Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões: rgouveia@mediacapital.pt ou djmarques@mediacapital.pt

A pandemia de covid-19 mudou quase radicalmente o quotidiano das populações. Gradualmente, o Mundo foi forçado a confinar-se, primeiro em alguns países da Ásia, depois na Europa e agora no continente americano, onde o vírus continua a galopar sem dar sinais de abrandamento.

Ainda que o desconfinamento, essa palavra sublinhada como erro nos processadores de texto, esteja em curso, hoje as estradas estão mais desimpedidas, o tráfego aéreo é residual, cafés, restaurantes e esplanadas têm fortes restrições e as fronteiras entre países, total ou parcialmente fechadas, roubaram-nos a liberdade para conhecer novos mundos.

Vai disto e o Maisfutebol procurou um dos futebolistas portugueses com mais mundo neste mundo que é o do futebol: Polónia, Chipre, Bulgária, Ucrânia, Espanha e Roménia.

David Caiado é o convidado ideal para este Estórias Made In e para uma viagem aos países e às memórias mais marcantes de quem não jogou mais de seis meses em Portugal nos últimos dez anos. Histórias de guerra, sangue, dor, lágrimas e também alguns episódios caricatos pelo meio.

 

Zaglebin Lubin, Polónia (2009/10): a difícil primeira vez e o treinador que não gostava de estrangeiros

O primeiro de oito clubes estrangeiros, ao qual rumou por empréstimo do Trofense no verão de 2009. Lubin, cidade pequena, próxima da Alemanha e também da Rep. Checa. «Fui com outro português, o Fernando Dinis, e isso ajudou bastante. Tínhamos um treinador alemão e falávamos a mesma língua, porque eu nasci no Luxemburgo e também falo alemão. Ajudou-me bastante na adaptação ao clube e à cidade e tínhamos uma ligação boa», recorda. Após poucas jornadas, a falta de bons resultados levou a direção do clube a aplicar a chamada «chicotada psicológica» e a nomear para o lugar o então treinador-adjunto da seleção polaca.

E aí tudo mudou. «Apercebi-me que ele não gostava muito de jogadores estrangeiros e optou por apostar em locais para dar a volta à situação. Como estava também na seleção da Polónia, não passava muito tempo no clube: ia a uns treinos e não ia a outros. Era rígido e exigente e eu não estava preparado para aquilo. Desisti facilmente. O clube depositava muitas esperanças em mim e até ponderava no início da época acionar a opção de compra. Mas em dezembro tive uma conversa com o clube, um mês depois de a minha filha ter nascido, e terminámos a ligação», conta. David Caiado reconhece que também ainda não estava preparado para as diferenças que encontrou entre a vida em Portugal – rodeado da família e num contexto mais confortável – e na Polónia.

«Fiz o que não aconselho a ninguém: chegar a um sítio convicto de que o que vou encontrar é o mesmo que tinha. Perdemos energia e preocupamo-nos com coisas que nos tiram rendimento. Mas foi uma grande aprendizagem e que me ajudou a poder abraçar outros projetos já com mais experiência, tranquilidade e capacidade de adaptação.»

 

Olympiakos Nicósia, Chipre (2010/11 a 2011/12): «É um país que já entra nos nossos guias turísticos e também na nossa mentalidade. São um pouco diferentes dos portugueses, mas são igualmente acolhedores e tranquilos. O tempo é muito bom e a comida também: fazem saladas de tudo e têm um queijo local, o Halloumi, que usam para tudo. Encaixei-me bem lá por tudo isso e também pelo facto de a minha equipa também ter muitos portugueses», recorda.

