Já lá vão mais de trinta anos, mas é impossível esquecer os dias, no final da década de oitenta, em que os meninos Xabi e Mikel desciam a Calle Matia, ali ao lado do Passeio Marítimo de San Sebastian, para irem jogar para a Playa de la Concha.

Eram vizinhos na cidade basca e só tinham de caminhar alguns metros para chegar à areia, onde se juntavam ao grupo de amigos que mantêm desde a infância.

Raramente ficavam do mesmo lado. Dizem que eram sempre os primeiros a ser escolhidos e em equipas opostas do mesmo jogo. O que viria a ser premonitório.

Depois, e durante horas, jogavam, jogavam e jogavam. Como duas crianças felizes. Foi ali, naquelas areias, que estimularam a paixão pelo futebol.

«Somos amigos desde Calle Matia. Jogámos na mesma equipa juvenil, partilhámos o mesmo círculo de amigos e avançámos juntos nas seleções nacionais jovens.»

Hoje, quem olha para Xabi Alonso e Mikel Arteta não pode deixar de notar que há ali uma matriz semelhante. Ambos são muito cerebrais e cavalheiros, aparentemente tranquilos, embora explosivos em certos momentos, intelectuais, corretos e fortemente determinados.

Nasceram com quatro meses de diferença e, embora Xabi Alonso tenha vivido até aos seis anos em Barcelona, onde o pai jogava futebol, reencontraram-se na rua que conduz à praia de San Sebastian. Cresceram juntos, viveram as mesmas experiências, forjaram o mesmo carácter.

Foram juntos para o Antiguoko KE, um pequeno clube de San Sebastián, que funcionava exclusivamente na formação de jovens jogadores.

Era uma espécie de satélite da Real Sociedad.

Continuaram a jogar e a crescer juntos, até que Arteta saiu ainda juvenil para o Barcelona: Xabi Alonso ficou mais um ano e saiu já júnior para a Real Sociedad.

Nunca mais se juntaram.

«É estranho. Pensei que finalmente íamos jogar juntos quando me mudei para a Real Sociedad, após sair do Rangers, em 2004, mas uns dias depois o Xabi foi transferido para o Liverpool.»

O destino foi tão espirituoso que até voltaram a ser vizinhos, vivendo lado a lado em Liverpool. Mas Arteta representava o Everton e Xabi Alonso jogava pelo Liverpool.

«É engraçado pensar que fomos vizinhos, partilhando uma rivalidade tão grande», contou Mikel Arteta ao The Guardian.

«A seguir a um dérbi ele foi bater à minha porta e perguntou-me porque é que estava tão triste. Disse-lhe que não gosto de perder, principalmente contra ele. Ele conhece-me bem e conhece o meu carácter. Tentou acalmar-me, mas sabe que eu não suporto as derrotas.»

Hoje o caminho dos dois bascos volta a cruzar-se: ambos são treinadores e orientam grandes clubes europeus. Arteta lidera o Arsenal, Xabi Alonso treina o Bayer Leverkusen. Que esta noite recebe o FC Porto, na Bayer Arena, naquele que será o segundo jogo do basco no banco.

Na estreia como treinador do Bayer, que foi também a estreia numa primeira divisão, Xabi Alonso entrou com o pé direito: uma goleada por 4-0 sobre o Schalke 04. Antes disso tinha apenas um ano a orientar os infantis do Real Madrid, onde foi campeão, o que não representa uma grande conquista, e três épocas na Real Sociedad B, com, aí sim, outro grande feito pelo caminho: pela primeira vez em 60 anos a equipa subiu à II Liga Espanhola.

GUARDIOLA: «Para seres um médio de contenção excecional tens de entender o jogo»

O que só vem corroborar as expetativas de quem antevê um grande sucesso ao espanhol. Um pouco como acontecia há uns anos com Mikel Arteta, aliás.

«Quando ele quiser, será treinador. E dos bons», disse Pep Guardiola sobre Xabi Alonso.

«Entende o jogo, tem curiosidade por conhecer os detalhes que o podem decidir e sabe o que tem que fazer para ganhar. Adoro trabalhar com esse tipo de pessoas, que não vem apenas fazer o que lhe pedem, mas que se envolvem com o jogo. Foi um médio de contenção excecional e para seres um médio de contenção excecional tens de entender o jogo. Ele tem uma leitura fantástica. Além disso é uma pessoa encantadora.»

Guardiola sabia do que falava. Ele tinha sido o último treinador de Xabi Alonso, antes do basco pendurar as chuteiras e começar uma carreira nos bancos.

Curiosamente, o último passo de Mikel Arteta antes de iniciar uma carreira de treinador principal também foi ao lado de Guardiola: como adjunto do catalão, no Man. City.

«Ele foi um jogador incrível. Como médio de contenção tinha uma visão global de tudo o que se passava no relvado. Quando és avançado, por exemplo, só pensas em golos e quando és guarda-redes só pensas em salvá-los. Mas ser médio de contenção é uma lição fantástica que tens durante a carreira de jogador. Não precisas de ir à escola», disse Guardiola sobre Arteta.

«Alguns meses após começarmos a trabalhar juntos disse-lhe que iria ser treinador principal um dia. E ele já é um treinador principal: comporta-se como um treinador principal.»

Guardiola também foi um médio de contenção e via seguramente um bocadinho dele em Xabi Alonso ou Mikel Arteta. É incontornável: os três foram médios com grande visão de jogo e boa capacidade de passe, jogadores intelectuais, que entendiam o jogo e lideravam a equipa.

