2h30 de domingo, 3 de maio de 2026. Os novíssimos campeões nacionais saltam, acenam e dançam no regresso ao Dragão. Ao som de “Porto Sentido”, de Rui Veloso, milhares de adeptos dispersam em romaria, depois de horas de festa rija na Alameda e no estádio. A madrugada contou com centenas de bandeiras, pirotecnia “non-stop” e um mar de gente pintado de azul e branco, com pormenores a laranja, rosa e amarelo, numa paleta de ídolos e mal-amados, conquistas e desaventuras. Mas há um nome acima dos demais: Jorge Costa.

Muito antes de Francesco Farioli dedicar o 31.º campeonato conquistado pelos portistas ao “Bicho”, centenas de adeptos ostentaram camisolas em homenagem ao antigo capitão. Recuemos, então, à tarde de sábado.

«Vamos dar o título ao Jorge Costa»

A quatro horas do pontapé de saída (16h30), a festa era já rija. Uma carrinha de caixa aberta a antecipar o 31.º campeonato, fogo de artifício, cânticos de celebração, camisolas alusivas à Liga 2025/26, fantasmas do Ajax, uma despedida de solteiro, grupos de polacos, estudantes universitários trajados… Há de tudo!

Aparentemente alheio a tudo isso caminha Rodrigo Martins, adepto residente em Lisboa que aproveitou o feriado de 1 de maio para visitar a família. Enverga uma camisola de Jorge Costa e conta ao Maisfutebol que a comprou há mais de 20 anos, tal a admiração pelo “Bicho”.

«O Jorge Costa era o meu número 2. Junto com o Vítor Baía foram os capitães que mais me marcaram. Acredito que vamos dar este título ao Jorge Costa e ao presidente Pinto da Costa. O último ano foi de transição. Custou muito. Sofremos muito. Mais do que conquistar o título, o FC Porto está de regresso a um caminho de vitórias, num projeto renovado, que era necessário.»

«Sinto a massa adepta reconciliada com o clube, de cabeça limpa», começa por argumentar. Em todo o caso, lamenta a saída da Liga Europa e da Taça de Portugal. Quanto à camisola de Jorge Costa, este adepto de 40 anos não se recorda do momento exato da compra. Terá acontecido entre 2003 e 2004.

«Em 2003 tive a felicidade de estar em Sevilha, na final da Taça UEFA. E em Gelsenkirchen, em 2004, na final da Champions. Estava a entrar na faculdade nesses anos, foi uma fase inesquecível», remata.

Junto às roulottes, não só as bifanas e os cachorros têm boa saída. Há quem procure um novo cachecol, uma bandeira ou uma camisola para assinalar o 31.º campeonato. Atrás de uma bancada, sem mãos a medir, está a «patroa» Ilda, admiradora de Fernando Gomes. Garante que nenhum outro jogador a encantou como o “Bibota”.

De olho na madrugada que se aproxima, potencialmente a noite mais lucrativa da época, Ilda anseia uma noite tão bonita quanto a festa em 2003, depois da conquista em Sevilha.

Por perto passeiam vários grupos de polacos, facilmente identificados pela bandeira que envergam com orgulho. Ainda que o inglês não seja a praia da maioria, a boa disposição faz a ponte. Nas voltas da Alameda, o Maisfutebol cruza caminho com quatro polacos residentes em Paris, que conseguiram bilhetes depois de «muito esforço e stress no site do FC Porto». Estão na Invicta pela primeira vez e esperam uma noite sem igual.

Entusiasmados pela época dos compatriotas, o quarteto descreve Bednarek como «capitão», Kiwior como «símbolo da experiência» e Pietuszewski como a grande promessa polaca. E, sem demoras, revelam uma surpresa com sabor a casa. Afinal, este quarteto também sabe o que é viver longe da Polónia.

A enchente cresce, os petardos multiplicam-se e aumenta o entusiasmo para a chegada do autocarro. Na multidão segue Armando Santos com a família. Distingue-se pela camisola laranja e pelo nome “Bicho” nas costas. Estica prontamente o braço à nossa reportagem e agradece a André Villas-Boas por «acertar no treinador, depois de falhar em dois».

«A estrela é o coletivo. Foi o recuperar da nossa mística. O Jorge Costa vai estar logo na festa. E nunca duvidei de que seríamos campeões», atira. Sobre o modelo que enverga, Armando esclarece que o comprou após a morte de Jorge Costa.

Para lá da agitação aquando da chegada do autocarro, as bancadas preencheram-se rapidamente, com milhares a permanecerem na Alameda. Não conseguiram bilhete, mas quiseram ter voz na festa. De cântico em cântico, de estouro em estouro, o golo solitário de Bednarek na receção ao Alverca foi suficiente para soltar a euforia. De vez! O jogo passou, em definitivo, para segundo plano.

Do relvado ao coreto

A festa “oficial” do título começou em pleno Dragão, com uma cautelosa gestão de tempo para ser montado um perímetro de segurança e um palco no coreto da Alameda. A maioria não arredou pé, descartou o sono e resistiu para lá da 1h30 de domingo.

Entre cânticos, bicadas aos rivais e mais pirotecnia, o ponto final foi colocado pelo “Porto Sentido” de Rui Veloso. Ponto final na Alameda, pois dezenas de adeptos continuaram a festejar noutros pontos da Invicta. Na viagem de regresso, as buzinas e os cânticos continuavam a ecoar, com camisolas e cachecóis avistados à distância.

A 2 de maio de 2026, muitos lembraram o legado do “2”, Jorge Costa. Por certo estará feliz e orgulhoso pelo projeto que também ajudou a delinear. O primeiro capítulo desta festa do FC Porto fez-se de memória, nostalgia e presente.

As celebrações seguem dentro de duas semanas, nos Aliados. E prometem.