Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@mediacapital.pt e rgouveia@mediacapital.pt

Marcamos a conversa com o nosso interlocutor para sexta-feira numa hora aceitável. Para nós, que são 10 da manhã, e para Paulo Tavares, que nos atende quando o sol caminha para se pôr no sudeste asiático.

Do lado de lá da linha telefónica, o mundo está sete horas adiantado. O médio de 32 anos (faz 33 em dezembro) está em Ho Ci Minh.

A outrora denominada Saigão é o centro financeiro do Vietname, país com quase 100 milhões de habitantes. O caos do trânsito é o próprio de uma urbe oriental com mais habitantes do que Portugal inteiro, mas não chega para pôr em extremo sobressalto uma região que durante décadas foi palco de ocupações indesejadas e de sangrentas batalhas fratricidas.

Paulo Tavares habituou-se à lufa-lufa da cidade que o acolheu em fevereiro deste ano, altura em que trocou o Cova da Piedade pelo Ho Chi Minh City FC, da I Liga vietnamita. «Quando cheguei cá e comecei a ver a confusão do trânsito, pensei que nunca conseguiria atravessar uma rua a pé. Pensava que a única solução que teria era meter-me num carro e só sair dele quando chegasse ao destino. A quantidade de motas é incrível e os carros não ajudam», conta ao Maisfutebol.

As pesquisas nos motores de busca pela cidade mais populosa daquele país asiático remetem-nos frequentemente para o trânsito intenso. Há até dicas de como atravessar a rua, imagine.

«Andar de mota com um vietnamita dá uma adrenalina incrível. Andam por cima dos passeios e passam os vermelhos»

Depois do choque inicial, Paulo Tavares até já acha piada àquele caos que afinal de contas não é tão desordenado quanto aparentava à primeira vista. Está convencionado que as motas andam pelo lado direito da estrada e os carros circulam pelo esquerdo. E os peões? «Temos de levantar o braço para que nos vejam bem. E aí avançamos com passos curtos, enquanto as motas passam pela nossa frente e por trás.»

Paulo Tavares explica que o conselho é para ser levado muito a sério, sobretudo no distrito 1 (a chamada zona fancy da cidade) e nas horas de ponta, tendencialmente às 7 da manhã e entre as 17h00 e as 21h00. «Agora até já me sinto confortável a andar a pé, mesmo com as motas a circularem por cima dos passeios, a passarem vermelhos e a buzinarem constantemente, porque aqui não gostam de parar. O engraçado é que, apesar disso, ninguém se chateia, ao contrário do que acontece aí em Portugal. Acho que esta loucura da cidade é o que lhe dá piada», explica entre risos.

Para o outro lado do Mundo pela mão de um antigo companheiro de equipa

Depois de em 2016/17 ter rumado pela primeira vez ao estrangeiro para jogar nos ingleses do Port Vale, Paulo Tavares regressou a Portugal. Cova da Piedade, no concelho de Almada, foi uma aventura curta que durou pouco mais de meia-dúzia de meses. A época, conta, até estava a correr-lhe bem, mas o destino colocou-lhe no caminho um velho conhecido dos tempos no Leixões.

Lê Công Vinh, antigo companheiro do português em 2009/10, herói da seleção do Vietname e então presidente do Ho Chi Minh, andava à procura de um médio-centro. «Foi engraçado ele ter-se lembrado de mim e acabou por fazer muita força para que eu viesse, com a ajuda do Tiago Calisto, filho do Henrique Calisto, que é muito respeitado aqui.»

Paulo Tavares admite ter hesitado muito até decidir finalmente embarcar. «Vou ser sincero: o que me veio logo à cabeça quando me falaram do Vietname foi guerra. Mas o Lê Cong Vinh mandou-me vídeos para me mostrar que não havia qualquer problema», recorda.

O jogador conversa com o Maisfutebol a poucos dias de regressar a Portugal, cerca de um mês após o fim do campeonato local. O entusiasmo com que fala da aventura no Vietname que está prestes a terminar atesta que o sentimento é de realização. «Vou-me embora para a semana e vou sentir saudades: esta cidade é incrível, as pessoas são fantásticas e tenho qualidade de vida.»

