Para além de Leonardo Jardim, há outro português a elevar bem alto as cores de Portugal. Rui Almeida. discípulo de Jesualdo Ferreira, cumpriu 100 jogos em França, tornando-se apenas no terceiro português a cumprir tal façanha. O feito serviu de tema para a conversa entre o Maisfutebol e o técnico de 49 anos.

O roteiro da conversa é fácil de seguir: Troyes, Lisboa, Trofa, Damasco, Atenas, novamente Lisboa,  Braga, Cairo, Paris até chegar à casa de partida. Rui Almeida recorda um quarto de século de carreira, recheado de histórias e peripécias. Conta o início de carreira, aborda as condições de trabalho num país em estado de guerra (Síria), lembra as passagens pelo Sporting e Sporting de Braga ao lado de Jesualdo Ferreira, o «mentor que só chegou aos 40 anos». 

Em suma, a viagem é rica e vale o bilhete.

Maisfutebol: Sabia que só o Artur Jorge e o Leonardo Jardim têm mais jogos que o Rui em França?

Rui Almeida: É verdade. É uma honra estar atrás do Leonardo e do Artur que fez uma carreira enorme aqui. Esse registo explica-se pelo reconhecimento que obtive em França. É difícil repetir três clubes em Portugal, em Espanha, em França, enfim. Há muita gente competente e que quer estar no topo.

MF: O Rui já ultrapassou a marca dos 100 jogos em França. Que significado tem?

RA: Estamos a falar de uma das cinco principais ligas da Europa. Também me deixa orgulhoso o facto do Troyes não ser o primeiro clube que treino em França. Não existem treinadores estrangeiros na Ligue 2 enquanto na Ligue 1 só estão o Leonardo, o Tuchel e Halilhodzic, que já esteve muitos anos em França. [ndr: aquando da entrevista Paulo Sousa ainda não era treinador do Bordéus]. Este é o meu terceiro clube, não é fácil estar nos campeonatos de elite da Europa.

MF: Antes de ultrapassar a barreira dos 100 jogos, convidava-o a recordar como tudo começou. Quando decidiu ser treinador?

RA: Decidi ser treinador muito jovem: comecei a carreira aos 26 anos. Abdiquei da carreira de jogador. Há 26 anos não era comum haver treinadores licenciados. Chapeau ao professor Carlos Queiroz, ao professor Jesualdo e, mais tarde, ao Zé [Mourinho]. O meu primeiro clube foi o Cultural da Pontinha, na formação, e depois enveredei para o futebol sénior. Hoje já tenho 24 ou 25 anos de carreira.

MF: Deixou de jogar porque tinha pouco jeito ou gostava mesmo muito do treino?

RA: Gostava muito de treinar, de verdade. A paixão pelo jogo em si e pelo treino levou-me a optar por esta carreira. Achei que fiz o mais correto.

Rui Almeida orientou o Bastia na Ligue 1

MF:  Passa do Clube Cultural da Pontinha para o Benfica. Como é que surgiu essa oportunidade?

RA: Estive no Clube Cultural da Pontinha apenas um ano. Jogávamos entre nós e, na altura, em 1990, o Professor Mário Costa e o Nené, que eram coordenadores da formação do Benfica, convidaram-me para ir para o clube e aceitei de bom grado, naturalmente. Fiquei cerca de três anos, mas a formação do Benfica não tinha nada que ver com o que é agora. Não havia o Caixa Futebol Campus e o Estádio da Luz estava em construção. Às vezes, as condições de trabalho não eram as ideais. No entanto, foi uma excelente escola e uma ótima casa.

MF: Salta para o futebol sénior e passa por Atlético, Estoril e Trofense.

RA: Estive um ano no Atlético e depois segui para o Estoril. Comecei pela formação, subi de divisão nos juniores e o clube acabou por me convidar para os seniores.As pessoas reconheciam o meu trabalho. Fiquei vários anos e trabalhei com o Ulisses Morais, com o Lito e o com o Tulipa. Achei que o ciclo no Estoril tinha terminado quando segui com o Tulipa para a Trofa.

MF: Que ensinamentos retirou de cada um desses treinadores?

RA: Trabalhei também com o Vítor Oliveira no Trofense, uma excelente experiência. Não quero tirar valor a nenhum deles. Tocaram-me todos em diferentes aspetos. Mais tarde, quando voltei a ser adjunto... o professor Jesualdo Ferreira foi quem mais me marcou.

MF: Depois do Trofense aceita o convite da seleção Olímpica da Síria. Naquela época ainda não era comum ter muitos treinadores portugueses no Médio Oriente. Como surgiu esse convite?

