Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@mediacapital.pt e rgouveia@mediacapital.pt

Ivo Pinto está de regresso ao Dínamo Zagreb depois de ter ajudado o Norwich a regressar à Premier League. Formado no Lusitânia Lourosa e no Boavista, estreou-se como sénior pelo FC Porto num clássico com o Sporting em Alvalade. Depois jogou sucessivamente no Gil Vicente, V. Setúbal, Sp. Covilhã e U. Leiria antes arriscar a primeira aventura no estrangeiro, na Roménia, com a camisola do Cluj. Mas foi em Zagreb, na Croácia, com a camisola do crónico campeão Dínamo, que Ivo foi mais feliz. Daí saltou para a Premier League, jogou três temporadas no Championship, chegou a ser capitão do Norwich e, ainda há uma semana, andou a empurrar o autocarro na festa do título. Agora, aos 29 anos, vai regressar a Zagreb para prosseguir a carreira onde já foi feliz. Venha daí conhecer este lateral que tem encontrado a felicidade e deixado saudades por onde tem passado.

Nascido em Lourosa há 29 anos, o pequeno Ivo foi desde cedo «obrigado» a jogar futebol. «O meu irmão mais velho foi provavelmente a maior inspiração que tive para começar a jogar futebol. Era ele que me levava e quase forçava para ir jogar futebol com ele. Aprendi muito com ele e provavelmente sem ele nem tinha ido para o futebol», começar por contar Ivo em referência ao irmão mais velho, João Pinto, defesa que, aos 33 anos, atua no Sp. Espinho.

Dos pontapés na rua, Ivo começou a jogar no Lusitânia de Lourosa, mas rapidamente atraiu a atenção do Boavista. «Tive imensos colegas de equipa durante toda a minha formação, entre os quais fiz bons amigos. Excelentes jogadores como o Diogo Viana, o Josué, o Pedro Moreira», recorda. Numa primeira fase, Ivo tinha uma fixação com o Real Madrid. «Quando comecei no futebol não tinha muitas referências, mas adorava ver o Luís Figo jogar e fascinava-me o Real Madrid, só mais tarde tive uma referência mais próxima, chegando mesmo a estar com ele, que foi o Bosingwa».

O antigo internacional português não estava muito longe. Ivo Pinto estava no Boavista e Bosingwa jogava mesmo ali ao lado, no Dragão. Não se cruzaram por muito pouco, aliás. Ivo Pinto é contratado pelo FC Porto, ainda como júnior, na altura em que Bosingwa ruma ao Chelsea. A vida de Ivo mudou subitamente. Num abrir e fechar de olhos estava a treinar no Olival. Outra piscadela e estava a treinar com a equipa principal, às ordens de Jesualdo Ferreira. «Essa mudança obrigou-me a mudar a forma de pensar o futebol. Foi aí que acreditei que seria profissional de futebol e que essa iria ser a minha vida», recorda.

A verdade é que nessa mesma época foi surpreendido com uma convocatória de Jesualdo Ferreira para um jogo das meias-finais da Taça da Liga, no Estádio de Alvalade, frente ao Sporting. Ivo Pinto já estava nas nuvens quando se sentou no banco e ultrapassou a estratosfera quando lhe pediram para aquecer já perto do final do jogo. Faltavam poucos minutos para o final e o Sporting estava a vencer por 4-1. Sob tremenda pressão, Ivo Pinto rendeu Andrés Madrid e não se esquece daqueles poucos minutos que esteve em campo. «Lembro-me que a única vez que toquei na bola, usei o que de melhor tenho. Peguei na bola e corri (risos)…mas correu bem. Ainda fiz um bom cruzamento que até podia ter dado alguma coisa, mas não deu (mais risos). Foi um momento único para mim!», recorda.

Ivo Pinto cumpriu apenas uma temporada no FC Porto, mas fez amigos para a vida. «Muitos e grandes amigos. Já falei no Diogo Viana e no Josué que estavam em patamares mais altos, mas também posso falar no Chula, no Ruca, etc ... tudo jogadores e amigos que levo comigo», destaca. A verdade é que Ivo Pinto, já naquela altura, tinha a noção que não ia ficar no FC Porto. «Foi uma possibilidade que nunca me foi colocada ou, pelo menos, nunca foi passada para mim, por isso mal pude, e bem aconselhado, desvinculei-me do FC Porto».

Antes da desvinculação, Ivo Pinto ainda cumpre três temporadas em que foi sucessivamente emprestado ao Gil Vicente, V. Setúbal, Sp. Covilhã e União Leiria. «O Sp. Covilha ajudou-me muito a relançar a carreira depois de no Vitoria ter sido pouco utilizado. No União Leiria também não foi fácil devido aos muitos problemas financeiros que o clube passava na altura», recorda.

Ivo Pinto estava determinado a dar uma volta à sua vida e a oportunidade caiu do céu. «Fui observado pelo Cluj, O clube mantinha uma boa relação com o meu agente e fui. A oportunidade de jogar na Liga dos Campeões pesou imenso na decisão claro». Uma mudança radical para o futebol romeno, mas a verdade é que Ivo Pinto encontrou um ambiente caseiro, com mais oito jogadores portugueses e outros jogadores que já tinham passado por Portugal.

No Cluj, Ivo Pinto encontrou Mário Felgueiras, Nuno Claro, Cadú, Nuno Diogo, o eterno capitão Mário Camora, Diogo Valente, Celestino e Rui Pedro, além de outros que tinham jogado em Portugal como Edimar, Luís Alberto, Godemèche, Ronny e Weldon. «Foi muito bom! O plantel contava com muitos portugueses, sendo que já conhecia alguns, um deles era o capitão do clube, o que foi ótimo para a minha integração».