 

Beroe, Bulgária (2011/12 a 2013/14): um apartamento de luxo num prédio a cair e um fratura do perónio diagnosticada ao terceiro raio X

David Caiado tinha vindo passar o Natal a Portugal quando o telemóvel tocou. Do outro lado da linha estava o treinador Ilian Iliev (ele mesmo: ex-Benfica, Marítimo e Salgueiros). Confortável em Chipre, o jogador português estava indeciso. Até se deparar com uma mensagem, talvez uma coisa do destino. «Eu estava a ir de carro para Lisboa e passei por uma fábrica chamada Stara: e o Beroe joga numa cidade chamada Stara Zagora. E sou alguém que costuma estar atento aos sinais, mesmo que eles não signifiquem nada, mas aí senti que algo estava a chamar-me para lá. Duas ou três horas depois, novo sinal: o do telemóvel. Iliev voltou a ligar: «Vou para aí», respondeu sem hesitações. David garante ter sido muito feliz na Bulgária, onde associou boas exibições a conquistas coletivas. Em dois anos e meio num país que, à imagem dos vizinhos de leste, recebe os estrangeiros com frieza e desconfiança, conquistou uma Taça, uma Spertaça, foi à Liga Europa, acabou eleito para o melhor 11 do campeonato no primeiro ano e apontou o golo do ano no segundo. Razões várias para se ser feliz. O extremo foi.

Mas o choque inicial foi grande e não se deveu apenas ao facto de ter mudado de uma realidade com calor e praia para outra, com frio e neve. «No dia em que cheguei, o adjunto foi comigo ver um apartamento. Assim que olho para o prédio disse que não ia viver ali. Entrámos e parecia que tinha sido bombardeado. Tudo partido e sangue no chão. Disse que queria algo mais moderno, mas era o que havia na cidade e a vontade que me deu foi a de voltar para Portugal ou para Chipre, porque ainda não tinha rescindido.» A custo, lá subiram até ao apartamento e a surpresa foi grande assim que a porta se abriu. «Era espetacular e depois percebi que é normal nos países de leste os apartamentos serem pouco cuidados por fora, mas dentro serem muito bonitos. Até acabei por ficar amigo do dono do prédio.»

Acumulou também outros episódios insólitos, entre os quais o de um diagnóstico difícil a uma fratura do perónio. Um filme! «Sofri uma entrada por trás num jogo-treino e senti imediatamente que tinha alguma coisa.» E tinha, mas o médico que o observou após o primeiro raio X disse não haver qualquer problema a nível ósseo e diagnosticou-lhe apenas uma inflamação provocada pela pancada. Confiante em contar com ele para jogo da semana seguinte, o treinador mandou-o até Sofia uma semana para fazer tratamento. A receita prescrita para um regresso rápido à competição: correr à volta do relvado «para o hematoma sair». «Tinha uma dor tão grande que até chorava. Quando acabou o treino, fui falar com o treinador e disse-lhe que não aguentava mais.» Solução? Uma visita a um endireita, num lugar recôndito a duas horas de carro da cidade. Ele começou a estalar-me o pé e disse-me que estava bom. Eu até fiquei mais aliviado do pé, mas a dor na perna continuava e liguei a um fisioterapeuta que estava no Rio Ave e que está agora no Wolverhampton com o Nuno: disse-lhe o que sentia e ele respondeu-me que eu tinha o perónio partido. Novo raio X – o terceiro – e o diagnóstico certo. «Afinal tens a perna partida», apontou o médico.

SC Tavriya e Metalist, Ucrânia (2013/14 e 2015): guerra a começar a meio de um treino, autocarros invadidos por militares com metralhadoras

Dois clubes já extintos, o primeiro deles da cidade de Simferopol, capital da região da Crimeia, ocupada pela Rússia durante a crise com a Ucrânia em 2014. Acabado de chegar ao país, David Caiado foi apanhado no olho do furacão. Antes de assinar, o clima já era de elevada tensão entre Moscovo e Kiev – com conflitos na capital ucraniana – mas uma conversa com Miguel Veloso e Antunes, então no Dínamo, tranquilizou-o.

Rapidamente o conflito atingiu outras proporções na Crimeia e David Caiado e Nuno Pinto, então colegas no SC Tavriya, foram surpreendidos a meio de um treino. «A meio da segunda parte, o treinador começou a chamar-nos para fazermos as malas para irmos embora, porque os russos estavam a invadir a região. Metemo-nos num autocarro para sair da Crimeia e na fronteira tivemos militares russos encapuzados e armados com metralhadoras a entrar no autocarro. Foi um susto grande: passa-nos tudo pela cabeça num momento desses.»

