, por exemplo, para o Albacete, não pudesse encontrar outro grupo, com outro tipo de pessoas. Naquela altura, falei de uma forma generalizada, mas hoje, tendo os pés mais assentes na terra, acho que temas como os de xenofobia, racismo ou homofobia têm de ser individualizados. Não podemos dizer que os portugueses são racistas ou os espanhóis são xenófobos. Não posso englobar um povo inteiro por causa de um comentário de duas ou três pessoas. Mas isso é o Pedro de hoje, com 13 anos a mais. Se pudesse retificar, diria que, sim, sofri um pouco de xenofobia, mas por parte de dois, três ou quatro pessoas. Não foram todas. Fiz algumas amizades lá e, por incrível que pareça, quem estava focado no seu caminho e não teve aquele tipo de comentários singrou, enquanto os outros nem sei onde jogam hoje em dia. Ou terminaram a carreira ou estão em divisões inferiores, nem se compara à carreira que consegui.
Se realmente Mourinho voltar ao Real Madrid, vai deixar saudades na Liga portuguesa?
Acho que sim, porque é um ícone. É um ícone português, assim como o Cristiano [Ronaldo]. Marcaram o futebol português e são a nossa imagem de marca no estrangeiro. Vão deixar sempre saudades. Foi, talvez, por causa do trabalho que Mourinho fez que, hoje, os treinadores portugueses estão bem cotados. Em qualquer campeonato de topo, há sempre um português como treinador. Somos bem vistos lá fora, a nível de treinadores e também de jogadores.
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