Na liga romena, Ivo Pinto soma mais de quarenta jogos e tem o primeiro contato com a Liga dos Campeões, jogando quatro jogos na fase preliminar, mais seis na fase de grupos. O final da época trouxe-lhe uma nova página na carreira. Uma proposta para ir jogar para a Croácia onde teria melhores condições do que na Roménia. «Sim, somei títulos, joguei na Liga Europa e somei mais uma edição da Liga Dos Campeões. Foi mais uma boa experiência onde fui super-bem recebido», recorda.

Em Zagreb, Ivo Pinto, com Rúben Pinto e, mais tarde, também com Eduardo, Paulo Machado, Gonçalo Santos e Wilson Eduardo, acumula títulos. Foi três vezes campeão e ainda conquistou uma Taça da Croácia, mas a meio da terceira temporada recebeu mais uma proposta irrecusável. Tinha um convite do Norwich para ir jogar para a Premier League. «Foi a concretização de mais um sonho! A Premier League é sem dúvida uma coisa à parte!».

Ivo Pinto chegou a meio da época, em janeiro, ainda somou dez jogos, mas o clube acabou por cair para o Championship, uma das ligas mais competitivas do mundo, com cerca de uma dezena de candidatos a lutar pela promoção. «É uma loucura onde, mesmo não havendo tanta qualidade como há na Premier League, a competitividade é sem dúvida estrondosa. As assistências nos estádios são fantásticas e sem qualquer sombra de dúvidas é uma das melhores ligas do mundo!».

O lateral português cria de imediato laços fortes, não só dentro do balneário, mas também com as bancadas e rapidamente chega a capitão. «É algo que nunca vou esquecer, muito amor, muito carinho e muito respeito, tanto de mim para eles, como deles para mim. Tanto eu como a minha família sentimos-nos verdadeiramente em casa e isso não tem preço», comenta. Tempos felizes que levaram a família de Ivo Pinto a crescer. «Nessa altura nasceu a minha filha e foi então que percebi o quão bonita a vida pode ser. A minha filha é a razão de tudo isso», comentou.

Nas primeiras duas épocas no Norwich, Ivo soma quase oitenta jogos, enverga a braçadeira de capitão e marca três golos. Mas na última, que levou a equipa de volta à Premier League, Ivo Pinto foi pouco utilizado e somou apenas cinco jogos. Uma mudança brusca que tem uma explicação. «Estava a jogar e tive uma lesão que me afastou por dois jogos. Enquanto estive fora vencemos e por força das circunstâncias a equipa não mudou e tive que esperar pela minha oportunidade», conta. A verdade é que a equipa acabou por continuar a vencer «o que foi excelente para o clube, mas menos bom para mim como é natural».

Apesar de menos utilizado, Ivo Pinto recorda uma época marcante. «De qualquer das formas, fico muito feliz pelo sucesso de toda a gente. Voltámos à Premier League, que é onde o Norwich merece estar, fomos campeões, foi uma loucura». Na festa do título, a cidade saiu à rua, em tons de amarelo. «Era feriado, mesmo feriado [feriado tradicional na primeira segunda-feira de maio], então a cidade estava cheia de adeptos nossos, o que foi magnífico!».

A equipa desfilou pela cidade até ter um pequeno problema com o autocarro. «Ui, ui! Felizmente estávamos em Inglaterra e eles já tinham um plano B, por isso não criou muitos problemas!». A equipa teve de descer do autocarro e até ajudou a empurrar, mas sem muito êxito, diga-se. «Engraçado que com os jogadores o autocarro não andava, mas depois com a equipa de segurança em cima ele andou! Devia ter algum problema connosco (risos )», recorda.

Nesta altura, Ivo Pinto já tinha sido informado que o Norwich não tencionava renovar o seu contrato e até já tinha acertado a desvinculação do clube para poder assinar pelo Dínamo Zagreb, mas foi convidado a participar na festa do título e até foi chamado ao relvado para se despedir dos adeptos.

Mais um momento que Ivo Pinto vai guardar para toda a vida. O defesa subiu ao relvado ao som de aplausos e o diretor desportivo Stuart Webber ofereceu-lhe uma fotografia emoldurada dele próprio a festejar um golo. «Acho que muitas lágrimas foram largadas por muita gente, a começar por mim, mas também por alguns adeptos. Estou muito agradecido por ter feito parte daquela família», conta.

A verdade é que Ivo Pinto perde uma oportunidade para, aos 29 anos, voltar a jogar numa das melhores ligas do mundo, a Premier League. «Sim, claro que lamento, mas o futebol é isto mesmo e já estou pronto para o próximo desafio», comentou.

O próximo desafio passa para um clube que Ivo Pinto já conhece bem, o Dínamo Zagreb. «Conheço lá muita gente que nunca parou de estar em contato comigo durante estes três anos e meio. E o feedback no momento em que assinei novamente foi excelente. Ainda lá tenho alguns amigos. A minha família é fantástica e claro que me acompanhará em mais um desafio», destaca.

Somando Cluj a Dínamo Zagreb e Norwich, são já sete anos no estrangeiro, mas Ivo Pinto nunca desvalorizou um regresso a Portugal e ao futebol português. «Claro que sim, quanto mais não seja para pendurar as botas (risos). Neste momento seria impossível, mas no futuro nunca se sabe. Adoro o nosso campeonato».

Agora é tempo de férias e de começar a pensar na próxima temporada em Zagreb. «Quero ser novamente campeão e juntar mais uma presença na Liga dos Campeões», destacou ainda Ivo Pinto, sempre bem-disposto e feliz com a vida.

 

Artigo original: 21/05; 23h50