A viver uma das melhores épocas da carreira, com seis golos e 10 assistências em 28 jogos pelo Estoril, João Carvalho é o rei das assistências na Liga (11). Natural de Castanheira de Pera (Leiria), o capitão dos “Canarinhos” aproveitou a pausa competitiva para reencontrar o Maisfutebol.

Aos 29 anos, o médio – também talhado para jogar a extremo – abre o livro sobre o momento da carreira, os sonhos por cumprir e o espaço do futebol na esfera privada.

Formado no Benfica – num ciclo de 15 anos – João Carvalho já vestiu as cores de Vitória de Setúbal, Almería, Olympiakos – onde conquistou a Liga Conferência – e Nottingham, o próximo adversário do FC Porto na Liga Europa.

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Maisfutebol (MF): Os números revelam que atravessa o melhor momento da carreira. É o que sente?

João Carvalho (JC): Sim. Os números falam por si. Não sei se é o meu melhor momento em termos de exibições, mas é em termos de números.

MF: Na entrevista de 2024 expressou o desejo de assinar por um clube onde se sentisse desejado. O Estoril é esse lugar?

JC: Acima de tudo estou feliz, que é o mais difícil de conseguir no futebol. Não é possível jogar sempre em clubes de topo, como no Olympiakos, e há que dar um passo atrás. Foi importante para me sentir bem e em casa.

MF: É o capitão do Estoril. Que responsabilidade adicional acarreta esse estatuto?

JC: Pouco mudou, na última época era “sub-capitão”. O mais difícil é pensar no discurso antes do jogo, porque não estava habituado. Vai da minha personalidade, sou introvertido. É sair da zona de conforto. O discurso é o meu stress durante o aquecimento. Mas é fácil ser capitão no Estoril, uma vez que temos um bom grupo. Assumir a braçadeira foi um processo natural, aconteceu quando o Pedro Álvaro saiu. Recebi a braçadeira e assumi a responsabilidade.

MF: Já jogou em Portugal, Inglaterra, Espanha e Grécia, mas Ian Cathro é o primeiro treinador escocês com quem trabalha. Quem é este britânico?

JC: A primeira chamada foi engraçada, não estava à espera de que ele falasse tão bem português. Fiquei sem perceber se estava a falar com a pessoa certa. Ele trouxe a mentalidade de jogar para ganhar. Às vezes ficamos a olhar uns para os outros quando ele diz que um jogo contra uma equipa grande é igual a outro qualquer. Mas mentalmente é muito importante. E ele não muda. É o aspeto que mais valorizo nele.

MF: (…)

JC: Ele nunca está com falas mansas. É igual na flash, na conferência de imprensa e nos treinos. Às vezes sai-se com aquelas frases míticas e engraçadas, mas é o que realmente pensa. Somos uma equipa que olha mais para si do que para os adversários.

MF: E para lá do futebol, quem é Ian Cathro?

JC: Somos semelhantes, somos homens de família. Ele fala muitas vezes sobre a filha. Mas para lá do futebol não o conheço muito bem. Ele é o treinador e nós somos os jogadores.

MF: Ian Cathro já referiu que qualquer equipa sentiria falta de um jogador como o João Carvalho.

JC: É mais uma responsabilidade. Fico agradecido e feliz por essas palavras. Sinto-me ainda mais confiante.

MF: Por falar em confiança, o arranque da época não foi fácil, com uma vitória em oito jornadas. Ainda assim, este cenário não provocou mudanças no comando técnico.

JC: Porque acreditámos em nós. Claro que, agora, o plano de jogo funciona melhor, com alguns ajustes e jogadores diferentes. Mas o mais importante foi acreditarmos nos processos.

MF: Como está o ambiente no balneário?

JC: Mau, honestamente. Queríamos ganhar ao Rio Ave, era um passo importante. Ainda estamos a analisar o que aconteceu. Para a semana já vamos pensar no Arouca. Ainda assim, sabemos que estamos bem e a fazer uma boa época. Como equipa aguentamos tudo e queremos fazer um jogo diferente contra o Arouca.

MF: Na última época terminaram no 8.º lugar com 46 pontos. Esta época são sétimos com 37 pontos.

JC: Podíamos ter, pelo menos, mais seis pontos. Temos consciência do nosso bom trabalho, mas podia ser ainda melhor.

MF: Em destaque está também o Begraoui, o único jogador do Estoril com mais jogos (29) e golos (17) do que o João Carvalho. Este avançado marroquino de 24 anos tem lugar no Mundial 2026?

JC: Sei que ele quer muito estar no Mundial, sinto que ele merece lá estar, mas também sei que é difícil reconhecerem o mérito dele estando em Portugal. Ele próprio sabe que é difícil, mas deve continuar a trabalhar com afinco e ambição.

MF: Vai ser fácil impedir a saída do Begraoui no verão?

JC: Não sei. Por mim…ficava. Somos amigos, se algo de melhor surgir, ficarei feliz por ele.

MF: O plantel do Estoril conta com Ferro e Pizzi, dupla ex-Benfica e que conhece bem.

JC: Mantemos a boa amizade. O Ferro foi colega de equipa durante muitos anos [na formação do Benfica] e eu estava a par da situação, ainda antes de ele assinar pelo Estoril. Sobre o Pizzi, eu era miúdo quando cheguei à equipa principal do Benfica e ele esteve sempre presente, era um dos capitães. É outra pessoa fantástica e aporta qualidade à equipa.

MF: Qual a sensação de ser capitão do Pizzi?

JC: É fácil. Ele é uma pessoa de trato fácil. Ser capitão acresce uma ou outra responsabilidade, mas somos todos jogadores.

MF: Nesta época regressou à Luz para defrontar o Benfica de José Mourinho. E até marcou.

JC: Foi o treinador que abriu portas ao futebol português. É ótimo poder defrontar os melhores. Ainda assim, prefiro saber quem é o médio ou o lateral titular do Benfica [risos].

Prossiga para a segunda parte desta entrevista.