Para além de Leonardo Jardim, há outro português a elevar bem alto as cores de Portugal. Rui Almeida. discípulo de Jesualdo Ferreira, cumpriu 100 jogos em França, tornando-se apenas no terceiro português a cumprir tal façanha. O feito serviu de tema para a conversa entre o Maisfutebol e o técnico de 49 anos.

O roteiro da conversa é fácil de seguir: Troyes, Lisboa, Trofa, Damasco, Atenas, novamente Lisboa,  Braga, Cairo, Paris até chegar à casa de partida. Rui Almeida recorda um quarto de século de carreira, recheado de histórias e peripécias. Conta o início de carreira, aborda as condições de trabalho num país em estado de guerra (Síria), lembra as passagens pelo Sporting e Sporting de Braga ao lado de Jesualdo Ferreira, o «mentor que só chegou aos 40 anos». 

Em suma, a viagem é rica e vale o bilhete.

Leia a primeira parte da entrevista: ««O presidente ligou para o banco e pediu que não marcássemos mais»

Maisfutebol: Com o Jesualdo Ferreira, chegou ao Sporting. Como correu a experiência? O clube terminou a época em 7.º lugar.

Rui Almeida: Estávamos na Grécia e o professor disse-me que tínhamos um convite do Sporting. Foi na altura do natal. ‘Muito giro’ disse-lhe. Não estava a pensar regressar a Portugal, mas foi um desafio enorme. O objetivo foi sempre fazer o melhor em cada clube e elevá-lo ao nível mais alto.

MF: Durante a estadia em Alvalade, o Jesualdo Ferreira e a sua equipa técnica deram espaço a vários jovens como o Dier, o Bruma, o Ilori, entre outros. Por que razão o fizeram?

RA: Pela necessidade e pela qualidade dos jogadores. O João Mário também fazia parte dessa equipa, o Adrien não era titular quando chegámos. Fomos buscar o Ilori e o Bruma à equipa B. O Eric [Dier] já tinha jogado como lateral-direito, mas o professor decidiu colocá-lo a «6» e a «8». Vários meses depois, o Bruma e o Tiago foram vendidos para grandes clubes da Europa. Esse foi o reconhecimento do nosso trabalho.

MF: Que situação mais o marcou no Sporting?

RA: Foi difícil, porque apanhámos a mudança de direção do Eng.º Godinho Lopes para a do Bruno de Carvalho. Vivi situações semelhantes depois noutros clubes e sei o quão difícil é.

MF: Para além do Sporting, também passou pelo Sporting de Braga.

RA: O Sporting de Braga viveu uma mudança completa nesse ano [2013/14]. Chegámos ao Sporting de Braga a seguir aos anos do Domingos e ao Jorge Jesus, anos em que o clube fez investimentos enormes. O nosso ano ficou marcado por uma renovação do plantel. É o ano em que chega o Pardo, o Rafa, em que fizemos subir o Mauro da equipa B, entre vários jogadores. Lançámos bases enormes que os treinadores a seguir aproveitaram.

Rui Almeida foi adjunto de Jesualdo Ferreira no Sporting de Braga, na época 2013/14

MF: A aventura no Sporting de Braga não corre de feição, mas continua a acompanhar o Jesualdo. Porquê? Achava que ainda não estava pronto para voltar a ser treinador principal?

RA: Surgiu o convite do Zamalek, que tinha como objetivo ser campeão. Para além de tudo, o que me fez ligar ao professor Jesualdo foi a possibilidade de conquistar títulos. Pensei: ‘vamos fazê-lo aqui e depois logo vejo'. Fizemos a dobradinha e terminei a minha ligação ao professor, até porque já sabia que ele ia para o Qatar e que ia ter um momento de carreira completamente diferente.

MF: Como é que acaba no Red Star, uma equipa que tinha acabado de subir à Ligue 2?

RA: Estava no Mar Vermelho, a fazer um jogo do campeonato, e um amigo ligou-me de França a apresentar o convite do Red Star, um histórico francês que tinha acabado de subir. Fiz uma viagem-relâmpago, fui a França, conversei com os responsáveis do clube e ficámos ambos muito entusiasmados. Dez dias depois estava a treinar o Red Star. 

MF: Era uma equipa recém-promovida à Ligue 2. Não considerou uma decisão arriscada?

RA: A decisão tinha o seu grau de risco. Era um clube de II Liga e eu vinha de quatro clubes gigantes. Tentei sempre passar as minhas experiências do alto nível e talvez tenha sido isso que me fez ter o reconhecimento atual. 

MF: Já conhecia a Ligue 2?

