O pai jogou no Varzim e abriu um café em Penafiel. Rúben Ribeiro começou a jogar futebol na cidade duriense, depois da melhor aprendizagem de todas: as peladinhas no bairro de Ramalde, cidade do Porto.

Em entrevista exclusiva ao Maisfutebol, o médio - grande figura do Boavista - recorda a infância difícil e os sacrifícios para conciliar escola e futebol. Chegou a fazer dez quilómetros por dia, entre a ajuda ao pai na distribuição de publicidade e as caminhadas para o Estádio do Mar, a partir de casa.

O ídolo de Rúben chama-se João Vieira Pinto, mas os treinadores José Mota, Francisco Chaló e Costinha merecem-lhe também os maiores elogios.

No coração tem o Leixões (e o Boavista, claro). Os elogios, porém, terminam ao recordar o período passado no Paços de Ferreira. Desabafos e confissões fortes de um grande talento do futebol nacional.

Rúben Ribeiro com a camisola do Rio Ave

Há uns anos disse que se ganhasse o Euromilhões ajudava os amigos do seu bairro. Continua muito ligado a Ramalde?

«Muito, muito. Foi lá que comecei a jogar à bola. Descalço, quase sempre. O meu pai foi futebolista profissional e o bichinho esteve sempre lá (risos). Chama-se José Ribeiro e jogou no Varzim na década de 80. Jogou com o André, o pai do André André. Saiu do Invicta, de Massarelos, diretamente para o futebol profissional. Era um bom médio, saltou dos amadores para a I Divisão».

Foi ele que o levou para o futebol federado?

«Acabou por ser. No Penafiel, curiosamente. O meu pai é de lá e tinha um café. Fui treinado pelo Rui Quinta nas escolinhas».

E a escola?

«Nunca fui muito de estudos. As condições não eram as melhores, os meus pais não tinham grandes possibilidades. Andava todos os dias para trás e para a frente, Ramalde-Penafiel. Acabei por reprovar na escola primária. Nunca reprovei no ensino secundário. Mais tarde ainda fui para um Curso Profissional. Não correu bem, não percebia nada daquilo».

O curso era de que área?

«Mecânica. Não gostava mesmo nada. Depois disso passei a dedicar-me por inteiro ao futebol. A minha esposa já vivia comigo nessa altura. Estamos juntos desde os 15 anos, é uma história rara (risos). Temos agora três filhos. Apostei tudo no futebol».

Não foi uma infância fácil.

«Não, não foi. Houve um período em que andei com o meu pai a distribuir publicidade nas caixas de correio. O dia todo a pé. E depois ainda ia a pé de Ramalde ao Estádio do Mar, para treinar. Só nisso eram mais de cinco quilómetros. Das nove da manhã às seis da tarde e depois o treino…. Tudo a pé».

Entre as escolinhas do Penafiel e o Leixões ainda esteve no Boavista. Até por isso este regresso ao Bessa, em janeiro, foi marcante?

«Joguei cinco anos no Boavista e fui mandado embora por ser pequenino. Até a guarda-redes joguei. Não tinha coragem de dizer aos meus pais que não era convocado, ficava revoltado. Então passei a ir para o banco, como guarda-redes suplente. Felizmente nunca tive de entrar (risos)».

E quem era o seu ídolo de infância?

«João Vieira Pinto. Sempre ele. Até já fui colega de equipa do filho dele, o Tiago, e mal o vi disse-lhe logo: ‘o teu pai é o meu ídolo’. A história do João é parecida com a minha. Começou a viver com a primeira mulher muito cedo, foi pai muito cedo e jogou no Boavista. Depois também gostei do Nuno Gomes, mas antes o João Pinto e o Ricardo Quaresma. O Quaresma também».

Rúben Ribeiro num Gil Vicente-Benfica

Estreou-se na II Liga no Leixões. Gostou de trabalhar com o Vitor Oliveira?

