Apaixonado pelo futebol, Pedro Mendes diz que, atualmente, tem na parte estratégica do jogo uma das suas atrações.
É por isso que está a tirar o curso de treinador, admitindo ter em Ruben Amorim uma referência.
Pelo meio, encontrou conforto nos ensinamentos de Jesus Cristo, os quais procura colocar em prática no dia a dia e que o ajudaram a perceber as diferentes facetas da sua vida. E com isso como que “renasceu”.
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Aos 35 anos, o que é que o mantém ligado ao futebol?
A paixão pelo futebol. É a competitividade, o querer ganhar, até no treino. Querer ganhar as peladinhas, os 5 contra 5, dar 20 ou 30 a quem está no meio durante os meiinhos. Dizer ao meu colega ponta de lança «hoje não vais marcar, vou deixar-te a seco, nem vês a bola». São essas pequenas coisas que ainda me alimentam. Depois, há a parte que me está a enriquecer, a das análises de vídeo, o tático e a estratégia para o jogo, aprender a observar o adversário.
Vai tirar o curso de treinador. Em quem se revê nesse papel?
Cada um tem de ser igual a si próprio, mas quem gostei muito de ver e acho que tem o pacote completo é o Ruben Amorim. Pela forma como comunica, como gere o grupo, como o defende a nível mediático. Gostei muito de ouvir as suas conferências de imprensa, em que criticava quando tinha de criticar. Mesmo em Manchester, acompanhei um bocadinho. Revejo-me mais nesse estilo de treinador. Mas também sinto que, por onde quer que passe, consigo ganhar o respeito dos meus colegas e do grupo. O mais difícil é gerir homens, porque cada um tem a sua personalidade, e eu consigo chegar a todos eles de alguma forma. Essa é a chave para seres bem-sucedido. Conseguires, no grupo, ter a maioria a rumar para o mesmo sítio, mesmo os que não jogam, que é o mais difícil.
Assim de repente, sabe quantas tatuagens tem?
Não sei, mas tenho no braço direito e na perna esquerda. A que tenho na perna tem toda ela um significado. Converti-me depois da lesão que sofri e hoje olho para isso como um marco na minha carreira e na minha vida. Antes, chegava chateado a casa depois de uma derrota, nem podiam falar comigo naquele dia, mas hoje em dia desvalorizo completamente. Nós temos o atleta e o homem, mas antes eu era um só, não sabia fazer essa distinção. Agora, assim que o jogo acaba, dispo a capa de atleta e visto a do Pedro marido, pai, filho. Há vida para além do futebol. Quando perco, faço o meu luto, uma reflexão sobre o que foi certo e errado, mas quem está à minha volta não tem de sofrer por causa de uma coisa em que não está envolvido diretamente. Foram muitos anos assim e, hoje em dia, valorizo mais outras coisas.
Quando fala em conversão, isso tem uma parte religiosa?
Sim, é o cristianismo. Não sigo doutrinas, mas sim os ensinamentos que Jesus Cristo nos deixou quando veio à terra.
E o que procura alcançar através da fé?
Uma vida mais leve, comigo e para com o próximo. Estamos na vida para nos servirmos uns aos outros, para nos ajudar-nos mutuamente. Mesmo que a pessoa ao lado esteja num mau dia, podemos influenciá-la a mudar isso com uma palavra amiga, encorajadora. Na vida, todos vamos ter problemas e é a maneira como os encaramos que vai ditar quem somos. Só designo por problemas os relacionados com a saúde porque até lá o que temos são desafios na vida, que vão ser vencidos, ou não. Isso vai depender da nossa resiliência e da maneira como olharmos para eles. Se tens uma lesão, há que olhar para o copo meio cheio. E tu dizes-me: como é que se faz isso se estás lesionado? Eu estou lesionado, mas sei que, mais tarde ou mais cedo, vou voltar a jogar. Mas, se calhar, há outras pessoas que têm uma perna amputada, enquanto eu tenho os meus dois membros, que num momento podem não estar funcionais mas vão voltar a estar. Antes, não olhava a vida desta forma, mas com esta conversão consigo fazê-lo.
E superstições, tem alguma?
Tinha bastantes, mas deixei de ter porque acho que não é por aí que se ganha um jogo. Eu era aquele típico jogador que se comesse uma coisa antes de um jogo e corresse bem, era aquilo que ia comer. Se fizesse um exercício no ginásio e corresse bem, ele já ficava implementado para o resto da temporada. Ainda entro [no relvado] com o pé direito, mas isso já está tão enraizado que é quase automático. Mas não ligo muito a isso. Agora, faço as minhas orações antes do jogo, todas as manhãs e todas as noites.
Tem algum filme ou livro preferido?
O livro, neste momento, é a Bíblia Sagrada. Filmes? Ultimamente não tenho visto nada por aí além. Vejo mais quando estou com a minha esposa, mas dou-lhe o comando e entrego-lhe a responsabilidade de escolher. Gosto mais de podcasts, são mais enriquecedores.
E música, é pessoa para ouvir o quê?
Ouço um bocadinho de tudo. Pode parecer um bocado contraditório, mas antes dos jogos ouço músicas em estado flow. Mas essas músicas já não me servem para fazer uma viagem Lisboa-Porto. Gosto de kizomba, house music, afrohouse, hip-hop. É muito diversificado. Só não ouço muito rock e tudo o que é muita gritaria e muito barulho.
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