Futebol competitivo num país de «loucos» pela seleção

Paulo Tavares somou 17 jogos pelo Ho Chi Minh. A atuar na posição convencionalmente conhecida como «box-to-box», assinou algumas assistências mas ficou em branco em matéria de golos. A meio do ano, altura em que o mercado de transferências reabriu, deixou de jogar com frequência. «Cada equipa só pode ter dois estrangeiros e mais um outro que tenha passaporte asiático. É comum aproveitarem a janela para trocarem os jogadores estrangeiros», explica.

«A Liga é competitiva, não é assim tão fraca como as pessoas de fora possam pensar, mas poderia ser ainda melhor se abrissem mais uma ou duas vagas para estrangeiros», acrescenta.

Mais do que seguidores de clubes, os vietnamitas são fanáticos pela seleção. Num país onde poucos estádios enchem, Tavares conta que a população escolhe o apoio a uma determinada equipa em função do número de estrelas locais que a compõem.

«Os adeptos são exigentes sobretudo para os estrangeiros. Quando a equipa ganha, os jogadores vietnamitas são bons; quando perde, os estrangeiros é que não são bons»

«Eles querem é saber da seleção. Lembro-me de termos jogado em casa contra uma equipa que tinha quatro jogadores sub-23, a chamada geração de ouro deles: nunca tinha visto o estádio com tanta gente, a maioria para a apoiar o nosso adversário. Os jogadores da seleção, sobretudo os sub-23, arrastam tudo o que é miúdos. Cada vez que tocam na bola é uma barulheira.»

No Ho Chi Minh, as condições de trabalho eram boas. O estádio, com capacidade para mais de 20 mil espectadores, é partilhado com outra equipa da cidade e do campeonato – o Sai Gon FC – e as instalações do clube estão dotadas de um centro de treinos com balneários para jogadores locais e estrangeiros. «Nós estávamos separados deles. Porquê? Porque os vietnamitas dormiam no centro de treinos e os balneários eram também quartos e tinham camas individuais» conta.

«Dietas» diferentes e a recordação de um… embaraço

Às refeições, sobretudo nas concentrações para os jogos fora de casa, também havia separação entre vietnamitas e estrangeiros. Para além de os hábitos alimentares serem radicalmente diferentes, o comportamento à mesa também é outro. «A ideia não era afastarem-nos, mas eles sentiam que talvez nos sentíssemos mais confortáveis no nosso habitat, com a nossa comida e com a nossa maneira de estar.»

«O barulho que eles fazem a comer é uma coisa impressionante. Comem muito, a uma velocidade fora do normal e falam ao mesmo tempo. É uma confusão incrível. E agora imagina quando eles se começam a rir e a engasgar-se. Tem piada, mas é melhor observar de outra mesa», observa bem-disposto quem reconhece não ser muito dado a aventuras gastronómicas.

«Felizmente que havia muitos restaurantes estrangeiros: espanhóis, brasileiros, italianos, franceses e australianos. Eu também gosto de fazer a minha comida, é mais seguro. Confesso que sou um bocado esquisito e não consegui experimentar nada de muito estranho, pelo menos que eu saiba. Insetos? Eles gostam de dar a provar, mas nem vale a pena [risos].»

Paulo Tavares passou sozinho a maior parte dos nove meses no Vietname. Ainda nos primeiros tempos, a namorada esteve algumas semanas com ele no país e levou com ela o animal de estimação dos dois: um cão num país que tem este mamífero instituído na dieta.

Na altura, foi avisado: «Disseram-me para ter cuidado com o meu cão quando fosse à rua. Contaram-me que às vezes há gente que passa de mota com uns ganchos para os apanharem pela trela. Tive algum receio, mas nunca vi isso acontecer. Aliás, nunca me senti inseguro na cidade.»

É nos hábitos alimentares que se observa, talvez, o maior contraste entre dois mundos, mas a forma diferente como o futebol é vivido pelos vietnamitas também origina situações inesperadas.