RA: O convite surgiu quando disse a mim mesmo que iria mudar. Propuseram-me reformular as seleções sub-19 e sub-23 da Síria. O convite principal era para a seleção olímpica, mas também me permitia trabalhar com todos os outros escalões, inclusive a seleção AA. Era um país que não conhecia, nunca tinha trabalho no mundo Árabe, mas adaptei-me muito bem. Infelizmente, a meio, a guerra interrompeu o percurso e complicou o final do mesmo. No cômputo geral, a Síria ficou a um jogo de chegar a Londres [JO 2012], ou seja, esteve muito perto do objetivo.

MF: Como foi a adaptação à Síria? Mudou-se para uma cultura diferente, com rotinas distintas…

RA: Vivi em Damasco, que era uma cidade muito interessante. Temos de aceitar as diferenças culturais. Adaptei-me à diferença e não esperei que as pessoas se adaptassem a mim. Convivi bem com as diferenças do quotidiano, aprendi árabe – como aprendi francês e grego. As pessoas valorizaram essas pequenas coisas e acabei por agarrá-las. Gostaram do meu trabalho e prova disso foi que me abriram as portas da seleção principal.

MF: Há alguma história engraçada que queira partilhar durante esse período?

RA: Há sempre. Quem trabalha no Médio Oriente tem sempre este tipo de histórias. Estava a defrontar o Kuwait, a ganhar por 4-0, e a certa altura um dos meus adjuntos sírios disse-me que tenho uma chamada para atender. Disse-lhe que estava louco, que não ia atender chamadas no decorrer do jogo. Ele disse-me que era do presidente da Federação Síria, recusei na mesma e pedi-lhe para ele falar com ele. Resumindo, o presidente da federação síria estava ao lado do homólogo do Kuwait e, por uma questão de respeito, pediu-me para que não marcássemos mais golos (risos).

MF: (risos)

RA: É uma situação inacreditável dentro do que estamos habituados. Acima de tudo, temos de perceber onde estamos, não levar a mal nem chamar a ninguém de maluco. O restante é idêntico aos outros países: se perdemos, somos colocados em risco.

MF: Pouco depois de chegar à Síria eclodiu a Guerra?

RA: Cheguei em setembro de 2010 e até março de 2011 não tinha acontecido nada. Aliás, em Damasco não aconteceu nada até setembro de 2011. Em outubro, deixei de viver lá de forma permanente e, sempre que voltava, notava que a cidade já não era a mesma. Vivi um ano em Damasco, depois vivi na Jordânia e em Beirute. Fiz o play-off final no Vietname, jogámos com Omã e Uzbequistão e, quando voltei, disse que era impossível continuar. Já se via muita tropa na rua e encerrei a minha ligação com a Síria [março de 2012].

MF: Como se trabalha nestas condições? Até para os próprios jogadores era complicado...

RA: Alguns jogadores, que viviam nas cidades que já tinham sido afetadas pela guerra, tinham dificuldades em chegar a Damasco para as concentrações. Porém, prefiro realçar o percurso enorme que fizemos. Cerca de 80 por cento da base da seleção síria que esteve na qualificação para o Mundial trabalhou comigo.

MF: Sente-se realizado por isso? No fundo dá sentido ao seu trabalho.

RA: Sim, sim. É muito interessante, muitos desses jogadores estão a jogar em bons campeonatos como o da Arábia Saudita ou do Qatar.

MF: Como chega a possibilidade de se juntar ao Jesualdo?

RA: O professor Jesualdo Ferreira liga-me precisamente quando estava prestes a assinar por um clube do Médio Oriente. O José Gomes ia sair da equipa técnica e ele convidou-me. Já tinha descartado a hipótese de voltar a ser adjunto, mas era um convite irrecusável de uma pessoa que estimava muito. Foram anos excelentes.

MF: Por que razão volta a ser adjunto?

RA: Não estava nos meus planos, confesso. Apenas duas ou três pessoas me poderiam fazer mudar de ideias e uma delas era o professor Jesualdo. Sempre lhe reconheci enorme conhecimento e capacidade de ensinamento. É uma pessoa com uma bagagem enorme e ter a oportunidade de conviver com ele diariamente foi excelente. Foi a cereja no topo do bolo.

MF: Percebe-se que o Jesualdo Ferreira foi uma pessoa muito especial no seu percurso.

RA: Sim, posso quase chamar-lhe de mentor, embora costumem chegar mais cedo. O meu mentor chegou quase aos 40 anos. Foram anos muito interessantes. Por vezes, as coisas aparecem quando estamos preparados. O nível dos clubes em que estivemos, as suas diferentes características, os problemas que nos colocaram...

Leia a segunda parte da entrevista: «Quando soube do convite do Sporting, disse 'muito giro'»