RA: Não muito, mas esse é o nosso papel. Temos de chegar e fazer o nosso trabalho de casa o mais rapidamente possível. Lembro-me que fui para estágio com apenas 12 jogadores, o plantel só ficou fechado no início de agosto. Em dezembro já tínhamos 31 pontos, o que garantia a manutenção, e em fevereiro, já tinha superado de longe esse objetivo. Lutámos pela subida até ao fim. 

MF: A verdade é que acabaram a um ponto do último lugar de subida. Ficou frustrado por não promover o clube, mesmo tendo em conta que esse não era o objetivo?

RA: Não existia play-off na altura. Estivemos várias jornadas no terceiro lugar, mas tínhamos um plantel curto e não conseguimos suportar a pressão. Havia clubes mais potentes como o Metz, que tinha um orçamento muito superior ao nosso. Tínhamos o segundo orçamento mais baixo da Ligue 2, cerca de 6,5 milhões, enquanto o Metz tinha quase 30 milhões, por exemplo. Houve um pouco de frustração, porque a minha ambição é sempre máxima. 

MF: Como se define enquanto treinador? 

RA: Construo as equipas de forma ofensiva. Tive de ser um pouco camaleão no início em França, o Red Star tinha algumas dificuldades em estar alto no terreno. Quero praticar um futebol ofensivo, embora saiba que é necessário ganhar. O negócio assim obriga. Respeito muito os adeptos e valorizo o espetáculo.

Rui Almeida vivia em Paris aquando dos ataques terrorista em novembro de 2015

MF: Depois de uma época bastante positiva, deixa o Red Star. Por que razão?

RA: Saio do Red Star antes do final da primeira volta. Fui convidado a renovar, mas o clube não tinha margem de crescimento. Também não me apresentaram o que pedi para essa época. Deixei o clube fora da zona de descida. O Red Star foi despromovido e este ano volta a estar em zona de descida. Tudo o que antevi e partilhei com o presidente, acabou por acontecer.

MF: Depois da guerra na Síria, o Rui também estava em Paris durante os ataques terroristas [novembro 2015].

RA: Sim, sim. Sinceramente, foi grave para as famílias que perderam entes queridos, mas a vida em Paris não mudou nada. Zero, mesmo.

MF: Deixa um clube da Ligue 2 e acaba no Bastia, que lutava para não descer na Ligue 1. Como surge essa oportunidade?

RA: O Bastia surgiu pelo reconhecimento do meu trabalho no Red Star. Nas últimas doze jornadas fiz 11 pontos, porque o jogo com o Lyon não terminou. Em média, fiz um ponto por jogo, ou seja, em 38 jogos tinha salvado o clube. O Bastia tinha problemas mais graves que os resultados desportivos, tinha um défice de 25 milhões e em França isso não existe. Ou se está a zero ou se desce de divisão.

MF: Sente que se tivesse chegado mais cedo, o Bastia não tinha descido?

RA: Não sou eu que o digo, são os números que o dizem. Provavelmente tinha feito ainda mais pontos e claramente o Bastia tinha ficado na Ligue 1. No entanto, o clube estava completamente desequilibrado.

MF: O Bastia desce e o Rui tem convites de outras equipas. Por que razão isso acontece?

RA: Para se passar por três clubes numa das principais ligas europeias é necessário apresentar trabalho. Na Ligue 2, o campeão faz pouco mais que 62 por cento dos pontos, enquanto em Portugal faz mais de 85 por cento. O Troyes desceu e convidou-me para um projeto de subida, embora este seja o primeiro ano e o clube tenha sofrido várias alterações. O futebol francês reconhece o meu trabalho. Aliás, no primeiro ano no Red Star estive nomeado para melhor treinador da Liga.

MF: Em traços muito gerais, como definiria a Ligue 2?

RA: Tanto jogo contra uma equipa que impõem um estilo de jogo muito físico, com um futebol muito direto e de muita luta, como uma semana depois defronto uma equipa que joga de pé para pé. Essa é a principal dificuldade. O tipo de jogadores que existe também torna distinto o perfil das equipas: o jogador afro-francês coloca mais agressividade no jogo, o jogador árabe tem aquela magia natural, enfim, existe uma mescla muito grande.  

MF: Como é um dia a dia do Rui Almeida, treinador do Troyes?

RA: Chego às instalações do clube por volta das 7 horas, sou o primeiro a chegar. Vejo os campos, a questão dos pequenos almoços e aproveito para acabar de preparar o treino com os meus adjuntos. Depois do treino, junto-me com a minha equipa técnica e regresso a casa por volta 18/19 horas. 

MF: Que metas coloca para o futuro? Pretende regressar a Portugal?

RA: Quero voltar à Ligue 1, de preferência com o Troyes. Quero ganhar títulos, independentemente do nível, e gostava de voltar a treinar clubes grandes, como fiz enquanto adjunto. O convite certo talvez me faça refletir. Como treinador quero tocar o nível que toquei como adjunto.