Houve aliás um episódio na carreira de Xabi Alonso que foi sintomático: quando chegou ao Real Madrid, Cristiano Ronaldo era o batedor dos penáltis e preparava-se para marcar mais um, frente ao Villarreal, quando Alonso lhe pediu a bola. Ronaldo disse se sentia bem e queria ser o melhor marcador. «Sim, mas deixa-me bater este.»

O português não evitou uma cara de chateado.

Enquanto isso, as bancadas gritavam por Raul. O símbolo do madridismo tinha entrado pouco antes em campo e os adeptos ansiavam por celebrar um golo dele. Indiferente a isso, Xabi Alonso bateu o penálti e fez golo. O árbitro mandou repetir e as bancadas voltaram a pedir Raul. Alonso voltou a ficar indiferente e a fazer golo. Deixando uma mensagem clara para a equipa, para o clube e para as bancadas: havia uma nova hierarquia de liderança.

«Xabi irradia uma autoridade natural, teve treinadores fantásticos, fala várias línguas e tem una personalidade extraordinária. Como jogador, era um general dentro de campo, que todos os companheiros seguiam», disse Karl-Heinz Rummenigge quando o espanhol saiu.

«Gostava que um dia voltasse ao Bayern Munique.»

JOHN TOSHACK: «Xabi Alonso era lento com os pés, mas rápido com a cabeça»

Todos estes elogios não surpreendem John Toshack. O mítico treinador galês, hoje com 73 anos, atende o Maisfutebol enquanto conduz, está de viagem e marca uma conversa mais longa para outro dia. Mas com o telemóvel em voz alta não deixa de responder a algumas perguntas sobre Xabi Alonso. Afinal de contas foi ele quem, em 2001, lançou o miúdo na Real Sociedad.

«Coloquei o Xabi Alonso a jogar na primeira equipa quando ele era muito jovem. Via-o treinar com os miúdos da equipa B e ele tinha uma visão de jogo e uma precisão de passe fantásticas. Pensei logo que queria vê-lo entre os grandes. Ele era lento com os pés, mas era rápido com a cabeça. Via as coisas antes dos outros e isso é o fundamental no futebol», começa por dizer.

«Ele era um menino, tinha 19 anos, mas já se evidenciava. Era aquele tipo de jogador que entendia o jogo e mexia com ele. Era capaz de mudar tudo com um passe de trinta metros.»

John Toshack conhece bem a família, sobretudo o pai de Xabi Alonso, Periko Alonso, um antigo internacional espanhol que jogou o Mundial 82 e que mais tarde fez carreira como treinador: inclusivamente na Real Sociedad.

«O pai dele foi também um grande jogador e isso deve tê-lo ajudado, porque falavam muito de futebol em casa. O irmão também foi jogador e agora é treinador, o outro irmão foi árbitro. A verdade é que a família falava de futebol o dia todo. A vida dele era o futebol.»

O galês, que treinou clubes como o Real Madrid, o Sporting, o Corunha ou o St. Étienne, é amigo do pai, conhece o filho e não se surpreende quando o rumo que a vida dele tomou.

«Pela posição em que jogou em campo e que lhe deu um grande conhecimento do jogo, pela forma de ser e pelo gosto que tinha em estudar o futebol, não fico admirado que ele hoje seja o treinador de um grande clube como o Bayer Leverkusen. Havia sinais que já lá estavam.»

John Toshack treinou, de resto, durante nove épocas a Real Sociedad, mas quis o destino que nunca se tivesse cruzado com Mikel Arteta. O que não quer dizer que não conheça bem esta espécie de alma-gémea de Xabi Alonso.

«O avô dele é meu vizinho em San Sebastian e ele sempre andou muito aqui. Segui sempre a carreira dele com curiosidade. Para mim o Xabi tinha mais visão de jogo. Ele sabia tudo de futebol e era uma maravilha ver como entendia o jogo. Mas os dois sem dúvida nenhuma tinham pontos em comum. Sobretudo na maneira de ser, na forma como queriam saber mais.»

Não deixa de ser curioso que, quando tinha 16 anos, por exemplo, Xabi Alonso tenha viajado para Kells, na Irlanda, para aprender inglês. O basco aproveitou as férias do verão, inscreveu-se num programa e foi recebido pela família O’Brien: os pais, dois filhos e duas filhas.

«Fui só para aprender inglês e acabou por ser um verão muito agradável. Vi muito futebol gaélico, mas nunca joguei. É muito rápido e eu não estava pronto. Mas joguei o nosso futebol, que lá é muito mais físico. Foi o primeiro contacto que tive com o estilo de jogar britânico.»

Xabi Alonso confessou até ao Mirror que durante esse mês reforçou a equipa da cidade, venceu o torneio All Ireland Junior e regressou a casa com mais uma medalha.

É este homem com sede de conhecimento, carácter forte e espírito de liderança que agora se lança numa carreira de treinador ao mais alto nível. Descende de uma nova linhagem de treinadores espanhóis, que foi beber os fundamentos a Pep Guardiola e quer conquistar a lua. Tal como o amigo Mikel Arteta, com quem aprendeu a jogar nas areias da Playa de la Concha

Esta quarta-feira apresenta-se ao mundo, frente ao FC Porto, na Liga dos Campeões.

Vai valer a pena ver.