Estranhos dias vive Jackson Martinez. Tudo é sucesso, tudo é felicidade, tudo é perfeição. Estranhos dias, sim. Estranhos pela radical oposição à humildade, aviltante, dos primeiros anos em Quibdó.

Oriundo de uma família modesta, sujeita a privações assustadoras, Jackson alimentava-se de sonhos e ilusão. Como qualquer outro menino, afinal. Fugia de casa e corria para a terra enlameada do Bairro Enciso. Jogava com bolas de papel amassadas e sempre descalço.

Uma vez por ano, o mítico Francisco Maturana organizava um torneio na zona: Los Maturanitas. Jackson não falhava um. É provável que fosse o mais magro e o mais sujo. Nada que o atormentasse. A idade propiciava o dom da imortalidade e a eloquência do heroísmo.

O mundo de Jackson: a fome e os atrasos envergonhados

O mundo de Jackson: a provocação de Asprilla e a NBA

Ninguém o tomava por Cha cha cha ainda. A alcunha, certeira, surgiria anos mais tarde, já depois de jogar no Deportivo Enciso e no Coopebombas. Por culpa do pai, Orlando, um ex-futebolista.

É o progenitor, na primeira pessoa, a explicar ao Maisfutebol a origem do cognome.

«Eu jogava no Cóndor de Bogotá (Primeira B) e até tive convites do Santa Fé. Estava na moda um mambo chamado Cha Cha Cha e eu celebrava os meus golos a bailar esse ritmo. Quando o Jackson começou a marcar, os adeptos lembravam que ele era o filho do Orlando Cha Cha Cha. Ficou até hoje.»

Ficou a alcunha e ficaram os golos. Don Orlando fala «orgulhoso» desde Quibdó, noroeste colombiano. «A família reúne-se sempre que o Jackson joga. No final falámos sempre. Depois do golo marcado ao Sporting ele estava doido. Estávamos os dois, aliás».

Pontapear bonecos para ninguém dormir

Da criança «fraquinha e submissa» que andava lá por casa, já pouco resta. Orlando Martinez está estupefacto com a transformação física do filho.

«Tem tudo a ver com superação. Lembro-me das noites em que eu queria dormir e ele andava a pontapear bonecos. A casa pequena e ouvia tudo. Éramos pobres e não havia uma bola boa», recorda o pai do goleador azul e branco.

Não havia dinheiro mas, garante Orlando Martinez, havia educação. «Foi o compromisso que fiz com ele: não podia abandonar a escola. Completou o secundário e só depois se mudou para Medellín. A vida dele mudou radicalmente».

No Coopebombas a sonhar com a Champions

Jackson chegaria à grande metrópole em 2004. Não antes de jogar no Deportivo Coopebombas, um clube pertencente a uma cooperativa de táxis. Foi aí que conheceu o amigo e representante Gustavo Gallo. Foi aí também que passou a sonhar com a Liga dos Campeões.

«Apareceu numa captação. Eu fundei o clube e observava os treinos. Vi aquele moreninho a fintar toda a gente e pensei que estava a ver um milagre», conta o antigo treinador de Jackson ao nosso jornal.

«Uns meses depois prometi-lhe que um dia o veria a jogar a Champions. Aí está ele. Nessa altura era mais nervoso em campo. Levava porrada, reagia e era expulso. Está muito mais sereno».

Entre os colegas, Jackson passou a ser conhecido por El Mudo.

«Tinha 15 anos e não dizia uma palavra. Só se fosse obrigado. Acatava tudo, percebi que ia ser um grande profissional. Não me enganei. Ficámos grandes amigos e sou eu que lhe tomo conta de casa aqui na Colômbia».