Dois anos depois daquele desgraçado 26 de julho, Dyego Sousa é um homem de bem com a vida. E um avançado de bem com os golos. Aos 29 anos, o menino de São Luís do Maranhão ultrapassou completamente o incidente com um árbitro - que o suspendeu por nove meses - e é o melhor marcador da Liga portuguesa.

Em entrevista ao Maisfutebol, Dyego recorda os dias de angústia vividos durante esse hiato competitivo, sublinha o apoio recebido pelos colegas da altura e confessa que chegou a perder a esperança de chegar a um emblema com a dimensão do Sp. Braga.

Obrigado a alterar o comportamento, Dyego Sousa garante que nunca precisou de um divã de psicólogo. O segredo esteve no apoio familiar e «nas duras» recebidas dos pais e da esposa. 

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Dyego Sousa com Fábio Martins num jogo contra o Sporting

Maisfutebol – De onde vem o seu temperamento emocional e agressivo em campo?

Dyego Sousa – Sempre fui assim, tenho uma vontade enorme de vencer. Mesmo em casa, a brincar com a minha filha, ela sente isso (risos). ‘Papai, você não me deixa ganhar?’ E pronto, às vezes eu lá deixo a menina ganhar. No futebol não é diferente. Entrego-me totalmente e procuro sempre isso, mesmo num jogo que corra menos bem. Vontade e determinação nunca me faltarão.

MF – Não é fácil confundir essa agressividade com comportamentos menos corretos?

DS – Isso aconteceu muitas vezes comigo. Tive muitos percalços, excesso de vontade. Eu tinha de discutir com o árbitro, tinha de discutir com o treinador, tinha de discutir com colegas e adversários. Com o tempo cresci e amadureci. Não pode ser assim, aprendi isso. Tento dar tudo em campo, mas de forma civilizada e mais serena.

MF – Fez algum trabalho específico com um psicólogo ou teve outro tipo de ajuda?

DS – Levei na cabeça da minha esposa e dos meus pais (risos). Sempre que havia alguma expulsão, eles davam-me na cabeça. Parei para pensar e vi que não tinha razão. Tinha de controlar a minha ansiedade, o meu temperamento. Posso garantir que estou muito melhor. Não digo a 100 por cento, mas estou (risos). Não é fácil desligar a ficha, mas agora respiro fundo e concentro-me no que pede o mister Abel, nos objetivos do Sp. Braga.

MF – Para essa mudança do Dyego foi decisiva a suspensão de nove meses em 2016?

DS – Foi importante, sim. E já que falamos disso, gostaria de agradecer publicamente ao meu treinador da altura, o PC Gusmão. Depois do que aconteceu, pensei que o Marítimo me ia mandar embora. O técnico abraçou-me, disse que estava comigo e que as pessoas erravam. Senti esse carinho e foi determinante. Agradeço-lhe até hoje essa reação de amigo. Fiquei marcado por ele.

 

Dyego em luta com um defesa do Hoffenheim na Liga Europa

MF – Dois anos depois, o Dyego passa de uma suspensão para a liderança da lista de goleadores da Liga.

DS – Nesse momento da suspensão caiu-me a ficha. Percebi que tinha de mudar a minha forma de ser e de estar. Fiquei muito tempo no Marítimo sem poder treinar e jogar. Treinava à parte com o preparador-físico, o Jorginho, e ele pedia-me paciência e sacrifício, que tudo ia dar certo. Eu confesso que no início não era fácil acreditar nisso. Eu só via sofrimento e cansaço. Precisei desse empurrão, desse apoio. No passado sei que errei com outros técnicos, por culpa do meu temperamento. E eles desistiram de mim. O PC Gusmão, não. Com o apoio dele senti a mudança a acontecer.

MF – Nesses nove meses de suspensão, acreditava que seria possível chegar a um clube da dimensão do Sp. Braga?

DS – Na altura eu só pensava na minha família. Clubes? Quer dizer, quando eu estava a jogar, nenhum clube desta grandeza me contratou. Agora sem jogar… ainda mais difícil. Um jogador com uma suspensão tão pesada, já com 27 anos, não era fácil. Não me passava pela cabeça chegar a este nível, ao Sp. Braga. Talvez a um clube da II Liga, já era bom (risos).

MF – Como reagiu o Dyego e a família ao saberem do interesse do Sp. Braga?

DS – Recebi propostas do estrangeiro e de Portugal, mas nada em concreto. A do Sp. Braga vi que era uma coisa séria. Pedi para falar com o presidente António Salvador e adorei o que ouvi. O projeto era aliciante, mas ainda me fiz um bocadinho difícil, antes de aceitar (risos). Foi uma conversa boa, aqui em Braga. Só pedi para falar com os meus pais e a minha esposa antes de assinar, como faço sempre. Tivemos uma reunião familiar e achámos que o Sp. Braga era o clube ideal para mim. Apostaram em mim num momento difícil e eu não posso dececioná-los. A ninguém. Presidente, adeptos, colegas…

MF – Um ano depois de assinar pelo Sp. Braga está certo de que foi a opção correta?

DS – Não estou nada arrependido, foi o melhor que fiz. Nem Benfica, nem Porto, nem Sporting, fiz bem em escolher o Sp. Braga. Pouco a pouco, o clube tem crescido. Eu não sabia que o clube era tão grande, é enorme. É um dos grandes do futebol português e que merece ganhar um título em breve. A atmosfera aqui dentro é incrível, nunca vi um funcionário triste ou com má cara. Há muita alegria e isso é refletido dentro do relvado.

MF – Já marcou seis golos esta época. Vive o melhor momento da carreira?

DS – Sim, sem dúvida. Fiz um bom arranque de temporada, estou a marcar golos e a jogar. No passado sempre me lesionei bastante, com problemas musculares. Este ano está a correr tudo bem, sinto-me forte, preparado, maduro. Estou muito focado nos objetivos da equipa e acho que esta época será brilhante.

MF – Há pouco falava do PC Gusmão, agora pergunto-lhe sobre o Abel. Que tipo de treinador é ele?

DS – É um professor, adora ensinar tudo de forma detalhada. Explica as coisas de forma clara. Não convivemos muito fora do campo, mas vemos que é uma pessoa alegre, de bom trato, um homem de família. Lê bastante, tem sede de aprendizagem e é muito dedicado. Tenho aprendido bastante com o Abel Ferreira. Nem todas as cabeças são iguais e acho que ele tem sabido gerir muito bem os plantéis. Nunca tive problemas com ele, mesmo quando eu não jogava muito tempo. Sei perfeitamente que posso sair da equipa a qualquer momento, mesmo sendo o melhor marcador do campeonato. Com o Abel é assim, não há intocáveis.

MF – Quem é o melhor amigo do Dyego no balneário do Sp. Braga?

DS – Dou-me bem com todos, mas o mais próximo de mim é o Bruno Vianna. O ano passado andava muito tempo com ele e o Danilo, que saiu no verão.