«Gostei, mas os primeiros tempos não foram fáceis. Ele queria que eu fosse emprestado, porque eu vinha dos juniores e havia muita concorrência no meio-campo. Levei as mãos à cabeça. A minha mulher estava grávida, eu tinha só 19 anos… mas não lhe disse nada, porque achei que ele ia pensar que eu estava a mentir, só para ficar no Leixões. Bem, comecei a treinar e fui para defesa esquerdo. Estava muito bem e acabei por ficar no plantel. Aliás, estive várias vezes perto de ser titular na II Liga a jogar nessa posição. Fiz, por exemplo, uma grande exibição no Dragão, contra o FC Porto, num jogo amigável».

Lembra-se da sua estreia nos seniores?

«Sim, foi contra o Gil Vicente, em casa. Fui várias vezes convocado nessa época. Cresci muito no Leixões, aprendi muito com o Vitor Oliveira. Depois estreei-me com o Carlos Brito na I Liga».

O Leixões é um clube histórico, especial. Ser um jogador da casa era uma pressão-extra?

«Passei bons momentos, muitos, mas também alguns maus. Por ser da casa sentia-me injustiçado. Tinha qualidade para jogar mais vezes, mas o clube contratava jogadores de fora, caros, e dava-lhes prioridade. O ponto-chave na minha carreira foi a saída do Leixões, onde estive nove épocas, para o Penafiel. Tinha de sair para me libertar. E daí fui para o Beira-Mar, na I Liga».

O Francisco Chaló deu-lhe asas para essa liberdade em Penafiel?

«Claramente. Foi ele que me colocou a jogar definitivamente no meio-campo. É um homem que me ajudou muito. Ia-me buscar a casa para os treinos, acreditava em mim. Nunca me esquecerei disso».

É o treinador que melhor o percebeu?

«Acho que esse é o José Mota. É uma pessoa extraordinária, das melhores que conheci no futebol. É humano, bondoso, ajudou-me bastante. Estive com ele no Leixões e no Gil Vicente. Enfim, tive algumas épocas para me afirmar, recuperei a alegria de jogar no Penafiel e senti-me muito bem no Beira-Mar. O Hugo era o capitão e falava comigo, senti-me bastante confortável. Em Aveiro toda a gente gostava de mim, brincava com todos, sempre a fazer palhaçadas no balneário. Só tive uma birra com o treinador Ulisses Morais».

Porquê, o que aconteceu?

«Eu não era titular, no início, e achava que tinha qualidade para jogar. Nunca faltei ao respeito a ninguém, mas disse-lhe o que sentia. O Ulisses disse-me para esperar e quando a oportunidade surgiu… agarrei-a. Estava perto de sair e fiz dois golos ao Vitória Guimarães. Entrei na segunda parte e decidi. A partir daí foi sempre a andar».

Agarrou a titularidade?

«Sim, principalmente com a entrada do Costinha. Ele incutiu uma mentalidade excelente na equipa e só descemos porque fomos muito prejudicados pelas arbitragens. O Costinha é um excelente treinador, pôs a nossa a equipa a jogar com paciência, com gosto de ter a bola, sem medo. Ele passou essa mensagem, motivou-nos com os exemplos que teve com o José Mourinho. Gosto bastante dele, é uma referência para mim. Continuamos grandes amigos».

É ele o responsável da sua mudança para o Paços, em 2013?

«Sim, fui para lá aconselhado pelo Costinha. Adorei trabalhar com ele em Aveiro e aceitei. Mas essa ida para Paços de Ferreira foi horrível. Para ele e para mim. O grupo era muito fraco, cada um olhava para o seu umbigo, a direção estava descontrolada, perdida. Entrava qualquer vice-presidente no balneário. O Costinha viu-se aflito, claro. O único que o ajudava era o presidente Carlos Barbosa, esse sim, um grande senhor».

Por todos esses motivos só esteve na Mata Real meia época.

«Não havia qualidade. As coisas corriam mal no balneário e por isso não podiam correr bem dentro do campo. Nem na Liga dos Campeões pude jogar porque parti um dedo do pé. Só joguei na Liga Europa [cinco jogos]. Foi a pior experiência que tive no futebol. Foi horrível. Fiz amigos em todo o lado, menos em Paços de Ferreira. Não fiz um colega. Ia todos os dias desanimado para o treino, mortinho por voltar a casa».