Até ao final da época, as saídas da equipa da região para os jogos do campeonato ucraniano requeriam tempo e burocracia: revistas e questionários dos militares russos à ida e à volta. Pelo menos uma hora para cada lado e a necessidade de apresentação de passaporte e visto. «Passávamos por duas fronteiras: a da Rússia e a da Ucrânia, separadas por um quilómetro», conta.

No meio de uma crise, Caiado reforçou laços de amizade e teceu outros (com o treinador Miguel Cardoso, que estava ligado ao Shakhtar, por exemplo) e não deixou de rir com episódios inusitados, como o que aconteceu na véspera de um jogo para o campeonato diante do Dnipro e meteu álcool noite dentro. «Eu e o Nuno Pinto estávamos no quarto e começámos a ouvir um barulho a vir do corredor por volta das duas da manhã: o lateral-direito e o extremo-direito da nossa equipa estavam bêbados e iam ser titulares no dia a seguir. Talvez por estarem habitados àquele estilo de vida, às 8 ou 9 da manhã pareciam impecáveis, mas depois quando se apanha com um Konolyanka, um Matheus – que passou pelo Sp. Braga – ou um Kalinic, eles não perdoam. O consumo de álcool é algo cultural na Ucrânia: eles bebem muito, mas também são muito profissionais e voluntários no treino e nos jogos. Dão tudo e são bastante intensos.»

Um atentado com a caneta para assinar e fuga de avioneta, Ucrânia (PARTE II)

Foi em Guimarães que David Caiado passou os únicos seis meses da carreira em Portugal nos últimos dez anos. Utilizado em apenas sete jogos na época 2014/15 (marcou um golo), tomou a decisão difícil de regressar à Ucrânia. Próxima paragem: Kharkiv. «Se hesitei em voltar depois do que vivi uns meses antes? Claro! Mas tinha as portas abertas e senti que isso podia mudar até ao final da época se continuasse sem jogar. E o Metalist era um grande clube, com condições fantásticas e a disputar as competições europeias», diz.

Em fevereiro, Caiado foi até à Turquia negociar contrato com os responsáveis do Metalist. Nessa altura, um atentado numa manifestação na cidade fronteiriça com a Rússia provocou pelo menos quatro mortes. Preocupada, a irmã enviou-lhe uma mensagem a pedir-lhe para não assinar contrato, mas uma conversa com os diretores do clube deixou-o tranquilo. Seguiu em frente e assinou um contrato três vezes superior ao que tinha na Cidade Berço, embora consciente de que o clube não cumpriria o acordado. «Apesar das boas condições de trabalho, eu sabia que o clube atravessava dificuldades e que num ano e meio de contrato iria receber poucos meses. Mas isso permitiria que eu voltasse a ter um determinado estatuto enquanto jogador e a ter novas portas abertas a curto ou médio-prazo.»

Em julho, o Metalist devia já vários meses de salários aos jogadores. Todos os estrangeiros foram embora da equipa, à exceção de David Caiado, merecedor da confiança do novo treinador. Sem receber desde abril e desconfortável com a situação, o jogador português tomou a decisão difícil de «desertar» a meio do estágio de pré-época. «Falei com o meu advogado e contei-lhe a situação. Ele disse-me que havia uma forma legal de sair de lá: estava sem receber há três meses e podia apanhar um avião. Na pior das hipóteses poderia pagar uma multa de 25 mil euros, o que não era nem perto do que ficaram a dever-me, mais de 500 mil euros.»

No meio das montanhas, conseguiu que alguém o levasse às 6 da manhã até um aeroporto minúsculo, com capacidade para receber aeronaves com capacidade para transportar pequenos grupos de passageiros. Já em Kiev, enquanto esperava por um voo de ligação para Portugal, recebeu ameaças da parte do clube. «Que ia ficar dois anos sem jogar e que ia ter problemas.» David Caiado, que foi formado no Sporting e cruzou-se com as gerações de João Moutinho, Nani, Miguel Veloso, Fábio Paim, Rui Patrício e Daniel Carriço, voltou a Portugal praticamente sem nada. De Kharkiv recorda uma cidade grande e onde a hostilidade para com os russos era grande. «Cheguei a apanhar táxis com colegas que falavam russo e os taxistas, principalmente os mais velhos, recusavam-se a transportar-nos», recorda.