Paulo Tavares partilha uma ocorrida logo no primeiro jogo fora de casa para o campeonato, quando ainda estava um pouco «às escuras».

«Perdemos e o normal quando se perde é estar em silêncio, tomar banho e ir embora. Quando cheguei ao balneário, olhei para o telemóvel para ver os outros resultados e comecei a tirar a roupa. De repente, quando viro as costas só vejo adeptos a invadir o balneário: queriam tirar fotos com os jogadores e, sobretudo, com o Vinh, o nosso presidente que tinha sido capitão da seleção. Eu nem sabia o que fazer. Vi-me à rasca para vestir a roupa.»

Aí, Tavares ficou a saber que o uso dado aos balneários após os jogos é diferente no Vietname. «O tradutor disse-me que não é habitual tomar-se banho: os jogadores vestem um fato de treino, sobem ao autocarro e só tomam banho no hotel. Em casa, nós, estrangeiros, tomávamos sempre banho, mas havia locais que depois dos treinos faziam banho de gelo, passavam uma toalha, vestiam o fato de treino e iam embora.»

A situação atingia ainda proporções mais inusitadas quando os jogos corriam mal.

E foram vários os que correram mal ao Ho Chi Minh, não obstante a permanência assegurada na Liga vietnamita. «Aí, a azia era tão grande que eles sacudiam as botas, metiam tudo no saco e subiam logo para o autocarro [risos].»

De país da guerra a paraíso

Já sem qualquer compromisso com o clube, Paulo Tavares aproveitou as últimas semanas para conhecer melhor o Vietname. Diz que é possível encontrar de tudo naquele recanto da Ásia oriental. Destinos montanhosos verdejantes, praias paradisíacas e megacidades, como Ho Chi Minh ou a capital Hanói.

Enquanto fala com o nosso jornal, o jogador está à junto à piscina do condomínio onde vive. Daquele lado do mundo já são 18h10 e a temperatura ronda os 30 graus celsius. «O norte do país é diferente, mas eu nunca tive frio aqui até hoje. Sinto dificuldades para andar de calças de ganga, é só calções, t-shirt e um chinelo ou uma sapatilha.»

A figura de Ho Chi Minh, fundador da República Democrática da Coreia, está espalhado um pouco por toda a cidade, que adotou o nome do antigo presidente do país após a queda de Saigão em 1975. «O dinheiro também tem a figura dele», conta Paulo Tavares

O país da guerra é, afinal, uma terra de paz, ainda que em Ho Chi Minh os resquícios de tempos duros não sejam, propositadamente, apagadas. O Museu da Guerra (War Remnants Museum), no distrito 3 da cidade, é um dos espaços mais populares de todo o país e preserva as memórias da Guerra da Indochina (entre os anos 40 e 50 do século passado) e da Guerra do Vietname, entre 1955 e 1975.

«Eu nunca fui lá. Não consegui ir, mas sei do que se trata. Vemos coisas chocantes, de pessoas que estão vivas mas que sofreram muito com o que aconteceu, com graves deformações. A minha namorada visitou o museu e chegou a casa a chorar. Só umas duas horas depois é que conseguiu falar. A guerra está muito presente nas pessoas, principalmente nas mais velhas», refere.

Futuro deve passar pela Ásia

Para trás, fica uma aventura que vai deixar saudades. Percebe-se isso pela forma nostálgica com que já fala sobre o país onde garante ter sido muito bem acolhido. «A componente financeira foi inicialmente importante, mas acabei por ter uma experiência fantástica. Não sei o que virá a seguir, mas não devo ficar a jogar no Vietname.»

Para o futuro, aí ao virar da esquina, Paulo Tavares tem uma certeza: quer prosseguir a carreira pela Ásia, até porque diz que em Portugal a valorização dada a um jogador depois dos 30 anos já não é a mesma.

«Sinto que com esta idade somos mais valorizados fora do país. Gostava de continuar por esta região: de experimentar uma Malásia, uma Tailândia ou uma Indonésia e de ter a oportunidade de conhecer outras culturas», conclui.

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