«Dúvida? Não. Mas luz, realidade.
E sonho que, na luta, amadurece…»
Bem pode o momento atual do FC Porto ter como mote o poema «Aleluia», de Pedro Homem de Mello, cujo painel de azulejos foi arrancado das paredes do antigo Estádio das Antas para estar agora exibido no atual Museu do Dragão.
Quis a história deste campeonato que o FC Porto passasse uma volta inteira a convencer os mais empedernidos céticos para agora ter de passar outra volta a ultrapassar cada fase de dúvida.
Ainda longe do ponto final na Liga, o FC Porto passava por um momento de reticências… que à entrada para o duelo desta noite eram sustentadas por três vitórias pela margem mínima seguidas de um empate, com quatro exibições menos convincentes.
Seria Farioli assombrado pelo fantasma da temporada passada? Será que o FC Porto vai perder fôlego na corrida pelo título?
Esta noite, mesmo sem ser categórico, o FC Porto sofreu a espaços, mas acabou por vencer de forma convincente, mantendo os seus rivais a uma margem de segurança – 7 para o Sporting, 10 para o Benfica.
Caiu de pé no Dragão Gil Vicente, equipa sensação da Liga.
Dúvidas? Cada vez menos
Antes da batalha em si, as armas de cada um.
Farioli apostou em Froholdt, recuperado, e em três novidades em relação ao jogo de Plzen, para a Liga Europa, da passada quinta-feira. Thiago Silva, Gabri Veiga e Pepê relegaram para o banco Alberto Costa, Rodrigo Mora e William Gomes. Aliás, Thiago fez dupla com Bednarek e Kiwior voltou à lateral esquerda, repetindo a fórmula do jogo da Taça frente ao Benfica.
Já César Peixoto manteve o onze que na semana passada havia vencido o Nacional e o Gil Vicente surgiu no relvado cheio de personalidade.
O FC Porto via-se com dificuldades em construir a partir dos centrais, sobretudo de Bednarek, trocando a bola quase junto à sua baliza para chamar o adversário. Já os barcelenses chegaram mesmo a estar por cima por um quarto de hora na primeira parte (entre os 10 e os 25 minutos).
Até que apareceu Samu.
O cada vez mais aprimorado trabalho de pivot do internacional espanhol quase deu frutos aos 33m, quando com um toque desequilibrou o meio-campo gilista e lançou o compatriota Gabri Veiga, que galgou metros até entrar na área e falhar na cara de Dani Figueira.
Haveria Samu de ser decisivo por si só, logo a seguir, ao sofrer penálti num lance de canto em que é agarrado por Murilo.
Numa prova de personalidade, Samu esqueceu os penáltis falhados nos últimos dois jogos, e as lágrimas no final do jogo de quinta-feira, assumiu a responsabilidade de marcar e disparou para o fundo das redes, fazendo evaporar a tensão que pairava sobre o Dragão.
O golo só estabilizou por momentos a equipa de Farioli, que ainda tremeu após uma bomba de Gustavo Varela (66m) e de um remate aos ferros do talentoso Luís Esteves na conversão de um livre frontal (68m).
Depois deste duplo aviso, o Gil sucumbiu com a expulsão de Martín Fernández, que entrou em campo e segundos depois acertou em cheio em Thiago Silva, vendo o cartão vermelho direto.
Em vantagem no marcador e em campo, os 34 273 adeptos que enfrentaram o temporal de segunda à noite no Dragão finalmente suspiraram de alívio.
Ainda mais quando aos 75m Martim Fernandes disparou rasteiro e cruzado para fazer o 2-0. Tudo isto antes de William cavalgar sobre a esquerda e fazer o terceiro, aos 86m.
Há dúvidas? Cada vez menos.
«Não há derrotas quando é firme o passo»
«Não há derrotas quando é firme o passo.
Ninguém fale em perder. Ninguém recua...»
No FC Porto ninguém dá nada por garantido. Equipa e adeptos têm os pés no chão. É assim nesta época, como foi noutras.
Talvez pela história repleta de conquistas ou até por traumas recentes. Talvez seja uma característica intrínseca à própria região, a gente que cultiva o valor do trabalho e a seriedade de cada tarefa.
Por isso, há reticências a cada jogo e ninguém dá por garantido um ponto final, mesmo num campeonato em que a equipa acaba de bater o recorde de 18 vitórias em 19 jornadas, perdendo apenas dois pontos.
Mesmo morando aqui a melhor defesa das ligas europeias, com apenas quatro golos sofridos. E com melhor primeira volta da história de um clube repleto de conquistas. Mesmo com 20 jogos sem sofrer golos, em 31 disputados no total.
Nenhum desses argumentos deixa os dragões com pose sobranceira.
Aqui trabalha-se. De preferência, falando pouco.
E há uma certa poesia nisso tudo.
E um pretexto para voltar a «Aleluia», de Pedro Homem de Mello, poeta nascido em Cedofeita, no coração do Porto – tal como Pinto da Costa.
«E azul e branca essa bandeira avança.
Azul, branca, indomável, imortal.
Como não pôr no Porto uma esperança,
Se “daqui houve nome Portugal”?»