O jogador português não falava russo nem ucraniano, mas acabava por levar por tabela, tal como acabou por lhe acontecer em campo, mas por razões diferentes. «O treinador só falava russo e ucraniano e eu só tinha dois colegas que falavam inglês. Como só um é que era convocado, eu dependia dele para saber o que o treinador queria de mim no jogo. É que, ainda por cima, ele não colocava as nossas posições num quadro quando dava o onze. Muitas vezes ia para o aquecimento ainda sem saber onde ia jogar», lembra. Nessa época, David Caiado atuou em quatro posições: extremo-direito, esquerdo, número 10 e ponta de lança. Compreensível, não?

Ponferradina, Espanha (2015/16 a 2017/18): ao lado da pátria e o nascimento de uma relação

Cidade de Ponferrada, comunidade de Castela e Leão, fronteira com Portugal a hora e meia. Nunca David Caiado esteve tão perto do país onde cresceu e que deixou aos 22 anos. «Estava ao lado de casa e num país fantástico, onde tive a oportunidade de conhecer a minha mulher. Foi positivo a nível pessoal e, desportivamente, joguei numa das ligas mais competitivas do mundo, a II Liga espanhola. Ponferrada tem um castelo edificado do século XIII e é uma cidade de média dimensão e «acolhedora». «Está dentro do estilo que eu gosto: cidades que não sejam muito grandes e que tenham pouco trânsito.»

 

Gaz Metan e Hermannstadt, Roménia (2018 - …): voltar a sentir-se jogador na Transilvânia do Conde Drácula

A passagem por Espanha teve a duração de dois anos e meio. Foi a mais prolongada da carreira de David Caiado desde que se estreou no futebol profissional, em 2006 com a camisola do Sporting frente ao Sp. Braga. Seguiu-se a Roménia: a sexta e, até agora, a última paragem.

«O Ponferradina desceu para a II divisão B e passado um ano e meio não estava a conseguir alcançar o objetivo de regressar. Sentia-me cómodo, tranquilo, mas senti que a nível desportivo não iria obter mais do que aquilo. E foi aí que senti a necessidade de voltar a sair. ‘Se estás demasiado bem e cómodo, muda-te’. Precisava de um novo desafio e apareceu o Gaz Metan, onde voltei a sentir-me jogador, como se costuma dizer», explica.

Caiado foi ganhar para a Roménia praticamente o mesmo que auferia em Espanha, com a vantagem de voltar a jogar, ao fim de alguns anos, numa primeira liga e ter outro tipo de visibilidade. «A época acabou por correr bem, renovei contrato e tive uma segunda temporada muito positiva a nível individual e coletivo.»

O extremo português e a mulher viviam em Medias, uma pequena cidade pouco convidativa, mas pela qual se apaixonaram contra todas as expetativas. «Tínhamos tranquilidade e não estávamos muito longe de grandes cidades. Conseguia ter a vida que eu gosto: visitar as cidades, mas viver fora delas.»

Se estás demasiado bem e cómodo, muda-te

E David Caiado mudou-se. Não para outro país, mas para ali bem perto, a menos de uma hora de distância de carro. Sibiu, também conhecida como Hermmanstadt (o nome do clube), cidade com muitos espaços verdes, um centro bonito, rodeada pelas montanhas dos Cárpatos e integrada na região da Transilvânia do célebre personagem Conde Drácula, criado pelo irlandês Bram Stoker em finais do século XIX. «Já lá fui, mas quando olhamos para o castelo é inevitável virem-nos os filmes à cabeça, mas quando entramos lá dentro é tudo diferente. Até as histórias que nos contam.

O Hermmanstadt foi fundado em 2015 e teve uma ascensão galopante até chegar à Liga romena, onde luta pela permanência «Tem algumas deficiências a nível de infraestruturas, talvez porque as pessoas que entraram aqui têm dinheiro, mas faltava-lhes algum conhecimento a nível futebolístico. Mas agora, apesar das dificuldades, está mais organizado e o potencial para crescer é grande.»

Próximo destino? Talvez carimbar o passaporte futebolístico com Coreia do Sul ou Japão.

Até lá? Sentir-se demasiado bem e cómodo.