O F.C. Porto, dividido entre o Dragão e a viagem para a Luz, quis combater dois adversários em noventa minutos de futebol. Lá para os lados de Coimbra, assistiu à única estocada de Tello (0-1), saindo da redoma de tranquilidade proporcionada pela liderança no campeonato.

O Sporting reduz a diferença pontual, ganha vantagem no confronto directo com os dragões e mantem a invencibilidade fora de portas. Lida bem com ambientes adversos, que não o de Alvalade.

Jesualdo Ferreira falhou a 100ª vitória, a aposta em Alan e a decisão de preservar Bosingwa, mas continua a olhar de cima para baixo, no topo da Liga 2006/07. O Benfica pode, em caso de vitória, ficar na linha do horizonte portista.

E tudo Bento levou pelo flanco esquerdo. Fucile aparecia como o soldado sem nome nem companhia numa batalha desigual contra um quarteto de rebeldes que iam minando a zona de forma ininterrupta. Desfalecer lento para o uruguaio, torturado sem contemplações ao longo de uma etapa inicial em que Helton foi o único a arrancar sorrisos aos adeptos do F.C. Porto.

Yannick, Romagnoli, Tello e sobretudo Nani inclinaram o jogo para o verde, sempre com uma tendência desviante para a esquerda que redundou num enigma táctico para os dragões. Fucile surgia no caminho por força da posição, Pepe e Paulo Assunção iam-se desdobrando no apoio ao lateral, mas sempre com atrasos comprometedores, provocados por uma indefinição indisfarçável. Faltou coração ao dragão. Literalmente. Porque a luta a meio-campo redundou invariavelmente em derrota para os azuis e brancos.

Jesualdo Ferreira colocara a pressão do lado do Sporting, salientado que a vitória era um imperativo para os leões, mas não conseguiu passar a mensagem com eficácia para os seus jogadores. A equipa de Paulo Bento aceitou a responsabilidade e lidou bem com ela. Aliás, tão bem que, se alguém estivesse alheado do panorama classificativo da Liga, acreditaria estar perante uma visita do líder ao perseguidor. Do predador à presa. Quando tudo apontava para o contrário.

Flecha venenosa de «Guilherme» Tello

A inquietante passividade dos jogadores portistas levou a uma longa conversa no balneário, ao intervalo. Tornava-se urgente apagar a imagem da deslocação ao Estádio da Luz do subconsciente azul e branco. Não parecendo fundamental, para a equipa da casa, olhar tão cegamente para a baliza contrária como o Sporting, era fundamental reequilibrar a disponibilidade mental e física para mais quarenta e cinco minutos de futebol.

O carrossel de Paulo Bento trabalhou com menos intensidade na etapa complementar, porque os dragões criaram a breve ilusão do regresso à normalidade. Mas, entre os cerca de cinquenta mil espectadores, uma larga maioria respondia com manifestações de temor a cada gesto de incompreensível nervosismo no rectângulo de jogo. O F.C. Porto crescia para a frente, mas Ricardo acabaria por passar uma das noites mais tranquilas no historial de encontros com os dragões.

Alguém ficou surpreendido com o golo de Tello? Com a flecha venenosa que partiu da besta disparada por «Guilherme» Tello? Ao minuto 71, o Sporting regressou de corpo e alma, com propriedade, à disputa do ceptro nacional. Porque teve atitude. Porque teve classe. Porque resistiu à pressão dos grandes momentos e superou-se continuamente, frente ao um F.C. Porto progressivamente ofensivo mas nada acutilante. Enfim, tudo se resume à transcendência do espírito de sobrevivência.

Pedro Henriques realizou um bom trabalho, com critério largo, como é seu timbre. Impressionante a forma como terminou o jogo com Pepe a rodar no chão, reclamando entrada faltosa de Polga. À vista desarmada, decisão acertada no juiz da partida.