Dois anos depois daquele desgraçado 26 de julho, Dyego Sousa é um homem de bem com a vida. E um avançado de bem com os golos. Aos 29 anos, o menino de São Luís do Maranhão ultrapassou completamente o incidente com um árbitro - que o suspendeu por nove meses - e é o melhor marcador da Liga portuguesa.

Em entrevista ao Maisfutebol, Dyego Sousa recua à infância no Brasil, aos dias em que ajudava o pai a vender café e que sonhava em ser Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo Fenómeno ou Denilson. 

Em Portugal há uma década e com dupla nacionalidade desde 2016, o goleador do Sp. Braga assume também a ambição de representar a Seleção Nacional. De Portugal, pois então.

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Dyego Sousa decidiu o recente Sp. Braga-Sporting

Maisfutebol – Nasceu em São Luís, no Nordeste brasileiro. Tem saudades do clima tropical da sua terra?

Dyego Sousa – Claro, muitas saudades. Sempre que posso vou lá. Os meus pais e os meus irmãos ainda vivem lá. Infelizmente não viajo muitas vezes para São Luís, porque a minha esposa e a minha filha são portuguesas e é importante estar cá também. Mas gosto de pensar em São Luís. Faz-me bem pensar na minha infância, nas minhas brincadeiras de rua.

MF – Fale-nos um pouco dessa infância. Como foi crescer em São Luís?

DS – Passei muito tempo na rua, sempre com os amigos e uma bola. Mas é importante dizer que os meus pais sempre foram fantásticos, sempre apoiaram o meu amor pelo futebol. Conciliei esse amor com a escola bastante tempo. Eu era louco pelo futebol. Acordava cedo para jogar à bola, mas para a escola era mais difícil (risos). O meu pai depois fez-me um aviso sério e eu voltei aos livros e a aplicar-me. Foi ele que me começou mais tarde a levar aos treinos de futsal, sempre de mão dada comigo. Houve uma altura em que jogava futsal pela equipa da escola, futsal pelo Moto Club e futebol por outro clube da cidade. Estava em três equipas diferentes ao mesmo tempo, veja só.

MF – Os seus pais tinham alguma ligação ao desporto?

DS – O meu pai sempre foi comerciante. Teve uma loja de calçado e depois passou a vender café. Ele tinha um camião e eu acompanhava-o. Entregávamos café em fábricas e armazéns. Adorava fazer isso nas minhas folgas da escola e dos treinos. Depois, ao final da tarde, deixávamos o camião na fábrica e voltávamos a casa de mota. Que era outra coisa que eu adorava (risos). Andar de mota com o meu pai. A minha mãe sempre trabalhou no restaurante da família. Que ainda existe, é nosso. Depois tenho dois irmãos formados em Contabilidade. Eu sou o caçula, o mais novo.

MF – O Sp. Braga já tem muitos adeptos em São Luís?

DS – Claro que sim (risos). Posso dizer que toda a gente do meu bairro acompanha o Sp. Braga. Tios, padrinhos, amigos, todos são do Sp. Braga. Na semana passada saiu uma reportagem sobre mim nos jornais de lá e a reação das pessoas foi ótima. Infelizmente no Brasil nunca tive muitas oportunidades, mas Portugal deu-me tudo. Depois de deixar de jogar, é quase certo que continuarei a viver cá.

 

Dyego Sousa a saltar sobre Buatu, defesa do Rio Ave

MF – Tem dupla nacionalidade e pode jogar por Portugal. É uma das suas ambições?

DS – É um sonho, sim. Gostaria de ajudar, de contribuir para o bem deste país. Torço, vibro pela seleção portuguesa. Sinto-me mais português do que brasileiro. Estou cá há dez anos, a minha esposa e a minha filha são portuguesas, temos a nossa vida toda cá. É um sonho representar a seleção de Portugal, mas não é fácil. Não depende só de mim. Há muita concorrência, talvez o selecionador dê prioridade a quem nasceu em Portugal. Gostava de jogar pela Seleção Nacional.

MF – Já teve alguma abordagem por parte da FPF?

DS – Não, até hoje não.

MF – O Dyego chega a Portugal aos 18 anos, para os juniores do Nacional. A sua família aprovou a mudança?

DS – Ficaram apavorados (risos). Eu saí de casa aos 15 anos, quando me mudei do Moto para o Palmeiras. Entretanto, fui dispensado do Verdão e voltei a São Luís. Numa pelada de rua, com amigos, um advogado do Nacional da Madeira viu-me jogar e abordou-me. Estivemos a falar e ele perguntou-me se eu queria jogar em Portugal. ‘Pô, quem não quer jogar em Portugal?’ Eu pensava que era brincadeira, nem passaporte tinha. Percebi que era a sério quando ele me disse que tínhamos viagem dali a quatro dias. Eu era menor, não tinha assinatura dos meus pais, bem… foi uma loucura. Os meus pais quiseram saber quem eram estas pessoas, claro, e confiaram em tudo. Não sei bem como, de repente já estava de malas feitas e com passaporte no aeroporto para viajar.

MF – E como foi esse ano nos juniores do Nacional da Madeira?

DS – Foi bom, gostei. No fim da época disseram-me que ia fazer a pré-época com os seniores, mas tive uma lesão complicada. Os dirigentes aconselharam-me a voltar ao Brasil e disseram-me que depois alguém me telefonaria para regressar. Nunca telefonaram. Mas lembro-me bem de uma coisa. Na altura despedida eu disse que um dia ainda voltaria à Madeira. E foi o que aconteceu, joguei mais tarde no Marítimo. Tenho casa lá até hoje.

MF – Voltemos por momentos a São Luís. Quem eram os ídolos do menino Dyego na década de 90?

DS – Essa é fácil (risos). Os três R’s: Ronaldo Fenómeno, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo. E também o Denilson.

MF – O Dyego tornou-se avançado por influência desses ídolos?

DS – Diria que não. Eu até gostava de ser defesa nas peladas com os amigos. O problema é que a minha equipa fazia poucos golos e tive de tomar uma atitude (risos). No primeiro teste no Palmeiras, lembro-me que o técnico mandou o grupo dos defesas para um lado e os avançados para o outro. Bem, só ficaram quatro ou cinco defesas e havia dezenas de avançados. Aí hesitei. Mas fui para o ataque e deu certo. Fiquei no Palmeiras um ano e meio.

MF – E ainda se lembra do que fez ao seu primeiro salário no futebol?

DS – Isso foi no Moto Club… fui comprar um carro, a meias com o meu irmão (risos). O meu pai só tinha mota, como já disse. Eu treinava longe de casa e então estabeleci um acordo com o meu irmão: ‘eu levo o carro para o treino de manhã e você leva o carro para a faculdade à noite’. Ficámos a pagar os dois, mas ele na altura tinha mais dinheiro do que eu e pagou quase tudo.