Era uma vez o FC Porto...

A história pode muito bem começar a ser contada assim, pois tem todos os ingredientes de um conto de fadas. Pequenos e grandes, choques, privações, paixão em forma de bola, volte-faces e reuniões, lutas e afirmações.

A história do FC Porto tem mais de um século, mas a história do FC Porto moderno tem data específica. A 27 de maio de 1987 o azul ficou mais vivo que nunca e a Europa conheceu, de vez, a chama do dragão. Completam-se este sábado 30 anos da primeira conquista europeia do FC Porto, numa altura em que, em Portugal, ser campeão europeu oscilava entre a utopia e a memória a preto e branco do Benfica de Eusébio e companhia.

O Estádio do Prater, em Viena, ficou para a história do FC Porto, do futebol português e europeu. Nasceu o calcanhar de Madjer, o mundo descobriu o génio de Paulo Futre e Juary tornou-se o primeiro brasileiro a marcar numa final da Taça dos Campeões Europeus.

«Ainda no domingo estava com o meu neto e ele surpreendeu-me: ‘avô, é verdade que você foi o primeiro brasileiro a marcar numa final da Taça dos Campeões Europeus’? Lá lhe disse que achava que não, que o primeiro tinha sido o Altafini [nasceu no Brasil mas tinha nacionalidade italiana], mas que eu teria sido o segundo. ‘Ah, muito bem avô’, respondeu-me. São essas coisas que ninguém me tira, ficam para sempre», conta-nos o próprio Juary.

Quando o telefone toca, do lado de lá do Atlântico, onde o herói portista é hoje treinador nas camadas jovens do Santos, a simpatia desarmante convive com a modéstia. «Era obrigatório falar comigo porquê? Fico muito contente por se terem lembrado de mim», atira.

Juary recorda a final de Viena:

Juary desempenhou papel revelante nesta história, claro está. O Maisfutebol, em conjunto com a TVI, falou também com vários outros protagonistas da aventura portista de há 30 anos. João Pinto, Paulo Futre, André, Jaime Magalhães, Frasco, Eduardo Luís e Fernando Gomes, o grande ausente da final. Com eles, mergulhou em histórias que vão dos Arcos, o improvisado estádio onde a caminhada começou, até Viena, passando pelos gélidos palcos da antiga Checoslováquia e da Dinamarca, até aterrar em Kiev, sem esquecer as noites de euforia nas Antas.

Passados 30 anos, a opinião é unânime: aquela final foi o jogo de uma vida.

«Recordo com saudade, mas acima de tudo com sentimento de dever cumprido. Foi um longo caminho que o FC Porto percorreu para ombrear não só com os clubes a nível nacional mas também nas competições europeias. Antes, o FC Porto ia às provas europeias e caía na primeira ou segunda eliminatória. Depois passou-se a pensar mais a nível europeu», afirma João Pinto, o capitão que não largava a Taça no final.

António André, titular no meio campo portista naquela noite e em muitas outras, fala da vontade de ganhar do grupo. O que lhe agradava sobremaneira: «Eu comecei no Varzim, queria ser mais, vim para o FC Porto. E no FC Porto também queria ser mais. E aqui ser mais era ser campeão europeu ou de tudo em que o clube estivesse. Vim com uma vontade enorme de ganhar e tive a sorte de encontrar uma equipa muito forte. Passados 30 anos sinto-me orgulhoso, vaidoso, realizado a nível futebolístico»

E diz mais, até, em jeito de brincadeira: «Se não fosse este título não dava centenas de entrevistas como dei até hoje. Nem estava a dar esta. O sucesso de ser campeão europeu é fora do normal.»

Primeira página de «O Comércio do Porto» de 28 de maio de 1987

«Só hoje temos a verdadeira noção do que aconteceu»

Juary, como se disse, é o que vive mais distante da realidade do FC Porto, entre aqueles com quem conversamos. O treinador dos sub-13 do Santos conta que os seus pupilos desconhecem a marca que deixou na Europa: «Os meninos aqui não sabem o que eu fiz no FC Porto e na Europa. Nós de vez em quando é que temos de contar. No Brasil o futebol renova-se muito rápido, é diferente, na Europa há mais recordação.»

«Essa vitória do FC Porto foi algo que ficou na história do clube, de Portugal, da Europa e do Mundo. É verdade que o FC Porto, com José Mourinho, voltou a vencer o troféu europeu mas foi nesse dia, há trinta anos, que o FC Porto começou a ser reconhecido em todo o mundo», acrescenta.

Fernando Gomes, o goleador da equipa que falhou a final de Viena por lesão, concorda com a ideia e acrescenta um dado extra: a forma como o grupo lidou com o êxito.

«Se calhar só hoje temos a verdadeira noção do que aconteceu na época. Na altura vencemos e estávamos a pensar vencer outras coisas. Não nos damos conta da importância que teve a vitória na história do FC Porto e do futebol português. O FC Porto não tinha nenhuma conquista internacional, estava a querer aparecer e esse foi o momento que transformou a vida do clube», explica.

Para todos, contudo, havia a certeza da realização de um sonho. António Frasco, que começou a desenhar a jogada do famoso calcanhar de Madjer, ilustra o sentimento: «Em miúdo colecionava as figurinhas dos jogadores e via lá os campeões europeus. Nunca na minha vida me passou pela cabeça, nessa altura, que também eu ia estar numa final e conquistá-la.»

Reportagem da RTP que mostra os bastidores da final:

«Nunca mais vi o jogo. Talvez quando for velhinho»

Trinta anos depois, as memórias estão muito vivas, ainda. Talvez porque seja um filme com presença constante nos ecrãs lá de casa, não? A verdade, porém, é que há respostas para todos os gostos.

Eduardo Luís, por exemplo, gosta de o recordar. «De vez em quando vem alguém lá a casa que nunca viu e aproveito para mostrar», conta. Jaime Magalhães viu «uma ou duas vezes». «Poucas. Gosto de dizer que ganhei. Não é fácil. Mas ninguém ma tira», brinca.

Juary também não vive das memórias: «Tenho as imagens do jogo na cabeça, lembro-me de quase tudo, mas não costumo rever o jogo. É passado, foi uma página muito bonita mas tenho de seguir em frente, não posso viver apenas disso.»

António Frasco diz mesmo que nunca viu o filme daquela noite. «É capaz de não acreditar mas vejo umas imagens de vez em quando apenas. Nunca vi o jogo todo. Quando for um bocadinho mais velhinho vou tirar essa saudade», atira entre risos.

Heróis conscientes, mas pouco dados a nostalgias. Apenas em conversas de amigos. «Felizmente, estamos cá para recordar. Estamos todos vivos, menos um, o nosso amigo Zé Beto», recorda Jaime Magalhães, referindo-se ao guarda-redes portista, suplente de Mlynarczyk em Viena, que faleceu em 1990, a poucos dias de fazer 30 anos, vítima de um acidente de viação.

Dura realidade. O choque amargo que, ainda assim, dá o sabor certo à noite do Prater. Foi real e não sonho. Ou, como remata Frasco, foi «um sonho real».

São os melhores, de facto.

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